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VIAGEM ENCANTADA

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Ela estava ali, naquele lugar, sozinha, sorrindo, bela moça com um vestido simples, as coxas à mostra, cabelos pretos, olhos grandes, seios médios, colar de contas coloridas, brincos de estrela, um cheiro de....um cheiro de...Por que a única expressão que lhe ocorria era....um cheiro de....morte?
A idade dela lembrou a Armindo a que tinha Ju quando morreu....Júlia, aquela com a qual se juntara e....o fato é que ele terminara com ela, indo direto ao assunto, empurrando-a num poço abandonado, que acabou sendo soterrado numa enchente.
Aconteceu naquela cidadezinha do Sul, cujo nome é tão sumidinho que a gente acaba esquecendo. 
Ninguém esclareceu o desaparecimento da moça.
Ele fora, depois disso, para o Centro-Oeste. Depois, para o Sudeste. Passado um tempo, recomeçou a beber. E a maltratar as mulheres que namorava. Sem contudo terminar com elas do mesmo jeito.
Ingressou numa Igreja, mais com o intuito de impressionar a filha do pastor Ubiratã. Até conseguiu acalmar seus nervos, mas não obteve a prenda perseguida. Um primo dela, o Agenor, foi mais rápido.
Começou então a tramar a morte do tal primo. Nessa ocasião, começou a fumar mais maconha. De uma maneira descontrolada. O interessante é que achavam que quando seus olhos estavam vermelhos e ele tinha aquela larica era o sinal de que o Espírito Santo estava dentro de si.
O Agenor tinha uma fraqueza no passado. Quando descobriu, Armindo tratou de procurar um botãozinho que a reativasse.
Numa festa da igreja, em que comemoravam o primeiro ano de fundação da mesma, Armindo se aproximou pela primeira vez do outro. Ocorreu que em três anos já estavam carne e unha. E foi justamente com três anos dessa amizade que Agenor morreu. Fora atravessar a rua e um caminhão - "push" - atropelou-o. Foi por acaso, fugindo ao planejamento do "amigo".
Mas....Ju, por puro desgosto, também terminou morrendo e Armindo, coitado, ficou na mão.
Ele gozava de uma consideração muito grande na comunidade. Era um excelente profissional das artes gráficas e cenográficas. Tinha um ateliê no centro de Cubatão. Aos poucos, foi se afastando da igreja e deixando de lado seu comportamento sádico. A desculpa que dava para o auto-isolamento era sua entrega à profissão. E realmente se enfiou no trabalho. Cinco anos e pouco sem tirar férias.
Resolveu então, certo dia de natal, tirar um final de semana para viajar até aquele lugar. Pegou um ônibus e foi.
Todos falavam desse tal lugar que os carros subiam sozinhos umas ladeiras, sem precisar de ligar o motor, comentavam das casas em que se ouviam alienígenas fumando baseado, dos discos voadores do tamanho de moscas, dos centauros viciados em LSD, das hidras sem-vergonhas que riam sem parar dos anjos-palhaços.
E o mais fabuloso mistério estava naquela caverna, na entrada da cidade.
O show, para ele, que começaria logo mais, não era mais importante do aquela moça, sorrindo sem parar, tão linda, tão linda.
Ele tinha muitas encomendas no seu ateliê. Se ficasse, não teria sossego. As pessoas tinham pressa. Não queriam saber se havia serviço na frente.
Deixou um recado quase que malcriado em sua rede social preferida: não estou pra ninguém neste final de semana, vão todos os que não aceitarem isso tomar...no.....deixa eu falar de uma vez essa palavra longa: cu.
Iria fumar maconha pela última vez, deixaria de beber absinto, largaria o cigarro...não, o Gudang ainda não...
Não podia perder a oportunidade de viajar àquele lugar, ao qual fora muitas vezes na adolescência. Ganhara um bom dinheiro com um projeto cenográfico que fizera. Era agora ou nunca.
Quando chegou naquele lugar, tentou tirar proveito de tudo, principalmente, dos bares, mas sentiu dificuldade de comunicação com as pessoas.
Foi à caverna decantada. Na entrada, encontrara aquela moça. Como ela dava risada. Dizia que todos ali eram muito engraçados. Devia estar cheia de erva.
Ele perguntou-lhe: - Você vive aqui? Ou tá de visita como eu?
Ela: - Não, eu morri há seis meses isolada nessa caverna. Gosto de presenciar acidentes. Fiz questão de estar presente no seu acidente de ônibus. Lembra? Você morreu nele.
Ele gaguejou: - Ju...Ju...Júlia?
- Que Júlia o quê? Sou apenas uma morta que gosta de ver os corpos morrendo e as almas desprendendo. Um pequeno vício, sabe. Dá mais barato que maconha. Você devia experimentar.

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