Parece extremamente improvável que a humanidade, de um modo geral, algum dia seja capaz de passar sem paraísos artificiais. A maioria dos homens e mulheres leva uma vida tão sofredora em seus pontos baixos e tão monótona em suas eminências, tão pobre e limitada, que os desejos de fuga, os anseios para superar-se, ainda por uns breves momentos, estão e têm estado sempre entre os principais apetites da alma. A arte e a religião, os carnavais e as saturnais, a dança e a apreciação da oratória, tudo isso tem servido, na frase de H. G. Wells, de Portas na muralha.E há vida individual, para uso cotidiano, sempre houve drogas inebriantes. Todos os sedativos e narcóticos vegetais, todos os eufóricos derivados de plantas, todos os entorpecentes que se extraem de frutos ou raízes, todos, sem exceção, são conhecidos e vêm sendo sistematicamente empregados pelos seres humanos, desde épocas imemoriais. E a esses modificadores naturais da percepção, a ciência moderna adicionou sua cota de produtos sintéticos — o cloral, a benzedrina, os brometos e os barbituratos.
A maior parte dessas substâncias não pode ser atualmente adquirida, a não ser mediante prescrição médica ou então ilegalmente e com graves riscos. O Ocidente só permite o uso irrestrito do fumo e do álcool. Todas as outras Portas químicas na muralha são rotuladas como estupefacientes e seus consumidores ilegais são viciados.
Gastamos, hoje em dia, muito mais em cigarros e bebidas que em educação. E nada há de surpreendente nesse fato. O impulso para fugir a nós mesmos e ao que nos rodeia está presente em cada um de nós, quase todo o tempo. O estímulo para fazer algo pelas crianças só é forte nos pais, e, mesmo neles, tão-somente durante os poucos anos de vida escolar de seus filhos. Do mesmo modo, não nos surpreende a atitude geral com relação ao fumo e à bebida.
A despeito das legiões sempre crescentes de alcoólatras inveterados, das centenas de milhares de pessoas que são anualmente mutiladas ou mortas por motoristas embriagados, os humoristas populares ainda armam situações jocosas girando em torno do álcool e dos que a ele se entregam. E, a despeito das provas ligando os cigarros ao câncer do pulmão, praticamente todo o mundo encara o hábito de fumar como algo quase tão normal e natural quanto comer.
Do ponto de vista do racionalista utilitário, isto pode parecer estranho, mas, para o versado em história, não seria de esperar outra coisa. Jamais a inabalável convicção na existência do Inferno conseguiu evitar que os cristãos fizessem aquilo que lhes sugeria a ambição, a luxúria ou a cobiça. O câncer pulmonar, os acidentes de tráfego e os milhões de criaturas miseráveis e criadoras de miséria em razão do alcoolismo são realidades ainda mais positivas que o Inferno no tempo de Dante. Mas tudo isso é remoto e secundário, se comparado com a realidade vivida e presente de uma ânsia por serenidade ou liberdade, por um cigarro ou uma taça.
Nossa era, entre outras coisas, é a idade do automóvel e da vertigem da velocidade. O álcool é incompatível com a segurança nas estradas; e sua produção, bem como a do tabaco, condena praticamente à esterilidade muitos milhões de hectares dos mais férteis solos. Os problemas criados pelo álcool e pelo tabaco não podem ser — e isto não admite contestação — resolvidos pela proibição. O impulso universal e permanente para a autotranscendência não pode ser dominado pelo simples fechar das solicitadas Portas na muralha. A única política razoável seria abrir outras portas melhores, na esperança de induzir os seres humanos a trocar seus velhos maus hábitos por práticas novas e menos prejudiciais. Algumas dessas novas portas seriam de natureza social e tecnológica, outras religiosas ou psicológicas, e outras mais seriam dietéticas, atléticas e educacionais. Mas é inevitável que perdure, apesar de tudo, a necessidade de frequentes excursões químicas para longe da intolerável personalidade e dos repulsivos arredores de cada um. Precisar-se-ia, pois, de uma nova droga que aliviasse e consolasse nossos semelhantes que sofrem, sem lhes causar dano maior, após um período prolongado de tempo, do que o bem que ela lhes pudesse proporcionar de imediato. Tal droga teria de ser eficaz em doses diminutas, e sintetizável. A ausência dessas características faria com que sua produção, tal qual a do vinho, da cerveja, das bebidas fortes e do tabaco, fosse interferir com a produção dos alimentos e das fibras essenciais. Teria de ser menos tóxica que o ópio ou a cocaína, menos propensa a produzir consequências sociais indesejáveis que o álcool ou os barbituratos, menos prejudicial ao coração e aos pulmões que o alcatrão e a nicotina dos cigarros. E, por suas características positivas, deveria produzir modificações mais interessantes na percepção, mais intrinsecamente proveitosas que a mera ação sedativa ou a propensão aos sonhos e às impressões de onipotência ou o escape às inibições.
