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RAÍZES

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Podia sentir-se girar. Girava em torno de uma órbita familiar. Podia sentir seus sentidos voltando a serem seus. Ao recobrar a visão, viu seu corpo em uma roupa familiar. Eram roupas lemurianas.

— Bem-vindo ao Sepulcro de Ferro, irmão Mu. — Ouvia a rouca e provavelmente idosa voz saindo de algum lugar acima dele. Estava deitado. O recinto era escuro e cheirava a ferrugem. Podia-se sentir cheiro de sangue misturado a unguentos. A mistura de cheiros lembrou os curandeiros lemurianos.

— Quem é você? — Indagava o ex-cavaleiro de ouro, um tanto surpreso.

— Eu sou Pale, a Voz da Cura. Eu ensinei o primeiro curandeiro a ser o que ele era. Eu mostro, até hoje, as soluções e os unguentos de cura aos curandeiros. Você é Mu, da cidade de Jamiel. Travou muitas batalhas em nome da deusa grega Athena.

Mu se sentara. O homem à sua frente era mais baixo que ele, usava as mais brancas e perfeitas roupas de curandeiro que Mu jamais vira. As marcas características dos lemurianos, os pontos acima dos olhos, eram prateados e brilhavam como ouro branco.

— Por que estou aqui?

— É de nosso interesse que você venha até nós, afinal, é um dos nossos irmãos. Não se lembra de ter saído de sua antiga vida?

Mu sentia-se tonto ao tentar lembrar. Sabia que estava morto, mas algo em sua mente lhe impedia de lembrar como morrera.

— Não importa. O que importa é que Suhael, a Voz da Guerra, deseja falar-te. Zkosut te levará até ele.


Zkosut era um ser belíssimo. Parecia uma mulher lemuriana, mais alta que Mu, de longos cabelos alaranjados, com profundos olhos negros. Somente negros, quase insetóides. O que mais aprofundava seu aspecto de inseto eram as pequenas antenas alojadas no lugar aonde seriam as marcas dos lemurianos. Antenas brancas.

Ela andava graciosamente, embasbacando Mu por um momento ou dois.

— Você não vem? — Falava ela com uma deliciosa voz de soprano que encantava os ouvidos de Mu.

Eles seguiram pela cidade, que Mu reconhecera logo no primeiro momento. Era Jamiel! Jamiel, onde nascera, onde crescera e vivera sua infância!

— Zkosut! Essa é Jamiel?

— Sim e não. Jamiel era só uma das muitas cidades Lemurianas. Todas são semelhantes e baseadas nessa, uma vez que as Vozes tentam reconstruir a cidade sagrada de Dihili no plano terreno desde a Era das Escrituras, por intermédio de conselhos aos ouvidos lemurianos de lá. Poucas foram tão bem-sucedidas quanto Jamiel.

— Isso é maravilhoso! Como eu não soube disso antes?

— Esse conhecimento se perdeu pelo tempo. Ignoram a vontade das vozes e as chamam de “intuição” quando recebem algum conselho ou proclamação de vontade.

Chegavam aonde, de acordo com a lembrança de Mu, ficava a casa do capitão da guarda. Podia dispensar Zkosut, mas sua companhia lhe agradava muito. Mu observava os habitantes de Dihili. Eram como os de Jamiel! Tão vivazes e alegres a trabalharem! Tão sorridentes as crianças a brincarem! Mu sentia-se pleno e feliz.

Conforme se aproximavam da casa de Suhael, a Voz da Guerra, o cheiro de sangue preenchia o ar denso e pesado. Mu se sentia quase enjoado perto daquele ambiente. Suhael os esperava na porta da casa. Era mais alta que Zkosut, e tinha um porte esguio, mas impunha respeito. Portava uma armadura de uma substância branca que Mu não foi capaz de identificar. Tinha as marcas na fronte brilhando como rubis e um olhar penetrante que parecia analisar a alma do ex-cavaleiro de Athena.

— Seja bem-vindo, irmão Mu! — Dizia a Voz, de braços abertos.

