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Previsto para durar um mês, o Circo Voador festeja 30 anos como um dos palcos mais importantes do País

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Uma centelha iluminou o monótono verão carioca do ano de 1982, ainda sob as amarras da Ditadura Militar, irradiando atores, músicos, poetas, jovens artistas, que no dia 15 daquele mês armaram um picadeiro em plena praia do Arpoador. Na lona, improvisada em plena Zona Sul do Rio de Janeiro, aterrissou uma das experiências mais longevas e importantes das artes daquela década e das que a sucederam: o Circo Voador.

Afixado hoje em frente aos Arcos do boêmio bairro da Lapa, o Circo aglutina apresentações de grandes nomes das artes, brasileira e internacional, mantendo ainda sua principal característica: a de ser uma casa inovadora e que abre espaço sistematicamente às novas gerações das artes.

As comemorações pelos 30 anos devem durar o ano inteiro e já preveem o lançamento de um documentário e uma exposição de fotos. Abrindo o verão 2012, a casa já recebeu Mart´nália, Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci, Orquestra Brasileira de Música Jamaicana e tem agendado o violinista francês Nicolas Krassik, que toca amanhã um forró instrumental ao lado da banda "Cordestinos", Teresa Cristina interpretando canções de Roberto Carlos com o grupo "Os Outros", dia 20, e ainda shows da roqueira Rita Lee, dia 21, que sobe ao palco do Circo pela primeira vez; além de "The Rapture" e Lobão, dias 27 e 28.


Marcado por seu espírito subversivo e questionador, o Circo Voador foi palco de grandes renovações da arte brasileira, em especial da música, que viu ali o celeiro de toda a geração do rock brasileiro nos anos 1980. Na tenda, surgiram para o grande público bandas como "Barão Vermelho", que tinha Cazuza ainda nos vocais, destilando toda sua irreverência; "Kid Abelha", "Capital Inicial", os brasilienses do "Paralamas do Sucesso" e da "Legião Urbana", que tocou no Circo com Renato Russo ainda tocando baixo; a Blitz, que tinha Evandro Mesquita nos vocais e ainda Lobão na bateria e Fernanda Abreu no backing vocal.

Além deles, passaram várias gerações. Caetano Veloso se apresentou no Circo quando a tenda era apenas uma inquieta experiência improvisada no Arpoador, tendo protagonizado com Chico Buarque, Gilberto Gil, Fernanda Montenegro e Elba Ramalho o show "Musical dos Musicais de Teatro", em março de 1982.

Por lá, passaram ainda Geraldo Azevedo, Raul Seixas, Erasmo Carlos, artistas mais antigos como Ivone Lara, Luiz Gonzaga, Adoniran Barbosa, Raul de Barros, Altamiro Carrilho e Ângela Maria. Foi no Circo também que novas revoluções da música dos anos 1990 se fizeram ecoar, como "Chico Science e Nação Zumbi", que fez lá o seu primeiro show no Rio, e ainda "O Rappa" e "Planet Hemp".

A primeira montagem do Circo Voador, em 1982, foi idealizada pelos atores oriundos do "Asdrúbal Trouxe o Trombone", grupo teatral surgido em meados da década de 1970, que se desdobrava em diversos outros, reavivando a cena carioca.

Entre eles, estavam Perfeito Fortuna, o mentor da ideia, Regina Cazé, Evandro Mesquita, Luis Fernando Guimarães, Ivo Setta, Hamilton Bastos Pereira e ainda dois amigos de Perfeito, Maurício Sette e Márcio Galvão, que assumiram a primeira administração da casa.


A ideia inicial aproveitava os moldes dos circos interioranos que eram ainda comuns nas cidades nordestinas e atraiam a atenção de todos por onde passavam. Sedentos por espaço para se mostrarem, os jovens artistas visualizaram aí uma maneira de causar um frisson na Capital. Após algumas tentativas sem sucesso de conseguir com a Prefeitura um espaço para erguer a lona, o grupo recebeu a providencial ajuda da primeira dama, Zoé de Chagas Freitas, que interveio junto ao então prefeito, Júlio Coutinho, para que cedesse o terreno no Arpoador.

Sem dinheiro, os jovens atores passaram a visitar amigos e parentes mais abastados, arrecadando empréstimos e doações. Com os CR$4 milhões necessários para armar a lona, eles deram início ao sonho. Além do apoio da primeira dama do Rio de Janeiro, eles contaram com a Rádio Cidade e o Jornal do Brasil, que faziam a cobertura das primeiras atividades e já no dia da inauguração anunciavam: "É o Circo Voador. Um circo urbano dirigido por artistas.
Um circo brasileiro nas cores verde, amarelo, azul e branco"
.

