Naquela noite, quando as luzes da igreja diminuíram e o som cristalino de uma flauta se espalhou por entre mais de mil mulheres ali reunidas, quatro feiticeiras, cada uma delas empunhando uma vela, colocaram-se ao redor do altar. Com elas encontrava-se uma alta sacerdotisa da magia, Morgan McFarland, filha de um ministro protestante. Numa voz clara e firme, McFarland proferiu um longo encantamento cujos místicos ecos pareciam realmente muito distintos da doutrina que os paroquianos unitaristas estavam habituados a ouvir:
"No momento infinito antes do início do Tempo, a Deusa se levantou em meio ao caos e deu a luz a Si Mesma (...) antes de qualquer nascimento (...) antes de seu próprio nascer. E quando separou os Céus das Águas e neles dançou, a Deusa, em Seu êxtase, criou tudo que há. Seus movimentos geraram o vento, o elemento Ar nasceu e respirou."
Enquanto a alta sacerdotisa prosseguia em seu cântico, descrevendo sua própria versão da criação do mundo, suas companheiras de altar começaram a acender as velas, uma após a outra - a primeira para o leste, depois para o sul, o oeste e, por fim, para o norte. As palavras de MacFarland repercutiam, ressoando diante de todos como se fossem ditas pela voz de uma antiga pitonisa, uma voz que invocava a grande divindade feminina que, segundo afirmavam as sacerdotisas, havia criado os céus e a terra.
No ápice de seu canto, MacFarland rememorava o dia em que a deusa criara a primeira mulher e lhe ensinara os nomes que deveriam ser eternamente pronunciados em forma de oração:
"Sou Ártemis, a Donzela dos Animais, a Virgem dos Caçadores. Sou ísis, a Grande Mãe. Sou Ngame, a Deusa ancestral que sopra a mortalha. E serei chamada por milhares de nomes. Invoquem a mim, minhas filhas, e saibam que sou Nêmesis."
Tudo isso ocorreu durante uma convenção de três dias, cujo tema era a espiritualidade feminina. Apesar de recorrer a elementos familiares tais como velas, túnicas e música, essa foi a prece menos ortodoxa que já ecoara pelas paredes de arenito da igreja da rua Arlington. A cerimônia deve ter sido contagiante, pois no final a nave da igreja estava repleta de pessoas dançando e quase mil vozes preenchiam aquele local majestoso e antigo unidas em uma só cantilena que dizia: "A Deusa vive, há magia no ar. A Deusa vive, há magia no ar."
Para muitos especialistas que pesquisam a história da feitiçaria, aquela deusa invocada durante a cerimônia, uma deusa cuja dança arrebatada teria urdido o vento, o ar e o fogo e cujo riso, afirmava-se, instilara a vida em todas as mulheres, não poderia, de modo algum, ter existido no momento da criação, porque nasceu e recebeu sua aparência, tanto quanto sua personalidade, de uma imaginação absolutamente moderna. Sua origem histórica, afirmam os céticos, limita-se a poucos traços colhidos de concepções um tanto nebulosas relacionadas com divindades da Europa pré-cristã, concepções estas que teriam sido intencionalmente rebuscadas com detalhes teatrais para adequar-se aos ritos e cerimônias.
Porém, para muitos praticantes da feitiçaria, sua Grande Deusa é realmente um ancestral espírito criador, cultuado na Europa e no Oriente Próximo muito antes da introdução do Deus cristão. Acreditam que a deusa tenha sobrevivido aos séculos de perseguição ocultando-se nos corações de seus adoradores secretos, filhos e filhas espirituais que foram condenados ao ecúleo e à fogueira da Inquisição devido a suas crenças. E agora, dizem, a deusa emerge mais uma vez, abertamente, inspirando celebrações nos redutos daquela mesma religião organizada que anteriormente tentara expurgar tudo que estivesse relacionado com ela e seus seguidores.