Ao entrarem, o ex-cavaleiro de Áries percebeu o motivo de sentirem o cheiro de sangue. Milhares de armaduras jaziam encharcadas de sangue. Um sangue negro que Mu não reconhecia, mas exalava um cheiro muito forte e característico. Em meio a elas, destacando-se por ainda não ter sido banhada em sangue, ele podia encontrar a sua armadura dourada de Áries. O ex-cavaleiro de Athena se arrepiou ao vê-la. Uma risada preencheu o ar. Era Suhael.

— Então, irmão! Vejo que se emociona ao ver sua velha armadura. Surpreenda-se então, ao contemplar o evento que precede esse encontro!

A Voz da Guerra então desembainhou uma adaga que trazia nas costas e cortou seu pulso, fazendo jorrar aquele escuro sangue. Mu pôde ver, então, as marcas das cicatrizes em seus pulsos. Sentia uma ponta de arrependimento. Suhael fazia seu sangue molhar a armadura de Áries. O ex-cavaleiro de Athena sentia-se tonto. Seu cosmo parecia dançar. Sentou-se em um sofá macio que ali se encontrava. Zkosut sentou a seu lado acariciando-lhe o cabelo. Mu viu a armadura ficar branca e sentiu seu cosmo se ampliar. Sentiu a armadura lhe chamar, mas esperava, ansioso.

— Pode ir de encontro a ela agora, Mu.

Mu não disse mais nada. Levantou-se e chamou por sua armadura com seu cosmo. A armadura se posicionou em seu corpo, brilhando como ouro branco. Nesse momento, uma figura familiar adentrou a sala. Era Shion, o antigo mestre de Áries.

— Mu? O que está fazendo aqui?

— Mestre!

O abraço dos cavaleiros foi emocionante e calmo, como devia ser um abraço entre dois amigos incertos sobre o destino um do outro. Mu percebeu que o mestre não portava uma armadura.

— Mestre... Sua armadura...

— Lhe pertence agora, Mu. Tentei em vão tentar purificar a Surplice, mas em nada adiantou. O poder de Hades é tão malévolo que fez dos esforços de Suhael e dos meus próprios em vão. Te guiarei até quando puder, por Lemúria!

Suhael levantara a voz:
— Mu, a situação é crítica. Temos de travar mais um combate. Os deuses estão se movendo. É o momento da guerra final. A guerra que porá fim a todas as guerras. Por isso você tem essa armadura. É uma armadura digna de um comandante de tropas Lemuriano. O que, afinal, você será agora.

O novo comandante não sabia que expressão esboçar. Se por um lado se sentia pleno e agradecido por ter recebido tal cargo de confiança de pronto, sentia-se também apreensivo e temeroso.

— Obrigado, irmão. — Foi tudo o que pôde dizer.

— Apresentar-lhe-ei sua tropa assim que o sol nascer. Shion te auxiliará e te aconselhará quando for preciso. Esteja pronto, irmão.

— Estarei.

Uma nova guerra, um novo desafio, uma nova manhã os esperava. Mas, o que fazer até lá?

— Suhael, e quanto às armaduras que estão espalhadas pelo cômodo? O que foi feito delas?

— São tentativas falhas, irmão Mu. Como troféus de minhas falhas, não consegui fazê-las brilhar com o clamor da guerra. Parecem cansadas ou mortas. Não conseguimos fazer nada quanto a elas.

— Nenhuma esperança?

— Até agora nada. Mas deve haver um jeito. O destino não pode nos fazer perder tamanhas preciosidades a troco de nada. Posso lhe indicar onde você pode se informar. Visite Ematuln, a Voz do Conhecimento. Ela deverá dizer-lhes sobre o que precisam saber, em troca de alguns trabalhos que ela pedirá para serem cumpridos.

— Posso levar você lá, Mu. — Zkosut se pronunciava.

— Não vou deixar você se divertir sozinho, comandante. — Replicava Shion.

— Pois bem... Vamos, então.

E assim foram, decididos a consertarem as armaduras.


Autor: Ásarthur Rangel Diniz

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