Idealizada inicialmente para durar um mês, o Circo Voador permaneceu durante três meses no Arpoador, sendo retirado em abril pela polícia a mando do próprio prefeito. O Circo já estava com a licença de funcionamento vencida, acumulando multas diárias.

Meses depois, um novo endereço foi intermediado por Zoé, agora em definitivo. Com uma grande parada desfilando pelas ruas do Centro da Cidade, foi anunciando no dia 18 de setembro do mesmo ano o endereço final: os Arcos da Lapa.


O que começou como uma brincadeira de verão transformava-se em um audacioso projeto, que mesclava características de centro cultural e comunitário, com apresentações artísticas, atividades de formação e até mesmo oferecendo serviços à população, como creche. O Circo figurou durante bons anos como um dos melhores palcos do Rio, chegando, inclusive, a circular pelo País, em 1985 e 1986, um projeto itinerante com patrocínio do Ministério da Cultura.

Anos mais tarde, outra reviravolta: a casa foi novamente fechada, em 1996, a mando do então prefeito César Maia, que, segundo consta, dias antes de ordenar a interdição, havia sido vaiado durante um show da banda "Ratos de Porão". Alegando irregularidades, ele ordenou o fechamento do Circo Voador. Demolido, o retorno só foi possível após uma ação popular encabeçada em 2002 pela produtora Maria Juçá, que reabriu a casa em 2004, reconstruída pela Prefeitura do Rio de Janeiro por ordem da Justiça.


O novo espaço foi inaugurado no dia 22 de julho. Sob direção de Maria Juçá, o Circo Voador hoje tem capacidade para 2.800 pessoas, ocupando uma área de três mil metros quadrados, com pista, arquibancada com rampas de acesso e área livre com bares e telão.

Durante a semana, o Circo abriga ainda a Escola Livre de Artes (ELA), que promove diversos cursos livres voltados para arte, e o Ponto de Cultura de Áudio e Vídeo, que trabalha formação em audiovisual.

O Circo voou de Ipanema para a Beira-Mar

Em 1986, o Circo Voador ganhou realmente o céus, viajando em um avião Varig e em um Hércules da Força Aérea Brasileira, transportando centenas de artistas e equipamentos técnicos rumo à Copa do Mundo do México. Em paralelo a esta empreitada, parte dos produtores veio de ônibus a Fortaleza, onde montaram uma versão do projeto em um terreno baldio localizado próximo ao Clube dos Diários, na Avenida Beira Mar.

O ônibus vinha de São Luís do Maranhão e chegou a permanecer seis meses na Capital cearense, trazendo artistas de circulação nacional, como "Kid Abelha", "Barão Vermelho", Egberto Gismonti, Ângela Ro Ro, Alceu Valença, além dos cearenses Fagner e Ednardo.

"O show do Kid Abelha deu mais de seis mil pessoas. Tinham muitos shows e eram grupos muito inovadores para a época"
, recorda Liege Xavier, sócia-proprietária da Free Lancer Producções, responsável pela articulação local do Circo.

Ela conta que, à época, estava há apenas um ano na cidade e tinha acabado de montar a produtora ao lado de seu sócio Washington Espanhol. "O Circo esteve em São Luís antes de Fortaleza e o pessoal de lá nos indicou para produzir aqui. Fomos para o Rio de Janeiro conhecer e em seguida viemos escolher o local", lembra.

Entre as contribuições do projeto, Liege destaca que oferecia aos artistas locais um padrão de qualidade que era incomum para a época. "Quem se apresentava tinha um equipamento diferente do habitual, uma divulgação mais expressiva. Era um evento que tinha todo o gabarito que já tinha sido conquistado ao longo do tempo do Rio de Janeiro", diz a produtora.

O compositor e produtor musical Amaro Penna foi um dos artistas desta geração, que encontrou ali o espaço para mostrar seu trabalho. "Eu fiz um show lá e gravamos uma música, a primeira que gravei na minha voz", recorda.

Durante o tempo que o Circo Voador ficou em Fortaleza, segundo Amaro Penna, o terreno em que ele foi montado virou um ponto de encontro dos artistas. "Era uma visibilidade. O circo Voador sempre foi referência para a música alternativa, para quem não tinha espaço", diz, destacando a importância para um jovem artista fazer parte daquele projeto grandioso.

FONTE: Arte voadora: 30 anos de lona - Caderno 3 - Diário do Nordeste

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