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Conversas sobre Iniciação e Tradição Esotérica (Dharmagupta)

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Antes de se ler os dois textos disponibilizados abaixo torna-se importante saber os significados das seguintes palavras:


INICIAÇÃO - Processo pelo qual um indivíduo é apresentado ou admitido em uma fraternidade esotérica ou religiosa. Iniciações podem constituir ocasiões rituais, mas também podem ocorrer espontaneamente. Sem dúvida, um ritual iniciatório é algo muito poderoso. Quando realizado por uma verdadeira ordem iniciática ele é capaz de colocar o iniciado em sintonia com os Mestres do passado e aos mentores espirituais da tradição a que representam. A verdadeira iniciação consiste em um ritual místico (para dentro) e mágico em que é “colocado”, insuflado no discípulo uma tradição mística ou Egrégora. É na Índia conhecida como diksha (iniciação espiritual) .

Assim, surge um novo elo na linhagem iniciática. No ocultismo teúrgico “iniciação quer dizer uma série de estágios de realização que expandem sua visão da realidade além dos planos físico, mental e emocional, incluindo o espiritual, o divino e sua transcendência”. (Nema) Ainda assim, devemos considerar que para os ocultistas a verdadeira iniciação acontece nos planos interiores, isto é fora do tempo e do espaço, não dependendo de títulos e certificados muito menos da aprovação do mundo exterior.

EGRÉGORA – Forma-pensamento criada por um grupo de pessoas, que pode ser desde um grupo de Magos de uma mesma Loja Mágica até uma comunidade toda, ou mesmo uma sociedade inteira. Segundo definem os Thelemitas, é uma forma-pensamento ou semelhante, pode ser criada por um Mago, e adotada por outro ou uma comunidade de Magos. A palavra Egrégora vem do latim e significa união, junção, uma corrente gregária e segundo as escolas iniciáticas uma assembléia de personalidades terrestres e supraterrestres, constituindo uma hierarquia e movida por um ideal. Nas Lojas Teúrgicas, Maçônicas, Rosacruzes e mesmo Wiccanas (Covens) ou seja: organizações que desenvolvem atividades mágicas e esotéricas, essas energias (boas no caso) repetidamente alimentadas pelos ideais e sentimentos de seus membros, adquirem tal força e vigor que garantem o sucesso de todos os empreendimentos da Loja.
  
Por outro lado (em termos mais amplos) uma Egrégora é alimentada pelos pensamentos semelhantes; ela nasce, cresce e amplifica-se conforme a alimentação incessante de pensamentos sob o mesmo diapasão mental. A Egrégora, é uma de energia que, devido a uma lei oculta da Natureza, acaba adquirindo vida própria e, conseqüentemente, instinto de preservação. Os Templos e Lugares Sagrados estão saturados dessas energias... da mesma forma que os Cassinos e Penitenciárias, variando apenas a “qualidade” das mesmas. Forma-se, nesses lugares, um círculo de retro-alimentação que lhes prolonga indefinidamente as suas existências.


   
O QUE É UM INICIADO?

Por:  Papus (dr. Phillipe Encause)

Uma das causas mais freqüentes da obscuridade aparente dos estudos de Ciência oculta diz respeito à confusão dos termos empregados por aqueles que tratam dessas questões. É, então, indispensável definirmos primeiro as palavras que se empregam, sob pena de cairmos no erro no qual acabamos de falar. Um dos termos que mais gera  confusão é a palavra Iniciado. Uns consideram o iniciado como um  ser excepcional, designado com veneração por todos os autores do ocultismo; outros encaram o termo com uma significação bem menos elevada e que se pode aplicar de uma maneira geral.

Basta reportarmo-nos a significação primitiva dessa palavra para verificarmos que a última acepção é a mais correta. Com efeito, o título de iniciado na Antigüidade indicava, simplesmente, um homem instruído, cujos graus de instrução variavam segundo os casos, sem que o título geral de iniciado sofresse a mínima modificação.