Seus modernos adeptos não têm a menor dúvida quanto à antiguidade de sua fé. Ser um feiticeiro, afirma um deles, é "en trar em profunda sintonia com coisas que são mais antigas do que a própria espécie humana". E, realmente, até certos não-iniciados declaram perceber nesse movimento dos praticantes de feitiçaria uma força invisível que anima o universo. Uma mulher que classificou os ensinamentos e ritos da feitiçaria como "meras palavras, sem qualquer significado", disse no entanto que, quando compareceu ao local no qual as feiticeiras se reuniam, sentiu uma força que parecia pairar além dos limites da razão. "Sinto uma corrente", confessou em carta a uma amiga, "uma força que nos cerca. Uma força viva, que pulsa, flui e reflui, cresce e desaparece como a lua (...) não sei o que é, e não sei como usá-la. É como quando se está bem perto de uma corrente elétrica, tão perto que se pode até ouvir seu zumbido, seu estalo, mas sem conseguir conectá-la."
Hoje, contudo, milhares de homens e mulheres que levam uma vida comum, afora essa busca, acreditam estar conectando
essa corrente e extraindo energia daquilo que Theodore Roszak define como "a fonte da consciência espiritu aldo homem". No decorrer desse processo, estes que se proclamam neopagãos descobrem - ou, como dizem alguns deles, redescobrem - o que afirmam ser uma religião ancestral, uma religião cuja linguagem é a do mito e do ritual, cuja fé professa a realidade do êxtase e é difícil de ser definida, uma religião de muitas divindades e não de apenas um só Deus.
Esses modernos adoradores da natureza, tal como os pagãos de eras passadas, não separam o natural do sobrenatural, o ordinário do extraordinário, o mundano do espiritual. Para um neopagão, tudo pertence a um mesmo todo. Calcula-se que o número de neopagãos alcance um número aproximado de 100 mil ou mais adeptos nos Estados unidos, formando uma irmandade que se reflete na verdadeira explosão de festivais pagãos iniciada na década de 70. No final da década de 80, havia mais de cinquenta desses festivais nos Estados Unidos, atraindo uma platéia que reunia desde os adeptos mais radicais até meros curiosos. Segundo Margot Adler, autora de Atraindo a Lua, um livro que documenta a ascensão do neopaganismo, tais festivais "mudaram completamente a face do movimento pagão" e estão gerando uma comunidade pagã nacional. Adler afirma que esse grupo abrange pessoas cujo perfil social inclui desde tatuadores e estivadores até banqueiros, advogados e muitos profissionais da área de informática.
Nem todos os neopagãos da atualidade podem ser chamados de bruxos ou feiticeiros, pois nem sempre associam o culto neopagão à natureza e a antigas divindades com a prática da magia ritualística, como fazem os feiticeiros. Mas um número desconhecido de neopagãos adota os princípios de uma fé popularmente chamada de feitiçaria e conhecida entre os iniciados como "a prática". Essa religião também é conhecida pelo nome de Wicca, uma palavra do inglês antigo que designa "feiticeiro"; esse termo pode estar relacionado com as raízes indo-européias das palavras wic e weik, que significam "dobrar" ou "virar". Portanto, aos olhos dos modernos adeptos da Wicca, as bruxas nunca foram as megeras ou mulheres fatais descritas pelo populacho, mas sim homens e mulheres capazes de "dobrar" a realidade através da prática da magia. Eles acreditam que os feiticeiros da história seriam os curandeiros das aldeias, senhores do folclore e da sabedoria tradicional e, portanto, os pilares da sociedade local.
Apesar da moderna popularidade da feitiçaria como religião, a crença medieval no poder das bruxas para convocar malefícios nunca desapareceu completamente. E era ainda bem forte em 1928, no condado de York, na Pensilvânia, a ponto de provocar mortes. Dois homens e um menino confessaram o assassinato de Nelson Rehmeyer, um fazendeiro solitário que se dizia feiticeiro, para apanhar um cacho de seus cabelos. Precisavam do cacho, afirmaram, para quebrar o feitiço que ele lhes jogara.
