Mostrando postagens com marcador Lizza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lizza. Mostrar todas as postagens

A Marca da Bruxa

image
Por Nigel Aldcroft Jackson
(de Call of the Horned Piper)


      Ao longo dos relatos de bruxaria europeia, a 'Marca do Diabo' tem se caracterizado como um elemento recorrente; esta 'marca da bruxa' parece ter sido um símbolo em cores ou um signo tatuado que o Mestre Cornífero ou Diabo fazia sobre um novo membro da companhia no momento de sua admissão à Wicce-craeft. Esta marca foi avidamente buscada mais tarde pelos caçadores de bruxas dos séculos XVI e XVII, já que se pensava que constituía uma prova irrefutável da participação de um indivíduo numa seita. Como Reginald Scot escreveu em 1594: 'O Diabo dava a cada noviço uma marca, com seus dentes ou garras'.

      As formas que a Marca do Diabo tomava variavam de região em região, amiúde consistindo em pouco mais que uma mancha azul, negra ou roxa sobre várias partes do corpo, encontrando-se frequentemente sobre um dos dedos da mão. Em Somerset as bruxas eram marcadas entre as articulações superior e média do dedo anelar ou quarto dedo da mão direita. Em 1597, Andro Man, uma bruxa de Aberdeen, disse que havia sido marcada pelo Cornífero sobre o terceiro dedo da mão direita. Uma bruxa em Yarmouth, em 1644, contou como numa noite iluminada pela lua 'um alto Homem negro a chamou em sua porta e lhe disse que devia primeiro ver sua mão; depois pegando algo similar a uma navalha de bolso, lhe fez um pequeno arranhão, para que o Sangue saísse, e a Marca permaneceu desde esse momento'.

      Em outros lugares a Marca do Diabo era de natureza simbólica mais explícita e consistia em pequenos glifos e sigilos totêmicos. Martin Delrio informa que as bruxas eram marcadas com signos secretos tais como a pegada de uma lebre, a pegada de um rato ou o símbolo de uma aranha. A lebre está profundamente conectada com os mistérios noturnos da lua, o rato aparece na antiga iconografía romano-gálica como Cernunnos, deus do submundo, e a aranha como tecedora de redes é sagrada para as deusas fiandeiras do destino tais como as Nornas, as Parcas e as Matronas.

image
      Na Inglaterra rural a marca algumas vezes é conhecida pela forma de um lirón (roedor). Henri Boguet atesta o fato de que as bruxas francesas do século XVI recebiam a 'marque les sorciers' sobre o ombro esquerdo (sinistro) na forma de um pé de lebre. Menciona Jean de Vaux cuja marca da bruxa era 'un petit chien noir', o Cão Negro da noite,' da morte e do submundo. Entre as bruxas bascas dos Pirineus três marcas eram feitas sobre o coxa esquerda, o lado esquerdo das costas e sobre o olho esquerdo. O Diabo amiúde marcava as bruxas bascas com o signo do sapo ou pé de sapo, o anfíbio mais sagrado na Wicce-craeft que está associado com os pântanos subterrâneos, as cavernas e as águas ctônicas do submundo.

Fonte: La Huella Hendida del Maestro Astado

A Garrafa da Bruxa de Dr. Fian's Spell Book

image
      A garrafa da bruxa é um dos melhores feitiços da antiga tradição. O é porque é versátil, efetiva e simples. Basicamente, uma garrafa da bruxa é uma garrafa (ou frasco) preenchida(o) com uma variedade de ingredientes que têm alguma relação com a questão e o efeito que se pretenda ter como resultado.

Uma Garrafa da Bruxa para Proteção

      Se desejas segurança e proteção, deves preparar uma garrafa dentro da qual irás pôr um pouco de cabelo, pedaços de unhas, saliva, urina e retalhos de tua roupa. Ponha também uma rosa, um símbolo de amor, uma lasca de Carvalho, para força e um pedaço de teixo, para imortalidade. Podes enterrá-la ou guardá-la em um lugar seguro em tua casa.

Uma Garrafa da Bruxa para Provocar Má Sorte a um Inimigo

      Pegue uma garrafa e a encha com um pouco de cabelo, restos de unhas, etc., de teu inimigo. Ponha também pregos, cacos de vidro, esterco de porco e um crucifixo de prata quebrado. Esta deve ser enterrada na propriedade de teu inimigo, de preferência, em um lugar por onde ele passe frequentemente. Se diz que sob o umbral da porta é um bom lugar para escondê-la.

      Para obter sucesso no uso da garrafa da bruxa, deves familiarizar-te com os ingredientes simbólicos e seus significados mágicos.

      Abaixo está uma tabela de ingredientes que é dada no livro do Dr. Fian. São ingredientes comuns e a partir deles compreenderás como chegar a teus próprios ingredientes significativos e úteis.

      Carvalho – Para força e segurança.

      Salgueiro – Compreensão e força inflexível.

      Tramazeira – Proteção contra espíritos e malfeitores.

      Sabugueiro – Para obter visão ou clarividência psíquica.

      Teixo – Imortalidade e força de vontade.

      Azevinho – Sabedoria e conhecimento.

      Hera – Segurança e perseverança.

      Rosa – Amor e favores de sexuais.

      Cabelos, restos de unhas, sangue, urina, um pouco de roupa ou qualquer posse, todos contêm a essência da pessoa a ser afetada pelo feitiço. As cores também desempenham um papel importante no conteúdo de uma garrafa da bruxa. Aqui há uma lista de fios de cores que podem ser ingredientes efetivos quando usados com os ingredientes pessoais.

      Branco – Pureza, cura e bem-estar.

      Verde – Bem-estar e prosperidade.

      Roxo – Amor e luxúria.

      Azul – Tristeza.

      Cinza – Depressão.

      Marrom – Preguiça.

      Preto – Desespero.

      Quando fizeres uma garrafa da bruxa, deves também fazer um feitiço com palavras para descrevê-la. Este feitiço pode ser escrito e queimado, ou colocado na garrafa juntamente com os outros ingredientes. Agora a garrafa deve ser escondida em um lugar próximo da pessoa para a qual, ou contra a qual, se está fazendo o feitiço.

NOTA: Embora haja apenas dois exemplos de garrafa da bruxa no livro do Dr. Fian, você pode ver claramente o processo pelo qual operam.

      O que é mostrado neste libro são antigos ingredientes estritamente tradicionais. Se refletires sobre eles, provavelmente poderás chegar a tuas próprias combinações de ingredientes para teus próprios propósitos.

      Uma garrafa da bruxa é uma forma de condensador. Por sua natureza, seu conteúdo e propósito, quando psiquicamente carregada esta se converte em uma fonte de poder para a energia que representa. Por exemplo, uma amiga minha foi ver um carro que queria comprar. Era perfeito para ela porém demasiadamente caro pois havia várias pessoas interessadas nele. O carro estava quase vendido. Sua liquidez não lhe permitia uma compra em menos de duas semanas. Tampouco podia permitir-se esperar e arriscar-se a perdê-lo. O que fazer? Foi até o carro durante a noite e raspou um pouco do carbono do tubo de escape, um pouco da sujeira que havia nos pneus e juntou a isto o anúncio do carro com sua foto. Pôs tudo em uma garrafa da bruxa juntamente com alguns outros ingredientes para ajudar no caso. Pronunciou um feitiço sobre ela que expressava seu desejo e necessidade e meditou a respeito disto. Mesmo sendo o carro muito popular e atraindo muitos interessados, não foi vendido. Ela o comprou duas semanas depois e por bem menos do que estava anunciado.

      Usando a garrafa da bruxa, ela foi capaz de alterar as circunstâncias convenientemente. Usando a imaginação e intuição aliadas com o potencial psíquico e habilidade, qualquer um, com prática, pode fazer com que a Arte funcione para si.

Fonte: La Huella Hendida del Maestro Astado

Scrying ou Vidência (de Dr. Fian's Spell Book)

image
      A vidência ou scrying, como é chamada algumas vezes, é outra forma muito antiga de adivinhação. No livro do Dr. John Fian se recomenda fazer a adivinhação em uma taça ou bacia com água. A taça será pintada de negro por dentro. Também podes pôr um pouco de tinta negra na água para escurecê-la.

      Algumas vezes se usa uma “pedra de vidência”. Esta é uma pedra talhada e polida, usada para mirar em seu interior, para receber uma imagem através de meios psíquicos. O scrying ou vidência é a prática usada com a bola de cristal, a qual é uma ferramenta posterior à taça ou pedra. Geralmente é uma questão de preferência, porém algumas vezes a disponibilidade exerce um grande papel na escolha.

      De qualquer forma, o objetivo é focar o olho psíquico de tua mente enquanto fixas o olhar para dentro da taça ou para a ferramenta de scrying que tenhas escolhido. Deves limpar tua mente e concentrar-te na pergunta para permitir que as imagens da situação sejam refletidas na água. Estas podem parecer abstratas, contudo graças à tua sensibilidade psíquica poderás interpretar as que receberes. Para fazê-lo adequadamente, deves estar em um cômodo escura. Acenda uma vela para que haja um pouco de luz e assim sejas capaz de ver as imagens, porém não tanta luminosidade que acabe por ser refletida em tua ferramenta de scrying.

      Deves estar relaxado, em tua mente somente deverá haver, em geral, pensamentos sobre tua consulta. Receberás imagens e pensamentos depois de olhar fixamente para a taça durante uns instantes. Deves anotar as imagens e analisá-las.

image

      As pessoas que têm uma alta sensibilidade psíquica podem ver imagens diretas e definidas em sua ferramenta de scrying. A maioria vê imagens abstratas e formas com um determinado sentido psíquico do que significam as imagens. Outros não vêem nada definido na ferramenta de scrying ainda que recebam impressões psíquicas.

image

      A chave para este sistema é o relaxamento, a concentração e a habilidade psíquica. Assim como ocorre com todas as coisas psíquicas, quanto mais exercitares tuas habilidades, mais fortes e adequadas se tornaram.

Fonte: La Huella Hendida del Maestro Astado

A Criação do Castelo para o Grande Sabá

image
Versão de Robin Artisan

O Grande Sabá

      Este é o momento mais importante para o trabalho real. É quando a Lua está completamente cheia que o Grande Sabá toma lugar na área secreta.

      Esta noite está reservada para o trabalho mais importante de todos. Tudo que é feito nesta noite é para prosperar, ajudar a nós mesmos, à nossa família e povo, atrair proteção e poder para melhorar a vida em nosso trabalho e relações interpessoais, e todas as coisas que nos dão proteção, prosperidade e felicidade. É a noite na qual os membros do Grupo reafirmam seus juramentos. E também há uma festa.

Construindo um Castelo

      O é altar voltado para o norte. Todo o trabalho real é feito encarando o Norte. O mestre dá três passos para o norte, a partir da parte de trás do altar e crava sua espada no chão no ponto Norte. Ele irá pedir ao deus escolhido, o Antigo, com o qual trabalhará nessa noite, que conceda proteção, poder e sucesso para o trabalho real da noite. Ele pegará a espada e repetirá o processo dos três passos, a partir do lado direito do altar. Agora pedirá proteção, poder e sucesso para o Leste. Ele sacará sua espada do solo e irá para a frente do altar para repetir o processo para o Sul. Isto finalmente será repetido para o Oeste. O Mestre agora irá para o Norte e começará a erguer o castelo ou pátio. O fará desenhando uma linha imaginária a partir do Norte, começando de onde a espada estava cravada na Terra, depois o mesmo para o Leste, Sul, Oeste e de volta ao Norte.

      Agora o Mestre se dirigirá aos Antigos Deuses para dar sua assistência ao trabalho. A Senhora agora preparará o Altar com as ferramentas mágicas que serão usadas nesta noite, assim como tudo o que tem que ser purificado, pedidos de trabalho, etc.

