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Tese de mestrado da USP mostra benefícios da Umbanda e Santo Daime à saúde

O estudo realizado no final de 2012 no Instituto de Psicologia da USP apresentou a relação entre religiosidade e saúde ao analisar duas religiões brasileiras: Santo Daime, que faz uso sacramental da bebida psicoativa Ayahuasca, e a Umbanda, ambas com rituais fundamentados em práticas de estados diferenciados de consciência, segundo a autora.

A psicanalista Suely Mizumoto, em sua dissertação de mestrado Dissociação, religiosidade e saúde: um estudo no Santo Daime e na Umbanda, fez diversas constatações. Entre elas, que adeptos do Santo Daime e da Umbanda apresentaram diferenças significativas quanto à redução da frequência de mudanças de humor e de sentimentos contraditórios.

As diferenças foram baseadas nas experiências anteriores e posteriores à participação nos rituais de cada religião. Quando comparados a um grupo controle, os adeptos mostraram ter maior equilíbrio de humor e emoção.

Segundo a pesquisadora, a comunidade religiosa, provedora de apoio emocional, material e afetivo, pode também ser compreendida como uma comunidade terapêutica para as condições psicológicas estressantes. Os adeptos podem encontrar em suas comunidades suporte em momentos de fragilidade. No entanto, Suely diz que, “na verdade, o aprendizado que essas religiões proporcionam podem ensinar seus adeptos a ter um domínio maior quanto ao enfrentamento espiritual dessas questões, diminuindo experiências mediúnicas traumatizantes”.

A psicóloga empregou um questionário que abordava o perfil social, a religiosidade e a saúde, tanto física como mental, dos voluntários. “Os resultados obtidos dos perfis sociais, saúde e religiosidade e das escalas revelaram indicadores de bem estar que confirmam índices de saúde inteiramente satisfatórios e até melhores quando comparados aos resultados do grupo controle”, relata a pesquisadora.

Com o tema de sua dissertação, Suely espera amenizar os preconceitos com as religiões afro brasileiras. A Umbanda é um exemplo de religião que trabalha exclusivamente na arte do ensino da prática mediúnica, não faz uso de psicoativos, mas mesmo assim pode não ser bem interpretada. “Não havendo nocividade nestas práticas, a relação entre religião e saúde, mais bem esclarecida por esta pesquisa, pode ajudar a desconstruir muito do senso comum que envolve a religiosidade no País”, disse.

Ficou interessado? Leia aqui o estudo na íntegra.

FONTE: Blog Umbanda Eu Curto

Extermínio alemão de pacientes psiquiátricos na Polônia (1939-1945)

O trabalho foi apresentado por Zdzislaw Jaroszewski, MD na sessão histórica do Simpósio da Associação Mundial de Psiquiatria, em Varsóvia, 22-25 de novembro de 1987 (traduzido por Jan Jaroszewski, MD).

Das muitas experiências que a cultura humana realizou na Segunda Guerra Mundial, a de maior alcance são aquelas que dizem respeito aos valores humanos representados pela medicina e seu ramo mais humano, a psiquiatria em particular. Em contraste com os anteriores, os conflitos cada vez mais cruéis, vítimas da última Guerra Mundial, incluiu não apenas as forças armadas e civis, mas também os cidadãos mais indefesos do país agredido: prisioneiros dos campos de concentração, servindo como modelos experimentais para testes médicos cruéis realizados por médicos nazistas, e os pacientes psiquiátricos. Os últimos foram assassinados sistematicamente de acordo com planos adequados por razões econômicas, como "unwertes Leben" (seres vivos sem valor).

Categorizando objetos inanimados e humanos como valiosos ou inúteis, os nazistas desafiaram o princípio da santidade da vida, observado desde os tempos de Hipócrates, que forneceu fundamentos para um código penal. O desafio do princípio resultou não apenas na morte de dezenas de milhares de pessoas inocentes, mas também afetou o comportamento dos médicos, de tal forma que a valorização do único, mas incomparável com outras pessoas, tornou-se, ocasionalmente, um critério de conduta médica. Por isso, lembramos o destino cruel de doentes mentais não apenas para refletir sobre o crime condenável, mas para tornar-se consciente de suas origens e suas consequências de longo alcance para que possamos tentar evitar a recorrência.

Curso dos acontecimentos

A origem dos conceitos que finalmente resultaram na ideologia nazista e em seus resultados, o assassinato de pacientes e genocídio, pode ser rastreada até o século XIX nas teorias de pseudo-darwinismo e na filosofia de Nietzsche, que desprezou tudo que fosse considerado fraco e inútil. Vamos nos restringir a alguns fatos significativos para fornecer pontos de referência para o desenvolvimento e implementação destes conceitos malignos. Em 1922, eminentes professores alemães, o psiquiatra Alfred Hoche e o advogado Karl Binding, publicaram Die Freiqabe der Vernichtury lebensunwerten Lebens (Extermínio de vida de criaturas indignas), usando esse termo sinistro pela primeira vez e exigindo extermínio de pessoas que constituíam "um fardo" para a sociedade, devastada pela última guerra. Os autores argumentaram que as ideias humanitárias excessivas deveriam ser abandonados no interesse da "Höhere staatliche Sittlichkeit" (o mais alto da moralidade do estado), bem ciente de que a existência de um indivíduo é inútil se impróprio para o interesse da sociedade. É fácil agora ver que os termos se aproximavam de perto aos usadas mais tarde pelos nazistas: "Du bist Nichts, dein Volk ist alles" (você não é nada, o seu povo é tudo).

Pouco depois que Adolf Hitler assumiu o poder no Deutsches Reich, em 1933, uma lei foi aprovada, intitulado Gesetz zur Verhutung erbkranken Nachwuchsrt. O ato introduziu a esterilização obrigatória das pessoas que sofrem de doenças hereditárias, incluindo, entre outros, retardo mental, esquizofrenia, psicoses afetivas, epilepsia e alcoolismo. A implementação do ato, associada à esterilização de cerca de 350 mil pessoas na Alemanha, induziu a uma ampla discussão durante a qual apenas a Igreja Católica expressou uma atitude negativa em relação ao ato.

Grande publicidade em torno do ato apareceu em periódicos médicos alemães, bem como aparecendo como propaganda difundida, e foi induzido interesse no ato também entre psiquiatras e eugenistas na Polônia. Em 1936, a Sociedade de Psiquiatria polonesa escolheu os problemas da herança e prevenção de doenças mentais como um tema de sua 16ª reunião em Lublin. Os melhores especialistas disponíveis, professor S. K. Pieńkowski, psiquiatra e neurologista, e o professor T. MarchIewski, biólogo, apresentaram relatórios sobre o tópico. A discussão apontou que o estado atual do conhecimento aprontava motivos de esperança associados com a esterilização. O papel sério de mutações em herança genética foi pensado como indicação para a aplicação da esterilização ser "um concurso de esperança em relação aos resultados finais".

Depois de tomar o poder, as autoridades nazistas começaram os preparativos intensos para o "extermínio de criaturas indignas de vida" por razões biológicas ou raciais (judeus). O extermínio de pacientes foi chamado de "eutanásia". Já na reunião do partido, em 1935, Hitler disse a Wagner, líder dos médicos do Reich, que a eutanásia foi planejada para ser aplicada em caso de guerra. Em fevereiro de 1939, "a comissão do Reich para a avaliação científica de doenças hereditárias graves" foi formada na Chancelaria do Reich visando o desempenho da "eutanásia" de crianças, todas as quais foram mantidas em segredo até 1945.

Em julho de 1939, um acordo entre Hitler, o chefe da Chancelaria do Reich, Lammers e o líder dos médicos do Reich, Dr. Leonardo Conti, resultou na formação de uma comissão estritamente secreta para o extermínio dos pacientes, dirigida por Philip Bouhier e chamada T4 (de acordo com seu endereço oficial no Tiergartenstrasse 4, em Berlim). A comissão incluiu, entre outros, professores reconhecidos de psiquiatria e neurologia: Carl Schneider de Heidelberg, Paul Nitsche de Halle e Werner Heyde de Wurzburg. A comissão escolheu os métodos de extermínio (utilizou-se inicialmente o monóxido de carbono) e emitiu pareceres sobre as listas de pacientes submetidos ao extermínio pelos hospitais psiquiátricos, por meio de questionários oficiais.

Depois de iniciar a guerra com a Polônia, em outubro de 1939, Hitler assinou uma carta com o seguinte conteúdo:
"Head of the Reich's Chancellory, Bouhler and Doctor of Medicine, Brandt, are responsible for such an extension of authority of physicians delegated by names, that patients who are incurable by human judgment after a critical appraisal of advancement of their disease could be provided with a generous death."

"O Chefe da Chancelaria do Reich, Bouhler e o Doutor em Medicina, Brandt, são responsáveis ​​por uma extensão da autoridade dos médicos delegada por nomes, que aos pacientes que são incuráveis ​​por julgamento humano após uma avaliação crítica do avanço de sua doença pode ser fornecida uma morte generosa."

Extermínio de pacientes na Polônia

A preparação antes da guerra para matar doentes mentais começou a ser implementada na Polônia. Depois de atacar a Polônia em 1 de Setembro de 1939, a Alemanha começou no mesmo mês um assassinato sistemático de pacientes em hospitais psiquiátricos poloneses que estavam situados nas partes capturadas do país.

A ação de assassinar esses pacientes no início fez um curso semelhante em todos os hospitais psiquiátricos. A programação era típica dos crimes nazistas em massa, seguida de um plano específico, e foi realizada escrupulosamente. Após assumir o controle de um hospital com um diretor alemão, nenhum paciente podia ser liberado do hospital, sob ameaça de pena de morte. Todos os pacientes eram contados e transportados em caminhões para um destino desconhecido. Cada transporte era acompanhado por soldados armados de destacamentos especiais da SS, que voltavam sem os pacientes depois de algumas horas. Foi dito que os pacientes seriam transferidos para outro hospital, mas as circunstâncias mostraram que estes tinham sido mortos.

A primeira ação deste tipo foi realizada em Kocborowo, um grande hospital psiquiátrico na região de Gdańsk, em 22 de setembro de 1939. Ao mesmo tempo em que os pacientes, cinco funcionários do hospital e o Diretor Adjunto, Dr. Józef Kopicz, foram assassinados por um pelotão de fuzilamento. Camas de aproximadamente 2.000 pacientes foram transportadas para um destino desconhecido e foram usadas ​​por pacientes alemães trazidos da Prússia Oriental. Após a guerra, valas comuns dos pacientes assassinados foram escavadas na Floresta da Szpęgaw, perto Starogard Gdański. Em outubro de 1939, a mesma circunstância aconteceu a cerca de 1.000 pacientes do hospital psiquiátrico vizinho em Świecie, perto Bydgoszcz. Depois de exterminar os pacientes, o hospital foi utilizado para realizar outros fins. Em outubro de 1939, cerca de 1.000 pacientes (crianças e adultos) do hospital psiquiátrico em Owińska, perto Poznań, começaram a ser transportados para uma direção desconhecida. Ao mesmo tempo, uma capela e uma rica biblioteca médica de 100 anos foram destruídas. O hospital foi transformado em quartel SS e queimado no final da guerra.

O extermínio de pacientes do hospital em Owińska requer atenção especial pois naquela ocasião, pela primeira vez, foi implementado novos métodos para o assassinato em massa de pessoas. Investigações realizadas após a guerra pela Comissão de Exame de crimes nazistas demonstraram que a unidade especial da Gestapo, sob o comando de Herbert Lange (SS-Sonderkommando Lange), teve cuidado com a evacuação dos pacientes. Os pacientes, vestidos apenas com roupas desgastadas, foram transportados em caminhões, cada caminhão acomodando 25 pacientes e alguns homens armados da SS. Pacientes afligidos ou que estavam protestando foram acalmados com injeções de drogas. De acordo com testemunhas, os caminhões levaram-nos primeiro para Poznań onde os pacientes estavam lotados no antigo Forte VII, o incrível local de tortura e assassinato em massa da população de Wielkopolska.

Cada um dos bunkers alojava cerca de 50 pessoas, os portões eram fechados com barro, e o monóxido de carbono era alimentado em cada casamata, matando os pacientes dentro de 10-20 minutos. Os cadáveres dos pacientes assassinados foram arrastados para fora por um grupo de prisioneiros do forte, e os outros presos os transportaram e os enterraram em uma floresta perto de Oborniki.

Na sequência destes testes "bem sucedidas", os pacientes foram então transportados diretamente para a floresta, carregados num caminhão de móveis selado, no qual o gás foi alimentado a partir de um motor de automóvel.

Os assassinatos a gás de pacientes de Owińska precederam assassinatos de pacientes de outros hospitais psiquiátricos na Polônia e na Alemanha e também os assassinatos nos campos de concentração.

Em 7 de dezembro de 1939, aproximadamente 1.200 pacientes foram transportados para fora do hospital psiquiátrico vizinho em Dziekanka, perto Gniezno. A seleção dos pacientes para o transporte foi feita pessoalmente pelo diretor do hospital, Ratka, que tinha apenas mudado sua cidadania para alemã e colocado um uniforme SA. Mais tarde, o hospital continuou prestando serviços psiquiátricos para pacientes de nacionalidade alemã e também serviu para outros objetivos peculiares. Sob as ordens de Berlim, o hospital estava disfarçado para representar um local de sepultamento dos "pacientes" exterminados mesmo que a maioria deles nunca tenha visitado o hospital.