John Blymyer, o mais velho, declarou que ele também era bruxo e que durante quinze anos buscara o responsável por seus infortúnios. Logo após sua detenção, declarou: "Rehmeyer está morto. Não me sinto mais enfeitiçado. Agora consigo comer e beber."
Blymyer e seus amigos não estavam sozinhos em suas crenças. Os jornais mencionavam outras pessoas preocupadas com feitiços; um barbeiro contava que alguns fregueses levavam consigo o cabelo cortado, para evitar "dores de cabeça". Depois do médico-legista do condado de York ter se lamentado de que metade do condado acreditava em magia negra, as sociedades locais de médicos anunciaram uma "cruzada contra a prática de feitiçaria e suas crendices maléficas".
Mas o estereótipo persiste, e as bruxas continuam a ser objeto de calunia, lutando para desfazer a imagem de companheiras do diabo. Para muitos, a bruxa era, e ainda é, a adoradora do demônio. Bem recentemente, em 1952, o autor britânico Pennethorne Hughes classificou algumas feiticeiras da história como "lascivas e pervertidas", atribuindo-lhes uma longa lista de pecados reais ou imaginários. "Elas faziam feitiços", escreveu, "causavam prejuízos, envenenavam, provocavam abortos no gado e inibiam o nascimento de seres humanos, serviam ao diabo, parodiavam os rituais cristãos, aliavam-se aos inimigos do rei, copulavam com outros bruxos ou bruxas que chamavam de íncubos ou súcubos e cometiam abusos com animais domésticos." Diante de tantas acusações, não chega a ser surpreendente o fato de que as palavras "mago", "feiticeiro" ou "bruxo" e "magia", "feitiçaria", ou "bruxaria" continuem a despertar profundas reações. "A feitiçaria é uma palavra que assusta a uns e confunde a outros", observa uma escritora radicada na Califórnia, também praticante de feitiçaria, conhecida pelo nome de Starhawk. "Na mente do povo", ela observa, as bruxas do passado são "megeras horrendas montadas em vassouras, ou maléficas satanistas que participavam de rituais obscenos." E a opinião contemporânea não tem demonstrado bondade maior para com as feiticeiras atuais, considerando-as, como aponta Starhawk, "membros de um culto esquisito, que não tem a profundidade, dignidade ou seriedade de propósitos de uma verdadeira religião".
Mas trata-se de fato de uma religião, tanto
para quem a religião é "uma necessidade humana de beleza", como no sentido que figura no dicionário: "sistema institucionalizado de atitudes, crenças e praticas religiosas". Até mesmo o Departamento de Defesa dos Estados Unidos cedeu às reivindicações dos praticantes da Wicca para que esta fosse considerada como religião válida e, em meados da década de 70, o Pentágono recrutou uma feiticeira, Lady Theos, para revisar o capítulo referente a bruxaria no Manual dos Capelães do exército. As contribuições de Lady Theos foram atualizadas em 1985, por uma erudita neopagã chamada Selena Fox. Outro sinal dos tempos pode ser visto nos cartões de identidade dos membros das forças armadas, nos quais as palavras "pagão" e "wiccan" agora aparecem com frequência, embora certamente em menor número, do que os nomes de outras afiliações religiosas. Apesar desse reconhecimento e embora a Constituição americana — tal como a brasileira — garanta o direito à liberdade de crença, a prática de feitiçaria ainda enfrenta duras críticas e até mesmo uma perseguição premeditada.
Esses ataques naturalmente não se comparam, em escala e em violência, com o prolongado reinado de horror que predominou do século XIV ao XVII, período descrito pelas feiticeiras contemporâneas como "a época das fogueiras", ou "a grande caçada às bruxas". De fato, a perseguição atual é comparativamente até benigna — demissões de empregos, perda da custódia dos filhos, prisão por infrações aos bons costumes —, mas causa prejuízos que levaram a alta sacerdotisa da ordem Wicca, Morgan McFarland, a rotular estes tempos como uma "era das fogueiras brandas".