      O Mestre agora convidará uma das mulheres para que use sua vassoura para selar o Castelo e banir qualquer força maligna que possa estar presente. A Senhora convidará um homem para fazer o mesmo com o bastão do bosque. A Senhora fará uma libação com o chifre branco em cada direção, fazendo pedidos aos Antigos Deuses como fez o Mestre. Finalmente, o Mestre coloca os taças nos pontos cardeais que representam seus elementos.

O Trabalho do Grande Sabá

      O Mestre agora recitará seu juramento enquanto está de joelhos diante o Altar. Quando houver terminado cravará seu punhal no solo. A Senhora agora lhe salpicará as mãos com Água do chifre branco. Também lhe salpicará as mãos com um pouco de Sal da taça de sal. Cada pessoa passará por este processo. A Senhora o passará por último, e o Mestre salpicará Água e Sal em suas mãos.

      O Mestre beberá do chifre branco e o passará, em sentido horário, a todas as pessoas para que bebam. Finalmente, a Senhora beberá do chifre. Ela lho sustentará com seus braços estendidos para o Mestre. Ele então fará um chamado ao Antigo Deus com o qual trabalhará, afundará o punhal e a Senhora fará uma libação sobre a Terra.

O Grande Rito

      Agora se solicitará o trabalho real. Todos os que têm trabalhos a serem levados a cabo, são chamados segundo seu título, pelo nome, um por um. O pedido e a descrição do trabalho serão lidos pela Senhora. O Mestre então chamará o Antigo Deus escolhido para que garanta o êxito do trabalho. Depois chamará o solicitante do trabajo ao Altar. O solicitante também chamará o Antigo Deus do trabalho. Todos observam agora o exterior do Castelo, a partir do interior de seus muros. O solicitante ajoelhará diante o Altar concentrando-se no êxito do feitiço. Seu punhal é sustentado apontando para o céu sobre sua cabeça. O Mestre, no Norte, se concentrará no êxito do trabalho. Em voz baixa, chamará o Antigo Deus para que lhe conceda sucesso no trabalho. Quando sentir o poder do Chamado, cravará seu punhal no solo. O solicitante fará o mesmo. Cada solicitante passará por este processo.

      O pedido é escrito em um pedaço de papel, porém também é possível incluir um amuleto sobre o papel ou um cordão. O pedido sempre passará de pessoa em pessoa, enquanto se observa além dos muros do Castelo. As pessoas estarão de joelhos e cada uma se concentrará no êxito de seu amigo. Quando sentirem o poder, cravarão seus punhais no solo. Quando o pedido chegar até a Senhora, ela fará o mesmo e o ciclo estará completo. Em seguida o Mestre queimará ervas relacionadas ao trabalho na taça de cobre para a queima de ervas, como é chamada. A Senhora dará o pedido e amuleto, ou cordão, etc., se houver, ao Mestre e ele o colocará nas chamas da taça para as ervas. Ele novamente solicitará o êxito do trabalho do solicitante. Quando o pedido, cordão e ervas houverem sido queimados, o solicitante deixará de concentrar-se e uma vez mais, cravará o punhal no solo.

      NOTA: Este rito pode ser feito individualmente ou para um desejo grupal.

      Quando o Grande Rito for finalizado, o Mestre agradecerá ao Antigo Deus por ajudar os solicitantes nessa noite. Todos lhe seguirão no agradecimento. Todos beberão do chifre branco como antes, enlaçados pela confiança e pela força. Agora será o momento para o festejo com cordeiro, frango, batatas, pães e cerveja negra, tão forte quanto escura.

Fonte: La Huella Hendida del Maestro Astado

FOGO SAGRADO: O que é a realidade? (Por Alan Moore)

image
      "A realidade é, à primeira vista, algo muito simples: a televisão que estás olhando agora é real. Teu corpo acomodado em teu assento por volta da meia-noite, o tic-tac do relógio no umbral da percepção. Todos os infinitos detalhes de um mundo sólido e material que te envolve. Estas coisas existem. Podem ser medidas com uma régua, com um voltímetro, uma báscula. Estas coisas são reais.

      Logo está a mente, meio atenta à TV, ao sofá, ao relógio. Este fantasmagórico conglomerado de memórias, ideias e sensações ao qual chamamos de Eu/Self existe também, ainda que não no mundo mensurável que pode ser descrito por nossa ciência. A consciência é inquantificável, um fantasma na máquina, quase não considerada real, embora, de certo modo, este vacilante mosaico de percepções seja a única realidade verdadeira que conhecemos.

      O Aqui e Agora exige atenção, nos é mais presente. Desdenhamos nosso mundo interno de ideias como algo menos importante, ainda que simplesmente a maior parte de nossa realidade física imediata tenha se originada na mente. A TV, o sofá e a habitação, toda a civilização que os contém, em um certo tempo não foram mais do que ideias. A existência material se fundamenta por completo em um reino fantasmagórico da mente, cuja natureza e geografia estão ainda inexploradas.

      Antes de que fosse anunciada a Era da Razão, a humanidade havia polido estratégias para interagir com o mundo do imaginário e do invisível: complicados sistemas mágicos; abrangentes panteões de deuses e espíritos, imagens e nomes com os quais etiquetávamos poderosas forças internas para sua melhor compreensão. O Intelecto, a Emoção e o Pensamento Inconsciente foram convertidos em deidades ou demônios a fim de que, como Fausto, pudéssemos conhecê-los melhor; tratar com eles; converter-nos neles. As antigas culturas não adoravam a ídolos. Suas estátuas de deuses representavam estados ideais aos quais alguém podia aspirar através de uma constante meditação sobre os mesmos.

      A ciência demonstra que na realidade física jamais existiu uma sereia, um Krishna de pele azul ou uma concepção virginal. Contudo o pensamento é real, e o domínio do pensamento é o único lugar no qual os deuses indiscutivelmente existem e manejam um tremendo poder. Se Afrodite fosse um mito e o Amor tão somente um conceito, isso negaria, então, os crimes, as bondades e as canções realizadas em nome do Amor? Se Cristo tivesse somente sido ficção, uma Ideia Divina, isso invalidaria a mudança social inspirada por sua ideia, faria menos terríveis as guerras religiosas? Ou converteria a superação humana em algo menos real, menos sagrada?

      O mundo das ideias é em certos sentidos mais profundo e mais autêntico do que a realidade; é a televisão sólida menos significativa do que a ideia de televisão. As ideias, diferentemente das estruturas sólidas, não perecem. Permanecem imortais, imateriais e onipresentes, como todo o Divino. As ideias são uma paisagem dourada e selvagem pela qual vagamos ignorantes e carentes de mapa. Cuidado: em última instância a realidade pode ser exatamente o que pensamos que ela é.''

- Escrito para “London Weekend Television” em julho de 1998.

Preparação para rituais herméticos

image
      Geralmente os rituais ou trabalhos herméticos são realizados devido a um desejo específico, e é importante que antes que comeces um ritual mediante uma determinada técnica, tenhas uma clara ideia da natureza desse desejo. Isto é, deves ter uma ideia precisa — em tua imaginação ou em palavras — do objetivo que te propões alcançar ao utilizar a magia.

      É importante que este propósito seja concreto — isto é, que se limite a uma coisa. Uma vez que tenhas definido o que queres conseguir mediante a magia (e pode ser qualquer questão: riqueza, êxito, amor, saúde, malefício a alguém), dedica-te a pensar possíveis visualizações que representem claramente teu objetivo. E busca também alguma frase simples e evocadora que condense esse objetivo.

      A visualização escolhida não deve ser demasiado complexa. Por exemplo, se desejas obter êxito em uma entrevista de trabalho, visualiza-te recebendo uma carta que confirma este êxito, ou imagina-te vestido para a entrevista ouvindo alguém dizer-te: "Em boa hora. Estamos dispostos a oferecer-lhe...". Se, por um lado mais obscuro, queres prejudicar alguém mediante a magia, escolha uma visualização que consista nessa pessoa experimentando alguma forma de sofrimento. Por exemplo, imagina sua cara retorcendo-se por causa de horrendas dores no estômago. Uma vez que tenhas eleito a visualização apropriada, siga desenvolvendo-a em tua mente durante vários dias antes do trabalho que vais realizar, porém sem introduzir emoção alguma. Selecionar uma frase que represente teu propósito é bastante simples — por exemplo, para conseguir o amor de alguém: "Que X caia de amores por mim". Como no caso da visualização, repita amiúde a frase nos dias anteriores ao trabalho, novamente sem emoção.

      As técnicas da magia hermética têm como objetivo fazer surgir a partir do teu interior uma frenética força que possa ser controlada. Uma poderosa onda de energia física e emocional. Esta energia é direcionada pela visualização à vibração da frase escolhida.

      Teu objetivo durante um trabalho deve ser perder, quase por completo, o controle de ti mesmo, por meio de uma emoção apropriada para o tipo de trabalho (porém isto não é aplicável, por exemplo, à magia interna e à maioria das técnicas curativas herméticas). Deixa que o movimento de teu corpo ajude a sacar esta energia de ti — e não tenhas medo de rir, chorar, ou berrar durante o trabalho.

      Um trabalho deve deixar-te exausto tanto física como mentalmente. Se não for assim, é porque não aplicaste nele esforço suficiente. Prepara bem de antemão teu trabalho: Reune os materiais necessários, encontra um espaço apropriado, prepara a área selecionada. Sinta antecipadamente tanto o prazer do trabalho como o poder mágico que vais provocar e controlar. Tenta manter-te em um estado de ânimo expectante e excitado pensando no dia do ritual, porque isto incrementará o poder do trabalho. Não te preocupes com seu êxito: deves crer que vais se sair bem, que tua vontade, por meio da magia, controla tua própria vida. Sinta o poderoso Destino do mago — é muito útil fazê-lo nos dias anteriores ao trabalho, se queres desempenhar conscientemente o papel de feiticeiro(a). Rodeia-te de objetos de interesse mágico, queima incenso em tua casa, carrega algo que sintas que é mágico, vista-te de determinada maneira (por exemplo, todo de preto). Corta uma vara de avelaneira e grava nela símbolos mágicos. Escolhe um nome mágico para ti e grava esse nome na madeira.

      Se assim te preparaste, estarás pronto para iniciar o trabalho e disposto para desatar o poder atávico que há dentro de ti.

© Ordem dos Nove Ângulos: NAOS: A Practical Guide to Modern Magick. Apêndice V.

Outra Rachadura na Parede Por Phil Hine

image
(Traduzido por Lizza Bathory a partir da tradução espanhola de Shaagar Snekersson de Condensed Chaos)

      Uma das características-chave da abordagem contemporânea da magia é o uso e exploração de técnicas práticas, cujo objetivo é provocar mudanças na percepção e atitude e ampliar nossas possibilidades de ação. Isto requer o desenvolvimento das competências e habilidades que formam a base de um trabalho mais avançado. O velho ditado de que “não podes correr antes que possas caminhar” é particularmente apto no que concerne à magia, onde é necessário ser capaz de desenvolver anteriormente determinadas técnicas para que possas fazer um uso mais eficaz de técnicas que assim exijam. Um exemplo bem básico disto é algo tão simples como permanecer sentado sem mover-se. Se és incapaz de sentar-te e ficar quieto e em silêncio, não terás muito êxito com nenhuna técnica mágica que exija, no mínimo, que te sentes e permaneça quieto. Muitos exercícios elementares de "treinamento" básico parecem triviais ou entediantes. A maior parte de nós provavelmente preferiria fazer algo mais estimulante e diferente do que sentar-se em uma postura estranha sem nada fazer. De certo modo, parte da motivação principal de tais exercícios é que sejam chatos ou aparentemente difíceis. Tais exercícios são um modo de provar os limites de tua Realidade Alcançável. Tu estás desafiando tua resistência inerente à possibilidade de mudança e ampliando as rachaduras na fachada da realidade fundamental.

