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Poema "O Cemitério"

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O Cemitério

Por Arthur Xenofonte


Saudações senhores e senhoras
Meninos e meninas e demais animais
Sedes todos bem vindos os de fora
Aqui é de onde não sairás mais.

Estas rimas pomposas estão
Acima do portão deste misterioso cemitério
Imagino que elas teriam mais mistério
Se menos agressivas fossem então
Bastar-me-ia apenas o dito:
Aqui estamos e por vós esperamos.”
Seria bastante, sempre nele reflito
E a rima é melhor, convenhamos

Este cemitério é em todo diferente
Aqui não estão nem homens simples
Mortos após um típico acidente
Nem mulheres comuns aqui existem
Por um capricho do mundo
E por um humor profundo
Aqui estão os que inexistem

Aqui é um campo
Para as memórias
Os sentimentos, os tempos,
Os sonhos e as histórias

Vamos entrando
Agora que aqui estamos
Vamos ver os jazigos
Para que não te sintas perdido
Guiar-te-ei como um amigo

Vede este é histórico
O primeiro que vemos
Apesar do morto não ter feito nada “heroico”
Foi rei e deus, como aqui lemos:

Aqui está sepultado
O deus na terra, faraó,
Em féretro dourado
A espera do retorno
Do seu espírito desgarrado
Que por Anúbis e Maat
Fora devidamente julgado.

Logo em seguida, ao lado,
Algo deveras interessante
Uma metalinguagem na lápide
Versada e rimada se via
O sepulcro da poesia

Aqui jaz os sonetos
Antes, eternos,
Hoje esquecido por
Artistas mui modernos.

Caminho pelas ruas
A luz da lua nua
No campo dos necros
Guardados nos féretros
Honrados em versos
Por seus méritos.

Encarar a morte não é para todos
Quantos já a viram por perto!?
Muitos se julgam, que ela, mais espertos
Mal sabem eles que são tolos

Neste vale da decadência,
Neste cemitério
A arte está nos epitáfios
Vejo-os com tanta freqüência
Que julgo, escrevê-los, fácil
Poderia escrever sobre tudo
Quando faleceres, escreverei o teu
Aliás, escreverei eu mesmo o meu
Talvez um vago ou um profundo
Posso escrever até o epitáfio do amor!
Mas não será preciso, que horror!
Volta-te a esquerda, aí do lado.
Constataras que o mesmo já está sepultado.

O Amor faleceu
No campo e na cidade
O homem o esqueceu
Causa da infelicidade
As mulheres acostumaram-se
Com sua ausência
Agora vestem-se com indecência
Contagem regressiva para a decadência.

Constatai que não fui eu
Quem a tudo isso escreveu.
Vamos ver a sepultara a seguir
Aquela ali que está prestes a ruir

Parece-me que está já foi violada
Vede toda a terra como está revirada
E seus alicerces estão maltratados
Sei que este era um dos mais mal falados
Talvez deste, desgostavam, vários
Ao que parece nem seu epitáfio é hilário
Vejamos o que aqui consta...

Aqui jaz o Comunismo
Para que não seja desenterrado
Embora já estejas podre
Alguns, nele, nada vêm de errado
O antigo dragão vermelho
Hoje e para sempre sepultado.

Ah! Deste me lembro
Li sobre ele em alguns livros
Era um tipo de política
Em que todos fingiam que eram amigos
E por falar em política
Olha só quem está enterrado ali

Jaz aqui ainda viva
A política brasileira
Sepultada por corruptos
E aliados partidários.

O outro do lado, eu nunca tinha visto ou ouvido
Mas consta em sua lápide aqui, escrito:

Aqui jaz esquecido
Um político honesto
Morto a tiros
Em um grande protesto.

Talvez este tenha ganhado uma medalha
Ou qualquer honraria que lhe valha

Espero que do político ninguém tenha esquecido
Ao contrário daqueles da sepultura conjunta
Estes foram mortos por um sentimento adormecido
Mas que quando desperto, inspira-nos a luta

Aqui jazem todos os fantasmas,
Monstros, demônios e dogmas
Mortos covardemente
Pela coragem.

Mas mais interessante e poético
De caráter quase epopeico
É, se não, a lápide de um poeta
Escrita pelo mesmo antes de morrer
Foi esta a forma mais direta
Que ele encontrou para lembrado ser.
Consta aqui em mármore:

Aqui jaz o autor deste epitáfio
Lúgubre moço sofria de esplim
Sofria por ter noção do tempo
E por conhecer seu derradeiro fim
Ciente de sua situação
Preparou antecipadamente
Sua lápide, sua cova, seu ataúde
Seu livro, seu testamento, sua árvore
E, claro, este verso
Depois de muitos goles e tragos
Morreu de forma deveras funesta
Como um noctívago solitário.

Gostaria de não saber mais de histórias como estas
Mas enfim... Esqueçamo-nos
Já falta pouco para o fim
Vamos ver logo aquelas duas últimas lápides
Tanta morte já está a fazer mal a mim
Vejamos o que consta
No penúltimo túmulo
O verso pode ser pequeno
Mas são esses os mais profundos;
Garanto-lhe, disso eu entendo

Aqui jaz Esperança
A última que morreu
Dela só há lembranças
Depois que tudo se perdeu.

(... Silencio...)

Preferia já estar morto
A ter isso lido!
Se nem a esperança reside neste mundo
Que proveito tirarei deste plano imundo?
Quanto tempo mais, terei de sofrer
Antes de por fim morrer?
Porque que aqui nada é tão simples como deveria ser?
Bastava-me ler algo como “Bom pai e marido,
Saudades de seus filhos e netos”
Por que tudo aqui é tão entristecido?
Desculpe-me por guiar-te por este funéreo caminho
Vamos logo ler este último para sairmos
Pois não quero mais ficar aqui sozinho

Postaram-se então o guiado e quem o guiava
Frente ao túmulo que aparentemente, singelo,
Mostrava-se como o último daquele estranho cemitério
E leu em voz alta a lápide, o guia que ali estava:

Aqui jaz Nihil, Nada...
É só uma cova vazia
A espera da tua companhia.
Esta cova esta reservada
A ti caro leitor
Que chegou até aqui
Depois de viver intensamente
Aproveitando o máximo
Da alegria e da dor.”.

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