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MORREU SUFOCADO POR MULHERES

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Moravam ali fazia dez anos. Foi a primeira casa do bairro Jardim Costa e Silva. Três cômodos. Uma casinha até bonitinha, graças aos cuidados dela. Tinham uma filha muito inteligente, de sete anos, em verdade uma precoce, como dizem.


Ele, o "homem", chegara há pouco da eterna procura por emprego. Iam levando a vida se beneficiando de planos governamentais, enquanto a maré estava brava.

Chegou, nem cumprimentou a esposa, nem a filha. Já sentou e se serviu da comida, ainda quentinha. Ela ficou olhando.

Ele de um lado da mesa mastigava com voracidade.

Ela, cega por opção de não querer mais enxergá-lo, do outro lado, começou:

- Sabe o que eu acho? Se fossem os homens que parissem. Escuta bem. Se fossem os homens que dessem á luz. Se. Se as mulheres é que, nos tempos primitivos, fossem caçar, hoje não teríamos um Deus e sim uma Deusa.

Ele não se contém.

- Mulher, você está com o demônio!

- Me escuta. Se as mulheres desde o início fossem o sexo forte, teríamos uma Deusa, sim. Porque seria um sistema matriarcal.

A filhinha:

- O ideal mesmo seria o equilíbrio, se eu acreditasse. Um casal como filhos de deus, não um homem ou mulher...Só não entendo por que Deus não quis mulher, tal qual Zeus.

- Vocês duas têm que se humilhar, se colocar aos pés do Senhor.

- Perante um Deus ou uma Deusa não se humilha, em primeiro lugar. Talvez se houvesse uma Deusa, não houvesse humilhação. Digo talvez. Porque homem e mulher têm os mesmos defeitos potenciais, eu acho.

- Você está desafiando minha autoridade de senhor desta casa.

- Se os homens parissem, fossem mais frágeis, como nós mulheres, menstruando e tudo mais, não teriam tempo de erguer seu poder histórico. O pai só ganha mais porque a mãe ficou tanto tempo na cozinha. Nós teríamos que ter uma cota mundial.

- Não fiz nada de propósito. Quando nasci tudo já tava aí. Se eu nascesse mulher, não seria homem.

- Mas que tu gosta, gosta. Tua comidinha, tua roupinha lavada e passada. Quem é que cuida? 

Ele não respondeu. Ela continuou:

- Sabe quanto tempo demorou pra uma mulher usar uma calça, fumar um cigarro, ter uma profissão no mercado de trabalho? 

Ele nem aí.

- Sabe quantas mulheres morreram por serem tachadas de demoníacas?

Ele se despiu na frente dela. 

- Se vocês tivessem um corpo frágil, hoje talvez eu é que dissesse que você tá com o diabo.

- Pára com isso. Deixa eu comer. Tá muito calor pra esse papo.

- Esqueceu do soco que você deu ontem em meus peitos? Do pau que você bateu na mesa?

- Já passou.

- Se fosse o contrário. Se. Se você fosse frágil, eu ia arrebentar com os seus olhos! Eu só vivo aqui por meus filhos e por medo que você me persiga e os mate!

- Se você fugir, eu faço isso mesmo.

Quando ele falou isso, entraram na cozinha a mãe dela, as cinco irmãs, uma avó, uma bisavó, as quatro vizinhas do lado da casa e da frente. 

E mais mulheres foram chegando, até que ele morresse na cozinha, sufocado, uma enormidade de mulheres em cima.

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