D.R.A.T.

      As chaves para converter-se em mago são relativamente simples. Tão simples, de fato, que as pessoas tendem a descartá-las na busca por complexos sistemas de crenças e abstrações. Um exemplo de tal simplicidade é a fórmula DRAT para passar à ação:

      D – Disciplina
      R – Relaxamento
      A – Atenção
      T – Transformação

      Sem disciplina não aprenderíamos. Sem disciplina provavelmente não nos levantaríamos da cama pela manhã. Necessitamos de disciplina para vencer nosso maior adversário mágico – a inércia, que tende a aparecer na forma de vozes que influenciam nossa atitude argumentando que o que pode ser feito agora pode facilmente ser deixado para amanhã. Contudo, enquanto um pouco de disciplina nos ajuda a impulsar-nos para frente, demasiada disciplina pode nos conduzir à inércia, em especial se os objetivos que estabelecemos não são realistas. De modo que a disciplina requer Relaxamento, para ser bem utilizada. É possível estar relaxado e disciplinado simultaneamente. Para que a disciplina seja eficaz, precisamos estar relaxados e envolvidos. Se temos que sermos disciplinados e estarmos relaxados, então também necessitamos estar atentos. A atenção é uma habilidade. É difícil estar atento ao que ocorre ao nosso redor; é difícil estar atento a nossas próprias sensações corporais, hábitos de conduta e atitudes. É bem difícil estar atento a muitas coisas simultaneamente. Isto exige Disciplina e Relaxamento. A Transformação é a síntese e o resultado das outras três qualidades. Se somos disciplinados, então nos transformamos. Se estamos relaxados, nos transformamos, e se estamos atentos, nos transformamos. A Transformação exige Disciplina, Relaxamento e Atenção.

      A DRAT pode ser aplicada em uma ampla variedade de situações vitais, porém é especialmente útil ao aprender novas competências e habilidades que requerem prática e repetição. Uma boa parte do treinamento mágico é a aprendizagem de novas atitudes e habilidades que a princípio são aplicadas dentro do espaço ritualístico. De qualquer forma, é uma limitação ser competente e ter confiança somente dentro deste espaço. O truque está em ser capaz de aplicar estas habilidades e técnicas em áreas cada vez mais amplas da própria experiência, até que a magia não seja somente algo que tu fazes ocasionalmente, e sim um conjunto de princípios para tratar com o mundo pelo qual te moves.

Treinamento Corpo-mente

      O relaxamento é em si mesmo um bom ponto de partida para o treinamento mágico, porque junto a este, tens que ser consciente de teu corpo. Há uma grande tendência a olvidar o corpo e viver "dentro" dos próprios pensamentos, até um nível no qual parece que o corpo é algo que carrega nossas mentes de um lugar para outro. As abordagens ocidentais da magia, durante as últimas décadas, têm se tornado muito cerebrais e abstratas. O relaxamento é um bom contra-exercício para isto. Aprender esta habilidade pode ser considerado como o principio da Bruxaria – como um ato de desejar uma mudança na própria realidade. A técnica de relaxamento está em unificar o pensamento, a respiração e a ação. Em um nível bastante prático exige que entendamos a relação entre os pensamentos, os sentimentos e as mudanças fisiológicas no corpo.

      Com o passar dos dias tendemos a experimentar tensões de diversos tipos. Nossas respostas às mesmas são bem individuais – algumas pessoas desfrutam níveis de estresse que outros achariam difíceis de assimilar. Nossa capacidade para lidar com os fatores estressantes muda de acordo com as flutuações do ambiente. Os fatores de estresse são acumulativos, e a reação geral à sua sobrecarga é desencadear a resposta de combate: o fígado libera na corrente sanguínea a glicose armazenada, o coração bombeia mais rápido, os músculos se preparam para a ação e o sistema digestivo se fecha. Se o corpo está ativado para o combate, porém não há nenhuma possibilidade de resolução física ou psicológica, isso pode desencadear problemas crônicos. Por exemplo, a tensão muscular pode dar origem a dores e cefaleia. Um problema adicional é que, amiúde, não modificamos nossas expectativas acerca do que, de um modo realista, podemos conseguir, inclusive quando é necessário operarmos acima de nossas possibilidades. Isto é conhecido como Dissonância do Rendimento. Há uma brecha entre o que pensamos que podemos fazer e o que realmente pode ser feito. A luta para alcançar expectativas irreais reforça os sentimentos de ansiedade e baixa auto-estima, o que, por conseguinte, causa mais estresse no Corpo-Mente.

      Para ser capaz de relaxar de um modo eficaz, a capacidade de identificar os sintomas do estresse é necessária. Em segundo lugar, tens que examinar teus hábitos e atitudes e perguntar a ti mesmo se estes, mais provavelmente, reduzem ou aumentam o estresse. Deves estar preparado para mudar alguns fatores em teu entorno, no teu estilo de vida e em teus hábitos. Deves também estar preparado para aceitar que alguns fatores estão além de teu controle e devem ser tratados com outras abordagens.

      A ansiedade tem três componentes inter-relacionados que formam um loop de ansiedade. Em primeiro lugar, os fatores de Estresse fazem surgir a excitação fisiológica. (Pensamento: “Oh não! Me enfado de verdade quando isto ocorre”). Em segundo lugar, esta excitação é interpretada como ansiedade. (Pensamento “É como pensei! Tenho ansiedade!"). Em terceiro lugar, a identificação da excitação fisiológica como ansiedade desencadeia Auto-Afirmações Negativas (“Vou desmaiar/adoecer/fazer um barraco”). O que, consequentemente, leva a mais estresse.

      Então, como posso romper este ciclo de ansiedade? Novamente, um relaxamento eficaz requer três componentes. Em primeiro lugar, está o físico. Deve-se aprender a respirar de forma profunda e facilmente aplicar as técnicas de respiração simples da meditação básica é excelente, dado que são padrões de relaxamento muscular. Em segundo lugar, está o elemento Cognitivo. Este se relaciona com os pensamentos e sentimentos que surgem a partir das mudanças fisiológicas. É necessário ser capaz de identificar estes pensamentos habituais e alterá-los. Muito se tem escrito nos movimentos new age acerca da auto-sugestão e do "pensamento positivo", e estes elementos não devem ser descartados. É demasiado comum, entre nós, invocar deliberadamente a ansiedade através da visualização de uma situação potencialmente estressante e antecipar tudo aquilo que pode horrivelmente dar errado, preparando-nos assim para uma situação através da preocupação com ela. A assertividade reduz o estresse. Assim, ao antecipar uma situação potencialmente difícil, é mais efetivo visualizar-te fazendo uma avaliação otimista da situação, tentando encontrar abordagens adequadas e considerando possíveis alternativas. Atuar ou ensaiar por meio da visualização tende a fazer do real menos impressionante. Em terceiro lugar, está o elemento Comportamental. As formas como respondemos a situações estressantes são amiúde inadequadas ou inapropriadas. Ser capaz de relaxar significa usar tal habilidade em uma ampla variedade de situações, e também avaliar outras condutas e mudá-las. Um bom exemplo de modificação comportamental é conscientizar-se das tensões desnecessárias e eliminá-las. Os passos para relaxar descritos anteriormente têm muito em comum com outras habilidades mais "mágicas". Como técnica mágica essencial, o relaxamento versa principalmente sobre apresentar uma “alteração de acordo com a Vontade”, inclusive tal mudança aparentemente básica pode ter ramificações mais amplas. A relevância do Relaxamento para a magia já foi tratada em relação à Confiança. Também é bastante relevante para a prática da Bruxaria. Treinar o Relaxamento Consciente do Corpo demonstra quanto de nossa experiência corporal bloqueamos da consciência. Como exercício simples para ampliar a percepção corporal, tente focar tua atenção em distintas áreas de teu corpo. É muito fácil começar tal exercício quando estás completamente relaxado – focando a atenção nas pontas dos dedos das mãos ou dos pés. Podes também tentar este exercício em qualquer lugar. Se, por exemplo, estás levantado e muito consciente de teus doloridos pés, tente mover tua atenção para tua axila ou para a parte posterior de teus joelhos. Podes ampliar este exercício tratando de pôr tua atenção em tuas costas ou na superfície corporal tanto quanto seja possível.

Alterações Posturais

      Examina como tua postura te faz sentir. Andas encurvado, agachado, te contorces amiúde? Tente diferentes modos de caminhar: presunçoso, informal, maníaco, sexy. Aplique o conhecimento que obteves com tua prática mágica. Também, te conscientize dos padrões que adotas ao sentar-te. Seja consciente de tua própria linguagem corporal em relação à de outras pessoas. Observa se podes descobrir teus próprios hábitos posturais, e depois tente outros. Conduz isto a alguma mudança em tua conduta? Trata de adotar a linguagem corporal que sentes apropriada para as qualidades que desejas desenvolver. Também é útil estar atento a como respondem outras pessoas a tais mudanças posturais. Como uma evolução deste exercício, mantenha tua postura reta e relaxada (não é fácil – tente com o tai-chi ou a Técnica Alexander se tiveres dificuldades). Depois tente avançar para diferentes partes do corpo. Não as projetes, simplemente imagine que estás sendo estirado pela parte em questão. Para isto podes tentar com o quadril, o ventre, o peito, o nariz e a testa. Olvida tudo o que tenhas lido sobre os chakras e examina tuas próprias sensações.

Tornar Fácil

      Como uma extensão do treino do relaxamento, examine qualquer ação que realizes, não importa quão simples ela seja, e encontre a maneira mais fácil de fazê-la. Aplique este método às ações cotidianas – vestir-se, desvestir-se, pegar objetos, realizar tarefas rotineiras. Te encontrarás gastando muito menos energia, estando consciente do que estás fazendo, em vez de "apressar-te" em uma tarefa enquanto teus pensamentos se projetam até um futuro além da mesma. Quando tocares algo, ponha atenção na escova que são teus dedos sobre isso, sinta o objeto através de teus dedos e mova-o com a quantidade adequada de energia. Observe os objetos com uma apreciação justa e visualize o que queres fazer com eles, falando a maneira mais fácil de realizar isto.

      Tornar Fácil os exercícios demonstra como classificamos as tarefas em entediantes ou rotineiras, atos com os quais vamos tropeçando enquanto nos projetamos até um futuro mais interessante. Direcione tua atenção até ações que habitualmente pensamos que não valem a pena considerar: abrir uma porta, pegar um copo, cortar pão. Há uma maneira Fácil de Fazer todas e cada uma das coisas. Habitualmente não estamos conscientes da realização das tarefas simples até que ocorra algo que nos atrapalhe. Como a perda de um braço afetaria a tua vida diária?

Mover-se no Tempo

      Embora experimentemos o Tempo como uma dimensão separada, este é na verdade um subproduto da Consciência. Estamos movendo-nos constantemente para trás e adiante em termos de passado experimentado (memória) e futuros antecipados (fantasia). Ainda que grande parte da prática mágica tenha a ver com a capacidade de permanecer no presente imediato, também é útil ser capaz de fazer uso de nossos Passados e Futuros pessoais.