A mescalina é quase que completamente inócua para a maioria das pessoas. Ao contrário do álcool, ela não conduz o paciente a esse tipo de ações descomedidas das quais resultam alterações, crimes violentos e acidentes de tráfego. Um indivíduo sob a influência da mescalina vive sossegadamente para si mesmo. Além do mais, o que então o absorve é uma experiência das mais esclarecedoras e que dele não exige, em troca (e isto é certamente importante), quaisquer sensações posteriores de angústia. Pouco sabemos acerca das consequências remotas do uso sistemático da mescalina. Os índios que mascam pedaços de peiote não parecem ser física ou moralmente degradados pelo hábito. No entanto, as provas de que dispomos são ainda poucas e falhas [12].
Embora indiscutivelmente superior à cocaína, ao ópio, ao álcool e ao fumo, a mescalina ainda não é a droga ideal. De par com a maioria de indivíduos que encontram a satisfação na ingestão do alcalóide, há uma minoria a quem a droga só proporciona o inferno ou o purgatório. Além disso, para um produto que iria ser entregue, como o álcool, ao consumo indiscriminado, seus efeitos perduram por um prazo exageradamente longo. Mas a química e a fisiologia são, hoje em dia, capazes de realizar praticamente qualquer coisa. Se os psicologistas e sociologistas chegarem a definir qual seja o ideal, pode-se confiar nos neurologistas e farmacologistas para descobrir os meios de atingi-lo ou, no mínimo, aproximar-se dele muito mais (mesmo porque, pela própria natureza das coisas, talvez jamais se consiga conceber inteiramente qual seja esse ideal) do que foi possível com o vinho do passado ou com o uísque, a maconha e os barbituratos do presente.
O impulso para superar a personalidade autoconsciente é, como já o disse, um anseio capital da alma. Quando, seja por que razão, os seres humanos vêem baldados os seus esforços para superarem a si mesmos pelo culto, pelas boas ações e pela atividade intelectual, tornam-se propensos a recorrer às drogas substitutas da religião — o álcool e as "pílulas inocentes" no moderno Ocidente, o álcool e o ópio no Oriente, o haxixe no mundo maometano, o álcool e a maconha na América Central, o álcool e a coca nos Andes, o álcool e os barbituratos nas regiões mais adiantadas da América do Sul. Em Poisons sacrés, ivresses divines [Venenos sagrados, êxtases divinos], Philippe de Félice escreveu exaustivamente, e com riqueza de documentação, sobre os laços imemoriais que ligam a religião à ingestão de drogas.
A seguir, ora resumindo, ora transcrevendo, apresento suas conclusões:
O emprego, para fins religiosos, de substâncias tóxicas, é "extraordinariamente difundido [...] As práticas estudadas neste volume podem ser observadas em qualquer região da Terra, tanto entre os povos primitivos como no seio daqueles que já atingiram um elevado índice de civilização. Não estamos, pois, lidando com fatos excepcionais que poderiam ser, com razão, postos à margem; mas com um fenômeno geral e, dentro da mais ampla acepção da palavra, humano; com um tipo de fenômeno que não pode ser desprezado por quem quer que busque descobrir que é a religião e quais as necessidades profundas a que ela tem de satisfazer".
