domingo, 8 de julho de 2012

STONES 50 ANOS - Inquebráveis, como pedras

Quando a guitarra de Keith Richards soou naquela noite de 12 de julho, no pequeno palco de um bar londrino na Wardour Street 90, quem imaginaria que aquela cena voltaria a se repetir pelos próximos 50 anos? Aconteceu.

Enquanto diversos medalhões do rock surgidos na mesma época saíram de cena, os Rolling Stones resistiram às intempéries e ao peso da idade. Ainda jovem, quando questionado se conseguiria viver de música aos 60 anos, Mick Jagger resumiu: "facilmente", como se previsse o futuro.

E é assim, facilmente, que os Rolling Stones permanecem fazendo sucesso e fortuna há meio século. Hoje, o Caderno 3 mergulha na origem e na trajetória de uma das bandas mais duradouras do rock mundial, além de revisar as virtuoses de uma década fundamental para o gênero musical: os anos 1960.

Efeméride
Inquebráveis: cinco décadas de Stones

Da cena underground londrina dos anos 1960 a turnês milionárias: a origem e a trajetória dos Rolling Stones

Um cartaz escrito à mão anunciava a atração daquele 12 de julho de 1962 no Marquee Club, em Londres: "Tonite: The Rolling Stones". Os que estavam no recém-inaugurado bar da Wardour Street 90 não sabiam, mas testemunhavam o primeiro show da banda que se converteria em um dos fenômenos mais lucrativos e duradouros da história do rock. E lá se vão cinquenta anos de sucesso, fortuna e polêmicas.

Em seu primeiro show oficial, traziam quase sua formação clássica, com Mick Jagger à frente assumindo os vocais e a dupla Keith Richards e Brian Jones nas guitarras. Já o baixista Dick Taylor e o baterista Tony Chapman seriam trocados meses depois por Bill Wyman e Charlie Watts, criando o quinteto quase definitivo. O tecladista Ian Stewart foi relegado a acompanhante porque o empresário o achava feio e sem sex appeal.

Em 1969, os problemas de Brian Jones com as drogas levaram ao desligamento do músico - encontrado morto menos de um mês depois, afogado na piscina de casa. Depois dele, os Stones tiveram mais dois guitarristas: Mick Taylor, que acompanhou a banda até 1974. No ano seguinte, Ron Wood assumiu o posto a tempo de terminar a gravação de "Black and Blue" (1976), álbum que o tornaria integrante legítimo da banda.

O nome da banda foi escolhido por Jones, por causa da frase "a rolling stone gathers no moss" (ou "pedras rolantes não criam limo", em português) e da música Rollin'Stone, ambas referências a Muddy Waters, de quem a banda era fã. O primeiro ensaio havia acontecido em 25 de maio de 1962, data que alguns fãs consideram que é a que deve ser de fato comemorada como a de formação dos Stones.

A banda começou a se delinear ainda dois anos antes, quando os amigos de infância Mick Jagger e Keith Richards se reencontraram por acaso em uma estação de trem londrina e descobriram um interesse comum por blues e rock and roll. A ideia de Brian Jones ao convidá-los para formar os Rolling Stones era montar a banda definitiva de R&B (Rhythm and Blues) branca.

A vitalidade que a banda exibia no palco somada à habilidade promocional de seu empresário levou os Stones a um contrato com a Decca Records, em 1963.

A gravadora, apesar de ser uma gigante da indústria musical londrina, passava por um momento constrangedor - era considerada a piada do ano por ter recusado um contrato com os Beatles meses antes, alegando que o grupo não teria futuro no show business.

A ironia do destino é que o segundo single lançado pelos recém-contratados Rolling Stones foi justamente uma canção assinada por John Lennon e Paul McCartney: "I wanna be your man", lançada pelos Beatles apenas algumas semanas depois. O primeiro álbum, chamado simplesmente "The Rolling Stones", saiu em abril de 1964 e trazia somente uma composição da dupla Mick Jagger e Keith Richards.

O material próprio foi sendo valorizado aos poucos. Apenas com "Tell Me (You're Coming Back)", lançado em 1964, é que uma música de Jagger e Richards foi lançada como lado A de um compacto. "Out of Our Heads", de 1965, foi o primeiro basicamente de composições próprias. Foi nesse ano também o lançamento de "(I Can't Get No) Satisfaction", primeira música da banda a liderar tanto a parada britânica quanto a americana e, indiscutivelmente, seu maior hit até hoje.