      Recorde momentos significativos, sinta a nostalgia ou reviva fatos passados que desencadearam emoções e mudanças psicológicas. Fazer isto requer a habilidade de montar uma sinergia de memórias sensoriais. Por exemplo, traga de novo à memória um/a antigo/a amante. Rememore um momento de contato visual e sinta a impressão que a excitação deixou em ti. Recorde a excitação de uma carícia, o espírito de uma voz, o palpitar de teu coração. Permita que teus sentidos se intensifiquem e conscientize-se das sensações corporais. Esta "evocação" da emoção por meio da memória tem inúmeras aplicações. Por exemplo, se tens um "assunto inacabado" com alguém de teu passado, podes evocá-lo e iniciar um diálogo. Outro uso desta técnica é trazer à tona uma emoção intensa e depois permitir que o que a tenha motivado vá se diluindo, enquanto intensifica a emoção, de modo que liberte-se de identificações prévias. Esta emoção "livre" pode ser usada para atos mágicos posteriores. Nos movemos adiante no tempo usando a fantasia, antecipando e ensaiando situações de acordo com a emoção e a expetativa. Se estás deprimido, então tenderás a deslizar-te até um futuro onde todos teus medos e o temor de um desfecho negativo das questões, tenham proeminência. A fantasia se converte em uma maneira de realimentação seletiva, reforçando e refletindo pensamentos até que nos "convençamos" da momentânea "correção" de um problema. De modo similar, criamos fantasias que efetivamente criam uma visão de um cenário "futuro" para o qual estamos nos movendo, porém isto está sempre, de um modo ou de outro, fora de alcance. No que concerne aos sistemas de valores ocultistas, esta tendência se manifesta em termos como New Age, a era de Aquário, o Æon de Hórus, o Caos, Bugs Bunny ou quem/o que desejes. Sempre que há uma projeção de futuro idealizada pela a qual estamos nos esforçando, esta permanecerá fora de alcance. A Grande Obra Mágica é a deformação do futuro até o presente imediato; o mago capta a realidade e vive o agora, livre das amarras de seu passado, e sabendo que o futuro é a manifestação de sua Vontade.

      Explorar e entender a própria relação com o Tempo é um requisito básico para a prática mágica. Num nível básico, isto implica a observação das mudanças na atenção e na percepção de acordo com os ciclos sazonais e diários. Tendemos a pensar em nós mesmos como imutáveis, apesar da hora do dia ou da estação do ano, porém estes elementos podem ter efeitos sutis em nós. Observa, comprende e faz o melhor uso possível das flutuações em tua percepção. Não há um único e objetivo Tempo que "esteja lá" aparte de nós, e subjacendo em nossa experiência "natural", há ocultas profundezas de complexidade e ambiguidade.

Diários Adicionais

      Como complemento ao diário mágico experimente um registro dividido em quatro colunas. Na primeira coluna registre os elementos físicos da tua jornada ou da situação. Na segunda, qualquer recordação que surja durante este tempo. Na terceira coluna, qualquer fragmento de alguma leitura/frase de um livro, periódico ou anúncio e, na quarta, qualquer fragmento de conversação que tenhas ouvido. Esta prática demostrará as conexões não-lineares que amiúde deixamos de dar atenção.

Sombras de Percepção

      Uma vez que comeces a observar por trás das cenas da experiência "normal", não há como parar. Assim como tendemos a experimentar o Tempo como uma dimensão objetiva, tendemos a pensar na percepção como algo passivo, uma ponte entre o "Eu" interno e o mundo exterior. A percepção é dinâmica; flutua e muda de acordo com o humor, o ambiente e o conhecimento. Há duas abordagens básicas para explorar a percepção, que devem ser caracterizados como estreitamento e alargamento.

Realçamento Sensorial

      A primeira abordagem envolve a exploração de cada modalidade sensorial de forma alternativa. Concentração em um Objeto é a capacidade de manter a vista fixa em um determinado objeto durante longos períodos de tempo. Alguma eficácia na Visualização é uma exigência básica para a prática mágica. Comece com formas simples e amplie para cenas mais detalhadas. Explora tua relação com as cores. Por exemplo, sei que vivo em um universo radicalmente diferente ao da maioria de meus congêneres dado que vejo as cores de um modo diferente. O sentido do olfato também desempenha um papel básico na magia. O olfato é uma linha direta para a memória e a associação. Observa como o odor evoca lembranças e construa tuas próprias associações entre perfumes, emoções e sistemas simbólicos para seu uso em experiências orquestradas. Expanda tua capacidade de ouvir sons focando em diferentes elementos sonoros. Passe uma semana escutando o timbre das vozes das pessoas. Há diferença entre o que as pessoas disseram e como disseram? Explore o sentido do tato tomando consciência de todos os objetos e tecidos. Explore as superfícies com teus olhos fechados. Em vez de ler ou falar enquanto comes, deixe que o sabor da comida ocupe tua atenção. Coma uma rodela de limão e um par de dias depois, evoque a recordação desse ato.

      Há numerosos programas mágicos de exercícios feitos para explorar alternativamente os sentidos, porém é mais fácil e divertido fazer os teus.

Gestalts Perceptivas

      Embora tendamos a isolar cada estímulo sensorial, nossa experiência real é a de uma Gestalt (totalidade). Estou escrevendo esta frase, comendo um cookie, consciente da cadeira contra meu corpo, escutando o passar dos veículos através da janela e sentindo a temperatura da sala. Ainda que a imaginação, como faculdade, tenda a ser tratada como principalmente visual, também podemos evocar propriocepções (pressão, temperatura), ações cinestésicas (orientação do corpo no espaço), odores, sons e sabores. Se, por exemplo, desejas imaginar-te remando na água, poderias montar uma gestalt perceptiva que, combine tua visualização da cena com a sensação dos pés na água, o movimento da água contra as pernas, o odor apropriado, a sensação do sol sobre tuas costas e uma trilha sonora.

      Montar e, portanto, criar tais cenas forma a base do que se conhece como Trabalho do Caminho (Pathwork). Desta forma, o mago constrói uma narrativa com um subtexto mítico ou instrutivo no qual adentra, identificando-se com a experiência até o ponto em que se converte em algo pessoalmente significativo. A montagem das imagens pode ser feita conscientemente ou pode ocorrer espontaneamente, dado que a mente tem a surpreendente capacidade de construir cenas complexas usando pouquíssima informação.

      Há, em geral, três tipos de Trabalho do Caminho: Estruturados, Semi-estruturados e Não-estruturados. Um exemplo do primeiro tipo pode ser visto no Capítulo Sete. Estes Trabalhos são narrativas completas, abordando pistas perceptivas, emocionais e comportamentais, que o usuário simplemente tem que seguir de maneira passiva. Estes Trabalhos do Caminho são especialmente úteis como exercícios de treinamento, em particular quando estás começando a trabalhar com um sistema de crenças que não te é familiar. São úteis se são gravados em uma fita de áudio ou, como é mais habitual, se são lidos por outra pessoa.

      Os Trabalhos do Caminho Semi-estruturados têm menos detalhes. Tendem a começar com uma "sequência de início" que estabelece o lugar (ou zona) a ser explorado, e por qual sentido estás ali, após o mesmo te deixar à tua própria vontade. Por exemplo, o narrador te conduz a um castelo estranho, dando-te pistas perceptivas suficientes para construir o entorno e depois te diz que deves buscar alguém que te dará uma chave para teu próprio poder mágico. Após o qual podes prosseguir como desejar. Esta abordagem te dá mais liberdade de movimento e criatividade no exercício.

      Os Trabalhos do Caminho Não-Estruturados ou espontâneos podem consistir em uma única imagem tridimensional, tal como uma carta de tarot, uma runa ou um hexagrama do I Ching. A ideia é usar o símbolo ou imagem como um portal ou entrada, e projetar-te através deste até a mítica paisagem que há além.

      No que podem ser usados os Trabalhos do Caminho? Fora o treinamento e a familiarização com um sistema de crenças, um de seus usos básicos é colocar-te em uma situação que desencadeia em ti reações cognitivas e emocionais quando chegas ao nível de identificar-te por completo com o que está ocorrendo. Um Trabalho do Caminho no qual morres, és enterrado e passas pelos diferentes estados de composição, te recordará, se é que não desencadeará algo mais, a inevitabilidade da morte, e talvez te ajude a trabalhar com teu medo da morte. Os Trabalhos do Caminho também podem ser projetados com "áreas livres" para realizar scrying, falar com entidades ou realizar feitiços.

Memória Cinestésica

      A consciência de nossa orientação no espaço e como nossos movimentos musculares se combinam ao realizar ações podem ser usadas para elevar a consciência do que geralmente se chama Corpo de Luz, Corpo Astral ou Duplo. Levanta teu braço esquerdo lentamente, estando consciente das alterações nos músculos, a débil resistência do ar e o movimento das articulações e ossos. Faça isso algumas vezes e depois evoque vividamente as sensações, enquanto imaginas que estás levantando esse braço. Teste isto até que consigas experimentar a elevação de teu braço esquerdo cinestético tão vividamente como o real. Se continuares experimentando esta prática com uma gama de movimentos e orientações corporais acabarás vendo que podes mover-te livremente com este corpo. O Duplo tem uma grande quantidade de aplicações mágicas. Pode ser usado para "ensaiar" tarefas ou situações potencialmente difíceis (como uma extensão ao relaxamento e ao Tornar Fácil). Também pode ser usado na mudança de forma e na invocação (ver Capítulo Oito) e também na exploração de sonhos e transes liminares.

O Templo Astral

      Construir um templo astral combina elementos de gestalts perceptivas e o uso de memória Cinestética. O templo astral é onde "vais", usando tua imaginação, para realizar atos mágicos. As descrições tradicionais dos templos astrais fazem muito uso de simbolismo hermético e quase maçônico, porém não há motivo que o impeça de desenvolver teu próprio templo usando o simbolismo e as ideias de base que sintas que são as mais apropriadas, como uma zona de ciberespaço, uma estação espacial ou um arranha-céu. O templo astral pode ser usado em todos os trabalhos de magia que normalmente realizarias no "físico", e como ponto de início para a exploração de mundos e paisagens interiores. Este é um reino onde o único limite é a extensão de tua imaginação. Com prática podes construir associações emocionais de modo que, quando entres nele, te acalmes, relaxes e te sintas no ápice do poder.

A Câmara Estrelar

      A Câmara Estrelar é uma esfera de cristal transparente suspendida nas profundezas do espaço. Suas dimensões podem ser ampliadas para adaptar-se a diversas necessidades. Para entrar na Câmera Estrelar, visualize a estrela do caos (caosfera) de oito raios girando em frente a ti, de modo que ela se converta em um vórtice giratório, que te levará até a câmara. No centro da mesma há um pilar cristalino que chega à altura da cintura. Se colocas tuas mãos sobre o pilar, a câmara brilha com um breve flash de luz púrpura e assim tens pleno controle de suas funções. A Câmara Estrelar é tanto um templo astral como um veículo para viajar através do multiverso. Podes mover-te até qualquer ponto no espaço-tempo pondo tuas mãos sobre o pilar de controle e estabelecendo tua vontade. Também podes extrair diversos dispositivos das paredes da câmara para realizar diversas tarefas – globos de scriying, gerar Servidores, estranhos projetores de energia para a projeção de desejos, ou defletores e coletores para acumular a radiação de buracos negros.

Transe e Percepção

      Entramos e saimos de diferentes graus de percepção continuamente ao longo do dia: sonhar desperto, fantasiar, concentrar-se em uma tarefa difícil, escutar música, estar tão absorto em uma situação que os sons de fundo desaparecem. Quando falamos sobre entrar em transe, estamos nos referindo a um ato deliberado ou intencional com a finalidade de alterar a percepção de acordo com parâmetros específicos. Na Sociedade Ocidental moderna tendemos a ter uma noção muito rígida sobre o que constituí um estado de transe – tendemos a pensar em alguém passivo, com os olhos fechados, lânguido ou não consciente de seu entorno. Tendemos a pensar em pessoas hipnotizadas (a palavra hipnose deriva de Hypnos – Deus grego do sono) como inativas, aguardando instruções. O termo "transe" é entendido amiúde como um estado de absorção tão profundo que toma a consciência da pessoa por completo. A capacidade de entrar e prolongar tais estados à vontade é um dos requisitos primordiais da vida mágica.