Teoricamente, cada um de nós deveria ser capaz de encontrar a autotranscendência a partir de uma forma de religião pura ou aplicada. Mas, na prática, parece ser sumamente improvável que esse anseio pelo apogeu seja algum dia realizável. Há (e é fora de dúvida que sempre houve) homens e mulheres virtuosos e pios, para quem, infelizmente, apenas a piedade não basta. O falecido G. K. Chesterton, que escrevia com lirismo idêntico tanto sobre a bebida quanto sobre a fé, pode servir de eloquente exemplo desse grupo.
As igrejas modernas, excluídas umas poucas seitas protestantes, toleram o álcool; no entanto, mesmo as mais tolerantes jamais procuraram converter a bebida ao cristianismo — isto é, sacramentar seu uso. O pio alcoólatra vê-se forçado a manter, em compartimentos estanques, sua religião e seu substituto para ela. E talvez isso seja inevitável. A bebida não pode ser incluída na liturgia, a não ser nas religiões que não dêem valor ao decoro. O culto de Baco ou da divindade celta da cerveja eram festins ruidosos e dissolutos. Os ritos cristãos são incompatíveis com a embriaguez, ainda que de cunho religioso. Isso não prejudica os fabricantes de bebidas, mas é muito mau para o cristianismo. Um sem-número de pessoas deseja experimentar a autotranscendência, e gostaria de encontrá-la no tempo. Mas "as ovelhas famintas voltam-se para o céu e não são atendidas". Tomam parte nos ritos, escutam os sermões, repetem as orações; mas sua sede não se aplaca. Desapontadas, voltam-se para a garrafa. Ao menos por certo tempo, e de certa forma, encontram o que querem. A igreja pode continuar a ser frequentada; mas já não será mais do que o Banco Musical do Erewhon [13] de Butler. Deus pode continuar a ser reconhecido como tal, mas a Ele só será concedida divindade no campo verbalístico, apenas em sentido estritamente figurado.
O verdadeiro objeto de culto é a garrafa, e a única experiência religiosa é aquele estado de desregramento e belicosa euforia que se segue à ingestão do terceiro aperitivo.
Vemos, pois, que o cristianismo e o álcool não se misturam nem poderiam fazê-lo. Já não há tanta incompatibilidade com relação à mescalina. Isso tem sido demonstrado por várias tribos de índios, desde o Texas até o Estado de Wisconsin. Entre essas tribos, encontram-se algumas filiadas à Igreja Americana Nativa, seita cujo principal rito é uma espécie de Ágape Cristão Primitivo ou Festa do Amor, em que fatias de peiote substituem o pão e o vinho do sacramento. Esses índios americanos encaram o cacto como preciosa dádiva de Deus aos índios e consideram seus efeitos manifestação do divino Espírito.
O professor J. S. Slotkin — um dos pouquíssimos homens brancos que, até hoje, participaram dos ritos de uma congregação peiotista — relata, falando de seus companheiros de ritual, que eles "em absoluto ficam narcotizados ou embriagados [...] Jamais perdem o ritmo ou balbuciam, como aconteceria com indivíduos inebriados pelo álcool ou por estupefacientes [...] São todos calmos, corteses e respeitam-se uns aos outros. Jamais estive em qualquer templo de homens brancos onde pudesse encontrar tanto respeito e religiosidade". Poderíamos perguntar: "Que estariam esses devotos e bem-comportados peiotistas sentindo?". Claro que não há de ser o brando sentimento de virtude que embala o comum dos frequentadores do ofício dominical, durante noventa minutos de solidão. Nem mesmo esses fervorosos sentimentos, inspirados pelos pensamentos no Criador, no Redentor, no Juiz e no Espírito Santo, que animam os piedosos. Para esses membros da Igreja Americana Nativa, a experiência religiosa é algo de mais direto e esclarecedor, de mais espontâneo, e tem muito menos de produto imperfeito da mente superficial e restrita. Por vezes (ainda segundo as observações colhidas pelo dr. Slotkin) têm visões que podem ser até do Próprio Cristo. De outras, escutam a voz do Grande Espírito. Ainda em outras se apercebem da presença de Deus, bem como de suas falhas pessoais, as quais terão de ser corrigidas para que possa ser cumprida Sua vontade. As consequências práticas dessa abertura química das Portas para o Outro Mundo parecem ser excelentes. O dr. Slotkin testemunha que os peiotistas habituais são, em geral, mais diligentes, mais temperantes (muitos são completamente abstêmios) e mais pacíficos que os não-peiotistas. Uma árvore que apresente frutos tão bons não pode ser condenada como maléfica. Ao sacramentar o uso do peiote, os índios da Igreja Americana Nativa fizeram algo que é, a um só tempo, psicologicamente correto e historicamente respeitável. Nos primeiros séculos do cristianismo, muitos ritos e festas pagãos foram, por assim dizer, batizados e postos ao serviço da Igreja.