As famílias dos pacientes foram falsamente informadas que as pessoas que estavam sendo procuradas foram enterradas no cemitério do hospital, e ainda cobravam das famílias o cuidado com estes túmulos. Depois da guerra, verificou-se que o hospital psiquiátrico em Pruszków perto de Varsóvia desempenhou um papel similar. As famílias dos pacientes assassinados foram encaminhadas para o hospital e disseram-lhes que seus parentes tinham sido levados para o hospital, mas morreram de causas naturais.

O sanatório em Kościan para pacientes neurológicos e psiquiátricos perdeu aproximadamente, 500 pacientes que foram assassinados e, em seguida, a instituição apropriada para outros fins.

O destino foi particularmente cruel para os pacientes do hospital psiquiátrico em Chełm perto Lublin. Já não havia qualquer tentativa de esconder o crime. Na frente de testemunhas, o hospital foi cercado por soldados da SS, e cerca de 440 pacientes foram expulsos dos edifícios hospitalares e sofreram disparos na frente de todos com metralhadoras. Crianças escondidos nas enfermarias foram jogados para fora pelas janelas. Mais tarde, verificou-se que os edifícios hospitalares foram programados para fornecer barracas para destacamentos da SS.

Pacientes em hospitais psiquiátricos em Warta (aproximadamente 580 pacientes), Gostynin (aproximadamente 100 pacientes) e Choroszcz (564 pacientes) foram baleados nas florestas vizinhas, enquanto os pacientes de Kochanówka (aproximadamente 540 pacientes), perto de Lodz foram mortos nos caminhões selados utilizando-se do escape do motor. No hospital psiquiátrico de Lubliniec, 194 crianças foram mortas com altas doses de luminal.

A existência do hospital psiquiátrico em Kobierzyn, perto de Cracóvia terminou em 23 de Junho de 1942. A diminuição sistemática das rações de comida (a 1.200 calorias por dia) causou a morte de metade dos aproximadamente 1.000 pacientes, e, em seguida, os nazistas começaram a evacuar as instalações do hospital, que eram agora necessárias para as atividades Hitlerjugend. Todos os pacientes foram contadas, e os médicos e os demais foram removidos do hospital. O hospital foi cercado por soldados com capacetes e uniformes da SS, os pacientes foram colocados em caminhões, e transportados para Auschwitz para câmaras de gás. Pacientes graves foram transportados para o cemitério do hospital e alvejados lá. Um total de 566 pacientes morreram nessa ação.

O Hospital Psiquiátrico Jewish Zofiówk em Otwock perto de Varsóvia foi liquidado em 19 de agosto de 1942, em uma forma "normal". Cem pacientes e o pessoal foram mortos. O diretor do hospital, o psiquiatra conhecido, Dr. Stefan MiIIer, suicidou-se.

O destino dos pacientes nos hospitais psiquiátricos da Polônia não foi examinado em detalhes neste momento. Em geral, cerca de 2.600 pacientes morreram em hospitais psiquiátricos em Wino. Os pacientes no hospital psiquiátrico em Obrawalde-Meseritz (atualmente Obrzyce, perto Międzyrzecz) eram de origem polonesa, e foram mortos pessoalmente pelo supervisor administrativo do hospital, um nazista fanático que injetou nestes agentes tóxicos. Uma investigação detalhada depois da guerra documenta aproximadamente 13 mil de suas vítimas.

Os dados acima que se originou a partir de hospitais individuais infelizmente não criam uma imagem completa do extermínio dos doentes. É difícil estimar, por exemplo, quantos dos pacientes psiquiátricos nos hospitais morreram devido a rações alimentares drasticamente reduzidas. A inanição sistemática aumentou a mortalidade dos pacientes várias vezes. Refira-se que esta estatística não diz respeito a pacientes de origem alemã que foram alimentados melhor.

O número de vítimas conhecidas também deixar de incluir crimes que não foram documentados. No final da guerra, as autoridades nazistas destruíram as evidências de seus próprios crimes, uma vez que se afastaram dos territórios capturados, e, talvez lembrando-se da exposição dos crimes de Katyn, onde corpos de oficiais poloneses assassinados foram descobertos eles exumaram e queimaram os corpos de muitas vítimas do nazismo. Na maioria dos casos, o extermínio dos pacientes foi executado sem formalidades preliminares (no Reich foi precedida por preenchimento dos questionários) e inesperadamente.

Os dados citados acima se originaram a partir de registros hospitalares que escaparam da destruição ou a partir de listas elaboradas secretamente dos pacientes que foram transportados para fora dos hospitais. Por outro lado, o número de pacientes psiquiátricos que foram exterminados na Alemanha, originado a partir de um relatório peculiar, intitulado Die Bisher ge le istete Arbeit der Aktion, em que a informação fornecida é 1940-1941, um total de 70.273 pacientes psiquiátricos foram assassinados ou "passaram por desinfecção." Também é calculado no relatório que, aceitando gastos com alimentação diária de 3,50 DM por paciente, o extermínio dos pacientes resultou em uma economia de 88.543.980 DM. Em comparação, assumindo que o tempo médio de permanência no paciente no hospital seja de 10 anos, a economia total seria de 885.439.800 DM. O relatório informa que o extermínio resultaria em 10 anos em 33.731.040 ovos adicionais no mercado (economia de 3.710.414 DM e 40 pfennigs) e 88540040 kg de vegetais adicionais (economia de 13.281.606 DM). O mesmo cenário foi calculado para a economia de pão, a farinha, a manteiga, o queijo e o sal.

Resposta aos crimes

Informações sobre o extermínio dos pacientes psiquiátricos em toda parte induziram a uma profunda aversão. No entanto, com o progresso da guerra e num contexto de enormes crimes alemães na Polônia, a perda desses milhares de doentes mentais representa apenas uma pequena parte de vários milhões de pessoas inocentes exterminados pela potência ocupante, a maioria dos quais eram saudáveis. Aos poucos, as diferenças entre a natureza dos grupos das vítimas desaparessem dentro da consciência social, e a sociedade tende a atribuir todos os crimes ao ódio alemão a qualque coisa polonesa, que durou séculos, e até mesmo a traços de carácter, supostamente, específicos dos germânicos. A vasta literatura histórica e sociológica logo esclareceu a origem nazistas dos crimes.

Além dos relatórios individuais, o tema específico de extermínio de pacientes foi tratado pela Associação Psiquiátrica Polonesa. A primeira reunião depois da guerra e 20ª em sequência da Associação em Tworki-Pruszków, em novembro de 1945, discutiu a natureza dos crimes alemães cometidos em pacientes psiquiátricos. Em mais de 10 relatórios, foi apresentado a política do ocupante para a psiquiatria e destino dos pacientes em hospitais individuais. Os pacientes assassinados e funcionários foram homenageados. De um total de 243 membros da Associação antes da guerra, cerca de 100 psiquiatras foram mortos.

Considerando-se as origens dos crimes, um psiquiatra e criminólogo, Professor Stanislaw Batawia mostrou que qualquer tentativa de explicar o extermínio paciente por manifestações psicopatológicas em vez de aplicação de critérios sociológicos e morais envolviam erro científico. Esta posição apontava responsabilidade óbvia dos autores. Infelizmente, os autores também incluíram muitos eminentes psiquiatras alemães que participaram do extermínio de pacientes e cinicamente chamaram tal de "eutanásia" e providenciaram justificativa "científica" para o crime.

Esses psiquiatras incluindo o professor Ernst Rudin, diretor da Kaiser-Wilhelm-Institut em Munique e autor da lei sobre a esterilização compulsória dos pacientes; Professor Max de Crinis de Berlin, que selecionou pacientes para o extermínio e supervisionou a chamada ação T4; Professor Carl Schneider de Heidelberg, Professor Werner Heyde de Wurzburg, Professor Hermann P. Nitsche (Sonnenstein), e muitos psiquiatras que trabalhavam nos hospitais. Alguns, mas muito poucos, responderam em processos penais, depois da guerra, no entanto mesmo se fosse possível punir todos os autores, este processo não poderia constituir a única resposta para o que aconteceu.

O extermínio dos doentes mentais envolve não apenas um problema jurídico, mas como mencionado acima, os resultados horríveis refletidos na atitude para com a humanidade em geral. Isto revelou uma profunda crise de princípios que há muito tempo tinham fornecido motivos para o cuidado dos pacientes e aqueles indefesos, uma crise de princípios básicos de nossa cultura. A resposta ao atentado contra os valores fundamentais tem que envolver não só uma avaliação adequada e defesa dos valores em extinção, mas tem de incluir também o desenvolvimento de valores de profundo respeito pela dignidade de cada homem.

Quem é uma pessoa doente? Será que ele, como avaliado pelos nazistas, é um artigo inútil, vale tanto quanto a comida que ele ou ela consome e uma carga não-produtiva não é digna da vida? O destino dos doentes mentais e do processo de tratamento psiquiátrico estritamente depende de uma resposta inequívoca e prática para estas perguntas. O exemplo de uma atitude apropriada com respeito a estes pacientes foi fornecido pelo Dr. Józef Bednarz, diretor do Hospital Psiquiátrico Świecie em Wisla, que rejeitou a chance de escapar, não queria deixar seus pacientes, e foi baleado com eles em novembro de 1939, e pela Dra. Halina Jankowska, psiquiatra eminente, e suas enfermeiras. Em 23 de agosto de 1944, durante a Revolta de Varsóvia, elas rejeitaram a chance de deixar seus pacientes no Hospital de São João de Deus e morreram com eles nas ruínas de um hospital bombardeado.

FONTE: Project InPosterum: Extermination of the Psychiatric Patients

Carl Jung sobre Richard Wilhelm (Autobiografia de C. G. Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões, pp. 373-377)

Eu conheci Richard Wilhelm o conde de Keyserling, durante uma reunião da "Escola de Sabedoria" em Darmstadt. Isso foi no início dos anos vinte. Em 1923, nós o convidamos para Zurique e ele falou sobre o I Ching (ou Yi Jing) no Clube de Psicologia.

Mesmo antes de conhecê-lo eu estava interessado na Filosofia Oriental, e por volta de 1920 tinha começado a experimentar o I Ching. Num verão em Bollingen resolvi fazer um ataque total sobre o enigma deste livro. Em vez de hastes tradicionais de milefólio exigidos pelo método clássico, eu me cortei num monte de juncos. Eu me sentava por horas no chão embaixo da árvore de pêra de cem anos de idade, o I Ching ao meu lado, praticando a técnica, referindo os oráculos resultantes em um jogo de perguntas e respostas. Todos os tipos de resultados inegavelmente notáveis surgiram - significativas conexões com meus próprios processos de pensamento que eu não conseguia explicar a mim mesmo.

A única intervenção subjetiva na presente experiência consiste no experimentador arbitrariamente - isto é, sem contar - dividir o feixe de quarenta e nove hastes num único golpe. Ele não sabe quantos talos estão contidas em cada pacote, e ainda assim o resultado depende da sua relação numérica. Todas as outras manipulações procedem mecanicamente e não deixam espaço para a interferência da vontade. Se uma relação causal psíquica está de toda presente, ela só pode consistir na possibilidade de divisão do feixe (ou, no outro método, a possibilidade da queda das moedas).

Durante toda as férias de verão eu estava preocupado com a questão: são as respostas do I Ching significativas ou não? Se elas são, como é que a conexão entre o psíquico e o físico na sequência de eventos ocorridos? Uma vez e outra eu encontrei coincidências incríveis que pareciam sugerir a ideia de um paralelismo acausal (a sincronicidade, como mais tarde eu a chamaria). Eu estava tão fascinado por essas experiências que esqueci completamente de tomar notas, que depois me arrependi muito. Mais tarde, porém, quando eu frequentemente realizava a experiência com meus pacientes, tornou-se bastante claro que um número significativo de respostas, de fato, atingia a marca. Lembro-me, por exemplo, o caso de um jovem com um complexo materno forte. Ele queria se casar, e que tinha feito o conhecimento de uma menina aparentemente adequada. No entanto, sentiu-se incerto, temendo que, sob a influência de seu complexo poderia mais uma vez encontrar-se no poder de uma mãe esmagadora. Eu conduzi o experimento com ele. No texto de seu hexagrama lia-se: "A donzela é poderosa Não se deve casar tal donzela.".

Em meados da década de trinta anos eu conheci o filósofo chinês Hu Shi. Eu lhe perguntei sua opinião sobre o I Ching, e recebi a resposta: "Oh, isso não é nada, mas uma coleção antiga de magias, sem significado". Ele não tinha experiência com ele - ou assim ele disse. Apenas uma vez, lembrou-se, tinha se deparado com ele na prática. Um dia, em um passeio com um amigo, o amigo lhe contara sobre seu caso de amor infeliz. Eles estavam apenas passando por um templo taoísta. Como uma brincadeira, ele disse ao seu amigo: "Aqui você pode consultar o oráculo!" Dito e feito. Eles entraram no templo e perguntaram ao sacerdote pelo oráculo I Ching. Mas ele não tinha a menor fé nesse sentido.

Perguntei-lhe se o oráculo tinha sido correto. Ao que ele respondeu com relutância, "Oh, sim, era, é claro ..." Lembrando-me da conhecida história do "bom amigo" que faz tudo o que não quer fazer a si mesmo, eu cautelosamente lhe perguntei se ele não tinha aproveitado com esta oportunidade. "Sim", ele respondeu, "como uma brincadeira eu fiz uma pergunta também."