      Há muitas formas de alcançar o transe, a maioria das quais podem ser classificadas como técnicas Excitatórias ou Inibitórias. As Excitatórias – como a hiperventilação, dançar, cantar, tocar tambor ou qualquer outra estimulação intensa – quando se prolongam, proporcionam diversos efeitos fisiológicos e capacitam o mago a conseguir picos de êxtase nos quais a consciência de qualquer outra coisa que se pode ter na mente desaparece. É em tais momentos que os feitiços devem ser lançados e a essência de um deus, ou até mesmo crenças incrustadas na Mente Profunda (inconsciente), pode tomar forma e voz. As técnicas inibitórias servem para silenciar o diálogo interno, confundem o sentido linear de tempo e alteram os limites da noção de ego através da privação sensorial, privação de sono, jejum ou respiração lenta e rítmica. Todas estas técnicas têm diferentes efeitos fisiológicos e demonstram que a consciência física é uma necessidade essencial na magia. Um problema que adquirimos a partir de nossa cultura é que tendemos a ser demasiadamente “orientados por nossa cabeça" – detidos pelos contínuos comentários de diálogo interno e as palavras e imagens do Hiper-real. Neste sentido, uma personalidade estável se mantém por meio das transações, reais ou imaginárias, com outros. Desloca-te até algum lugar isolado e o eu se tornará mais maleável – outra clássica tática mágica para entrar em estados de transe. A personalidade que adquirimos estabelece os limites do que podemos ou não fazer. Amiúde, através de estados de transe, sejam intencionais ou não, podemos realizar proezas ou tarefas que estão normalmente fora do repertório normal. Se a consciência auto-referencial é congelada por meio de uma comoção, ou a distraímos, o corpo parece tomar o controle, movendo-nos para fugir do perigo. Nos agrada pensar em nós mesmos como estando "no controle" de nossos corpos. Isto é em si um problema, já que "deixar-se ir" e desinibir-se (especialmente em um trabalho em grupo) é muito difícil para alguns de nós – deixar tudo de lado é, em geral, algo que causa desaprovação. Noutras culturas, de qualquer maneira, a desinibição é aprovada e é sinal de um evento afortunado. Aqui está a descrição de Luciano de uma Sacerdotisa de Delfos entrando em transe:

      "Avançada tropeçando freneticamente ao redor do santuário, com o deus montado na nuca, golpeando-se com os tripés em seu caminho. Eriçou o couro cabeludo e, quando sacudiu a cabeça contra as colunas, as grinaldas foram de encontro ao solo desnudo… sua boca espumava com frenesi; grunhia, ofegava, pronunciava estranhos sons, fazendo seus lúgubres gritos ressoarem na enorme caverna. No fim, Apolo a forçou a uma fala inteligível."

      Entrar em transe não é sempre uma experiência prazerosa, especialmente nos estados de transe que implicam possessão. A sensação de que algo está usando teus membros e de que tua voz não te pertence é muito estranha. A tendência natural, especialmente para os ocidentais, é resistir à experiência, inclusive quando o espírito entrante é benévolo. Geralmente, a pessoa possuída não tem recordações ou consciência do que lhe ocorreu. Os magos têm, ao longo de eras, recorrido a drogas, a intenso esforço físico ou a longos rituais para anular temporariamente a personalidade, tornando a possessão mais fácil.

Para Que Entrar em Estados de Transe?

      Aqui há umas boas razões:

      1) Conhecimento (que não se pode obter de outras maneiras). Isto abarca desde perguntar à tia Freda como é o outro lado, a até formular uma pergunta específica acerca das ervas a um determinado espírito de cura. Isto pode às vezes envolver viagens a determinadas partes dos mundos interiores para consultar uma entidade específica.

      2) Melhora das Habilidades. Ser possuído por um deus da guerra melhora a eficácia marcial ou a autoridade sobre outros espíritos. Por exemplo, tive uma cliente que apresentava um recorrente problema na garganta. A examinei sob um ligeiro transe de "visão" e vi uma criatura parecida com um sapo que havia inchado e se hospedado em sua garganta. De modo algum ela ia sair voluntariamente. Meus guias me aconselharam (novamente sob transe) que a única entidade à qual o espírito respeitaria seria um sapo ainda maior, de modo que realizamos uma cerimônia de cura durante a qual fui possuído por um espírito-sapo, com o objetivo de interagir com o da garganta de minha cliente.

      3) Êxtase Comunal. O mago aborda uma tarefa muito importante para a tribo ou comunidade – mediar entre o mundo cotidiano e o mundo, maior-que-a-vida, o mito e a sabedoria popular. O mago se envolve, ou permite a outros que o façam, na sagrada participação mítica atuando como o guia – navegando as sendas secretas da cosmologia da comunidade. Isto reflete uma das maiores armadilhas na hora de assumir papéis mágicos em nossa cultura – o fato de que a sociedade ocidental tem um repertório extremadamente complexo de imagens míticas para usar, isto não deve fazer com que os mundos mágicos interiores sejam menosprezados. Por exemplo, um xamã Tamang do Tibete participa de um mundo mítico compartilhado com outros membros da comunidade – sua história, mito e relatos acumulados –, atualizado e intensificado por anos de treinamento, visões e ritos. Isto contrasta com o mundo mítico ao alcance de alguém na Grã-Bretanha moderna – uma Ilha que tem sido durante séculos um caldeirão de diferentes culturas, com as armas eletrônicas do videodrome fornecendo informação de todos os cantos do planeta, tanto através da distância como do tempo. É possível para alguns ter uma boa compreensão a nivel acadêmico das crenças xamânicas Tamang, sem mencionar a ficção científica, a fantasia, a mitologia, a educação e a miríade de modos de expressar as ocupações espirituais. Além disto, a sociedade moderna há tendido a ceder o reino do mítico aos profissionais: terapeutas, artistas, filósofos – e estamos em grande parte apartados da participação no mundo mítico, exceto (frequentemente) nas rotas de escape aprovadas e desinfectadas que apoiam a realidade consensual, inclusive oferecendo a ilusão de opor-se a ela. De qualquer forma, tudo isto conduz a uma vida mítica bastante complicada. Afortunadamente, algumas imagens e processos míticos, tais como a Viagem ao Submundo são bastante universais. Outras, de qualquer maneira, "perdem-se" ao serem olvidadas ou mutiladas as rotas que conduzem à sua experimentação/compreensão. Confiamos tanto na "luz diurna de segunda mão" – ler e observar a experiência de outra pessoa – que a transmissão oral do conhecimento é comparativamente rara. O primeiro Coven de Bruxas no qual estive envolvido estabeleceu um bom padrão – quando a sacerdotisa queria transmitir a "sensação" da magia, íamos a um espaço aberto – um parque, uma rua iluminada pela lua ou à beira do mar. A experiência física, direta, especialmente quando estás acompanhado por um guia que não vá ferrar-te, é sempre melhor que estar sentado dentro de casa lendo um livro! De qualquer forma, estou divagando.

      4) Conectividade. Isto está relacionado com a realização de conexões – descobrindo ligações entre diferentes ideias e elementos; fazendo um salto criativo que aflora um fluxo de novas ideias e entusiasmo. Amiúde entro em transe para superar o bloqueio na escrita – deixando com que fragmentos de conversação, poesia ou imagens deslizem através de meu olho interior. Algo emana a partir das ideias e conexões, saltando como aparas metálicas em direção a um ímã.

      5) Demonstração de Habilidade. Em nossa cultura, tu podes ser capaz de afugentar, como mago, pessoas impressionáveis por ter investigado as obras completas de Aleister Crowley (que façanha!). Aos aspirantes a mago não obstante, pode ser requerido que entrem em estados de transe como demonstração de sua eficiência. É bastante comum para os espíritos pôr-te à prova submetendo-te a uma pressão psíquica extrema, de modo que a experiência se converta em uma versão compacta da iniciação ao submundo. Alguns espíritos, demônios e deidades não pouparão esforços para confundir-te, cedendo sua sabedoria somente quando tiveres provado estar à altura da tarefa. Os espíritos dos psicotrópicos estão especialmente inclinados a este tipo de comportamento.

      Não podes converter-te em mago isolando-te de todos os demais, embora sejam necessários períodos de isolamento deliberado de vez em quando. Ademais, não há muitos instrutores de magia vagando por aí (não ao menos sem que te empenhes em uma ronda interminável de seminários de fins de semana), de modo que terás de aprender com tudo e todos. É importante aprender a reconhecer o início de alterações na consciência e explorar todas as possíveis rotas de transe. Aprenda a confiar em tuas próprias sensações e em tua intuição, mais do que no diálogo interno ou no que pensas que “deverias” fazer.

      Novamente, estas técnicas servem para libertar a consciência das limitações da percepção linear e do tempo solar. Fixe-se em um espelho, observando teu reflexo até que o espelho se escureça e te sintas deslizar para dentro dele. No princípio pode parecer dolorosamente difícil devido ao desejo egóico de querer saber demais. A noção tempo terá passado. O ego necessita do sentido de tempo passando para manter-se compacto como uma entidade "fixa". Qualquer técnica que sirva para transtornar a consciência linear e o diálogo interno, conduzirá o mago a um estado chamado de Percepção Liminar.

      A percepção liminar é um estado fronteiriço da consciência. Uma rota a este estado perceptivo é o estado meio-desperto, meio-dormindo que geralmente surge a partir do esgotamento físico. As imagens ou os sons surgem na consciência, aparentemente de "qualquer parte", além da própria vontade. Uma técnica útil para ser eficiente em entrar neste estado é a scrying.

Scrying

      Scrying é uma técnica divinatória básica útil para explorar a percepção liminar. Ela pode ser realizada usando-se qualquer superficie refletora, como um espelho, preferivelmente uma superfície negra brilhante, ou uma tigela cheia de líquido negro. A scrying requer que sejas capaz de entrar em um ligeiro estado de transe onde as imagens surjam em tua mente, como devaneios, ou como as imagens que vês antes de cair no sono. O truque da scrying é tentar relaxar e deixar que qualquer imagem apareça diante de ti, observando fixamente o meio que estás usando, sem olhar com excessiva intensidade ou com demasiada concentração. Isto ocorre somente com a prática. A princípio deve bastar deixar que surjam imagens ao acaso, e mais tarde tentar responder questões específicas. A área na qual for a praticar deve estar tenuamente iluminada, e as luzes (velas são excelentes, sendo menos agressivas que as luzes elétricas) devem estar localizadas de modo que não sejam refletidas no meio de divinação escolhido. O incenso também pode ser útil, em particular as resinas e óleos que atuam como relaxantes. Podes achar útil realizar um exercício de meditação ou relaxamento antes de tentar a scrying. Técnicas divinatórias como esta ajudam a desenvolver as faculdades psíquicas e intuitivas, e o truque de relaxar e deixar que as imagens surjam em tua mente é também uma chave para outras habilidades como a psicometria e a leitura de aura. Uma vez que tenha experimentado o método básico, a prática regular te ajudará a desenvolver novos métodos. A observação de espelhos e cristais é uma potente tradição mágica, sendo encontrada nas culturas xamânicas das Américas até a África, Europa medieval e Grécia Antiga. Os espelhos e cristais não foram usados somente para adivinhar o futuro, e sim como meio de comunicação com os espíritos ancestrais. Ocasionalmente alguém vê cenas ou entidades saindo da superfície refletora e misturando-se com o entorno.