Essas festas nada tinham de edificantes, mas aliviavam uma certa fome psicológica; e, em vez de tentar suprimi-las, os primeiros missionários tiveram o bom senso de aceitá-las pelo que de útil possuíam — permitir à alma satisfazer seus impulsos fundamentais — e incorporá-las ao código da nova religião. Em essência, idêntico foi o procedimento da Igreja Americana Nativa. Adotaram um costume pagão (por sinal bem mais inspirador e esclarecedor do que as sensuais orgias e mascaradas, retiradas ao paganismo europeu) e deram-lhe um significado cristão.
Embora só recentemente tenham sido introduzidos na região setentrional dos Estados Unidos, o consumo do peiote e o culto nele baseado tornaram-se importantes símbolos do direito do índio à independência espiritual. Alguns indígenas reagiram à hegemonia do branco tornando-se americanizados, enquanto outros se recolhiam a seus costumes tradicionais. Mas um terceiro grupo procurou fazer o melhor uso das duas civilizações e desses outros mundos de transcendental experiência onde a alma sabe que é livre e tem uma essência divina. Daí nasceu a Igreja Americana Nativa. Nela, dois grandes apetites da alma — o impulso para a independência e a autodeterminação, e o estímulo para a superação de si própria — fundiram-se e passaram a ser interpretados à luz de um terceiro — a necessidade de render culto, de justificar, perante o homem, as razões de Deus, de explicar o universo por meio de uma teologia coerente.
Lo, the poor Inâian, whose untutored mina Clothes him in front, but leaves him
bare behind. *
* [índio infeliz, a quem a alma falaz,/ Cobre-lhe a frente e o deixa nu por trás.]
Mas, em verdade, somos nós, os brancos ricos e altamente educados, que ostentamos a nudez de nossas costas. Cobrimos nossa paradisíaca aparência anterior com alguma filosofia — cristão, marxista, físico-freudiana —, mas nos descuramos da outra face, deixando-a à mercê de todos os ventos que possam soprar. O pobre índio, por outro lado, se tem valido do espírito para proteger-lhe a retaguarda, complementando a folha de parreira teológica com a tanga da experiência transcendental.
