O último dos
Horiyoshi
Ele é uma lenda vida da
tradicional tatuagem
japonesa, o mais respeitado
artifice da arte de gravar
corpos humanos. Aos 60
anos recém-completados,
porém o mito avisa:
"Não haverá Horiyoshi IV".
por Décio Galina, de Yokohama
Fotos João Wainer
Momo-taro, o Garoto Pêssego, vence a luta contra Oni. Este é um dos desenhos do livro 100 Demônios de Horiyoshi III.
Novela, cigarro, um gole de chá. As cenas sorvem a atenção de um dos mais ídolatrados tatuadores do planeta. Ajoelhado no tapete, submerso na TV, o mestre nem parece estar ali. Horiyoshi III relaxa após talhar o ombro do rapaz de cabelos longos, e se apronta para esculpir a perna do homem quase careca. Breve intervalo no expediente diário de cinco a sete clientes. Nenhuma placa marca o endereço do estúdio. Fica em um cúbiculo no segundo andar de um sobrado de madeira, numa rua calma e estreita, travessa de uma ladeira. Máscaras, crânio pendurados, livros espremidos nas prateleiras, álbuns de convenções internacionais de tatuagem – e a TV ligada. A fumaça da única tragada bóia no teto do estúdio de única e fechada janela. O quadro de destaque da sala mostra uma mulher gorda, amordaçada, pendurada pelos pés, de ponta-cabeça. Aquecedores deixam o ambiente um forno. Lá fora, a garoa potencializa o frio de 6°C nesta Quarta-Feira de Cinzas, 1º de março. Dia com cara de São Paulo em Yokohama – segunda maior cidade do Japão, com 5,5 milhões de habitantes, a 50 minutos de trem de Tóquio.
Yoshihito Nakano nasceu em Shizuoka em 1946. Aos 21 anos conheceu Yoshitsugu Muramatsu, que lhe transmitiu os segredos da grande arte. Anos mais tarde, Muramatsu o batizaria de Horiyoshi III (hori de "gravar" e yoshi, prefixo do primeiro nome do mestre) – o segundo da linhagem é filho de Muramatsu. A estirpe, porém, está com os dias contados: "Não haverá Horiyoshi IV", sentencia o Terceiro em tom definitivo. "Meu filho também não será." Fala sério, sem gesticular. "Os novos profissionais têm outro espírito, idéias diferentes do irezumi, a tradicional tatuagem japonesa", desabafa. "O mundo mudou muito."As figuras milenares, que atraíram a atenção dos samurais, viraram símbolo de lealdade dos membros da yakuza, a máfia japonesa. Dezenas deles disputam a agenda de Horiyoshi III para cobrir o corpo com dragões, carpas, tigres, cobrar e pétalas de cerejeira. "Eles gostam do meu desenho..." Quais os desenhos mais solicitados? Horiyoshi III tem a resposta na ponta da agulha: "Japoneses preferem dragões". Algumas pessoas deixam o tema a critério do mestre. "Nesses casos, converso com o cliente para conhecê-lo melhor." Conseguir um horário, no entanto exige paciência: se um conterrâneo espera até um mês, para os gaijin (estrangeiros), o chá-de-cadeira chega a um semestre. E, se a ideia for fazer um bodysuit, isto é, cobrir, cobrir todo o corpo, aí é que não adianta ter pressa mesmo: com duas sessões por semana o trabalho fica pronto em dois anos e meio. "Já pensei em parar, mas tenho muitos clientes." Que chegam a pagar, diga-se, US$ 20 mil por um bodysuit.