"E se o oráculo lhe deu uma resposta sensata?" Eu perguntei.

Ele hesitou. "Oh, bem, sim, se você quiser colocá-la dessa maneira." O assunto, obviamente, o deixou desconfortável.

Poucos anos depois de minhas primeiras experiências com os juncos, o I Ching foi publicado com o comentário de Wilhelm. Eu imediatamente obtevi o livro, e descobri, para minha satisfação, que Wilhelm teve a mesma visão das conexões significativas como eu tive. Mas ele conhecia toda a literatura que poderia preencher as lacunas que estavam fora da minha competência. Quando Wilhelm veio a Zurique, tive a oportunidade de discutir o assunto com ele longamente, e conversamos muito sobre a filosofia chinesa e religião. O que ele me disse, por sua riqueza de conhecimento da mentalidade chinesa, esclareceu alguns dos problemas mais difíceis que o inconsciente europeu havia posado para mim. Por outro lado, o que eu tinha a dizer-lhe sobre os resultados das minhas investigações sobre o inconsciente lhe causou nenhuma surpresa, pois ele reconheceu neles coisas que ele tinha considerado a posse exclusiva da tradição filosófica chinesa.

Quando jovem Wilhelm tinha ido para a China a serviço de uma missão cristã, e o mundo mental do Oriente abriu as suas portas largas para ele. Wilhelm era um espírito verdadeiramente religioso, com uma vista sem nuvens e previdente das coisas. Ele tinha o dom de ser capaz de ouvir sem preconceito com as revelações de uma mentalidade estrangeira, e esse milagre da empatia lhe permitiu fazer os tesouros intelectuais da China acessíveis para a Europa. Ele foi profundamente influenciado pela cultura chinesa, e uma vez me disse: "É uma grande satisfação para mim que eu nunca tenha batizado um único chinês!" Apesar de sua formação cristã, ele não poderia deixar de reconhecer a lógica e clareza do pensamento chinês. "Influenciado" não é bem a palavra para descrever seu efeito sobre ele, que o tinha dominado e assimilado. Seus pontos de vista cristãos recuaram para o segundo plano, mas não desapareceram totalmente, eles formaram uma espécie de reserva mental, uma condição moral que mais tarde viria a ter consequências fatais.

Na China, ele teve a sorte de encontrar um sábio da antiga escola que a revolução tinha expulsado do interior. Este sábio, Lau Nai Suan, apresentou-o à filosofia yogue chinesa e à psicologia do I Ching. À colaboração destes dois homens devemos a edição do I Ching com o seu excelente comentário. Pela primeira vez, este trabalho profundo do Oriente foi introduzido no Ocidente em uma forma compreensível. Eu considero a mais importante obra de Wilhelm esta publicação. Clara e inequivocamente ocidental como sua mentalidade foi, em seu comentário sobre o I Ching ele manifesta um grau de adaptação à psicologia chinesa, que é totalmente incomparável. Quando a última página da tradução foi concluída e as provas da primeira impressão foram chegando, o velho mestre Lau Nai Suan morreu. Era como se o seu trabalho fosse concluído e ele havia entregado a última mensagem do ancião da China para a Europa. E Wilhelm tinha sido o discípulo perfeito, a realização do desejo, o sonho do sábio.

Wilhelm, quando eu o conheci, parecia completamente chinês, de forma externa, tanto quanto no seu modo de escrever e falar. O ponto de vista oriental e a antiga cultura chinesa tinham penetrado-o. Após a sua chegada na Europa, ele entrou para o corpo docente do Instituto Chinês, em Frankfurt am Main. Tanto no seu trabalho de ensino quanto em suas palestras para leigos, no entanto, ele parecia sentir a pressão do espírito europeu. Pontos de vista e formas de pensamento cristão moviam-se continuamente para o primeiro plano. Eu fui ouvir algumas palestras dele e estas acabaram por ser pouco diferente de sermões convencionais.

Esta reversão ao passado parecia tornar-se irrefletida e, por esse motivo, perigosa. Eu vi isso como uma reassimilação do ocidente, e sentia que, como resultado disso, Wilhelm devia entrar em conflito com ele mesmo. Como era, então eu pensei, uma assimilação passiva, isto é, um sucumbir à influência do ambiente, havia o perigo de um conflito relativamente inconsciente, um conflito entre sua psique ocidental e oriental. Se, como eu presumia, a atitude cristã tinha originalmente dado lugar à influência da chinesa, o inverso poderia muito bem estar tomando lugar agora: o elemento europeu podia estar ganhando a vantagem sobre o oriental, mais uma vez. Se tal processo ocorre sem uma tentativa forte, consciente para chegar a um acordo com ele, o conflito inconsciente pode afetar seriamente o estado de saude física.

Depois de assistir às palestras, eu tentei chamar a sua atenção para o perigo que o ameaçava. As minhas palavras para ele foram: "Meu querido Wilhelm, por favor, não tome isso errado, mas eu tenho a sensação de que o Ocidente está tomando posse de você de novo, e você está se tornando infiel à sua missão de transmitir o Oriente para o Ocidente."

Ele respondeu: "Eu acho que você está certo - algo aqui está me dominando. Mas o que pode ser feito.?"

Poucos anos depois, Wilhelm estava hospedado como convidado em minha casa, e veio com um ataque de disenteria amebiana. Era uma doença que ele teve vinte anos antes. Sua condição piorou durante os meses seguintes e, em seguida, ouvi dizer que Wilhelm estava no hospital. Eu fui a Frankfurt para visitá-lo, e encontrei um homem muito doente. Os médicos ainda não haviam desistido, e Wilhelm, também, falou dos planos que desejava levar a cabo quando ficasse bem. Eu compartilhei suas esperanças, mas tive meus pressentimentos. O que ele me confidenciou na época confirmou minhas conjecturas. Em seus sonhos, ele revisitou os longos trechos das estepes asiáticas desoladas - a China que havia deixado para trás.

Ele estava tateando seu caminho de volta para o problema que a China havia estabelecido ante ele, a resposta para o que havia sido bloqueado por ele pelo Ocidente. Até agora ele estava consciente desta questão, mas tinha sido incapaz de encontrar uma solução. Sua doença se arrastou por meses.

Poucas semanas antes de sua morte, quando eu não tive notícias suas por um tempo considerável, eu estava acordado, a ponto de cair no sono, e tive uma visão. Na minha cama estava um chinês em veste azul escuro, as mãos cruzadas nas mangas. Ele curvou-se diante de mim, como se quisesse dar-me uma mensagem. Eu sabia o que isso significava. A visão era extraordinariamente vívida. Não só eu via cada ruga no rosto do homem, mas cada fio do tecido de sua veste.

O problema de Wilhelm também pode ser considerado como um conflito entre a consciência e o inconsciente, que no seu caso tomou a forma de um confronto entre o Ocidente e o Oriente. Eu acreditava que entendia sua situação, já que eu mesmo tive o mesmo problema que ele e sabia o que significava estar envolvido no conflito. Eu acreditava que entendia sua situação, já que eu tive o mesmo problema que ele e sabia o que significava estar envolvido no conflito. É verdade que, mesmo em nossa última reunião Wilhelm não falava claramente. Embora ele estivesse intensamente interessado quando eu apresentei o ponto de vista psicológico, o seu interesse durou apenas enquanto fazia minhas observações a respeito de questões objetivas, como a meditação ou questões colocadas pela psicologia da religião. Tão distante, tão bom. Mas sempre
que eu tentava tocar o real problema de seu conflito interior, eu imediatamente sentia um recuo para dentro fechando-se por fora. Este é um fenômeno que tenho observado em muitos homens de importância. Há, como Goethe coloca em Fausto, uma região "untrodden, untreadable" (inexplorada) cujo recinto não pode e não deve ser introduzido pela força, uma sina que não admite a intervenção humana.


Fonte: Escola da Sabedoria

Traduzido por: Lizza Bathory

DELÍRIOS E ALUCINAÇÕES NA PSICOSE REATIVA (Transtorno Psicótico Transitório)

A Psicose Reativa Breve se caracteriza pelo aparecimento abrupto dos sintomas psicóticos sem a existência de sintomas pré-mórbidos e, habitualmente, seguindo-se a um estressor psicossocial. Os sinais e sintomas clínicos são similares àqueles vistos em outros distúrbios psicóticos, como na Esquizofrenia e nos Transtornos Afetivos com Sintomas Psicóticos. O prognóstico é bom e a persistência de sintomas residuais não ocorre. Durante o surto observa-se incoerência e acentuado afrouxamento das associações, delírios, alucinações e comportamento catatônico ou desorganizado. Há componentes afetivos com mudanças bruscas de um afeto para outro, perplexidade e confusão.

A Organização Mundial de Saúde, através da Classificação Internacional de Doenças (CID), recomenda que esta categoria de psicose deve ser restringida ao pequeno grupo de afecções psicóticas, em grande parte ou totalmente atribuídas a uma experiência existencial recente. Deve ser entendida como uma alteração psicótica na qual os fatores ambientais tem a maior influência etiológica. Trata-se de reações cuja natureza não é só determinada pela situação psicotraumática, mas também pelas predisposições da personalidade. A maioria das reações psíquicas mórbidas desenvolve-se em função de uma perturbação de caráter que predispõe a elas. Tal perturbação será fruto de um desenvolvimento psicorreativo anormal.

O desenvolvimento da Psicose Reativa pode satisfazer a necessidade do paciente em representar, simbolicamente, a si e aos outros através da natureza interna de suas contradições, angústias e paixões, numa espécie de falência aguda de sua capacidade de adaptação a uma situação sofrível.

Deve haver na Psicose Reativa Breve, de uma maneira ou outra, um certo lucro subjetivo na medida em que o paciente vive à margem da realidade traumática e insuportável; transfere seu próprio fracasso para um Delírio persecutório, recolhe-se da realidade numa postura autística, nega a existência num estado amnésico e assim por diante. Pode ser de grande alívio a transferência da tonalidade afetiva de um objeto para outro, ou de um complexo de ideias para um outro complexo secundário psiquicamente anárquico, onde as coisas se encaixam numa lógica doentia e fantástica.

Causas

Por definição, de acordo com Kaplan, um estressor vivencial significativo constitui um fator etiológico para este distúrbio, entretanto, melhor seria pensar nestes fatores estressantes mais como desencadeantes do surto psicótico agudo. Portanto, a patologia terá bases tanto biológicas quanto psicológicas. Devem ser enfatizados os mecanismos de relacionamento inadequados e a possibilidade de ganho emocional primário ou secundário com a eclosão do surto agudo.

Há hipóteses que a psicose representaria um mecanismo de defesa a um estressor específico.

Sintomas

A característica essencial deste distúrbio é o início súbito dos sintomas psicóticos que persistem por um tempo inferior a um mês, com eventual retorno ao nível pré-mórbido de funcionamento. Os sinais e sintomas clínicos são similares àqueles vistos em outros estados psicóticos, tais como na Esquizofrenia e nos Transtornos Afetivos com Sintomas Psicóticos.

O comportamento pode ser bizarro, com posturas peculiares, trejeitos esquisitos, gritos ou mutismo completo. Frequentemente há significativa desorientação, confusão e distúrbios de memória.

Alucinações transitórias, delírios e confabulações podem estar presentes. O quadro é mais frequente na adolescência e idade adulta jovem. São frequentes, também, as modificações rápidas de um afeto intenso para outro, a perplexidade e regressão com atitudes pueris. O comportamento catatônico ou desorganizado é comum e isso pode confundir com os casos de simulação, Síndrome de Ganser ou mesmo histeria.

Curso e Prognóstico

Não existem sintomas prodrômicos anteriores ao estressor desencadeante, embora possam existir traços de personalidade sugestivos de algum distúrbio prévio. O aparecimento da sintomatologia segue o estressor em poucas horas, não duram mais de um mês e a depressão posterior é frequente.

ASPECTOS DE BOM PROGNÓSTICO (10)

    • Boa adaptação emocional pré-mórbida (antes do surto)
    • Poucos traços Esquizóides de personalidade pré-mórbidos
    • Grave estressor emocional precipitante
    • Aparecimento agudo e repentino dos sintomas
    • Sintomas afetivos presentes (depressão, normalmente)
    • Confusão e perplexidade durante a crise
    • Pouco empobrecimento afetivo
    • Curta duração dos sintomas
    • Ausência de parentes esquizofrênicos
É muito difícil a diferenciação entre a Psicose Reativa Breve e a Depressão Maior com Sintomas Psicóticos. Para tal distinção é fundamental a verificação minuciosa da personalidade pré-mórbida e suas associações com traços depressivos ou esquizóides. A abordagem antidepressiva medicamentosa consegue resolver grande número de casos, o que nos faz suspeitar do evidente envolvimento afetivo em tais transtornos, ainda que não tenha havido nenhuma manifestação prévia de depressão com nítidas características psicóticas. Teoricamente isso é bem possível, já que a eclosão da Psicose posterior à agressão emocional pode significar uma falência adaptativa às circunstâncias vivenciais, atitude perfeitamente compatível com a dinâmica da depressão.