Sonho Dinâmico

      Explorar as possibilidades do Sonho Mágico é uma maneira poderosa e eficaz de apartar-se da consciência linear e permitir a magia dentro de tua vida. Os futuros magos podem inclusive serem identificados pela virtude do conteúdo de seus sonhos e não é incomum que conversem com seus guias nos sonhos. Tendemos a pensar neles como um aspecto muito pessoal de nossa experiência, de modo que a vezes é desconcertante quando alguém que conhecemos aparece em nossos sonhos. Neles, o tempo histórico é abolido e a distância não importa. Podemos ser testemunhas de fatos do passado, futuro ou presentes alternativos.

      Os sonhos são um ponto de partida útil para penetrar nos mundos internos. Pode ser adequado para induzir sonhos proféticos ou encontros com espíritos de modo que possas discutir algum problema. Uma amiga minha que faz incensos e perfumes conta que ocasionalmente sonha com um único odor, o qual, ao despertar, pode analisar e manufaturar. O artista mágico Austin Osman Spare escreveu que, às vezes, ao despertar encontrava-se plantado em frente a uma pintura acabada, tendo a desenhado enquanto dormia.

Mantendo um Diário de Sonhos

      O primeiro passo para explorar a magia dos sonhos é manter um registro dos teus, que deve ser, se possível, atualizado assim que despertes. Ao longo do tempo isto melhora a capacidade de recordá-los com um detalhamento cada vez maior. É também muito valioso para comprovar o grau de confluência entre as imagens oníricas e a experiência de vigília. Ter um diário dos sonhos também te tornará capaz de identificar os símbolos recorrentes, as imagens e situações que aparecem em teus sonhos e que podem formar a base para a exploração voluntária de zonas astrais ou para a prática mágica enquanto desperto, baseada nas imagens dos sonhos.

Controle Básico dos Sonhos

      É extremamente fácil fazer com que o conteúdo dos sonhos se molde ao esperado. Pessoas que estão sendo submetidas à análise freudiana tendem a ter sonhos "freudianos", enquanto que aquelas que realizam psicoterapia junguiana tendem a experimentar sonhos junguianos. Tu podes optar por iniciar a experimentação com o Controle dos Sonhos estabelecendo um "tema" para os mesmos – como um determinado assunto, localização ou pessoa. Há várias abordagens diferentes para guiar intencionalmente o conteúdo dos sonhos. Em primeiro lugar, antes de dormir, realize um exercício de relaxamento e formule claramente a Declaração de Intenção em relação à tua experiência onírica. Por exemplo, “É minha vontade sonhar com meu pai”. Uma vez feito isto, podes permitir que tua mente "vague" até que durmas. Alternativamente, podes visualizar uma cena ou imagem enquanto adormece. Não há por que ser uma visualização intensa, apenas o objeto de tua atenção ao cair no sono.

      Uma terceira opção para obter o conteúdo onírico desejado é usar um sigilo gráfico ou mântrico, utilizando as técnicas citadas no Capítulo Cinco. Independentemente de técnica que uses, recordes que o objetivo não é impor tua vontade nos pedidos, e sim estar relaxado ao mesmo tempo que se formula a intenção.

Telepatia em Sonhos

      A possibilidade da transmissão de informação telepática nos sonhos tem sido o tema de uma boa quantidade de investigação parapsicológica, habitualmente na modalidade de um “transmissor” tratando de projetar algum tipo de informação para o sonhador. De qualquer forma, pode ocorrer de teres um sonho sobre alguém em uma situação específica, que este alguém experimente. Consequentemente, a única forma de saber se um sonho tem ou não conteúdo telepático é ir até à(s) pessoa(s) implicada(s) e comprovar se teu sonho tem algum significado para ela(s). Outra possibilidade é estabelecer um vínculo telepático entre ti e a outra pessoa por meio do olfato. Se duas pessoas usam uma determinada fragrância ou perfume, até o ponto em que o aroma evoca a imagem do outro, isso pode ser usado para criar um vínculo onírico. Se o aroma é inalado antes de dormir, enquanto se está relaxado, formulando a imagem da outra pessoa, e se faz uma Declaração de Intenções para o sonho, então é possível que a outra pessoa possa experimentar esse odor em seu sonho, e que fique mais receptiva à experiência telepática. Eu usei essa técnica em uma série de experimentos, onde uma namorada e eu descobrimos que podíamos despertar um ao outro num horário pré-estabelecido da noite, usando um aroma como "ativador" do sinal telepático.

Sonhos Compartilhados

      Um sonho compartilhado é um evento no qual duas ou mais pessoas experimentam o mesmo sonho ou elementos similares. Alternativamente, poderias sonhar contigo e outra pessoa, e mais tarde saber que a pessoa ou pessoas também sonharam que estavas contigo, talvez em um contexto diferente. Novamente, o único modo de validar isto é contando às pessoas implicadas. Tentar organizar grupos de sonhos compartilhados pode ser um exercício interessante, talvez usando um Trabalho do Caminho Semi-estruturado que abranja o ambiente básico com o qual os participantes possam mais tarde sonhar.

Sonhando com o Futuro

      Que os sonhos têm o poder de avisar-nos sobre o futuro é uma ideia antiga e os sonhos premonitórios tinham um importante papel nas civilizações antigas. Com base em um sonho, o destino de um país ou estado pode ser formado. Os sonhos sobre o futuro podem ser simbólicos, distorcidos ou até mesmo altamente detalhados e nítidos, porém amiúde é difícil distinguir de antemão os elementos importantes do mesmo. Há alguns anos, uns amigos meus decidiram empreender um experimento sobre sonhar com o futuro. Planejaram uma visita a uma cidade que nenhum deles havia visitado antes, e então trataram de sonhar com a visita. Um deles viu um gato de pescoço longo, porém não imaginava como isto poderia ser relevante. Quando finalmente visitaram a cidade, uma das primeiras coisas que viram após sair do carro foi uma antiga loja. Na vidraça havia um modelo de cristal de um gato de pescoço longo.

Sonhos Lúcidos

      A lucidez ao sonhar é o momento em que percebes que estás sonhando e já não continuas experimentando o sonho passivamente, e pode então alterá-lo/controlá-lo. Os momentos de lucidez podem ser ativados por meio de diferentes coisas. Por exemplo, uma vez sonhei que estava em uma casa na qual não vivia há uma década. O sonho era perfeito em cada detalhe, exceto que quando baixei a vista para meus pés, vi que usava um par de sapatos que já não possuía naquele momento. Esta incongruência me perturbou de modo que me dei conta de que estava sonhando. A lucidez também pode ser ativada por meio do reconhecimento de elementos oníricos. Não é incomum para os sonhadores, em geral, perceber que já haviam tido aquele sonho antes, recordando como ele se desenrola, e assim decidindo não experimentá-lo de novo. Tendemos a experimentar momentos ou flashes de lucidez nos sonhos, porém é possível, por conseguinte, ampliar esta habilidade, capacitando-te a dirigir o conteúdo do sonho com propósitos mágicos. A lucidez pode ser produzida usando a sugestão enquanto se está desperto ou, de um modo oblíquo, por meio de metaprogramar-se de forma que se apareça uma determinada imagem ou cena, isto a ativará, isto é, “Estarei lúcido no momento em que ver uma esfera amarela flutuando até mim”. A esfera pode ser controlada por outra pessoa, ou atuar como um Servidor (ver Capítulo Seis) projetado para ativar sonhos lúcidos. Pode ser gratificante abordar o sonhar de um ponto de vista não-ocidental, tal como o dos Senoi, aborígenes australasiáticos da Malásia. Alguns antropólogos crêem que a psicologia dos sonhos dos Senoi é a fonte da tranquilidade de suas vidas. Na primeira vez que foram contactados pelos ocidentais, nos anos 30, não tinham crimes violentos ou conflitos em sua comunidade há duzentos ou trezentos anos.

Axis Mundi

      O Axis Mundi é o ponto central que une todas as zonas de experiência e os estados de consciência. Ele possui muitas representações simbólicas tais como a Árvore do Mundo, a Montanha Sagrada, o Mastro (Falo) ou a Encruzilhada que são o centro do universo do mago. Não é em si um lugar, e sim uma questão de como te "localizas" em ti mesmo. Estar relaxado no presente significa que estás no centro de tua realidade mágica. O ato de centrar-te em ti pode tomar a forma de um elaborado ritual de banimento, ou um momento de não-mente no relaxamento antes de iniciar a tarefa. Os elementos principais desta centralização são simples:

      1. Prestar atenção em tua presença física.

      2. Estabelecer as entradas, pontos cardeais ou dimensões (de acordo com o esquema de representação que escolhas) nas quais estás teu centro.

      3. Auto-identificação com uma fonte de inspiração escolhida – mesclando o macrocosmos (experiência total) com o microcosmos (eu). Um exemplo de Ritual de Banimento ortodoxo é dado no Capítulo Seis. Os exercícios de centralização devem fazer surgir uma sensação de relaxamento e de estar preparado para a ação. Estes podem abarcar desde elaborados banimentos que são usados como preparação para um intenso ritual, a até simples exercícios que podem ser usados em qualquer lugar e em qualquer momento.

      O Axis Mundi também pode ser considerado o ponto de acesso a diferentes mundos internos da cosmologia mítica. Parece razoável supor que a Árvore da Vida cabalística evoluiu a partir da xamânica árvore do mundo. As encruzilhadas são outro símbolo do Axis Mundi, que aparecem nas mitologias celtas, gregas e haitianas. Os mundos internos estão povoados por uma multidão espíritos, demônios e antepassados. O contato e a ciência destas entidades é parte da totalidade da experiência de uma sociedade tribal mediada por xamãs. Isto raramente ocorre na cultura ocidental – há uma vasta variedade de mundos internos que podem ser explorados. A Mente Profunda é muito receptiva à sugestão (no fim das contas, é assim que aprendemos), e pode ataviar-se com qualquer tipo de imagem. Usando o templo astral e as técnicas de formação corporal citadas anteriormente, podes explorar qualquer mágico mundo interior, desde as míticas paisagens dos deuses nórdicos aos prístinos jardins que podem ser penetrados através dos trigramas do I Ching.

A Vontade Mágica

      A consciência surge da percepção, a qual emerge de nossa interação com o entorno. A Vontade pode ser entendida analogamente como a interação da intencionalidade ao longo de um dado vetor. Quando dizes: “É minha Vontade o…” estás projetando o futuro. A Vontade Mágica não deve ser confundida com a chamada força de vontade ou concentração. Não há nenhuma utilidade em obrigar-se a passar por rigorosas provas, juramentos ou promessas se o desejo de superar um hábito ou conduta é mais fraco do que o desejo de mantê-lo, se é assim seguramente falharás e deste modo reforças tua sensação de ser débil.

      A chave da Vontade está no relaxamento em relação ao presente, na unidade do desejo e na unidade do propósito. Como verás no próximo capítulo, ser competente na Feitiçaria requer que possas isolar, identificar e focar-te em alguns desejos específicos, enquanto, ao mesmo tempo, te desapegas deles. Os desejos se manifestam quando são isolados, exteriorizados e depois olvidados. Os atos de rituais mágicos, que envolvem a coordenação da percepção e da ação ao longo de um vetor direção, servem como exercícios de unidade de propósito. Por exemplo, eu projeto uma intenção: visualizo o sigilo que representa meu desejo. Lentamente levo minhas mãos adiante, como se o ar oferecesse resistência ao meu movimento. Ao mesmo tempo, visualizo um feixe de energia saindo de minha mão. Exalo com um grito de “Kia”. Todas estas ações estão unidas em um único propósito de projeção no futuro. Assim, palavra e fato são unos. Realizar tua vontade requer uma mente relaxada e centrada, focada no propósito, enquanto te desapegas dos resultados que tentas atrair. No Budismo Zen, isto é conhecido como “Sabedoria Inamovível”, onde a mente de alguém é liberada das amarras e laços do passado e da antecipação do futuro. Esta prática não é fácil para a maioria de nós, e requer muita paciência, disciplina e prática. O refinamento da Vontade Mágica surge da prática e a vigilância constante contra o cair em padrões de pensamento e conduta habituais. O valor das práticas de meditação simples, como as que são citadas na prática do Zen não deve ser descartado, dado que elas podem ser de grande ajuda no desenvolvimento da consciência do corpo-mente, e na consciência do presente imediato. Muitos magos modernos praticam algumas formas de artes marciais e tais práticas são de grande valor para desenvolver habilidades mágicas.

