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PASSEIO COM O EGO

Hoje fiz um convite ao meu ego.
Levei-o para passear.
Consegui enganá-lo, como ele é tolo, como se ludibria facilmente um ego!
Levianamente, convidei-o para passear.
Levei-o para parques, praças, até que me enchi por vê-lo tão feliz.
É bem verdade que estava já impaciente, ansioso para realizar meu intento:
Queria destruí-lo.
Mas queria que fosse de forma violenta.
Queria socá-lo muito, surrá-lo como a uma pele de tambor de escola de samba.
Minha vontade era de golpeá-lo com baquetas de ferro até não ouvir mais nenhum som.
Espancá-lo como um skinhead a um gay, ou judeu, ou negro...
Não, pensando bem, queria açoitá-lo de graça, sem ideal definido.
Só raiva, raiva.
Vê-lo sorrindo frente as rosas me encheu de fúria.
Ele, insensível, não percebeu crescer em mim a repugnância total e irrestrita.
Comecei a massacrá-lo, ali mesmo em praça pública, no meio da rua.
Queria que todos vissem.
E coloquei nos olhos de todos, fagulhas de fogo que o atravessavam, rasgando-o.
Raspava-o no chão.
Quanto mais via sua feição de desespero, mais ficava satisfeito.
Mais ficava feliz.
Afogava-o em um caldeirão de lava em ebulição.
Pulverizei-o muitas e muitas vezes com todas as armas sci fi.
Enfiava bastões gigantes em seu cú.
Explodia dinamites em seu cérebro.
Retumbava dentro de si milhares e milhares de vezes a ânsia do clamor.
Não havia lamento, nem dó que me refreasse.
Desfigurei meu ego em uma grande fissão nuclear.
Destas que provocam buracos negros, destas que causam o fim de mundos.
Persegui-o impetuosamente em todas as dimensões, dizimando-o em cada um de seus esconderijos.
Matando-o como a uma barata.
Ouvindo o croc e vendo sua gosma branca.
Pude testar todos os aparelhos de tortura, desde os tempos medievais, em meu ego.
Dei choques sob suas unhas, golpes com taco de beisebol em seu saco.
E quis vê-lo morrer suplicando nos braços de um demônio de quinta.
Mas antes que pudesse dar seu último suspiro, ainda pude gritar com a força de todos os ventos em seu ouvido:
Isto é CAOS!!!

FONTE: http://magiadocaos.blogspot.com/2010/02/passeio-com-o-ego.html

Carta

Meu gatinho,
Alguém já disse que que seu olhos são de vidro?
Pois se não, o digo agora. Seus olhos são como uma janela onde nos debruçamos para ver o mundo.
E que mundo deve haver por trás deles, pois que tanto brilham! Deve haver um mundo encantado por trás dos seus olhos.
E esse mundo me atrai dia após dia.
Acredito que o dono desse mundo encantado procura alguém para dividir as fantasias ali existentes.
Sendo assim faço-me candidata a herdeira desse seu mundo.
Deixe-me entrar por essa janela e descobrir o que há de tão interessante nesse lugar.
Abra essa janela para que eu vá de mudanças para o seu mundo e de lá não saia nunca mais.
Tenho certeza de que habitante algum você irá querer morando ali além de mim... Digo, além de nós, pois irei completar a sua existência, se você me der moradia no seu mundo encantado.

Autor: Augusto dos Anjos

Vês?!
Ninguém assistiu ao formidável enterro da tua ultima Quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo.
Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do Escarro.
A mão que Afaga é a mesma que Apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te Afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Amo-te tanto, meu amor...
Não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além,
Presente na saudade
Amo-te enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e à cada instante.
Amo-te com um bicho simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiude
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