Ballone GJ, Moura EC - Alucinação e Delírio - in. PsiqWeb, Internet - disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2008

DELÍRIOS E ALUCINAÇÕES NA ALUCINOSE ORGÂNICA

O termo Alucinose designa uma Síndrome Cerebral Orgânica na qual as Alucinações, em uma ou mais modalidades sensitivas, constituem a anomalia psicológica predominante e às vezes única. Nestes casos os Delírios são raridade.

As três características adicionais mais importantes para o diagnóstico para a Alucinose Orgânica são:
1- falta de prejuízo da consciência,
2- ausência de sinais sugestivos de uma psicose e,
3- atividade alucinatória constante e recorrente.
Na clínica o termo Alucinose encontra-se frequentemente associado ao alcoolismo, chamando-se este estado de Alucinose Alcoólica. Trata-se de uma espécie de variante da síndrome de abstinência, mas que aparece nos alcoolistas independentemente da privação do álcool.

A Alucinose é também decorrente de estados tóxico proporcionados por diversas drogas, como por exemplo a cocaína, o LSD, brometos, maconha, antiparkinsonianos. Além das drogas, reconhece-se o potencial psicotizante de estados infecciosos (pneumonias, etc.), metabólicos (uremias, diabetes, etc.) e traumáticos e lesionais (traumatismos cranianos ou tumores), ou ainda por foco irritativo dos lobos temporais e occipital, sempre porém, de origem extra-psíquica.

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DELÍRIOS E ALUCINAÇÕES NOS TRANSTORNOS AFETIVOS

A Depressão Grave (ou Maior, segundo o DSM-IV), é um Transtorno Afetivo de características depressivas e de natureza predominantemente biológica. Era, anteriormente, chamada de PMD (Psicose Maníaco Depressiva), tipo ou fase depressiva. Atualmente classifica-se em TRANSTORNOS DO HUMOR, subtipos EPISÓDIO DEPRESSIVO (quando único) ou TRANSTORNO DEPRESSIVO RECORRENTE (quando múltiplos).

O que encontramos mais frequentemente nos distúrbios depressivos são sintomas atrelados predominantemente à afetividade, normalmente sem severo prejuízo da crítica, sintomas estes decorrentes de uma tríade sintomática básica e caracterizada por:
1 - estreitamento do campo vivencial;
2 - inibição psíquica e;
3 - sofrimento moral.
Entretanto, nos casos mais graves há a classificação de DEPRESSÃO MAIOR COM SINTOMATOLOGIA PSICÓTICA, quando então temos delírios e alucinações, confusão ou outros sintomas francamente psicóticos. Apesar da exuberância de tais sintomas, devemos ter sempre o cuidado em considerar tais fenômenos psicóticos (neste caso da depressão) como sendo de natureza secundária ao humor e não primária como nas esquizofrenias. Como o nome diz, são SINTOMAS PSICÓTICOS e não uma doença psicótica. Em graus mais severos, a depressão maior pode resultar num quadro francamente autista, exuberantemente delirante ou mesmo alucinatório, porém, tais sintomas serão sempre de natureza secundária à própria depressão. Embora o juízo crítico possa estar conservado nos pacientes deprimidos, suas vivências são suportadas com grande sofrimento e com perspectivas tão pessimistas que a interpretação da realidade assume caráter alterado: vai desde ideias falseadas, passando por ideias supervalorizadas, até o Delírio humor-congruente franco. Por não se tratar de um fenômeno de natureza primária, mas sim secundário ao afeto depressivo, alguns autores chamam esses delírios humor-congruentes de ideias deliróides.

O tema dos Delírios nos pacientes deprimidos é, de acordo com a ideia de humor-congruência (compatível com o humor) de ruína, de pecado, de podridão ou qualquer outro tema auto-pejorativo. O mesmo fenômeno pode aparecer nos casos de Euforia, ou seja, nas fases de euforia do TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR (antigo PMD, fase de Euforia). Neste caso a temática delirada será de grandeza, de messianismo, de super-poderes ou coisas que enaltecem delirantemente o ego do paciente.

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ALUCINAÇÕES E DELÍRIOS NA PSICOSE CRÔNICA (Paranóia)

De acordo com Kraepelin, a Paranóia é uma entidade clínica caracterizada, essencialmente, pelo desenvolvimento insidioso de um sistema delirante duradouro e inabalável mas, apesar desses Delírios há uma curiosa manutenção da clareza e da ordem do pensamento, da vontade e da ação. Ao contrário dos esquizofrênicos e doentes cerebrais, onde as ideias delirantes são um tanto desconexas, nesta Psicose Delirante Crônica as ideias se unem num determinado contexto lógico para formar um sistema delirante total, rigidamente estruturado e organizado.

A característica essencial desse Transtorno Delirante Persistente é a presença de um ou mais Delírios não-bizarros que persistem por pelo menos 1 mês.

Para o diagnóstico é muito importante que o delírio do Transtorno Delirante Persistente não seja bizarro nem seja desorganizado, ou seja, ele deve ter seu tema e script organizado e compreensível ao ouvinte, embora continue se tratando de uma falsa e absurda crença. As alucinações não são proeminentes e nem habituais, embora possam existir concomitantemente. Quando existem, a alucinações táteis ou olfativas costumam ser mais frequentes que as visuais e auditivas.

Normalmente o funcionamento social desses pacientes Paranóicos não está prejudicado, apesar da existência do Delírio. A maioria dos pacientes pode parecer normais em seus papéis interpessoais e ocupacionais, entretanto, em alguns o prejuízo ocupacional pode ser substancial e incluir isolamento social. A impressão que se tem é a de uma ilha de Delírio num mar de sanidade, portanto, uma espécie de Delírio insular.

Um paciente, por exemplo, convencido de que será assassinado por perseguidores implacáveis pode desenvolver isolamento social e abandonar o emprego. Em geral, além do funcionamento social comprometido, também o relacionamento conjugal pode sofrer prejuízos. Na Esquizofrenia o comprometimento social mais acentuado costuma ser a regra.

Esses Delírios normalmente são interpretativos, egocêntricos, sistematizados e coerentes. Pode ser de prejuízo, de perseguição ou de grandeza, impregnado ou não de tonalidade erótica ou com ideias de invenção ou de reforma. Também é frequente o delírio de ciúme, mais encontradiço nas mulheres. Estas estão sempre se deparando com provas "contundentes" acerca dos muitos relacionamentos sexuais de seus maridos.

Tipos de Psicoses Delirantes Persistentes (Crônicas)

1 - Tipo Erotomático

Neste caso o delírio habitualmente se refere ao amor romântico idealizado e a união espiritual, mais do que a atração sexual. Acreditam, frequentemente, ser amados por uma pessoa do sexo oposto que ocupa uma posição de superioridade (ídolos, artistas, autoridades, etc.) mas, pode também ser uma pessoa normal e estranha.

2 - Tipo Grandeza

Neste subtipo de Transtorno Delirante Persistente a pessoa é convencida, pelo seu delírio, possuir algum grau de parentesco ou ligação com personalidades importantes ou, quando não, possuir algum grande e irreconhecível talento especial, alguma descoberta importante ou algum dom magistral. Outras vezes acha-se possuidor de grande fortuna.

3 - Tipo Ciúme

Neste tipo de Paranóia a pessoa está convencida, sem motivo justo ou evidente, da infidelidade de sua esposa ou amante. Pequenos pedaços de "evidência", como roupas desarranjadas ou manchas nos lençóis podem ser coletados e utilizados para justificar o delírio. O paciente pode tomar medidas extremas para evitar que o companheiro(a) proporcione a infidelidade imaginada, como por exemplo, exigindo uma permanência no lar de forma tirana ou obrigando que nunca saia de casa desacompanhado(a).

4 - Tipo Persecutório

É o tipo mais comum entre os paranóicos ou delirantes crônicos. O delírio costuma envolver a crença de estar sendo vítima de conspiração, traição, espionagem, perseguição, envenenamento ou intoxicação com drogas ou estar sendo alvo de comentários maliciosos.

5 - Tipo Somático (Parafrenia)

A Formação Delirante do Tipo Somático, como justifica o nome, caracteriza-se pela ocorrência de variadas formas de delírios somáticos e, neste caso, com maiores possibilidades de alucinações que outros tipos de Paranóia. Os mais comuns dizem respeito à convicção de que a pessoa emite odores fétidos de sua pele, boca, reto ou vagina, de que a pessoa está infestada por insetos na pele ou dentro dela, esdrúxulos parasitas internos, deformações de certas partes do corpo ou órgãos que não funcionam.

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ALUCINAÇÕES E DELÍRIOS NA ESQUIZOFRENIA

A Esquizofrenia é uma doença da Personalidade total que afeta a zona central do eu e altera toda estrutura vivencial. Culturalmente o esquizofrênico representa o estereotipo do "louco", um indivíduo que produz grande estranheza social devido ao seu desprezo para com a realidade reconhecida. Agindo como alguém que rompeu as amarras da concordância cultural, o esquizofrênico menospresa a razão e perde a liberdade de escapar às suas fantasias.

Segundo Kaplan, aproximadamente 1% da população é acometido pela doença, geralmente iniciada antes dos 25 anos e sem predileção por qualquer camada sócio-cultural. O diagnóstico baseia-se exclusivamente na história psiquiátrica e no exame do estado mental. É extremamente raro o aparecimento de esquizofrenia antes dos 10 ou depois dos 50 anos de idade e parece não haver nenhuma diferença na prevalência entre homens e mulheres.

Esquirol (1772-1840) considerava a loucura como sendo a somatória de dois elementos: uma causa predisponente, atrelada à personalidade, e uma causa excitante, fornecida pelo ambiente. Hoje em dia, depois de muitos anos de reflexão e pesquisas, a psiquiatria moderna reafirma a mesma coisa com palavras atualizadas. O principal modelo para a integração dos fatores etiológicos da esquizofrenia é o modelo estresse-diátese, o qual supõe o indivíduo possuidor de uma vulnerabilidade específica colocada sob a influência de fatores ambientais estressantes (causa excitante). Em determinadas circunstâncias o binômio diátese-estresse proporcionaria condições para o desenvolvimento da esquizofrenia. Até que um fator etiológico para a doença seja identificado, este modelo parece satisfazer as teorias mais aceitas sobre o assunto.

Alguns sintomas, embora não sejam específicos da Esquizofrenia, são de grande valor para o diagnóstico.

Seriam:
1- audição dos próprios pensamentos (sob a forma de vozes).
2- alucinações auditivas que comentam o comportamento do paciente.
3- alucinações somáticas.
4- sensação de ter os próprios pensamentos controlados.
5- irradiação destes pensamentos.
6- sensação de ter as ações controladas e influenciadas por alguma coisa do exterior.
7- dar significado especial a algum evento corriqueiro (PERCEPÇÂO DELIRANTE).
Tentando agrupar a sintomatologia da esquizofrenia para sintetizar os principais tratadistas, teremos destacados três atributos da atividade psíquica: comportamento, afetividade e pensamento. Os Delírios surgem como alterações do conteúdo do pensamento esquizofrênico e as alucinações como pertencentes à sensopercepção. Ambos acabam sendo causa e/ou consequência das alterações nas 3 áreas acometidas pela doença (comportamento, afetividade e pensamento).

Delírios

Os Delírios na Esquizofrenia podem sugerir uma interpretação falsa da realidade percebida. É o caso por exemplo, do paciente que sente algo sendo tramado contra ele pelo fato de ver duas pessoas simplesmente conversando. Trata-se, neste caso, de uma Percepção Delirante. Desta forma, a Percepção Delirante necessita de algum estímulo para ser delirantemente interpretado (no caso, duas pessoas conversando). Outras vezes não há necessidade de nenhum estímulo à ser interpretado, como por exemplo, julgar-se deus. Neste caso trata-se de uma Ocorrência Delirante. O tipo de Delírio mais
frequentemente encontrado na Esquizofrenia é do tipo Paranóide ou de Referência, ou seja, com temática de perseguição ou prejuízo no primeiro caso e de que todos se referem ao paciente (rádios, vizinhos, televisão, etc) no segundo caso.

Na Esquizofrenia os Delírios surgem paulatinamente, sendo percebidos aos poucos pelas pessoas íntimas aos pacientes. Em relação ao Delírio de Referência, inicialmente os familiares começam à perceber uma certa aversão à televisão, aos vizinhos, etc.

Alucinações

As Alucinações mais comuns na Esquizofrenia são do tipo auditivas, em primeiro lugar e visuais em seguida. Conforme diz Schneider, "de valor diagnóstico extraordinário para o diagnóstico de uma Esquizofrenia são determinadas formas de ouvir vozes: ouvir os próprios pensamentos (pensar alto), vozes na forma de fala e respostas e vozes que acompanham com observações a ação do doente". Esta Sonorização do Pensamento, juntamente com alguns outros sintomas que envolvem alucinações auditivas e sensações de ter os próprios pensamentos influenciados por elementos externos, compõem a sintomatologia que Schneider considerou como sendo de Primeira Ordem.

Um esquizofrênico pode estar ouvindo sua própria voz, dia e noite, sob a forma de comentários e antecipações daquilo que ele faz ou pretende fazer, como por exemplo: "ele vai comer" ou ainda, "o que ele está fazendo agora? Está trocando de roupas". Outro sintoma importante no diagnóstico da esquizofrenia é a sensação de que o pensamento está sendo irradiado para o exterior ou mesmo sendo subtraído ou "chupado" por algo do exterior: Subtração e Irradiação do pensamento, também são considerados de Primeira Ordem. Igualmente podemos encontrar a sensação de que os atos estão sendo controlados por forças ou influências exteriores.