Não sou tão tolo a ponto de relacionar o que acontece sob o efeito da mescalina ou de qualquer outra droga, existente ou que possa vir a existir, com a compreensão do fim e do derradeiro objetivo da vida humana: a Luz, a Beatífica Visão. Tudo o que estou sugerindo pode ser assim resumido: a experiência com a mescalina é o que os teólogos católicos chamam de "uma graça gratuita", não necessariamente para a salvação, mas potencialmente valiosa e que, se realizada, será prazerosamente aceita. Ver-se livre da rotina e da percepção ordinária, ser-lhe permitido contemplar, por umas poucas horas em que a noção de tempo se esvai, os mundos exterior e interior, não como eles se mostram ao animal dominado pela idéia de sobrevivência ou ao ser humano obcecado por termos e ideias, mas tais como são percebidos pela Onisciência — direta e incondicionalmente —, eis uma experiência de inestimável valor para qualquer indivíduo, especialmente para o intelectual, pois este é, por definição, o homem para quem, na frase de Goethe, "a palavra é essencialmente proveitosa". Ele é o homem para quem "o que percebemos pela visão nos é estranho e, pois, não nos deve impressionar profundamente". Não obstante, embora fosse ele mesmo um intelectual e um dos supremos mestres da linguagem, Goethe nem sempre concordou com sua própria conceituação da palavra. "Falamos demais" — escreveu ele em sua madureza. "Deveríamos falar menos e desenhar mais. Eu, pessoalmente, gostaria de renunciar por completo à fala e, imitando a Natureza organizada, comunicar por esboços tudo o que tivesse a dizer. Aquela figueira, esta pequena serpente, o casulo aguardando serenamente o futuro no umbral de minha janela, tudo isso são importantes signos. Quem fosse capaz de decifrar corretamente seu significado poderia pôr inteiramente de lado tanto a palavra escrita quanto a falada. Quanto mais penso nisso, mais encontro futilidade, mediocridade e até mesmo (sou levado a dize-lo) fatuidade na palavra.
Contrastando com isso, como nos assombram a gravidade e o silêncio da Natureza quando com ela deparamos face a face, concentrados diante de uma colina estéril ou da desolação de um outeiro que a erosão desgastou."
Jamais poderemos passar sem a palavra e os outros sistemas de símbolos, pois foi graças a eles, e somente por eles, que nos elevamos acima das bestas, atingindo o nível de seres humanos. Mas poderemos facilmente nos tornar tanto vítimas como beneficiários desses sistemas. Precisamos aprender como manejar eficientemente as palavras mas, ao mesmo tempo, devemos preservar e, se necessário, intensificar nossa capacidade de olhar o mundo diretamente, e não através da lente semi-opaca das ideias, que distorce cada fato, diluindo-o no lugar-comum das denominações genéricas ou das abstrações explanatórias.
Literária ou científica, liberal ou especializada, toda a nossa educação é predominantemente verbalista e, pois, não consegue atingir plenamente seus objetivos.
Em vez de transformar crianças em adultos completamente desenvolvidos, ela produz estudantes de ciências naturais que não têm a menor noção do papel primordial da Natureza como elemento fundamental da experiência; entrega ao mundo estudantes de humanidades que nada sabem sobre a humanidade, seja ela a sua ou a de quem mais for.
Os psicologistas adeptos do gestaltismo, tais como Samuel Renshaw, conceberam métodos para ampliar a gama e aumentar a acuidade das percepções humanas; mas aplicá-los-ão nossos educadores? Não.
Mestres de todos os campos das atividades psicofísicas — da observação ao tênis, do equilibrismo à reza — descobriram, pelo método das tentativas, as condições ideais de execução, dentro de seus setores peculiares. Mas teria alguma grande Fundação algum dia financiado um trabalho destinado a coordenar essas descobertas empíricas para encontrar as bases gerais, teóricas e práticas, do aumento do poder criador? Novamente, tanto quanto me é dado conhecer, terei de responder negativamente.
Adivinhos e charlatães de todas as espécies ensinam um sem-número de métodos para aquisição de alegria, saúde, paz de espírito.
E, para muitos de seus clientes, a maioria desses métodos é realmente eficaz. Mas acaso vemos psicologistas, filósofos e sacerdotes respeitáveis descerem corajosamente a essas estranhas cavernas, por vezes infectas, no fundo das quais a pobre Verdade vê-se, tão amiúde, forçada a sentar-se? Mais uma vez, a resposta é "Não".
E, agora, examinemos o histórico da pesquisa sobre a mescalina. Há setenta anos, homens de inegável capacidade descreveram as transcendentais experiências por que passaram aqueles que, gozando boa saúde, em pleno uso de suas faculdades mentais, e sob condições adequadas, ingeriram a droga.