O iniciado nos pequenos mistérios (Mistérios Menores) possuía uma instrução equivalente àquela dada em nossos dias pela Universidade. Ele aprendia as leis que regem o Microcosmo humano, o autodomínio completo sobre suas funções internas ou seja: como dominar a personalidade (corpo, emoções e mente) através da meditação, técnicas respiratórias, consciência de si mesmo etc.  Já o iniciado nos grandes mistérios (Mistérios Maiores) aprendia a manejar as grandes Forças Ocultas da Natureza ou domínio das Leis do Macrocosmo.  É  o caminho do domínio da existência manifesta e da apoteose do Eu. Quando chegava ao ápice dessa instrução, ele adquiria o titulo de vidente, de profeta ou de Adepto.

Assim, os termos Iniciado e Adepto são duas designações que indicam, respectivamente, o começo e o apogeu da carreira de um ocultista. Todos os homens instruídos adquiriam, na Antigüidade, o título de iniciados e os títulos de filho da mulher, filho da Terra, filho dos deuses, filho de Deus, designando sua elevação hierárquica na ordem dos conhecimentos humanos.

Sem querer nos aprofundar sobre o ensinamento que eles recebiam, falemos, entretanto, de um ponto muito importante. A doutrina ensinada era sobretudo sintética e a pesquisa da Unidade Universal lhes era indicada como o objetivo de seus esforços. De outro lado, os iniciados aprendiam a adaptar o ensinamento aos temperamentos diversos dos povos que eles eram encarregados de organizar como legisladores. É por isso que vemos as leis de Orfeu, de Moisés, de Licurgo, de Solon, de Pitágoras serem tão diferentes em aparência, enquanto que todos esses homens adquiriram seus conhecimentos numa mesma fonte. A perda desses dados conduz nossos legisladores contemporâneos à ruína e à subjugação das nações que eles querem organizar, todas sobre a mesma base.

O povo possuía, então, uma religião ou uma organização social, com relação absoluta a seu próprio temperamento, e que era um excelente meio de torná-lo feliz; o homem instruído, ao contrário, sabia convictamente que não existia senão uma religião, e que todos os cultos eram adaptações, como as cores são aspectos diversos de uma única luz branca.

Assim, a guerra religiosa era quase totalmente desconhecida na Antigüidade, pois nenhum homem inteligente poderia sequer pensar em tal possibilidade; o povo, tão somente, seria capaz dessas infantilidades.

A Sociedade antiga aparece-nos, agora, com todo o esplendor de sua organização unitária e compreendemos porque o iniciado podia entrar em todos os templos e sacrificar a todos os deuses, em comunhão com os sacerdotes de todos os cultos, que o reconheciam como um filósofo da unidade, assim como eles próprios. Os ignorantes sectários, que pretendem hoje em dia falar de religião, proclamam a esse respeito o politeísmo, sem compreender que os cristãos de hoje aparecem, ao pesquisador ingênuo, mais politeísta do que os membros de qualquer outra seita.

Imaginemos, com efeito, um homem instruído, mas ignorante de nossos costumes religiosos atuais, que subitamente fosse convidado a fazer um estudo a esse respeito, não possuindo como dados senão monumentos. Veja se suas conclusões não seriam essas: "A Religião desses povos curiosos parece consistir principalmente na adoração de um velho, de um supliciado e de uma pomba. Todos seus templos apresentam essas imagens. Eles adoram, além disso, vários deuses que se encontram sobre seus altares sob os nomes de São José, São Luís, etc. Além disso, eles oferecem sacrifícios de flores recém desabrochadas a uma divindade que parece ser aquela da natureza e que eles chamam Maria. Encontram-se, também, várias imagens de animais sobre seus altares, um cachorro, ao lado de um deus inferior, São Roque, e, mesmo, um porco, acompanhando um outro deus, Santo Antônio. Existem, também, cervos, cordeiros, etc. Eles parecem ter particularmente adorado esse animal, que seguidamente representam deitado sobre um livro".

Essas conclusões nos fazem rir e balançar a cabeça. O que diria, com efeito, um iniciado do Mundo Antigo, instrutor de Moisés ou de Pitágoras, acusado pelo sábio contemporâneo de adorar batatas ou crocodilos?