Sintomas de Primeira Ordem segundo Kurt Schneider

    • Percepção delirante
    • Alucinações auditivas na forma de vozes que acompanham a própria atividade com comentários
    • Alucinações auditivas na forma de vozes que dialogam entre si
    • Sonorização do pensamento
    • Vivência de influência corporal
    • Roubo do pensamento
    • Vivência de influência sobre o pensamento
    • Difusão ou irradiação do pensamento
    • Tudo aquilo que é feito ou influenciado por outrem no campo dos sentimentos, dos impulsos e da vontade

Todas as demais alucinações, auditivas, visuais, tácteis, olfatórias, gustativas, cenestésicas e cinestésicas, embora sejam consideradas sintomas acessórios por Bleuler, aparecem na esquizofrenia com frequência bastante significativa. Normalmente as alucinações auditivas são as primeiras a aparecer e as últimas a sumir.

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Alterações sensoperceptivas e do pensamento são importante indicadores da sanidade mental

Alucinação é a percepção real de um objeto inexistente, ou seja, são percepções sem um estímulo externo. Dizemos que a percepção é real, tendo em vista a convicção inabalável que a pessoa manifesta em relação ao objeto alucinado, portanto, será real para a pessoa que está alucinando.

Sendo a percepção da Alucinação de origem interna, emancipada de todas variáveis que podem acompanhar os estímulos ambientais (iluminação, acuidade sensorial, etc.), um objeto alucinado muitas vezes é percebido mais nitidamente que os objetos reais de fato.

Tudo que pode ser percebido pode também ser alucinado e isso ocorre, imaginativamente, com maior liberdade de associações de formas e objetos. Na Alucinação, por exemplo, um leão pode aparecer de asas, ou um caracol que cavalga um ouriço. O indivíduo que alucina pode ter percebido isoladamente cada umas das formas e, mentalmente, combinado umas com as outras.

As alucinações podem manifestar-se também através de qualquer um dos cinco sentidos, sendo as mais frequentes as auditivas e visuais. O fenômeno alucinatório se diferencia da ilusão no que tange à existência de estímulo externo já que na Alucinação não há estímulo e na ilusão o estímulo é percebido de forma deformada, ou em uma simplificação a ilusão é um “engano”dos sentidos.

O fenômeno alucinatório tem conotação muito mais mórbida que a ilusão, sendo normalmente associado à estados psicóticos que ultrapassam a simplicidade de um engano dos sentidos. Na Alucinação o envolvimento psíquico é muito mais contundente que nos estados necessários à ilusão.

1 - Alucinações Auditivas

Tudo que pode ser percebido pelos 5 sentidos (audição, visão, tato, olfato e gustação) pode também ser alucinado. As alucinações sempre aproveitam o material consciente conhecido do pacientes. Embora as alucinações possam manifestar-se através de qualquer um dos cinco sentidos, as mais frequentes são as auditivas e visuais.

Como as mais frequentes, podem aparecer sob forma de sons inespecíficos, tais como chiados, zumbidos, ruídos de sinos, roncos, assobios, ou vozes, as quais podem ter as mais variadas características: diálogos entre mais de um interlocutor, comentários sobre atos do paciente, críticas sobre a pessoa que alucina, podem ainda, por outro lado, proferir injúrias e difamações, comunicar informações fantásticas, sonorizar o pensamento do próprio paciente ou de terceiros. Na ideia do paciente tais vozes podem ser provenientes do além, do sobrenatural, dos demônios ou de Deus, etc.

O fenômeno de perceber uma voz que não existe (percepção de objeto inexistente) é a Alucinação propriamente dita e, interpretá-la como sendo a voz do demônio, de Deus, dos espíritos mortos ou uma audição telepática já faz parte do DELÍRIO. Este, frequentemente, acompanha a Alucinação. Ouvir vozes faz parte da sensopercepção e atribuir a elas algum significado faz parte do pensamento, cujos distúrbios veremos adiante.

Algumas vezes as vozes alucinadas podem determinar ordens ao paciente, o qual as obedece mesmo contra sua vontade. Diante desta situação, de obediência compulsória às ordens ditadas por vozes alucinadas, chamamos de AUTOMATISMO MENTAL. Esta situação oferece alguma periculosidade, já que, quase sempre, as ordens proferidas são eticamente condenáveis ou socialmente desaconselháveis.

Normalmente, a Alucinação auditiva é recebida pelo paciente com muita ansiedade e contrariedade pois, na maioria das vezes, o conteúdo de tais vozes é desabonador, acusatório, infame e caluniador. Quando elas ditam antecipadamente as atitudes do paciente falamos em SONORIZAÇÃO DO PENSAMENTO, como se ele pensasse em voz alta ou como se alguma voz estivesse permanentemente comentando todos seus atos: "lá vai ele lavar as mãos", "lá vai ele ligar a televisão" e assim por diante.

2 - Alucinações Visuais

São percepções visuais, como vimos, de objetos que não existem, tão claras e intensas que dificilmente são removíveis pela argumentação lógica. Mesmo o paciente referindo ter visto apenas vultos, tais vultos são muito fielmente percebidos, portanto são reais para a pessoa que os percebe. O objeto alucinado pode não ter uma forma específica: clarões, chamas, raios, vultos, sombras, etc, ou têm formas definidas, tais como pessoas, monstros, demônios, animais, santos, anjos, bruxas.

Há determinadas ocasiões onde o transtorno visual alucinatório adquire a consistência de uma cena, uma situação como, por exemplo, ver uma carruagem passando pela paciente e dela descer um príncipe. Neste caso falamos em ALUCINAÇÕES ONIRÓIDES, como se transcorresse num sonhar acordado. No Delirium Tremens do alcoolista, por exemplo, as alucinações visuais têm uma temática predominantemente de bichos e animais peçonhentos (cobras, aranhas, percevejos, jacarés, lagartos) e, neste caso, damos o sugestivo nome de ZOOPSIAS, promovedoras de grande ansiedade e apreensão.

Nas situações onde o paciente se vê fora de seu próprio corpo falamos em ALUCINAÇÕES AUTOSCÓPICAS e, quando ele consegue ver cenas e objetos fora de seu campo sensorial, como enxergar do lado de fora da parede, teremos as ALUCINAÇÕES EXTRA-CAMPINAS.

O conteúdo das alucinações é extremamente variável, porém, guarda sempre uma íntima relação com a bagagem cultural do paciente que alucina. Não é possível alucinar com alguma coisa que não faça parte do mundo psíquico do paciente. Um físico nuclear pode alucinar com um certo brilho atômico a revestir seus inimigos, enquanto um cidadão menos diferenciado, com um espírito do morto a rondar sua casa, ambos porém, independentemente do nível sócio-cultural têm a mesma probabilidade de alucinar.

A sofisticação e exuberância do material alucinado dependerá da bagagem cultural de quem alucina mas não interfere na valorização semiológica do fenômeno.

3 - Alucinações Táteis

A percepção de estímulos táteis sem que exista o objeto correspondente é observada principalmente nas psicoses tóxicas e nas psicoses delirantes crônicas, como veremos adiante. Nestes casos, principalmente no Delirium Tremens ou na dependência de cocaína, o paciente sente-se picado por pequenos animais, insetos esquisitos, vermes que caminham sobre a pele, pancadas, alfinetadas, queimaduras, estranhos carrapatos que penetraram em algum orifício fisiológico, etc. Frequentemente as alucinações táteis com pequenos insetos é acompanhada por um Delírio de infestação também chamado de Síndrome de Ekbom. Não são raros os casos de Alucinação tátil que se caracteriza pela sensação de ter-se as pernas puxadas à noite ou estrangulamento, sufocação ou opressão antes de conciliar o sono. Quando esta percepção falseada diz respeito aos órgãos internos ou ao esquema corporal falamos em ALUCINAÇÕES CENESTÉSICAS. Nestes casos os pacientes sentem como se tivessem seu fígado revirado, esvaziado seu pulmão, seus intestinos arrancados, o coração rasgado, o cérebro apodrecido e assim por diante. As Alucinações Cenestésicas devem ser diferenciadas das ALUCINAÇÕES CINESTÉSICAS, que não dizem respeito à sensação tátil, mas sim aos movimentos (cine-movimento). Nas cinestesias os pacientes percebem as paredes movendo-se ou eles próprios movendo-se no espaço.

Exemplo: um paciente delirante crônico sentia que seu cérebro estava infestado de germes, os quais, esporadicamente, escorriam-lhe pelo nariz. Neste caso uma Alucinação Tátil Cenestésica. Outro queixava-se de inúmeros percevejos que furavam-lhe a pele o tempo todo. Era um portador de Delirium Tremens, e, inclusive, mostrava os insetos que conseguia apanhar para o médico (zoopsia+aluc. tátil). Trata-se de Alucinações Táteis puras. Outro, já idoso, que sabia ter seus pulmões corroídos por vermes provenientes de carne suína, tossia seguidamente e vivia submetendo-se a frequentes exames de raios X. Neste último caso, uma Alucinação Cenestésica pura.

4 - Alucinações Olfativas

Normalmente, as alucinações olfativas e gustativas estão associadas e são raras. Estados delirantes cujo tema diz respeito à putrefação, o gosto e os odores podem ser muito desagradáveis e são percebidos, como é típico de todas alucinações, sem que exista o objeto correspondente ao gosto e ao cheiro. Algumas auras epilépticas determinam o aparecimento de alucinações gustativas e/ou olfativas. Em geral os gostos alucinados aparentam ser de sangue, terra, catarro ou qualquer outra coisa desagradável; os odores podem ser desde perfumes exóticos até de fezes.

5 - Alucinações Compostas ou Mistas

São as alucinações onde estão envolvidas mais de um modalidade sensorial podendo ser descrito a visão de um homem (alucinação visual) que fala (alucinação auditiva) e por vezes o toca (alucinação tátil). Essa apresentação é mais comum em quadro com rebaixamento de consciência mas pode ocorrer também em quadros esquizofrênicos.

Delírio

Jaspers define o Delírio Primário ou puro como sendo um juízo patologicamente falso da realidade. Este juízo falso deve apresentar três características:
1 - deve apresentar-se como uma convicção subjetivamente irremovível e uma crença absolutamente inabalável;
2 - deve ser impenetrável e incompreensível para o indivíduo normal, bem como, impossível de sujeitar-se às influências de correções quaisquer, seja através da experiência ou da argumentação lógica e;
3 - impossibilidade de conteúdo plausível.
Todos os casos que não satisfazem essa tríade não podem ser considerados Delírios Verdadeiros ou Delírios Primários (podem ser Ideias Deliróides ou Delírios Secundários).

A prática clínica da psiquiatria deixa bem claro a constatação da primeira regra de Jaspers. Diante de um paciente delirante, cuja ruptura com a realidade é evidente, não conseguimos demover tal Conteúdo do Pensamento mediante qualquer tipo de argumentação. Caso o paciente deixe-se convencer pela argumentação da lógica, razoavelmente elaboradas pelo interlocutor, decididamente não estaremos diante de um Delírio, mas sim de um engano por parte do paciente ou de uma formação deliróide. Para ser Delírio a convicção dever ser sempre inabalável. A argumentação racional não deve afetar a realidade distorcida ou recriada de quem delira, independentemente da capacidade convincente e da perseverança daquele que se empenhar nesta tarefa infrutífera.

Em relação à segunda regra, Jaspers alerta sobre a impossibilidade do
Delírio ser compreendido por pessoas que mantém vínculo sólido com a realidade.

A lógica da realidade do delirante não é aplicável à lógica dos indivíduos normais, daí a falta de compreensão psicológica do Delírio: carece relação entre a temática delirante e os elementos da realidade, notadamente com a conjuntura vivencial do paciente. Ao postular esta regra Jaspers definia aquilo que chamamos de DELÍRIO PRIMÁRIO, ou seja, uma idéia falseada da realidade, cujas fantasias não guardam relação com a realidade vivida. Em outras palavras, esta irredutibilidade do Delírio quer dizer que não pode haver uma relação compreensível entre o tema delirante e possíveis vivência causadoras. O que se confunde, às vezes, são histórias de afastamento da realidade posteriores à traumas emocionais mas, como já dissemos, trata-se aqui de Ideias Deliróides ou DELÍRIO SECUNDÁRIO. Nesses casos, secundários e relacionados à vivências traumáticas, o Delírio se apresenta de forma a sugerir um determinado Mecanismo de Defesa contra uma forte ameaça psíquica, normalmente angustiante, por isso falamos em DELÍRIO SECUNDÁRIO ou IDEIA DELIRÓIDE. Aí sim, podemos interpretá-lo mediante uma análise vivencial e psicodinâmica plausíveis.

Exemplo: Um jovem de 23 anos, vítima de um acidente do trabalho que lhe custou a perda de quatro dedos da mão direita começou apresentar uma expressiva inadequação afetiva (ao invés de aborrecido, mostrava-se feliz) e com um delírio no qual julgava-se Deus, cheio de poderes, auto suficiente e ostensivamente ameaçador para com as pessoas que dele duvidavam. Resumidamente, está claro que tal ideação emancipada da realidade era por demais compreensível: tratava-se de um mecanismo de defesa psicotiforme no qual, em COMPENSAÇÃO à mutilação e deficiência o seu poder passou a ser infinito. Trata-se pois de uma Ideia Deliróide (ou um Delírio Secundário), o qual habitualmente pode fazer parte de numa Reação Psicótica Aguda.