O Barril de "Amontillado" de Edgar Allan Poe

Suportei o melhor que pude as mil e uma injúrias de Fortunato; mas quando começou a entrar pelo insulto, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza da minha índole, não ireis supor que me limitei a ameaçar. Acabaria por vingar-me; isto era ponto definitivamente assente, e a própria determinação com que o decidi afastava toda e qualquer idéia de risco. Devia não só castigar, mas castigar ficando impune. Um agravo não é vingado quando a vingança surpreende o vingador. E fica igualmente por vingar quando o vingador não consegue fazer-se reconhecer como tal àquele que o ofendeu.
Deve compreender-se que nem por palavras, nem por atos, dei motivos a Fortunato para duvidar da minha afeição. Continuei, como era meu desejo, a rir-me para ele, que não compreendia que o meu sorriso resultava agora da idéia da sua imolação.
Tinha um ponto fraco, este Fortunato sendo embora, sob outros aspectos, homem digno de respeito e mesmo de receio. Orgulhava-se da sua qualidade de entendido em vinhos. Poucos italianos possuem o verdadeiro espírito de virtuosidade. Na sua maior parte, o seu entusiasmo é adaptado às circunstâncias de tempo e de oportunidade para ludibriar milionários britânicos e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunato, à semelhança dos seus concidadãos, era um charlatão, mas na questão de vinhos era entendido. Neste aspecto eu não diferia substancialmente dele: eu próprio era entendido em vinhos de reserva italianos, e comprava-os em grandes quantidades sempre que podia.
Foi ao escurecer, numa tarde de grande loucura da quadra carnavalesca, que encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessivo calor, pois bebera de mais. Trajava de bufão; um fato justo e parcialmente às tiras, levando na cabeça um barrete cônico com guizos. Fiquei tão contente de o ver que julguei que nunca mais parava de lhe apertar a mão.
- Meu caro Fortunato -disse eu -, ainda bem que o encontro. Você tem hoje uma aparência notável! Saiba que recebi um barril de um vinho que passa por ser amontillado; mas tenho cá as minhas dúvidas.
- O quê? - disse ele -Amontillado? Um barril? Impossível! E em pleno Carnaval!
- Tenho as minhas dúvidas - respondi -, e estupidamente paguei o verdadeiro preço do amontillado sem ter consultado o meu amigo. Não o consegui encontrar e tinha receio de perder o negócio!
-Amontillado!
- Tenho as minhas dúvidas - insisti.
-Amontillado!
- E tenho de as resolver.
-Amontillado!
- Como vejo que está ocupado, vou procurar Luchesi. Se existe alguém com espírito crítico, é ele. Ele me dirá.
- Luchesi não distingue amontillado de xerez.
- No entanto, há muito idiota que acha que o seu gosto desafia o do meu amigo.
- Venha, vamos lá.
- Aonde?
- À sua cave.
- Não, meu amigo, não exigiria tanto da sua bondade. Vejo que tem compromissos. Luchesi...
- Não tenho compromisso nenhum, vamos.
- Não, meu amigo. Não será o compromisso, mas aquele frio terrível que bem sei que o aflige. A cave é insuportavelmente úmida. Está coberta de salitre.
- Mesmo assim, vamos lá. O frio não é nada. Amontillado! Você foi ludibriado. E quanto a Luchesi, não distingue xerez de amontillado.
Assim falando, Fortunato pegou-me pelo braço. Depois de pôr uma máscara de seda preta e de envergar um roquelaire cingido ao corpo, tive que suportar-lhe a pressa que levava a caminho do meu palacete.
Não havia criados em casa; tinham desaparecido todos para festejar aquela quadra. Eu tinha-lhes dito que não voltaria senão de manhã e dera-lhes ordens explícitas para se não afastarem de casa. Ordens essas que foram o suficiente, disso estava eu certo, para assegurar o rápido desaparecimento de todos eles, mal voltara costas.
Retirei das arandelas dois archotes e, dando um a Fortunato, conduzi-o através de diversos compartimentos até à entrada das caves. Desci uma grande escada de caracol e pedi-lhe que se acautelasse enquanto me seguia. Quando chegamos ao fim da descida encontrávamo-nos ambos sobre o chão úmido das catacumbas dos Montresors.
O andar do meu amigo era irregular e os guizos da capa tilintavam quando se movia.
- O barril? - perguntou.
- Está lá mais para diante -disse eu -, mas veja a teia branca de aranha que cintila nas paredes da cave.
Voltou-se para mim e pousou nos meus olhos duas órbitas enevoadas pelos fumos da intoxicação.
- Salitre? - perguntou por fim.
- Sim - respondi. - Há quanto tempo tem essa tosse?
- Cof!, cof!, cof! cof!, cof!, cof!
O meu amigo ficou sem poder responder-me durante bastante tempo.
- Não é nada - acabou por dizer.
- Venha - disse-lhe com decisão. - Retrocedamos, a sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz como eu já o fui em tempos. Você é um homem cuja falta se sentiria. Quanto a mim, não importa. Retrocedamos. Ainda é capaz de adoecer e não quero assumir tal responsabilidade. Além disso, há Luchesi...


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