Pelo menos em parte, a fonte da relativa tolerância atual, bem como as raízes desse renascimento da Wicca, podem ser encontradas nos trabalhos elaborados no início do século XX pela antropóloga inglesa Margaret Murray. As pesquisas de Murray sobre as origens e a história da feitiçaria começaram, como ela posteriormente registrou em sua autobiografia, com "a ideia comum de que todas as feiticeiras eram velhas padecendo de alucinações por causa do diabo". Mas ao examinar os registros dos julgamentos que restaram da Inquisição, Murray logo desmascarou o diabo, segundo suas próprias palavras, e descobriu em seu lugar algo que identificou como o Deus Chifrudo de um culto à fertilidade, uma divindade pagã que os inquisidores, em busca de heresias religiosas, transformaram em uma incorporação do diabo. À medida que aprofundou o estudo daqueles registros ela se convenceu de que esse deus possuía um equivalente feminino, uma versão medieval da divina caçadora das épocas clássicas, que os gregos chamavam de Ártemis e os romanos de Diana. Ela supunha que as feiticeiras condenadas reverenciavam Diana como líder espiritual.
Na visão de Murray, a feitiçaria seria o mesmo culto a fertilidade anterior ao cristianismo, que ela denominou culto a Diana, e seria "a antiga religião da Europa ocidental". Vestígios dessa fé, segundo ela, poderiam ser rastreados no passado a até cerca de 25 mil anos, época em que viveu uma raça aborígine composta de anões, cuja existência permaneceu registrada pelos conquistadores que invadiram aquelas terras apenas nas lendas e superstições sobre elfos e fadas. Seria uma "religião alegre", como a descreve Murray, repleta de festejos, danças e abandono sexual e incompreensível para os sombrios inquisidores, cujo único recurso foi destruí-la até as mais tenras raízes.
Em 1921, Murray divulgou suas conclusões em O Culto à Feiticeira na Europa Ocidental, o primeiro dos três livros que ela publicaria
sobre o assunto, em um trabalho que outorgaria certa legitimidade à religião Wicca. Outros estudiosos, contudo, imediatamente atacaram tanto os métodos utilizados por Murray como suas conclusões. Um crítico simplesmente classificou seu livro como "um palavrório enfadonho". Embora o trabalho de Margareth Murray nunca tenha desfrutado de muito prestígio nos círculos acadêmicos, recentes estudos arqueológicos induziram alguns historiadores a fazer ao menos uma releitura mais criteriosa de algumas de suas teorias mais polêmicas. Mesmo que a seu modo, Murray realmente conseguiu, através de uma reavaliação favorável da feitiçaria, abrir uma porta para um fluxo de interesse pelo culto a Diana. Aqueles que acataram a liderança de Murray e se aventuraram a penetrar por aquela porta logo descobriram que estavam também na trilha de um escritor e folclorista americano chamado Charles Leland.
Em 1899, mais de duas décadas antes de Murray apresentar suas teorias, Leland havia publicado Aradia, obra que ele descreveu como o evangelho de La Vecchia Religione, uma expressão que desde então passou a fazer parte do saber "Wicca". Ao apresentar a tradução do manual secreto de mitos e encantamentos de um feiticeiro italiano, o livro relata a lenda de Diana, Rainha das Feiticeiras, cujo encontro com o deus-sol Lúcifer resultara numa filha chamada Aradia. Esta seria la prima strega, "a primeira bruxa", a que revelara os segredos da feitiçaria para a humanidade.