------------------------------------------

Este texto foi extraído do livro Condensed Chaos.

Sua obscuridade e a minha

image
Do reino da aparência

      Como vivemos certamente na sociedade mais superficial da história, a sociedade moderna, a aparência é rainha indiscutível do critério. Aparência pessoal, aparência social e também a aparência das opções ideológicas e éticas. Nos acostumamos a que o aspecto exterior seja suficiente para julgar a diversidade do universo, como se a realidade fosse um gigantesco expositor de supermercado. Temos pressa e não podemos deter-nos muito na análise das coisas; a profundidade requer tanto tempo... Uns escassos sinais exteriores de identidade, na maioria das vezes somente referências estereotipadas, servem ao homem moderno para rapidamente identificar e classificar os múltiplos encontros da vida. Antes ocultavam dos servos as chaves do mundo, os mantinham isolados. Hoje os convencem de que não têm tempo para debruçarem-se sobre elas, os mantêm ocupados.

      "Sinistro" é então, na nossa modernidade, também uma mera aparência, um rótulo. Ao menos no início. Qualquer pessoa pode alcunhar a si mesma como "sinistra", e na maioria dos casos sentirá que sua autenticidade dependerá de adotar a aparência correta. Talvez vestindo-se de determinada maneira, talvez escutando um certo tipo de música, talvez até mesmo frequentando determinados ambientes. E se trocarmos o rótulo "sinistro" por "satanista" ou "satânico", a coisa não mudaria fundamentalmente.

Entediado no aquelarre

      Geralmente me custa socializar em ambientes "satânicos" ou "sinistros", porque costumo somente encontrar pessoas que estão em desacordo com a minha visão de mundo. Embora me pareça cativante o Baphomet que transportam em torno de seus pescoços, ou que falem sobre LaVey como se tivessem jantado com ele na noite anterior. É mais triste a decepção do que a solidão, então devo dizer que não é um prazer absoluto os conhecer. Também encontro pessoas interessantes nesses círculos, mas me parecem demasiado poucas. Os mundos "sinistros" e "satânicos" não selecionam por si mesmos um tipo específico de indivíduos, e sim estão completamente abertos para pessoas atraídas pelas mais inimagináveis razões a ​​esta opção do mercado de aparências.

      Me perguntava o que incomodamente me sussurrava com um chiado nestes encontros com aqueles cuja aparência indicaria que são meus iguais. Depois de muito meditar — sem a pressa moderna — cheguei à seguinte conclusão: Em muitos "sinistros" vejo que seguem reinando ufanos os dois mais contumazes inimigos que existem até agora: o Ego e Deus.

Os egos "sinistros"

      Há uma grande confusão nos ambientes do caminho da mão esquerda, e do satanismo moderno em especial, em caracterizar qual é a dimensão pessoal que confrontaria a moral de rebanho. O ego não é a identidade profunda e autêntica de cada pessoa, e sim uma mera construção social, uma instável auto-imagem pública, baseada mais uma vez nas aparências e abarrotada de modismos sobre o êxito pessoal de determinada época e lugar. A autêntica identidade não para de mudar, enquanto o ego necessita crer-se firme e imutável, eternamente igual. Por isto se dão tão mal.

      Na identidade profunda habita o que Crowley chamava de a Verdadeira Vontade, essa força que, quando desperta, consegue pôr "a inércia do universo a seu favor". Porém a vontade superficial do ego é simples hedonismo, complacência na posse circunstancial de coisas, dependência dos cânones de prestígio de uma determinada sociedade, mera impaciência pela satisfação dos caprichos do momento.

      Tenho visto demasiados satanistas não venerando-se, e sim venerando seu ego. Para eles o satanismo é somente uma cômoda ideologia da desculpabilização, uma desculpa que lhes livra da penitência pelos pecados aprendidos. Apenas um álibi para se entregarem sem arrependimentos a suas perversões pequeno-burguesas. O satanismo lhes serve para não ter que respeitar, para não ter que perguntar antes, para poder aproveitar, confundindo a grosseria com uma ética liberta dos grilhões morais. Por fim, o satanista do ego, como o tio que há em todas as famílias, é um vagabundo.

      E, claro, um arrogante. Nos círculos com as aparências apropriadas, um "mestre". Creio firmemente que há mais mestres nos ambientes sinistros que em toda a Federação Internacional de Sindicatos de Ensino. Os discordianos começam pelo grau de padre, parece que os "sinistros" pelo de mestre. Quantas caretas de condescendência ante os "não iniciados", quanto clichê em "tudo isto é muito mais complicado", quanta displicência dos profundos "segredos" que não se pode revelar. E quanta ameaça velada de terríveis feitiços, sempre destrutivos como convém a um ego inseguro que suspeita de risos por todas as partes. Enfim, quanto fanfarrão de negro.

Os deuses "sinistros"

      Creio que o laço mais forte que me une a Satã, o que propiciou nossa paixão à primeira vista, é o ódio em comum a todo tipo de versões e variantes da ideia de Deus. Não importa que no altar haja somente um (deus), ou vários em fila, ou até mesmo um dentro de outro como nas bonecas russas. Que sejam representados por símbolos geométricos, figuras humanas, animais, ou todos juntos. "Deuses" quer dizer vontades acima da sua, leis que não podem ser discutidas, limites que não se pode explorar. Esse invisível Deus que nunca responde também representa uma imagem do ser humano e de sua vida como algo miserável, minúsculo, sempre necessitado. Toda crença em deuses necessita de auto-humilhação.

      Converter Satã — Set, Lilith, Lúcifer, dependendo das preferências "sinistras" — em um deus é seguir crendo em Deus. Livrar-se do cristianismo e de seu lamentável deus Jesusito mediante o método de abraçar um novo deus, ainda que superinfernal, é fazer como as pessoas que na primeira metade do século XX se desengancharam da morfina com a heroína. Os satanistas ocidentais que "adoram a Satã" estão reeditando assim, ainda que não admitam, o único deus que realmente conhecem, a figura de Deus por excelência que lhes foi ensinado desde pequenos: o Deus judaico-cristão. Por isto alguns inclusive chamam Satã de "pai", utilizando literalmente um dos atributos divinos centrais da Bíblia. De onde vem esta preferência por caracterizar a relação com o Demônio como pai-filho? Ainda que o pai neste caso possa ser imaginado como sendo mais divertido, um autêntico papai-diabo, a eleição tem a marca inconfundível do mito autoritário bíblico, que imagina uma humanidade infantilizada constantemente admoestada por seu progenitor. Estou seguro de que um satanista educado no budismo não sentirá a necessidade de chamar o Demônio de "pai".

      Assim minha insatisfação com uma grande quantidade de "sinistros" e "satânicos" se deu porque eu buscava a companhia de espíritos audaciosos e rebeldes, para trocar experiências de lutas, e me deparei com arrogantes rezando.

© Miguel AlgOl

AS DIMENSÕES DO UNIVERSO E O PROBLEMA DO TEMPO

image
      O fator tempo, considerado pelos físicos como a quarta dimensão, é indubitavelmente a medida que ordena de forma linear os possíveis fenômenos do plano físico. Isto é, saímos de nossa casa no segundo 123.890.456 a partir de um momento escolhido arbitrariamente como instante 0, almoçamos nesse dia no segundo 123.903.215, fomos passear no segundo 123.907.119, etc. E não há dúvidas de que esta medida é certeira e precisa como parâmetro objetivo, pois todos nossos vizinhos podem comprovar, se puderem nos ver enquanto fazemos essas atividades, cada um com seu cronômetro, que para cada segundo indicado nessa simples escala linear, a medida tomada por todos eles é a mesma. Por conseguinte, para os materialistas, parece que nada pode escapar dessa linearidade da dimensão tempo. Assim se pensava, porém este conceito logo caducou e se mostrou teoricamente que se seres humanos viajassem em uma hipotética nave espacial a velocidades altíssimas (de dezenas de milhares de quilômetros por segundo) pelo cosmos, ao regressarem à Terra comprovariam algo incrível. Para os viajantes do espaço, deslocando-se a grande velocidade, o tempo passaria “mais devagar” do que para os humanos que permanecessem na Terra. Assim, se os viajantes ficassem 10 anos fora, ao retornar à Terra, de acordo com nossos calendários “objetivos”, haveria passado tantos anos que muitos dos jovens familiares que foram deixados aqui já poderiam haver morrido com avançada idade. Então, o que teria ocorrido? Que mistério é este?

       Já as próprias teorias físicas apontam para o fato de que o registro do tempo realizado por nossos instrumentos cronométricos ou, pelos sinais da passagem do tempo em nosso corpo, não é absoluto, e sim depende da entrada de outras medidas propriamente físicas, como a velocidade na qual se desloca o corpo físico. Isto é, à maior velocidade, o tempo “caminha” mais lentamente, até que a uma velocidade hipotética próxima à da luz, o tempo chegaria quase a parar. Definitivamente, a realidade certamente é mais incrível do que a própria ficção científica. Porém para os esotéricos há um ponto que a ciência não levou em conta: a velocidade do pensamento, a qual eles concebem como sendo muitíssimo maior que a velocidade da luz. Também é conveniente meditar sobre o fato de que a medida objetiva de tempo é para o meio físico, todavia para a consciência uma hora objetiva pode registrar-se como um segundo ou como um dia completo, dependendo do estado psíquico e mental do indivíduo durante esta hora objetiva. Durante o sono, por exemplo, essa terça parte de nossa vida na qual permanecemos no plano astral ou psíquico, o tempo está muito difuso, pois a consciência de 8 horas de sono pode confundir-se com a de somente uma hora. Em contrapartida, em certos estados de mente bem consciente (supraconsciente), como os que podem ser alcançados com as técnicas de meditação, 10 minutos podem chegar a dilatarem-se e fazerem-se tão longos que podem parecer horas ou, inclusive, em certos domínios da mente, o tempo quase para.

       Algo parecido, porém noutro patamar, ocorre em momentos de sofrimento ou de dor, os quais possuem [para o sofredor] “extensão” muito diferente à de outras pessoas que estão em um estado normal. É evidente, portanto, que há um tempo físico objetivo, assim como existe uma medida emocional, mental e espiritual de tempo, a qual está cada vez mais desligada do conceito temporal que nos é útil no plano físico ou material. Os construtores das pirâmides deixaram impressas em suas obras, quase para a eternidade, sua interpretação à respeito deste assunto. Assim, a base da pirâmide, ligada ao material e concreto, tem 4 lados iguais cujos vértices podem limitar os dois braços da cruz entre eles. Já sabemos que a cruz (e também o quadrado) tem relação com o material, com o plano físico e com suas 4 dimensões: 3 espaciais e uma temporal. Porém conforme a pirâmide ganha altura, pedra a pedra e esforço a esforço, as quatro dimensões tendem a aproximarem-se até que, no vértice superior ou topo da pirâmide, as quatro dimensões físicas (altura, largura, profundidade e tempo), se fundem convergindo em um só ponto. Este é apenas um dos enigmas simples das pirâmides.