Delírios com temática semelhante ou mesmo igual ao exemplo exposto quando surgem em pessoas sem nenhuma vivência justificadora, sem nenhuma possibilidade de redução dinâmica vivencial e impossíveis de conteúdo ou de compreensibilidade são os verdadeiros Delírios Primários. Já, a Ideia Deliróide, seria consequência de um estado afetivo subjacente e perfeitamente relacionável com uma vivência expressiva, por isso secundário.

A Ideia Delirante, ou Delírio, espelha uma verdadeira mutação na relação eu-mundo e se acompanha de uma mudança nas convicções e na significação da realidade. O delirante encontra-se imerso numa nova realidade de forma à desorganizar a sua própria identidade e se desorganiza pela ruptura entre o sujeito e o objeto, entre o interno e o externo, ou seja, entre o eu e o mundo.

Henri Ey trata do Delírio no capítulo reservado à Semiologia da Alienação da Pessoa e considera-o como uma modificação radical das relações do indivíduo com a realidade. Trata-se, conforme Ey, de um distúrbio que se relaciona essencialmente com a concepção do mundo, manifestando-se através de uma inversão das relações do Ego com a realidade, enfim, uma alienação do Ego.

Segundo Kraepelin, "Delírios são ideias morbidamente falseadas que não são acessíveis à correção por meio do argumento". Bleuler, por sua vez, dizia que "Ideias Delirantes são representações inexatas que se formaram não por uma causal insuficiência da lógica, mas por uma necessidade interior. Não há necessidades senão afetivas", determinava ele. Como percebemos, Kraepelin parece deter-se mais naquilo que entendemos por Delírio Primário, enquanto Bleuler já ventilava uma possibilidade do Delírio Secundário.

Fonte: Psiqweb

GAROTA INTERROMPIDA

Winona Ryder interpreta uma garota que vai parar num hospital psiquiátrico em plenos anos 60, onde termina por fazer amizade com outras internadas.

Com Angelina Jolie e Whoopi Goldberg. Vencedor do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

Em 1967, após uma sessão com um psicanalista que nunca havia visto antes, Susanna Kaysen (Winona Ryder) foi diagnosticada como vítima de "Ordem Incerta de Personalidade" - uma aflição com sintomas tão ambíguos que qualquer garota adolescente pode ser enquadrada.

Enviada para um hospital psiquiátrico, onde viveu nos 2 anos seguintes, ela conhece um novo mundo, de jovens garotas sedutoras e transtornadas. Entre elas está Lisa (Angelina Jolie), uma charmosa sociopata que organiza uma fuga com Susanna, Daisy e Polly, com o intuito de retomarem suas vidas.

Fonte: http://www.saudadeeadeus.com.br/filme718.htm

GERAÇÃO PROZAC

Lizzie é uma brilhante estudante a caminho da renomada faculdade de Harvard com planos de estudar Jornalismo e seguir carreira de crítica de música. Entretanto a sua frágil situação familiar a leva a uma profunda depressão. Quando suas noites de trabalho regadas a drogas e sua instabilidade emocional a afastam de sua amiga de quarto e de seu namorado, Lizzie procura a ajuda profissional da Dra. Diana Sterling, que lhe receita o antidepressivo Prozac.

BORDERLINE

Sinopse:
A história de Kiki é mostrada em diferentes fases de sua vida. Com a mãe internada, ela é criada pela avó, que não se preocupa com ela. Seu refúgio é a escola. Sua vida antes dos 30 está bem longe de ser um conto de fadas. Ela se envolve com diversos homens, um após o outro. Sexo e álcool são suas únicas saídas e sua rotina. Mas aos 30 anos, Kiki enfrenta o maior de todos os desafios: aprender a amar a si mesma. Adaptação dos romances Borderline e La Brèche, da canadense Marie-Sissi Labrèche.

“Loucura, mulher e representação: fronteiras da linguagem em Maura Lopes Cançado e Stela do Patrocínio”

Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo. Não aparecia de frente e de corpo inteiro, como as outras pessoas, conversando na calma. Só o busto, recortado numa das janelas da frente, as mãos magras, ameaçando. Os cabelos, brancos e desgrenhados. E a boca inflamada, soltando xingamentos, pragas, numa voz rouca. Eram palavras da Bíblia misturadas a termos populares, dos quais alguns pareciam escabrosos, e todos fortíssimos na sua cólera.
Carlos Drummond de Andrade

Introdução

A escrita literária pode figurar como espaço de representação da loucura em um viés humano, filosófico, estético, conforme se verifica no objeto de análise do presente trabalho – duas obras de diferentes gêneros produzidas no interior da loucura por mulheres rotuladas socialmente como loucas: Hospício é Deus (1965), de Maura Lopes Cançado, e Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (2001), de Stela do Patrocínio.

Inverso ao que ocorre no discurso psiquiátrico, em que a loucura registra-se como negatividade, na obra literária ela atualiza-se em criação e, assim, positividade.

Esses textos trazem o universo da loucura recuperado verbalmente por aquelas que nele vivem e ali se vêem a construir sua identidade como mulheres loucas. Entre os interstícios da loucura e da sanidade, da palavra literária e da palavra insensata, a mulher louca representa-se em seu discurso, legitimando a fala da loucura, ao mesmo tempo em que a desconstrói ao criar um texto autobiográfico centrado em uma rigorosa lógica racional, como ocorre em Hospício é Deus.

Na escrita de seu diário, em que traça a trajetória de sua loucura e assume a identidade da louca, a autora exercita a liberdade da palavra literária, e então linguagem artística e linguagem da loucura se infiltram uma na outra. Essa dissolução de fronteiras radicaliza-se em Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, onde a linguagem da loucura representa-se por meio da liberação do fluxo do pensamento, decorrente do mergulho no delírio. Aí se percebe a palavra em sua total liberdade na criação estética, aproximando-se a linguagem livre da loucura à linguagem aparentemente nonsense da lírica moderna.

Em geral, a loucura é representada literariamente a partir de um olhar que a vê do exterior, o que equivale dizer que é uma interpretação da situação do louco no universo representado na obra.

Em autoras contemporâneas como Lya Luft, Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector, várias personagens mergulham na experiência trágica da loucura como resposta a um conflito familiar, social, existencial; e a perspectiva da narração muitas vezes as representa de modo a despertar o sentimento de piedade e solidariedade. Já nas obras de Maura Lopes Cançado e de Stela do Patrocínio pode-se ler uma versão da loucura por dentro, onde a construção da imagem estético-verbal da mulher louca se dá a partir das próprias integrantes do grupo marginalizado.

Quando se busca a recuperação do discurso do louco no domínio da linguagem, procura-se resgatar uma linguagem excluída paulatinamente da cultura ocidental à medida que a loucura foi sendo submetida a uma racionalidade cartesiana que a transformou em objeto da psiquiatria e dominou-a cientificamente. Esse refinamento tem justificado desde então até os dias atuais as práticas de silenciamento, de isolamento, de exclusão e de marginalização do louco, segundo historiciza Michel Foucault (1991). Ainda que a fala do louco se mostre o grau zero do discurso, uma impossibilidade de comunicação e pensamento, ele deve ser acolhido como linguagem-limite, tal qual o discurso desconexo, incoerente e sem referentes da lírica moderna, pois, como escreve Viviane Mosé, em sua apresentação ao livro (2001: 43), “ler e ouvir Stela é integrá-la no discurso que um dia a excluiu”.

Ao lado do problema da linguagem da loucura ou da loucura como linguagem, a escrita das duas autoras enquanto escrita de mulheres e loucas é, inevitavelmente, atravessada por múltiplas questões, algumas das quais serão brevemente apontadas. Enquanto canal de expressão de uma vivência feminina, os textos em estudo poderiam ser analisados como textos de “mulheres que escrevem” ou de loucas que “escrevem como mulher” e, com isso, levantar-se-ia o problema da relação entre escrita, loucura e gênero. Para não se cerrar nesse debate e ainda para além dessas questões, toma-se aqui o pensamento da crítica cultural Nelly Richard, cuja proposta é que, ao invés de se falar em escrita da mulher, essas questões sejam superadas pela feminização da escrita (2002: 133).

Assim, aplicar as questões de gênero aos textos dessas duas escritoras é insuficiente para lidar com textos tão transgressores, no sentido de que sua linguagem os coloca no exterior de qualquer norma, transformando-os em momentos de ruptura. Dessa forma, quando se trata da mulher louca, dá-se então uma dupla suspensão de seu discurso, uma vez que, conforme se sabe, a mulher confinada ao longo dos séculos nos papéis sociais de mãe, esposa, filha, amante, tem estado na sociedade patriarcal em posição inferiorizada socialmente, a subalterna destituída mesmo de voz.

Logo, as obras das autoras em estudo constituem, além de peças de inegável qualidade estética, obras de transgressão, porque representam mais do que um texto escrito por mulheres, uma feminização da escrita. Isso significa que todo texto que desregule “a tese do discurso majoritário”, “qualquer literatura que se pratique como dissidência da identidade, a respeito do formato regulamentar da cultura masculino-paterna, assim como qualquer escrita que se faça cúmplice da ritmicidade transgressora do feminino-pulsátil levaria o coeficiente minoritário e subversivo (contra-dominante) do ‘feminino’” (Richard, 2002: 133). Nesse sentido, o texto da mulher louca carrega em si uma elevada carga de subversão porque lida com a desestruturação de toda a estabilidade do universo patriarcal e põe em questão não apenas os pressupostos da lógica racional, mas sobretudo os valores literários canonizados, porquanto a escrita de uma minoria durante muito tempo silenciada traz em si, virtualmente, uma transgressão. E, atualizada na linguagem artística, a expressão do louco reveste-se de um valor político, pois extrapola o espaço da interioridade e atinge o campo da cultura (Frayse-Pereira, 1985: 101).

E ainda que a categoria de mulheres loucas seja integrada por um sem-número de pessoas que se desviam dos padrões normalizadores de conduta social, cada qual vivendo sua experiência singular da loucura, as auto-representações de Maura Lopes Cançado e Stela do Patrocínio contêm elementos comuns e universais à vivência daquelas que, em determinada altura de suas vidas, se viram excluídas de todos os processos da dinâmica social e, reclusas em instituições psiquiátricas, passaram a conviver com o estigma e o rótulo de louca.

Diários da loucura

Nas páginas iniciais de Hospício é Deus, a autora-narradora apresenta um mergulho no passado, no qual o medo e a insegurança ocupam papel central, e atribui à sua remota infância, de onde recompõe sua formação psicológica, a gênese de sua loucura. Para isso, ela remonta às concepções morais íntimas em choque com dificuldades e obstáculos que enfrenta a fim de chegar à maturidade. A sexualidade reprimida e o temor religioso levam-na a um profundo complexo de culpa que lhe provoca atitudes extremas, como se deitar no chão e gritar desesperadamente, como se a expulsar de si, com esse comportamento, “algo escuro, indefinível, insuportável” (HD, 25).

À medida que a narrativa evolui, constata-se que a loucura da protagonista pode ser explicada pelos tipos de relações familiares no contexto repressor da classe burguesa dos anos 1950 e 1960.

Do ponto de vista moral, sua loucura representa o fracasso em relação aos modelos sociais de comportamento. Em diversos momentos de sua trajetória, a personagem mostra a loucura como um rótulo imposto socialmente por representar um desvio dos padrões estabelecidos no espaço conservador e taciturno das Minas Gerais, além da punição com o estigma da mulher livre, divorciada, o que incomoda à época por ela pertencer a uma das mais tradicionais famílias mineiras. Se na infância e adolescência a desmedida insatisfação com tudo ao seu redor se ameniza com o refúgio nos sonhos, na vida adulta os sonhos são substituídos pelo mergulho em um estado de total descompromisso e irresponsabilidade,representado pela loucura. Logo, o enlouquecimento significa um modo de estar sozinha e livre de qualquer compromisso com a lógica masculino-repressiva dominante, escapando-se ao dever de desempenhar o papel da mulher, tal como ele se desenhava então.
A sigla HD será utilizada doravante sempre que se fizer referência à obra Hospício é Deus.
Assim sendo, por meio do rótulo de louca, a mulher podia ser encarcerada, reprimida, enfim, punida por se liberar da normalização. Ainda que representasse uma suposta libertação, a loucura significava a neutralização da voz e da ação da mulher na sociedade, pois a partir do momento em que essa voz é socialmente invalidada por meio do rótulo e do estigma, sua figura torna-se passiva e sua ação passa a não ter sentido.

Porém a narradora, por sua vez, não se submete a quaisquer normas e regras da sociedade e nem mesmo às do hospício.

Antes, ela própria define seu comportamento em cada situação. Daí ser ela um elemento potencialmente subversor no ambiente alienante do hospício.