O argumento do politeísmo e de idolatria não prova senão uma coisa: é a ignorância ou a má fé daqueles que o empregam. O papel do Iniciado do Mundo Antigo era, antes de tudo, social. Os iniciados formavam, no mundo inteiro, uma fraternidade de inteligência unida por uma doutrina unitária. É essa fraternidade que certas sociedades secretas têm como objetivo mais ou menos delineado de reconstituir. Mas esse objetivo e esses estudos não têm para nós senão um interesse secundário. A Antigüidade, por atraente que seja seu estudo, não incitaria tanto nossa atenção como nossa sociedade atual. É nela, que devemos ver agora o iniciado.

Digamos, inicialmente, que é muito fácil ser um iniciado. Basta, para isso, conhecer os dados mais elementares da Ciência Oculta e compreender, graças a ela, a necessidade imperiosa de união fraternal de todos os homens. Esses dados podem ser obtidos pelo trabalho pessoal ou pelas sociedades de iniciação. Isto exige algumas palavras adicionais de explicação.

Se foi bem compreendida a diferença capital que atribuímos aos termos de Iniciado e de Adepto, é fácil deduzir que se pode, até certo ponto, formar Iniciados, mas não se formar Adeptos.

Esses homens, cada vez mais raros, só chegam ao Adeptado por suas próprias forças. O objetivo inicial de uma sociedade de iniciação é indicar a seus membros, da melhor maneira possível, o caminho do aperfeiçoamento espiritual, que deve ser realizado pelo esforço individual. A doutrina ensinada deve versar sobre a fraternidade, fonte de todos os desenvolvimentos posteriores do ser humano.

Na prática, a sociedade deve envidar todos os seus esforços para realizar, entre seus membros, o objetivo que ela persegue, para fazer de cada um deles um apóstolo militante e, após, um verdadeiro iniciado. Dois grandes procedimentos são empregados para o ensino da iniciação; esses procedimentos, diferenciando particularmente as escolas de iniciação de fonte oriental daquelas de origem ocidental, indicam facilmente a origem de um centro oculto.

A iniciação oriental opera sobretudo pela mediação, isto é, o objetivo sendo de fazer criar, para cada indivíduo, sua doutrina sintética, sua maneira de ver o Universo e sua constituição. A iniciação oriental dá a seu discípulo um texto bastante curto e sintético sobre o qual ele deve meditar longas semanas, ou mesmo meses. O resultado dessa meditação é de livrar pouco a pouco os princípios analíticos contidos no texto e de criar uma doutrina fazendo-a, por assim dizer, sair de si mesma.

A iniciação ocidental procede de maneira diferente. Ela dá, inicialmente, a seu discípulo, uma serie de dados sobre a questão, a serem pesquisados e meditados longamente, impelindo-o a condensar todas as opiniões e idéias diversas num resumo sintético.

Das duas maneiras, chega-se ao mesmo resultado: a Iniciação Oriental ampliando um texto sintético e a Iniciação Ocidental condensando textos analíticos, obtendo uma síntese geral. Digamos, enfim, que certas sociedades esotéricas praticam, ao mesmo tempo, esses dois procedimentos, escalonando-os gradualmente. De qualquer maneira, o primeiro e, mesmo, o único objetivo procurado, é de levar o aluno a criar sua própria doutrina.

Pouco importa, inicialmente, que essa doutrina seja, em todos os detalhes, excelente ou não. O essencial é que ela exista. A Sociedade esotérica  dando as bases gerais ao iniciado evita erros fundamentais. O iniciado tendo uma criação pessoal,  modifica-a posteriormente, segundo seus estudos e sua evolução interior.

Constata-se, dessa maneira, a insanidade dos ensinamentos dados pelas sociedades iniciáticas  que perderam totalmente essa base indispensável e que quiseram praticar a fraternidade universal sem criar, em primeiro lugar, homens capazes de compreender seu alcance. Tais sociedades não tardam a transformar-se num corpo político, tendendo à dissolução, desde que não retorne energicamente a seu objetivo primitivo, por uma rápida reorganização.

A utilidade social dos iniciados é incontestável; basta imaginar a grandeza possível das gerações futuras se a unidade se realiza. Certas sociedades procuram agir sobre as massas para chegar a essa unidade, cuja necessidade pressentiram. As sociedades de Iniciação, ao contrário dirigem-se às inteligências menos numerosas, e mais capazes de compreender a nobreza da fraternidade universal.