       Nas pirâmides americanas ou nas pirâmides truncadas egípcias, que possuem uma pequena área quadrangular plana do seu topo, se representa que para as possibilidades da mente humana a fusão completa das dimensões não é possível, e sim somente um aproximamento por meio de faculdades especiais. Assim, nas pirâmides do continente americano o Mago se coloca na meseta superior e ali realiza sua operação com as forças naturais, logicamente muito mais próximo da sétima dimensão ou absoluto do que aqueles que lhe acompanham e lhe observam a partir de outros pontos inferiores na pirâmide ou situados no solo.

       Agora é fundamental esclarecer que “adivinhar” o futuro é um conceito supersticioso e não Iniciático. Por quê? Já foi dito no caso da Astrologia que esta não adivinha o futuro, e sim estuda cientificamente os ciclos. Um automóvel a duzentos quilômetros por hora não pode parar em um milésimo de segundo, nem sequer chocando-se contra uma parede; nem tão pouco pode trocar de trajetória fazendo um ângulo reto a essa velocidade como se dobrasse uma esquina. Isto ocorre também com o ser humano. Seu corpo, sua psique, sua mente e sua vontade estão submetidos às leis naturais, das quais não podem se livrar. Deste modo, o futuro se comporta de acordo com dois parâmetros, dos quais um se encontra composto pelos efeitos das causas geradas por nós no passado. Estes efeitos já estão “em movimento” e irão se manifestar em algum momento do chamado futuro. O segundo parâmetro são os sucessivos presentes ou pequeníssimas variações (infinitas) que geram a vontade humana momento a momento, pensamento a pensamento, de sentimento em sentimento e de ação em ação. De tal forma, através das causas conscientes que podem gerar a vontade a cada instante, os efeitos destas podem ser: neutralizar aspectos desarmônicos do passado ou aumentá-los, neste último caso o ser humano está fechando as portas para si mesmo.

       Pitágoras, Grande Mestre da Antiguidade, explicava este processo a seus discípulos mediante seu teorema. A soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, em um triângulo retângulo.

       Isto é, o chamado futuro vai sendo formado por dois fatores:

      - primeiramente, as causas geradas no passado, tanto harmônicas como desarmônicas e tanto conscientes como inconscientes. Estas formam parte do passado, porém seus efeitos pela lei da memória universal são transmitidos momento a momento até que sejam neutralizados (fator B).
 
      - por segundo, o processo da vontade em cada um dos sucessivos “presentes” (fator A). 

      Portanto, o trabalho consciente sobre nossa vida, momento a momento, vai modificando gradualmente o futuro, fazendo com que predomine o fator A sobre o B, até chegar a um triângulo equilibrado ou equilátero, representação da via espiritual e consciente, com uma harmonia entre o Karma passado (B), a vontade presente (A) e o curso dos acontecimentos futuros.

       Se predomina no triângulo o lado A, quer dizer que a vontade está realizando um esforço excessivo, uma vez que o Karma (cadeia de causa-efeito) passado fica em segundo plano. No caso contrário, com um lado B maior que o A, o ser humano está mais dependente daquilo que já fez do que do pouco que está a gerar no presente.

       O equilibrio perfeito se logra com três lados iguais, com um fator H de tamanho igual ao de A e B; isto é, simbolizando o fato de que o chamado futuro pode ser modificado com certa facilidade. Assim, o que foi vivido, o que se experimenta no presente e o que está em movimento até o futuro estão em sintonia harmônica.

       Existe uma figura que é ainda mais perfeita, que somente se assemelha ao divino, que é o triângulo equilátero. Poderíamos dizer que sua perfeição não é alcançável por humanos.

       Este é um tema sobre o qual se deve meditar, observar, experimentar e intuir. A lógica chega até certo ponto, porém isto é somente a base do estudo.

        Nos assombra comprovar que este é um dos segredos das pirâmides. Cada uma delas possui quatro lados que são triângulos e uma base com formato quadrado. Os quatro triângulos nos falam que o mencionado princípio se manifesta nos elementos terra, água, ar e fogo. Assim se vence a cruz da matéria (quadrado da base) e se ascende até o absoluto (vértice da pirâmide).

Extratos de "A Religião e O Rebelde" de Colin Wilson

image
      Para mim, a pergunta fundamental que existe por trás de O Marginal/The Outsider é: como o homem pode ampliar sua esfera de consciência? Penso que os seres humanos usufruam de uma parte da consciência tão estreita como as três notas centrais do teclado de um piano. Sendo a área possível dos estados mentais tão larga como o teclado inteiro, e que o objetivo fundamental e o trabalho do homem consistem em estender essa esfera de três notas a todo o resto. Os homens aos quais me referi em The Outsider têm em comum: um conhecimento instintivo de que sua esfera pode ser ampliada e uma persistente insatisfação no âmbito de suas experiências cotidianas.

***

      A maioria das pessoas que conheço, vivem exemplarmente assim: trabalhando, viajando, comendo, bebendo e conversando. O âmbito da atividade diária na civilização moderna levanta um muro ao redor do estado ordinário da consciência e torna quase impossível mirar mais além. Tal circunstância é provocada pelas condições nas quais vivemos. É o que ocorre em uma civilização que sempre faz ruído como um dínamo, e que não proporciona ócio para a paz nem para a contemplação. Os homens começam a perder a intuição sobre modos desconhecidos de ser, essa capacidade de construir o que os levaria a ser algo mais do que cerdos altamente eficientes. A perda dessa capacidade produz um horror contra o qual o Outsider se rebela.

***

      Uma tarde estava pegando envelopes com uma esponjinha úmida, quando um jovem que parecia cômodo atuando como mensageiro comentou: "Destruye el alma, ¿no es así?" Uma frase clichê, porém nunca a havia ouvido antes, e a repeti como uma revelação. Não a destruição da alma, e sim a destruição da vida; a força vital entravada produz um odor como a água estancada, e o ser inteiro se perverte.

***

      O tédio significa não ter suficientemente o que fazer com as próprias energias vitais. A resposta a isto, simplesmente, reside em estender o raio da consciência, pôr em circulação as emoções e trabalhar a inteligência, até que novas áreas de consciência sejam incorporadas à vida, assim como o sangue que começa a circular novamente por uma perna que estava dormente. Isso é apenas o ponto de partida. Dispor de ócio não é suficiente, o ócio é somente um conceito negativo: o limpo e amplo terreno onde se pode edificar casas decentes depois de liquidar os cortiços. O problema seguinte é iniciar a construção.

***

      Quanto mais se combate, maior caudal de vida é possível. Por isto, para mim, o problema da vivência é resolvido elegendo obstáculos que estimulem minha vontade. Instantaneamente, reconheci que nossa civilização vai em sentido oposto: toda nossa cultura e nossa ciência estão direcionadas a capacitar-nos para realizar a menor vontade possível. Tudo se torna fácil e, depois de uma semana de rotina laboriosa e de viajar em ônibus, ainda sentimos a necessidade de aplicar um excesso de energia, sempre podemos entreter-nos com jogos associados a obstáculos artificiais, onde a vontade se aplica para derrotar uma equipe de jogadores de cricket, futebol, ou simplemente lutar contra a imaginária Esfinge inserta nas palavras cruzadas no jornal.

***

      Quando disse que Platão, Goethe e Shaw foram existencialistas, implicava que os três eram pensadores para os quais pensamento e vida são inseparáveis. Outrem para o qual pensamento e vida resultam inseparáveis é o artista; sua arte é o resultado do impacto da vida em sua sensibilidade.

***

      Resumindo, o existencialista é o artista filósofo, e seu meio natural é a Bildungsroman. – novela educativa —; a novela ou a obra que se refere à maturação de sua personagem central através do impacto de sua experiência. Exemplos disto: Wilhelm Meister de Goethe, Os irmãos Karamazov de Dostoievski, O calvário de Richard Feverel de Meredith, A montanha mágica de Mann, Demian de Hesse, Os caminhos da liberdade de Sartre, Adeus às armas de Hemingway, O retrato do artista quando jovem de Joyce, Imaturidade de Shaw. É citado aqui juntas as maiores e as menores para enfatizar a amplitude deste ramo. Deixem-me terminar dogmatizando: no século XX, a única forma séria de arte literária é a Bildungsroman.

***

      Imaginação é o poder de captar, sem isto o homem seria um imbecil, sem memória, sem premeditações, sem capacidade de interpretar o que vê e sente. Quanto maior é o poder de captar, mais elevada é a forma de vida; e no homem, o captar se transforma em uma faculdade consciente, que pode ser denominada imaginação. Se a vida é avançar até estratos mais elevados, ir além do macaco, além do homem-trabalhador e do homem-artista, isto se produz mediante um maior desenvolvimento do poder de captação. A ambição espiritual é a busca por uma maior intensidade de imaginação.

***

      Nesse ponto comecei The Outsider. Minha tese era que a religião começa com o estímulo do heroísmo substituindo a imaginação. Os Outsiders dos primeiros capítulos eram homens famintos por heroísmo, encalhados em uma era não-heróica. Sua anormalidade como Outsiders residia em suas tentativas de fabricar seu próprio heroísmo. A queixa de Roquentin — A náusea de Sastre — era: Não há aventura, e isto é verdadeiro na civilização moderna.

      Tratei de demonstrar que a ânsia por uma maior intensidade de imaginação — de vida — toma a forma de uma busca por heroísmo. Esta fome do heroísmo é completamente visível nas vidas de Van Gogh, T. E. Lawrence e Rimbaud, Gauguin. Guido Ruggiero chamava Gauguin e Rimbaud de Santos existencialistas, e declarou — com completa precisão — que o existencialismo toma a vida como uma novela de aventuras.

***

      Nietzsche sabia que o ideal de uma paz universal é um falso ideal; o homem sempre tentará criar oportunidades para o heroísmo. As guerras do século XX são a expressão de uma frustração inconsciente. Kierkegaard tinha razão quando disse que o tédio é o verdadeiro mal do mundo. Uma religião é o receptáculo do heróico, o símbolo da necessidade do homem de lutar pela captação. As guerras mundiais e o fracasso da religião são companheiros inevitáveis.

***

      O Outsider deve ser considerado como um fenômeno da civilização moderna. Chegada a esta conclusão: é o sintoma de uma civilização em decadência. Porém, ao menos, é um sinal de saúde.

***

      Em qualquer época, a religião mais pura está nas mãos de seus rebeldes espirituais. O século XX não é uma exceção.

***

      Cada vez que uma civilização chega a um ponto crítico, é capaz de criar um homem melhor. A resposta exitosa à crise depende da criação de um novo ser. Não necessariamente o Além-Homem/Super Homem (Übermensch) nietzscheano, e sim um tipo de homem com uma consciência mais ampla e um direcionamento de seus propósitos mais profundo que nunca. A civilização não pode continuar na presente querela, este desfile de míopes que produzem melhores e melhores refrigeradores, telas de cinema mais e mais largas, minando constantemente toda a vida espiritual. O Outsider é uma tentativa de contrabalancear esta morte dos propósitos. O desafío é imediato e exige resposta de todos os que sejam capazes de entendê-lo.

***

      Se nossa época está à beira de sua última decadência, como a civilização grega nos tempos de Plantão, o Outsider somente pode a observar com curiosidade científica, e continuar — como Plantão — meditando sobre problemas não tão imediatos. Este desagregar-se é a condição básica para a sobrevivência, um sinal de otimismo fundamental:

      Todas as coisas caem e são construídas de novo. E aqueles que as constroem novamente são felizes.

      Assim dizia Yeats.

      Os Outsiders aparecem como erupções em uma civilização moribunda.

***

Colin Wilson