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DEIXA UM BRAÇO PRA MIM, BEBÊ

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Daniela nascera naquela casa rústica, ao centro daquele sítio abandonado, localizado nos Areais. O local era despido de quaisquer condições de higiene e humanidade.
Havia uma quantidade imensa de mato, árvores, sombras, grutas, insetos e bichos desconhecidos. Para o homem - caos desnaturado, para a natureza - ordem natural.
Seus pais escolheram aquele local por ser bem distante da cidade.
Parece que o pai tivera um problema com a lei. Diziam uns que matara uma família inteira em nome da honra...Que honra justificaria isso? Outros que a esposa era enfermeira ilegal, procurada pela polícia, e tinha em seu currículo abortos sem conta. Quem sabe, as duas versões eram verdadeiras. Pois ela tinha o hábito esquisito de só andar com trajes de enfermeira, onde quer que estivesse, em casa, na rua, em festas, na cama, na vida real, na vida dos sonhos, pesadelos, etc. etc. 
Antes de ir para o sítio, descobrira que era portadora de uma doença que lhe dava pouco tempo de vida. Andava, a poder de muletas e se cansava muito fácil. Os médicos tinham dito que duraria um ano, se tanto. Logo que engravidasse, ficaria mais débil e mais perto do fim.
Quando Daniela nasceu, os pais se espantaram com a forma de seus braços e de suas pernas. Chegaram à conclusão que estavam recebendo um castigo divino. O pai resolveu pagar a sua parte do castigo. Voltou à cidade e se entregou às autoridades.
Irresponsavelmente, porém o pai resolveu deixar a criança ali com a mãe, que, na sua maneira de pensar, era a culpada da filha ter nascido um monstro, estava amaldiçoada. Iria arranjar outra mulher que tivesse mais saúde. E certamente teria filhos mais saudáveis. Contava que mãe e filha morressem e, assim, sumisse o vestígio de sua culpa.
Mas na cadeia teve problemas de consciência e findou que tornou-se evangélico. Uma liderança pastoral entre os internos. Quando cumpriu a pena, se arrependeu enormemente dos atos do passado. Pensava muito em sua filhinha. Mais até do que na mãe dela. O abandono não foi coisa de espírito ajuizado. Foi mesmo uma coisa desumana.
Pegou sua segunda esposa e voltou àquele sítio abandonado. Se viva, sua filhinha teria uns quinze anos de idade. Sua primeira esposa, pela doença que tinha, devia ter morrido.
Sua segunda esposa achava que a filha também estava morta, no entanto, o esposo tinha esperança de que ela estava viva.
Quando chegaram ao sítio, ele notou uma mudança fenomenal: árvores cercavam a casa, como formando um muro de proteção. A casa estava jeitosa, com suas trepadeiras e flores. Havia até mesmo um jardim com as flores mais inusitadas, até carnívoras.
Mal ultrapassaram os limites do quintal, o solo deu um leve tremor, sorrateiramente, as árvores agarraram os pés do casal com seus galhos longos e raízes emaranhadas. Então, começaram a arrancar seus membros, troncos e cabeças, colocando as partes num canto protegido de sol e chuva.
Daniela, sentindo o cheiro, saiu da casa e foi se aproximando das carnes em retalho. Suas patas de javali eram fortes e rápidos. Seu rosto porém tinha uma delicadeza ímpar, uma meiguice angelical.
Quando abriu a boca, a comer os pedaços humanos, nunca imaginaria que certos pedaços pertenciam a seu pai, senão...talvez até não engolisse assim tão deseducadamente, ou.....talvez nem fizesse diferença.
Um berro feminino do interior da casa:
- Dani, deixa um braço pra mim, bebê! Cê sabe que eu só como isso, não gosto de perna nem de cabeça!

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