Havia outra bandas importantes na Inglaterra dos anos 1960, como The Kinks, The Who, Cream e Yardbirds, mas foram os Rolling Stones e os Beatles os mais fascinantes e duradouros fenômenos, os principais responsáveis por colocar o país no mapa mundial do rock and roll. Até então o rock tinha seus grandes nomes nos Estados Unidos: Bill Haley, Buddy Holly, Elvis Presley, Chuck Berry e Jerry Lee Lewis, entre outros.

Charlie Watts, Keith Richards, Mick Jagger e Ron Wood em foto recente (à esquerda) e, mais jovens (à direita), com Brian Jones (o primeiro, de baixo para cima)


Rivalidade

Desde o início da carreira, Mick Jagger e seus companheiros cultivavam a imagem de "bad boys" em oposição aos "bons moços" dos Beatles. Um dos principais responsáveis pelo estereótipo era o empresário Andrew Loog Oldham, criador de slogans como "você deixaria sua filha namorar um Rolling Stone?". Afinal, enquanto os Beatles queriam singelamente segurar a mão de uma garota ("I wanna hold your hand"), os Stones desejavam fazer amor ("Just want to make love with you").

Durante toda a década de 1970, os Rolling Stones eram a perfeita tradução do lema "sexo, drogas e rock'n'roll". Foi nessa época, mais precisamente em 1972, que a turnê americana da banda foi captada pelo documentário "Cocksucker Blues". O filme, nunca lançado oficialmente, é recheado de imagens de Jagger consumindo cocaína e groupies circulando nuas pelos bastidores dos shows.

"Na verdade eles (os Beatles) eram tão cínicos quanto nós, a diferença era que usavam terno" disse uma vez Mick Jagger.

Mas a provocação constante não era dirigida só aos "rivais", era quase uma necessidade. Ao ser questionado em uma entrevista por que não ocupava mais os vocais, Keith Richards respondeu que sempre gostou de cantar, "mas se eu fosse cantar em todas as faixas de todos os discos dos Stones, que p... Mick Jagger iria fazer?"

A rivalidade entre Beatles e Stones foi estimulada mais pelo marketing do que pelas relações entre seus componentes. Em entrevista ao programa estadunidense "Late Night With Jimmy Fallon", em 2011, Keith Richards disse que todos se davam muito bem e estavam sempre em contato. "Nós éramos as duas únicas coisas acontecendo na época". Em sua biografia "Vida", o guitarrista revela que as duas bandas até combinavam as datas de lançamento dos discos para não coincidirem.

Stones e Beatles inclusive se encontraram diversas vezes profissionalmente. Só para citar dois exemplos, em 1967, John Lennon e Paul McCartney dividiram o mesmo estúdio e gravaram suas vozes como backing para os Stones no single "We love you".

Naquele mesmo ano, Mick Jagger e Keith Richards apareceram no videoclipe de "A day in the life" e na gravação para a TV de "All you need is love", dos Beatles.

A formação dos Beatles se dissolveu em 1970. Os Rolling Stones continuaram, apesar das inúmeras especulações sobre o fim da banda. Em cinco décadas de atividades, os Stones captaram bem as mudanças que se processavam na música: da pegada da música negra norte-americana de "Exile on Main St." (1972) ao resgate do rock básico de "Some Girls" (1978), passando pelo flerte com a música disco em "Goats Head Soup" (1973), bem antes do gênero estourar nas pistas.

Quando Madonna apenas sonhava em ser pop star, a turnê americana dos Stones em 1981 já trazia canhões de luz, telões e superpalcos, sendo recordista de faturamento por quinze anos, com 3 milhões de espectadores e US$ 50 milhões vendidos em ingressos. A última excursão, "A Bigger Bang Tour", realizada em 2006 e 2007, arrecadou mais de R$ 430 milhões - a segunda mais lucrativa da história, atrás apenas da "360º Tour", do U2, que fechou o caixa com US$ 736 milhões.

Em 1997, em entrevista ao programa Fantástico, na Rede Globo, Keith Richards disse uma frase que, por mais clichê que soe, é a mais pura atitude rock and roll: "Só paro quando não houver mais ninguém para ouvir".

Se seus colegas britânicos do The Who bradavam o desejo de morrer antes de ficar velhos ("Hope I die before I get old", trecho de "My generation"), os fãs dos Rolling Stones agradecem pelos seus 50 anos rolando sem criar limo.

FONTE: Inquebráveis, como pedras - Caderno 3 - Diário do Nordeste