Enquanto contempla sua musa morta, ele é completamente tragado para dentro de sua mente. Se o mundo acabasse naquele momento, ele não perceberia. Naquele instante ele é incapaz de perceber qualquer coisa que não faça parte da delicada e pútreda imagem de sua amada.
"Abra os olhos só mais uma vez. Me olhe nos olhos uma última vez para que eu encontre coragem. Acorde e me diga que nada disso é verdade, que a gente nunca se separou. Acorde e me conte um segredo, faça-me uma promessa de amor. Diga que me ama, diga que precisa e mim, diga que nunca mais vamos nos separar. Por favor, me olhe nos olhos só uma vez mais."
Ele então leva o corpo nos braços e o acomoda no banco do passageiro do carro. No banco de trás, vários litros de gasolina. Enquanto dá a partida, uma lágrima escorre por seu rosto. Ele inclina-se e beija os lábios dela uma vez mais. Partem.
Enquanto dirige ele lembra. Memórias de épocas diferentes se mesclam em sua mente formando um caleidoscópio caótico e então ele passa a deixar que as lembranças corram como cavalos selvagens pelo seu pensamento. Lembra da primeira vez que falou com ela, de como tentou parecer profissional e indiferente, de como ela estava amedrontada, dos ciúmes que sentiu quando ela beijou o marido na sua frente, mesmo sem lembrar que ele era seu marido, apenas por confiar num estranho estúpido. Memórias que o feriam como facas cravadas em sua testa.
Mas ele não desistiu. Não podia desistir. Ele amava aquele anjo. Cuidou dela da melhor forma que pôde e tentou retardar o mais possível sua alta do internamento. Mas um dia ela se foi.
Ela se foi e levou embora seu coração.
Ela se foi e deixou com ele seu coração.
Ele era seu refúgio, o único lugar em que ela podia ser ela mesma. Não tinham segredos, vergonhas ou pudores. Não fosse assim, ela enlouqueceria com toda a pressão da Igreja e do marido. Ela não poderia continuar sem ele, seu protetor.
Mas um dia ela surgiu e estava diferente. Estava convencida de que não podia continuar com ele de forma algum, que Deus a condenaria, que estava tornando-se uma mulher sem valor. Apesar dos protestos do amante, ela quis partir.
Então chegou o momento do maior sacrifício. Ele preferia vê-la morta do que infeliz assim, vivendo uma vida falsa, fútil, entregando-se forçadamente a um homem que não despertava mais nada nela a troco de não ser comentada ou discriminada na sociedade. Aquilo o enojava. Aquilo o indignava. Tentou argumentar, tentou expressar seu amor e a necessidade que tinha dela de todas as formas possíveis, mas ela estava irredutível. Então, para não vê-la infeliz do lado do marido hipócrita e egoísta, ele tomou a decisão fatal: sua amada deveria morrer. "Morra, morra, morra minha querida." Ele ainda podia lembrar das palavras que povoaram sua mente sua mente. Infelizmente, essa era a única forma de acabar com o sofrimento dela.
Foi claro ao tratar com o assassino, um sujeito ao qual todos referiam o terrível apelido "Cão": sem dor, sem sofrimento de qualquer espécie. De preferência, aparentando suicídio.
Dois dias depois a mulher estava morta.
Naquela mesma noite ele violou o caixão.
Naquela mesma noite ele violou o corpo dela...
Chegando à casa, ele a carrega para dentro e deita seu corpo na cama de casal. Um casebre de madeira velha, caindo aos pedaços. Espalha a gasolina por todo canto. Deita ao lado de sua amada e beija-lhe os lábios uma vez mais. Acende um fósforo e queima uma carta de amor que trazia no bolso, a mesma carta daquele dia. Arremessa a carta sobre a gasolina.
A casa queima.
A cama queima.
O coração queima.