"Tatuagem não nasceu para ser modinha"
Na década de 80, graças à amizade com o americano Don Ed Hardy, Horiyoshi III mesclou técnicas tradicionais, como o tebori, que usa hastes de bambu, com aparelhos mais modernos. Ao mesmo tempo, ele popularizou o estilo japonês nos Estados Unidos. E, no Brasil, qual tatuador ele destacaria? "Maurício", rebate o mestre de primeira. Trata-se de Maurícido Theodoro, 40 anos, nascido em São Caetano do Sul (no ABC paulista) e residente boa parte do dia no estúdio da rua Augusta, em São Paulo. Aclamado entre os melhores do mundo, Maurício é referência nacional principalmente se a patua for tatuagem oriental. "Horiyoshi é um pai, uma bíblia, exemplo de tatuador sério e humilde", diz. Maurício compartilha com o mestre sua filosofia sobre os novos ventos da arte epidérmica. "Querem vender a tatuagem como um produto, algo passageiro", conta o discípulo. "Não acho legal quem procura uma tatoo como se escolhesse uma calça. Tatuagem não nasceu para ser modinha. Muita gente escreve o nome de alguém na pele, depois se arrepende e vem pedir pra cobrir – eu não faço esse tipo de trabalho."
Nem todos, porém, são tão céticos em relação ao futuro da tatuagem tradicional japonesa. Koji Takagi, profissional da cidade de Youkaichi, acha que o lado positivo da popularização da arte é a diminuição do preconceito. "Há dez anos havia muita intolerância", lembra. "Hoje, esses desenhos fazem bastante sucesso entre as mulheres..." Koji desenvolveu marquinar próprias para tatuar, sem abrir mão da utilização do bambu de 48 agulhas distribuídas em três fileiras. "Sou japonês, não posso perder a tradição do bambu." Um dos pupilos – e grande amigo – de Koji é o brasileiro Massaiti Ando, de 21 anos. Brasileiro é modo de dizer, pois Massaiti chegou ao Japão com 10 anos e nunca mais voltou. Ele e Koji fazem parte de uma turma chamada 1 or 8, que congrega 80 tatuadores da região de Kansai e tem como lema "não sei se vai dar certo, mas a gente tenta...". Ou seja: a obsessão pelo perfeccionismo que marca a velha guarda não faz parte do credo da turma.A diferença entre a velha e a jovem guarda, aliás, fica clara no exemplo a seguir. Horiyoshi III viu uma tatuagem pela primeira vez aos 11 anos, ao se deparar com um homem inteiramente desenhado no banho público que freqüentava com o avô. Massaiti, por sua vez, se apaixonou pelo tema quando notou um sol tatuado no cotovelo do skatista Mike Vallery. "Quis ter o mesmo desenho", conta. "Mas como era muito caro, troquei meu computador por uma máquina de tatuar – e fiz eu mesmo." Massaiti sonha em juntar dinheiro para viajar de navio ao Brasil com a mulher, Vivian, colombiana, e os filhos Arwin e Dave. "Prefiro ir de navio para ter tempo de ler uma montanha de livros..."
O estúdio de Koji em quase nada lembra o local de trabalho de Horiyoshi. O de Koji é moderno, com bonecos de plástico espalhados pelo chão quadriculado. Por aqui, nada de novelas. O som ambiente fica por conta da banda japonesa de trash metal S.O.B., na qual o vocalista Kawamura Etsushi, além de ser músico, trabalha na manutenção dos trilhos de trem-bala. Com Horiyoshi, prevalece o trio novela, cigarro, um gole de chá. "Antes tomava algo para relaxar, mas não bebo mais porque tenho problemas de saúde", explica. "Prefiro ler um livro nas horas de folga."
O terceiro cliente que acompanhamos na tarde fria – e quente – de 1º de março já tinha quase todo o corpo coberto. Logo após a sessão, ao saber que a reportagem era para uma revista brasileira, se animou a mostrar o celular: um video do ídolo, o lutador de vale-tudo Wanderlei Silva, ícone do esporte no Japão. Antes de pormos os pés na estrada, o fotógrafo João Wainer não resistiu: pediu pelo amor de Deus para Horiyoshi III rabiscar o que quisesse em seu braço. Quem não chora não mama: Wainer saiu feliz da vida com sua 18º tatuagem – um Kanji (caractere chinês usado na escrita japonesa) de dragão.
Inevitável o choque térmico ao sairmos do estúdio. Tarde sombria, de cerejeiras nuas, prontas para explodir em flores dali a um mês, na sakura que colore o país em abril.