O dia em que o padre católico, tornado iniciado, souber receber em sua igreja, como um igual, o iniciado ortodoxo, o iniciado muçulmano e o iniciado budista, a fraternidade dos povos estará bem mais perto de realizar-se na prática. Esse dia está, talvez, muito longe; quem sabe, ao contrário, ele se aproxima mais rapidamente do que pensamos. Seria temerário esperar essa união dos povos?

É possível que esse ideal seja utópico, inatingível; entretanto, nesta época de positivismo exagerado, é consolador viver esse sonho da união dos iniciados, realizando um pouco a união universal de todos os homens na paz e na harmonia.

Fonte: Revista L’Initiation, No 4, 1973




O CONHECIMENTO ESOTÉRICO x EXÓTERICO
Por:  Papus (dr. Phillipe Encause)


Não há nada de fabuloso, fantástico ou misterioso na palavra esoterismo, quando empregado em seu sentido adequado. Neste sentido, ela designa as doutrinas, as práticas, os ensinamentos ou formações iniciáticas que são reservadas a um número restrito de pessoas que estão preparadas para recebê-las e que aceitem delas participar.

Quanto ao número restrito isso não é nenhum exclusivismo ou elitismo. O fato é que o chamado ao esoterismo se faz por nós mesmos, por uma inclinação, seja racional ou intuitiva, que é, naturalmente, a consequência de uma busca anterior: a evolução já adquirida.

No que tange às organizações iniciáticas que contém, em seus ensinamentos, o esoterismo, estas oferecem uma formação gradual que visa não só uma aquisição intelectual mas que, sobretudo, requer uma adesão plena e uma participação efetiva em sua técnica para que se obtenha o resultado proposto. Uma busca desordenada, freqüentemente eclética, é incompatível, portanto, com uma formação iniciática cuja característica é a de ser  sistemática, perseverante e fora de toda discussão puramente mental, discussão essa que se revela estéril em relação ao fim proposto.

Já o exoterismo é um prolongamento exterior do esoterismo e sob essa ótica, poderíamos dizer que só existe o esoterismo. O esoterismo é a parte reservada aos adeptos, ao que o exotérico é aquilo que é de domínio público.

É nas organizações iniciáticas (que recebe nomes diversos e representa diferentes tradições tais como tântricas, budistas, rosacruzes, templárias, martinistas, druidas, cristãs, catáras, gnósticas...) que a Tradição Primordial se cristaliza, resultando na constituição de egrégoras (do grego, egregorion que significa velar - designa um conjunto de consciências e de energias afim) encarregadas de velar por essas organizações e sobre aqueles que as constituem, evitando que o conhecimento se perca.

Você recebeu importantes chaves para a compreensão do esoterismo e deve ter ficado claro que as diferentes formas de tradição são manifestações de um único e mesmo princípio. A diversidade só pode ser  compreendida quando é considerada a partir da Unidade. Quando for estudar as diferentes doutrinas irá perceber  uma ‘constante’  e uma satisfação interior em encontrar a Unidade da Multiplicidade.

Comentário:

O conhecimento da Tradição é o mesmo em todo lugar e em qualquer época. A iniciação é sempre parecida a si mesma, quaisquer que sejam suas formas exteriores, contanto que sejam autênticas, e a verdade, formulada pela Tradição e alcançada pela iniciação, está sempre no próprio homem, ainda que ele só possa a ela ascender após uma longa viagem que, da multiplicidade, o leve um dia a um novo encontro com a Unidade. A missão do homem sobre a terra é, portanto, fazer-se consciente de sua Unidade e compreender que é uno, em uma humanidade una, no seio de um só Universo. Isto só pode ser alcançado satisfazendo as exigências de sua mente em superá-las, quando chegar o momento , e é por isso que a rota parece longa, já que nela tanto há o que aprender. Mas o topo está mais próximo do que em geral se supõe. Pode ser alcançado, em qualquer momento, pelo buscador sincero, pois que não há verdadeira separação entre o topo e ele mesmo. Se o alcança rapidamente, haverá de querer, na sua percepção absoluta da Unidade reencontrada, voltar entre os que ainda caminham para seguir a rota com eles, conhecer seus caminhos e sustentar seus esforços.

Fonte: Anônima


Artigo postado por : Helio Monteiro (Dharmagupta): 

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