Quantos filósofos, quantos teólogos, quantos educadores tiveram a curiosidade de abrir esta Porta na muralha? A resposta é: "Praticamente nenhum". Em um mundo onde a educação é transmitida principalmente por meio da palavra, às pessoas de grande instrução torna-se quase impossível dar séria atenção a quaisquer outras coisas que não sejam palavras ou ideias. Há sempre dinheiro a gastar, teses a serem defendidas, douta e insensata pesquisa a se orientar para aquilo que, na opinião dos eruditos, é o problema fundamental. "Que é que induziu quem a dizer tal coisa e em tal ocasião?" Mesmo nesta era da tecnologia, as humanidades verbalistas são dignificadas. Os conhecimentos objetivos que nos permitem tomar contato direto com determinados fatos de nossa existência são quase que completamente desprezados. Um catálogo; uma bibliografia; as obras completas, palavra por palavra, de um poetastro de terceira classe; um estupendo índice que represente a última palavra em índices — enfim, qualquer projeto de proporções grandiosas obterá fatalmente aprovação e apoio financeiro. Mas, quando se trata de querer saber como cada um de nós, nossos filhos e netos, poderemos nos tornar mais perceptíveis, mais intensamente cônscios da realidade interior e exterior, mais acessíveis ao Espírito, menos aptos a adoecer vítimas de nossos próprios erros psicológicos e mais capazes de controlar nosso sistema nervoso autônomo — quando, pois, se trata de qualquer forma de educação objetiva mais importante (e, portanto, mais provável de alcançar aplicação prática) que a ginástica sueca, não haverá pessoa respeitável, em qualquer universidade ou igreja de renome, que faça qualquer coisa em seu benefício. Os verbalistas desconfiam dos não-verbalistas; os racionalistas temem os fatos concretos, não racionais; os intelectuais acham que "o que percebemos pela visão (ou por qualquer outra forma) nos é estranho e, pois, não nos deve impressionar profundamente". Além do mais, a educação, no campo dos conhecimentos objetivos, não se adapta a nenhum dos esquemas existentes. Não é religião, neurologia, ginástica, educação moral e cívica, nem tampouco psicologia experimental. Assim sendo, esse assunto simplesmente não existe, para fins acadêmicos e eclesiásticos, e bem pode ser completamente ignorado ou então relegado, com um sorriso condescendente, àqueles a quem os fariseus da ortodoxia verbalista chamam maníacos, impostores, charlatães e desprezíveis amadores.
"Sempre achei" — escreveu Blake com um certo amargor — "que os anjos possuem a vaidade de se considerarem os únicos sábios. E isso eles o fazem com uma insolência confiante que brota de um raciocínio sistemático."
Raciocínio sistemático é algo sem o qual nós, seja como espécie ou como indivíduo, não podemos passar. Mas creio que tampouco poderemos prescindir da percepção direta — e quanto menos sistemática melhor — dos mundos interior e exterior que nos serviram de berço, para que possamos preservar a sanidade mental. Essa realidade objetiva possui um sentido infinito que ultrapassa toda a compreensão e, no entanto, permite ser direta e, de certa forma, totalmente percebida. É uma transcendência característica de outra ordem que não a humana, embora nos possa ser presente como uma imanência palpável, como experiência de que houvéssemos participado. Ser esclarecido é ser sempre cônscio da realidade plena em sua diversidade intrínseca — ter ciência disso, sem deixar de velar por sua sobrevivência como animal, de pensar e sentir como ser humano, de recorrer, sempre que necessário, ao raciocínio sistemático. Nosso objetivo é provar que sempre estivemos onde deveríamos estar.
Infelizmente, tornamos a missão excessivamente difícil para nós mesmos Mas, nesse meio-tempo, surgiram "graças gratuitas" sob a forma de realizações parciais e fugazes. Sob um sistema de educação mais realístico, menos verbalista que o nosso, deveria ser permitido a cada Anjo (na acepção que Blake dava a essa palavra), à guisa de repouso sabático — e, se necessário, dever-se-ia incitá-lo ou mesmo compeli-lo —, realizar um passeio, vez por outra, valendo-se de Portas químicas na muralha, no mundo da experiência transcendental. Se isso os apavorasse, seria lamentável, mas ainda assim talvez lhes fosse salutar.