No entanto, a narradora constrói de si própria uma imagem dúbia, instável, volúvel. Ao longo da narrativa, estados de espírito contraditórios se alternam e se mesclam, como confirmação de sua instabilidade emocional: ao mesmo tempo em que critica e procura desacreditar, agredir e rejeitar a moral burguesa, a sociedade em que se formou e o sistema psiquiátrico, ela busca desesperadamente ser aceita por esse mundo e se pune por não conseguir se adequar a seus padrões: “Considero-me uma paciente de ‘elite’, com direito a exigir a mesma condição do terapeuta” (HD, 205). Por apresentar um comportamento que não corresponde às expectativas de sua classe social, ela é rejeitada no colégio interno, nos hotéis familiares onde busca viver em Belo Horizonte e nos espaços de circulação comuns às pessoas da elite sócio-econômica. Mas a sociedade que a reprova é também rejeitada pela narradora, que elege para si o universo do hospício como seu espaço próprio enquanto idealização de um mundo onde a loucura é a possibilidade de transcendência das limitações materiais. É ao mundo material, com tantas restrições, convenções, preconceitos, que ela dirige toda sua descrença. Instaura, com isso, um movimento de transição em sua existência, rumo ao distanciamento do mundo material e ao encontro de sua interioridade, o que a lança ao desespero, sentimento considerado por Kierkegaard (2002: 25) como próprio do ser humano, já que ele não pode se libertar do seu eu. Desespero que só pode ser sentido por aqueles que, na busca do auto-conhecimento e de sentido para sua existência, mergulham o mais fundo em si mesmo.

Então a personagem busca o hospício como um lugar fora do mundo e a loucura como uma proteção contra esse mesmo mundo onde fracassa em todos os seus movimentos por autonomia e liberdade. O hospício é, assim, uma oportunidade de introspecção e encontro consigo própria:
O que me traz para aqui? (...) Analiso cada passo meu. Sofro cada gesto. Odeio estar aqui – mas vim. O medo de estar só me levaria a morar com os mortos. Mas não têm estado todos mortos para mim? Meu egoísmo é tão grande que não me permite esquecer-me um pouco: sou, sou, sou. Naturalmente a dor não absorve – translúcida. Meu corpo visto através do maior desespero (HD, 77).

Mas, paradoxalmente, esse mundo desejado, romanticamente idealizado, e transmutado no espaço físico do hospício vai ser repudiado como espaço hostil, porque é lugar do convívio indesejável com pessoas aquém de seu nível social, cultural, intelectual. Um outro exemplo da dubiedade de seu discurso é que mesmo após repudiar a violência com que as internas são tratadas no manicômio, ela admite que algumas delas merecem realmente ser castigadas, devido a seu comportamento irascível. Já em outras passagens, ela descreve terna e poeticamente as cenas das loucas dançando livres e alucinadas nos pátios e telhados.

Ainda que sua maior crítica seja à moral da elite burguesa mineira, da qual participa como membro e como intelectual, e inevitavelmente assume os valores, a obra vem reproduzir sua visão de mundo. Debatendo-se entre seu mundo particular – a partir do qual extrai seus parâmetros de elocução – e a consciência das deficiências desse mundo, a visão que a narradora constrói do hospício coloca a maioria daquelas personagens em perversa situação de inferioridade: “As mulheres são geralmente burras e sou inteligente” (HD, 149). A discriminação continua na divisão das internas em doentes mentais e loucas e, a partir disso, da formulação de seu próprio conceito de loucura. Nessa separação, as doentes mentais encontram-se em nível abaixo das loucas, que são aquelas que ela acredita terem alcançado um estágio espiritual elevado; aquelas que, já tendo superado a esfera material do mundo, ingressaram em um estado de completa inocência, grandeza, liberdade, dignidade (HD, 36-7).

Minguados os recursos da herança que a mantinham em caras casas de saúde, a narradora se vê a compartilhar o mesmo espaço degradante em que são empilhadas as loucas miseráveis das classes populares. Seu passado interfere em sua representação já que é a partir da perspectiva de uma mulher pertencente à elite sócio-econômico-cultural que ela se posiciona. Construído sobre valores de classe, seu discurso diferencia sua vivência da loucura da realidade da mulher louca marginalizada imersa no sistema psiquiátrico. Ela própria se distingue socialmente, distinção que se reflete na própria linguagem a ser utilizada com suas colegas, supostamente inferiores: “Sou escritora, minha família é rica e importante – esta mulher não serviria para cozinheira da minha casa. Devo impor-me. Como? Em que língua falar-lhe?” (HD, 47). E assim ela segue julgando o mundo e as pessoas com rigor e severas exigências, quando não com desprezo e humilhação.

Em parte sua representação é oferecida ao leitor por meio da perspectiva do médico, das funcionárias, das internas do hospício, e de muitas outras vozes que emergem nos diálogos que participam da obra, ainda que mediadas pelo foco da autora-narradora. A partir desses olhares, compõe-se um perfil agressivo, amargo, impetuoso, rebelde, imaturo, mas provocante e sedutor da personagem, projetando sua loucura como uma sensibilidade singularíssima. Com o passar do tempo e a constatação de suas diferenças em relação às demais internas, ela reconhece se beneficiar de um sistema de privilégios dentro do hospício: “Minha condição no hospital é especialíssima; nenhuma doente goza das regalias que gozo” (HD, 256). E assim reafirma sua superioridade sobre as demais, pelos atributos que todos lhe reconhecem: beleza, sensualidade, ousadia, inteligência, perspicácia, cultura.

A partir de sua auto-representação, o leitor pode visualizar a estranha figura de uma mulher louca, bela, sedutora, a tudo percebendo com profundidade e agudeza de espírito. Imagem altamente favorável, exceto pelo fato de constantemente também vislumbrá-la a agredir guardas e colegas, a se despir ou se dirigir acintosamente às diversas personagens, em um comportamento que contrasta agressivamente com o alto conceito que a narradora constrói de si própria. O desejo de total libertação, mas principalmente de atenção e compreensão, culmina com a tentativa de suicídio. Para a narradora, a morte física bem poderia solucionar definitivamente toda a angústia, já que a morte espiritual, representada pela loucura, parece tê-la tornado ainda mais lúcida, uma lucidez que chega a ultrapassar a compreensão racional:
Avanço, cega e desnecessária – não é este o meu tempo. Fora da vida, do mundo, da existência –apesar de enclausurada. Que sou eu?? Não importa. Quem poderia julgar-me? (...) Obrigada a marchar como os outros, aparentando ser o que não sou, ou perturbo a ordem (...) passarei, sem conseguir minha identificação. E não serei jamais alguém, frequentei um tempo errado (HD, 241-2).
Dessa forma, sua loucura consiste em estar no mundo e não poder absorvê-lo nem compreendê-lo. A escrita tem papel crucial nessa jornada de auto-conhecimento. Ela constitui, assim como a loucura, uma tentativa de superação do vazio interior, da angústia e do desamparo. A experiência do suicídio e o desejo de autodestruição são afastados, uma vez sublimados pela transposição dessas imagens para a experiência literária. A consciência de sua loucura como material e espaço de criação leva a narradora a identificar-se com grandes artistas loucos: Van Gogh, Gauguin, Rimbaud, Dostoievski, e a filósofos como Gide e Nietzsche (HD, 149). Ademais, a todo momento ela se reafirma como escritora, que precisa cuidar de sua literatura e conhece a força literária de sua escrita. Formula conceitos sobre estética, moral, ética, e registra suas reflexões acerca da criação e da crítica literária, de obras e autores consagrados. Fatos literários e artísticos da época são invocados com frequência. Figuras que sobressaem na literatura brasileira, como Assis Brasil, Ferreira Gullar, Maria Alice Barroso e outros que participam do movimento literário concretista na época tornam-se personagens de sua narrativa, registrando seu convívio intenso com o mundo literário.

Enfim, Maura Lopes Cançado se narra enquanto personagem de uma experiência trágica sobre a terra: a de não pertencer a este mundo e a nenhum outro. Se “o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros: [já que] pode ocorrer que sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importância” (Foucault, 1999: 11), também na escrita literária a narradora reafirma a consciência da inutilidade de sua palavra, a impossibilidade de, como insana, fazer com que sua palavra seja recebida e validada diante da autoridade hospitalar. Assim, revela: “Mas como chegar a ele, se não me ouve, me encara como psicopata – e pronto?” (HD, 99). O que corresponde simbolicamente à consciência de que também no sistema literário sua obra não virá a ser aceita, já que socialmente ela também não se afirma enquanto mulher, divorciada, no contexto sócio-cultural de uma época em que tanto na vida como na arte [as mulheres] ficam confinadas às construções masculinas [e] qualquer tentativa de autonomia intelectual passa a ser vista como sintoma de algum distúrbio psíquico, pois o dom criativo é considerado masculino, restando à mulher a reprodução, a dedicação ao outro, enfim uma vida sem história própria (Garcia, 1995: 26).

A narrativa se finda com as páginas do diário sendo amassadas pelas colegas invejosas. A destruição iminente do diário sugere que a dicção da narradora é recusada naquele ambiente já que ela não é capaz de representar com legitimidade as suas companheiras. Mesmo que a loucura seja um traço comum às personagens do hospício, as diferenças intelectuais e sociais distanciam aqueles seres pretensamente iguais, o que faz com que acabe por aparecer na obra a discussão acerca dos dilemas da representação.

O falatório de Stela

Enquanto em seu diário Maura Lopes Cançado procura traçar um percurso de sua loucura e mapear a construção da identidade da mulher louca com acentuado rigor lógico, Stela do Patrocínio importa-se apenas em falar, ainda que em todos os capítulos manifeste uma preocupação com a detenção da palavra e de um nome, fundamental para a preservação da subjetividade. Com isso, a obra Reino dos bichos e dos animais é o meu nome compõe-se do que ela própria chama de “falatório”. Sua fala poética, contínua e rica, desperta na psicanalista Viviane Mosé a certeza da importância desse discurso e o desejo de recolhimento, por meio da gravação, de seus textos e sua transposição para a escrita, em uma obra que se preocupa, segundo ela, em “encontrar a sonoridade dos textos”, já que Stela “usava sempre o mesmo ritmo, possibilitando esta configuração equilibrada que adquirem seus textos quando escritos” (2001: 27).

Embora na condição de interna em regime fechado (e também por isso), a fala de Stela desperta interesse por ser capaz de criar uma tensão em que seu discurso, que se inicia ordenado, fragmenta-se e constrói-se sempre dentro de uma lógica particular, mergulhada no delírio. Também é curiosa a forma de Stela pensar sua posição e articular esses pensamentos em um texto que contém indagações ontológicas, onde sua origem humana, o ser e o estar no mundo, e o estranhamento diante da complexidade da existência constituem seus temas centrais.

Nascidos no seio da loucura, seus textos fascinam pelo que possuem de “neurose necessária para a sedução de seus leitores”, pois “esses textos terríveis são apesar de tudo textos coquetes”, utilizando palavras de Roland Barthes (1999:10), e podem ser lidos como tão transgressores quanto os da lírica moderna.

Na obra está representado literariamente o processo de construção de identidade do louco, que se dá a partir da admissão no manicômio, definido pelo cientista social Erving Goffman como “mortificação do eu” (1990: 24-49). Mais marcante em indivíduos que passam um longo período de suas vidas nas instituições fechadas, como é o caso de Stela, esse processo consiste na introjeção dos mecanismos de sobrevivência no hospício e na adoção de táticas de ajustamento às relações no local. Passa a ser construída uma nova identidade, em cuja composição participam elementos do universo manicomial, percebidos por Stela como sendo alimento para essa reconfiguração identitária: “a alimentação era eletrochoque, injeção e remédio/E era um banho de chuveiro, uma bandeja de alimentação/E viagem sem eu saber para onde ia” (RBA*, 53). Em sua auto-representação, o eu lírico encontra na própria sociedade a origem de sua loucura, em cuja cronificação o hospício tem importância crucial:
Estava com muita saúde
Me adoecerem
Me internaram no hospital
E me deixaram internada
E agora eu vivo no hospital como doente
(RBA, 51).
De modo muito particular e lúcida de sua condição, ela descreve vários aspectos do modo de vida ultrajante que se vive no hospício e que Goffman (1990: 31) chama de violação dos “territórios do eu”. Essa invasão da individualidade – marcada pela rotina cronometrada e pelo controle rigoroso dos mínimos movimentos dos internos, que devem se limitar pelas regras da instituição – é exercida através de medidas coercitivas. Por exemplo: apesar dos remédios e injeções serem indesejados, a interna é forçada a ingeri-los: “O remédio que eu tomo me faz passar mal/ E eu não gosto de tomar remédio para ficar/ passando mal/ Eu ando um pouquinho, cambaleio, fico cambaleando/ Quase levo um tombo” (RBA, 54).
A sigla RBA remete à obra Reino dos bichos e dos animais é o meu nome.
Já confinada, ela revela as proibições de se manifestar livremente, circular com naturalidade pelos espaços e o constrangimento da privação de liberdade, expressando-se como condenada a cumprir uma sentença penal: “Estar internada é ficar presa todo dia/ Eu não posso sair, não deixam eu passar pelo portão (...) Eu estou aqui há vinte e cinco anos ou mais” (RBA, 55). E mesmo já integrada ao espaço asilar, não se resigna com sua condição cerceada, humilhada, em que a falta de liberdade prova-lhe a todo momento sua irresponsabilidade, a incapacidade de agir com autonomia e de responder por seus atos:
Eu sou seguida acompanhada imitada
Assemelhada
Tomada conta, fiscalizada, examinada, revistada...
(RBA, 63)
O sofrimento crônico não leva à resignação, ao contrário produz no ser uma consciência lancinante de sua situação fazendo com que a palavra extrapole os muros da insanidade e se infiltre na razão para provocá-la e mostrar sua precariedade, sua insuficiência diante do humano: “Tem esses que são igualzinhos a mim/ Tem esses que se vestem e se calçam igual a mim/ Mas que são diferentes da diferença entre nós/ É tudo bom e nada presta” (RBA, 63).