E melhor ainda seria se ela lhes proporcionasse, por uns breves momentos, que haveriam de parecer eternos, uma radiosa inspiração. Mas, em ambos os casos, o Anjo haveria de perder um pouco da confiante insolência nascida do raciocínio sistemático e da certeza de haver lido todos os livros.
Santo Tomás de Aquino, já próximo ao fim de sua vida, conheceu a Contemplação Inspirada. Daí em diante, não mais prosseguiu no livro que iniciara.
Comparado com isto, tudo mais que ele havia lido, e sobre o qual discutira e escrevera — Aristóteles e as Sentenças, as Questões, as Proposições, as magestosas Summas* —, valia tanto quanto o joio ou a palha. Para a maioria dos intelectuais, tal greve de braços cruzados seria desaconselhável ou mesmo moralmente errada. Mas o Angélico doutor havia praticado mais o raciocínio sistemático que uma dúzia de Anjos comuns reunidos, e já se achava próximo a seu fim. Conquistara o direito, nesses últimos meses de vida terrena, de trocar mera palha ou joio simbólico pelo pão da Verdade real e substancial.
Anjos de categoria inferior, e com melhores perspectivas de longevidade, voltariam à palha. Mas o homem que vem de cruzar de novo a Porta na muralha jamais será igual ao que partira para essa viagem. Será, daí por diante, mais sábio, embora menos arraigado em suas convicções, mais feliz, ainda que menos satisfeito consigo mesmo, mais humilde vem concordar com a própria ignorância, embora esteja
em melhores condições para compreender a afinidade entre as palavras e as coisas, entre o raciocínio sistemático e o insondável mistério que ele procura, sempre em vão, compreender.
[12] O professor J. S. Slotkin, em sua monografia Menomini peyotism (O peiotismo entre os menomini), publicada em dezembro de 1952 nos Anais da American Philosophical Society, declara que "o uso costumeiro do peiote não parece produzir qualquer aumento de tolerância ou dependência. Conheço muitas pessoas que são peiotistas há quarenta ou cinquenta anos. A quantidade de peiote que usam depende da maior ou menor solenidade emprestada à ocasião; via de regra, não aumentam as doses que costumavam tomar vários anos antes. Além disso, ocorrem por vezes intervalos de um mês ou mais entre ritos consecutivos, e eles passam todo esse tempo sem fazer uso do peiote e sem sentir qualquer ânsia por ele. Eu próprio, mesmo após uma série de ritos em quatro fins de semana consecutivos, nem aumentei a dose de peiote, nem senti qualquer desejo continuado por ele". Há, evidentemente, boas razões para que "o peiote jamais tenha sido legalmente declarado um narcótico ou tenha sofrido a proibição de seu uso pelo governo federal". Não obstante isso, "durante a longa história dos contatos entre índios e brancos, as autoridades brancas procuraram, repetidas vezes, proscrever seu uso, por crerem que isso violava seus costumes de civilizados. Mas todas essas tentativas foram infrutíferas". Em rodapé, o dr. Slotkin acrescenta que "é espantoso ouvir as histórias fantásticas dos efeitos do peiote e da natureza do ritual, contadas pelas autoridades brancas e índias católicas na reserva dos menomini. Nenhuma delas jamais teve a menor experiência pessoal com a planta ou com a religião, embora algumas se arvorem em autoridade no
assunto e sobre ele redijam relatórios oficiais".
13 Erewhon, anagrama de nowhere ("lugar algum"), é o título abreviado de uma novela fantástica de
Samuel Butler, escrita em 1872, que descreve um pais cujo povo vira-se obrigado a destruir todas as máquinas para não ser por elas destruído.
{14 Summa theologica e Summa contra gentiles, de Santo Tomás de Aquino, sínteses do conhecimento humano da época.
FONTE: Conclusão - Comunhão com o Deus Vegetal - Morte Súbita inc.