Ao lidar com o sentimento de desamparo e abandono, o eu-lírico posiciona-se de forma ambivalente, dando a ver o abismo que há entre os desejos e sua situação real. Capaz de suplantar a solidão ao forjar seu pertencimento a uma comunidade ainda maior: “Tô na família do cientista” (RBA, 129) ou “Uma família pra mim é uma reunião de médicos e cientistas” (RBA, 130), em outras ocasiões expressa-se como uma voz que se ergue de um depósito de seres humanos rebaixados a uma condição primitiva, animalizada:
Meu nome verdadeiro é caixão enterro
Cemitério defunto cadáver
Esqueleto humano asilo de velhos
Hospital de tudo quanto é doença
Hospício
Mundo dos bichos e dos animais
(RBA, 118).
A vaidade feminina que tanto preocupa a narradora de Hospício é Deus, característica de sua classe social, não é motivo de orgulho e reflexão para Stela. Quando se refere a seu aspecto físico, representa-se de forma negativa, sob o reconhecimento do Outro, como “nega preta e feia/ Que a Ana me disse” (RBA, 66). O desprezo e até repulsa pela própria existência vêm junto a um desejo de auto-aniquilamento, ou apenas de não-ser:
Eu não queria me formar
Não queria nascer
Não queria tomar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida
Eu não tive querer
Nem vontade pra essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
Nem vontade pra essas coisas
(RBA, 118).
Imersa na experiência existencial, a palavra de Stela guarda os mínimos resquícios da cultura. A natureza primitiva – o reino dos bichos e dos animais – manifesta-se na linguagem instintiva, em que forma e conteúdo se comunicam. Assim, em seu discurso telúrico, meio selvagem, infantil e primitivo, os temas mais caros são alimentação, sexo, maternidade, animais, instintos, natureza. Em uma dicção em que são raras as referências aos elementos da cultura, chama a atenção a alusão a Um homem chamado cavalo, filme norte-americano do diretor Elliot Silverstein, por ser um dos raros momentos em que a cultura entra na construção de seus textos, quando se define como quem fica “pastando no pasto à vontade” (RBA, 50), uma metáfora de seu modo de vida alienado. Ainda que sua linguagem esteja intimamente associada a um movimento natural, instintivo, assim como o próprio conteúdo de sua fala, ao extravasar sua interioridade pela palavra, Stela se situa enquanto indivíduo, canalizando objetivamente a sua necessidade devastadora de auto-expressão para uma representação de sentido cultural.

Dessa forma, o falatório de Stela dá forma à gama de sentimentos que constroem a subjetividade de uma reclusa no sistema psiquiátrico, há tanto tempo segregada do convívio social. Expressando-se como condenada ao encarceramento em um mundo adverso, mesquinho e indesejado, reclama da convivência inevitável com outros indivíduos psicologicamente arruinados. Stela representa seus pares como seres que “vivem sem pensar/ Comem bebem fumam(...)/ Mas não tem ninguém que pense”. Mesmo não se assumindo como intelectual, Stela se reconhece como uma consciência que sobressai em uma multidão e pode contemplar as dolorosas circunstâncias em que sobrevive: “Não trabalho com a inteligência/ Nem com o pensamento/ Mas também não uso a ignorância” (RBA, 62).

Seu discurso apresenta a perspectiva da mulher louca marginalizada até pelo sistema psiquiátrico, microcosmo e metáfora do sistema sócio-político. Contrário ao texto de Maura Lopes Cançado, que constantemente realça sua superioridade sobre as demais colegas, a fala de Stela a representa de forma auto-depreciativa. Em raros momentos, tenta mostrar uma posição socialmente privilegiada na pirâmide social, mas a impressão que permanece é de desconfiança, já que construída com dubiedade e contradições. Por isso, quando fala de sua origem em uma “importante família/ família de cientistas, aviadores/ De criança precoce, prodígio, poderes/ Milagres mistério” (RBA, 67), o leitor é levado a associar a informação à família onde trabalha como empregada doméstica, como em várias passagens faz referências, produzindo sem receber salário.

Ao fim das gravações, um profundo cansaço parece ter minado as forças do eu-lírico, que se reconhece fraco, impotente, vazio, pois o despojamento do que ainda lhe resta – o falatório – mostra a inconsequência de sua fala. Como a narradora de Hospício é Deus, Stela sabe que não poderá mudar sua condição, mesmo porque falar significa reivindicar, e reivindicando ela é atendida em suas necessidades mais imediatas, o que acaba por fazê-la calar. Isso confirma apenas que a loucura, que é sua libertação, é ao mesmo tempo o aprisionamento e o silenciamento de sua voz:
Eu já não tenho mais voz
Porque já falei tudo o que tinha que falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada
Eu sinto fome matam minha fome
Eu sinto sede matam minha sede
Fico cansada falo que tô cansada
Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça
Fico com sono matam meu sono
Quando eu reclamo
(RBA, 142).
E assim, criar, falar, resulta-lhe em feiúra, porque é assim que seu olhar percebe o mundo que representa: “Me transformei com esse falatório todinho/ Num homem feio/ Mas tão feio/ Que não me aguento mais de tanta feiúra/ porque quem vence o belo é o belo” (RBA, 143).

Mas é nesse reconhecimento que está a força do discurso de Stela. Reconhecer-se como uma consciência que fala da margem da sociedade, do ponto de vista do ser recluso, abandonado e destituído de qualquer privilégio é o primeiro passo para fazer valer um discurso que possa ser significativo no sistema literário. E esse saber parece permear todo o seu falatório, no qual a linguagem da loucura é a própria linguagem da obra.

Loucura significa então transgressão na medida em que fundindo-se linguagem da loucura e linguagem literária cria-se um novo código, nova forma de construir linguagem e literatura, nova forma de vivenciar a loucura.

Conclusão

Se em instituições psiquiátricas o isolamento e a desmoralização são as formas máximas de exclusão e segregação do indivíduo, a palavra constitui a última possibilidade de manifestação da subjetividade e uma forma de comunicação com o Outro. Pela palavra, a loucura dessas mulheres torna-se impulso criativo e canal para o resgate de identidades culturalmente forjadas mas também culturalmente rejeitadas. A condição de mulher que sustenta um discurso próprio, capaz de articular em palavras suas idéias, desejos, emoções, faz com que essas duas mulheres se destaquem objetivamente entre as internas e as diferencia das demais personagens que habitam aqueles pátios e dormitórios da morte.

Hospício é Deus e Reino dos bichos e dos animais é o meu nome apresentam a perspectiva feminina sobre a insanidade e encontram-se à margem do padrão literário oficial. Essas obras, em que duas mulheres loucas se auto-representam, têm talvez mais a dizer sobre a experiência da loucura da mulher que o clássico discurso psiquiátrico masculino-universal que tendia a considerá-la como efeito da hereditariedade e da degeneração.

Insistindo na insanidade como decorrência de uma causa física, o aparelho reprodutivo era apontado como principal fonte da loucura feminina.

Os textos de Maura Lopes Cançado e Stela do Patrocínio confirmam que o conceito da loucura feminina, tantas vezes romanticamente estereotipada, está bem próximo daquilo que propõe Michel Foucault: é mais cultural e histórico, que propriamente médico (1999).

A autora-narradora de Hospício é Deus se auto-representa no limiar entre loucura e sanidade, um espaço fronteiriço onde sua extrema lucidez impede que compreenda, aceite e conviva com todo o aparato cultural repressivo da sociedade, no qual não vê sentido. Por isso, a impressão de que sua loucura cabe apenas como rótulo pelo comportamento anti-social e às vezes amoral. Segundo se depreende de sua auto-representação, a loucura é nela uma presença exterior, e não um modo de pensar enganoso e errôneo, já que sua escrita em nenhum momento do diário se desvia da razão, traindo a lógica do pensamento e do discurso.

Alucinações, delírios, visões não são sequer mencionados na obra. Em relação ao que manifesta o eu-lírico de Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, entretanto, já não há mais distinção entre os planos da realidade e imaginação. Tendo ultrapassado as fronteiras, para Stela do Patrocínio “mundo é o que gira bem íntimo e oculto, uma coisa nevoenta, turbulosa” (HD, 223).

Nesse aspecto, a narradora de Hospício é Deus reconheceria a fala fragmentada, repetitiva, descentrada de Stela do Patrocínio como legitimamente representativa da linguagem da loucura, o que não ocorre com sua própria linguagem – centrada, lógica, convencional. Pertencente a um mundo letrado, Maura Lopes Cançado já detém a palavra silenciada, o que leva a expressar-se com preconceito quando representa sua loucura como um desajuste psíquico, ou doença mental, uma vez que a verdadeira loucura, que ela tanto glamouriza, vista na realidade do pátio das loucas enche-a de asco e leva-a ao desespero (HD, 226-7).

Se em desvantagem Stela não detém a escrita – que é a palavra que fica, por outro lado ela pode falar do interior da loucura, atualizando a linguagem do caos, que se marca por tentar se organizar mas ao mesmo tempo se desestabiliza, como é a própria fala do louco. Ao leitor fica a impressão de que se Stela já chegou, Maura está a caminho...

A afirmação de maior ou menor legitimidade do discurso de uma ou outra autora para representar a voz e o lugar do louco na literatura brasileira traria à tona o problemático conceito de loucura e suas múltiplas acepções. Assim como o brilho do pensamento e do discurso de Maura Lopes Cançado a tudo procura abarcar dentro de uma hipertrofiada racionalidade, a percepção instintiva de Stela beira a uma lucidez desconcertante. Nessas formas diversas de representação da loucura, em seus diferentes matizes, o saldo é o resgate da palavra do louco – socialmente interditada há tantos séculos. Na escuta dessa palavra, o fim não é manter a cesura entre razão e loucura, mas reabilitar o discurso e o universo da loucura e integrá-los ao da razão, tornando-as não formas opostas mas sim componentes de um mesmo binômio.

Com isso, o jogo entre identidade e representação fica colocado como ponto central, aflorando os dilemas intrínsecos à questão, pois ao mesmo tempo em que estudar o texto de minorias constitui uma necessidade para tornar possível sua emancipação, torna-se fundamental trabalhar com as tensões e as múltiplas redefinições para que não se fique preso a uma identidade pré-definida, de forma a deixar entrever que em uma identidade estão contidas múltiplas identidades.

Nas duas obras está em jogo, ainda, a relação entre linguagem e loucura, entre loucura e escrita, entre loucura e literatura. A palavra louca das autoras utiliza os mesmos recursos de construção da linguagem artística para se estabelecer, por meio de um sentido que transita entre as duas margens da palavra, “uma margem sensata, conforme, plagiária (...) e uma outra margem, móvel, vazia (apta a tomar não importa quais contornos)” (Barthes, 1999: 12). E a crise da subjetividade se manifesta na linguagem por meio da crise da palavra, que tende a se mover entre essas duas margens dos textos.

Por fim, incluir esses textos no campo consagrado da literatura não é apenas reconhecer sua sensível qualidade literária e os valores estéticos que eles contêm. Acolher as vozes dessas mulheres loucas significa ampliar a representatividade dos grupos sociais marginalizados e integrar as obras das autoras em uma perspectiva de democratização do espaço literário, já que “da mesma forma que é possível pensar na democratização da sociedade, incluindo novas vozes na política e na mídia, podemos imaginar a democratização da literatura”, como resumem as palavras de Regina Dalcastagnè (2002: 38).

Bibliografia

BARTHES, Roland. 1999. O prazer do texto. Trad. de J. Guinsburg. 5ª ed. São Paulo: Perspectiva.
CANÇADO, Maura Lopes. 1965. Hospício é Deus. Rio de Janeiro: José Álvaro Editor.
DALCASTAGNÈ, Regina. 2002. “Uma voz ao sol: representação e legitimidade na narrativa brasileira contemporânea”. Estudos de literatura brasileira contemporânea, n° 20. Brasília, julho/agosto, pp. 33-87.
FOUCAULT, Michel. 1991. História da loucura na Idade Clássica. Trad. de José Teixeira Coelho Netto. 3. ed. São Paulo: Perspectiva.
_________. 1999. A ordem do discurso. Trad. de Laura Fraga de Almeida Sampaio. 5ª ed. São Paulo: Loyola.
FRAYZE-PEREIRA, João Augusto. 1985. O que é loucura. São Paulo: Brasiliense/Abril Cultural.
GARCIA, Carla. 1995. Ovelhas na névoa: um estudo sobre as mulheres e a loucura. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.
GOFFMAN, Erving. 1990. Manicômios, prisões e conventos. 3ª ed. Trad. de Dante Moreira Leite. São Paulo: Perspectiva.
KIERKEGAARD, Sören. 2002. O desespero humano. São Paulo: Martin Claret.
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PATROCÍNIO, Stela do. 2001. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial.
RICHARD, Nelly. 2002. Intervenções críticas: arte, cultura, gênero e política. Trad. de Rômulo Monte Alto. Belo Horizonte: Editora UFMG.

Gislene Maria Barral Lima
Felipe da Silva – “Loucura, mulher e representação: fronteiras da linguagem em Maura Lopes Cançado e Stela do Patrocínio”. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, nº 22. Brasília, janeiro/junho de 2003, pp. 95-111.