Aradia é no mínimo uma fonte duvidosa e provavelmente uma fraude cabal; contudo, terminou servindo de inspiração para inúmeros ritos praticados por feiticeiros contemporâneos, inclusive para a Exortação à Deusa, que convoca seus ouvintes a "reunir-se em lugares secretos para adorar Meu Espírito, a Mim que sou a Rainha de todas as Feitiçarias". Embora a obra conte com poucos, ou raros, defensores no círculo acadêmico, em oposição aos que lhe lançam duras críticas, Aradia de certo modo reacendeu as chamas desse renascimento da feitiçaria, e sua ênfase no culto à deu sa tornou o livro muito popular nas assembléias feministas.
Um trabalho mais recente com enfoque similar, porém de reputação mais sólida, é o livro de Robert Graves, A Deusa Branca, publicado pela primeira vez em 1948. Em estilo lírico, Graves apresenta argumentos que revelam a existência de um culto ancestral centrado na figura de uma matriarcal deusa lunar. Segundo o autor, essa deusa seria a única salvação para a civilização ocidental, substituta da musa inspiradora de toda criação poética. Mas, se por um lado muitos entre os primeiros leitores encontraram nesse livro fundamentos para a prática de feitiçaria e se mais tarde ele continuou a inspirar os seguidores da Wicca, o próprio Graves expressou profundas reservas com relação à bruxaria. Sua ambivalência torna-se aparente num ensaio de 1964, no qual o autor sublinha a longevidade e a força da religião Wicca, mas também faz críticas ao que ele considera como uma ênfase em jogos e brincadeiras. Na verdade, o ideal para a feitiçaria, escreve Graves, seria que "surgisse um místico de grande força para revestir de seriedade essa prática, recuperando sua busca original de sabedoria".
A referência de Graves era uma irônica alfinetada em Gerald Brosseau Gardner, um senhor inglês peculiar e carismático, que exerceria profunda - embora frívola, do ponto de vista de Graves - influência no ressurgimento do interesse pela feitiçaria. Gardner, que nascera em 1884 nas proximidades de Liverpool, tivera diversas carreiras e ocupações: funcionário de alfândega, plantador de seringueiras, antropólogo e, finalmente, místico declarado. Pouco afeito às convenções, era um nudista convicto, professando um perpétuo interesse pela "magia e assuntos do gênero", campo que para ele incluía tudo: desde os pequenos seres das lendas inglesas até as vítimas da Inquisição e os cultos secretos da antiga Grécia, Roma e Egito. Pertenceu, durante certo tempo, à famosa sociedade dos aprendizes de magos chamada Ordem Hermética da Aurora Dourada.Gerald Gardner enfureceu os círculos acadêmicos quando anunciou que as teorias de Margaret Murray eram verdadeiras. A feitiçaria, declarou, havia sido uma religião e continuava a ser. Ele dizia saber isso simplesmente porque ele próprio era um bruxo. Seu surpreendente depoimento veio à luz em 1954, com o lançamento de A Feitiçaria Moderna, o livro mais importante para o renascimento da feitiçaria. Sua publicação teria sido impossível antes de 1951, ano no qual os frágeis decretos de 1753 contra a feitiçaria foram finalmente revogados pelo Parlamento britânico. Curiosamente, o Parlamento rescindiu esses decretos cedendo às pressões das igrejas espíritas, cujas tentativas de contato com as almas dos que já se foram também haviam sido reprimidas pela lei. A revogação contou com pouquíssimos oponentes, porque os legisladores imaginavam que certamente após mais de três séculos de perseguição e 200 anos de silêncio, a feitiçaria era assunto morto e enterrado.
Se a prática não havia desaparecido, como A Feitiçaria Moderna tentava provar, o próprio Gardner admitiu ao menos que a feitiçaria estava morrendo quando ele a encontrou pela primeira vez, em 1939. Gardner gerou muita polêmica ao afirmar que, após a catastrófica perseguição medieval, a bruxaria tinha sobrevivido através dos séculos, secretamente, à medida que seu saber canônico e seus rituais eram transmitidos de uma geração para outra de feiticeiros. Segundo Gardner, sua atração pelo ocultismo havia feito com que se encontrasse com uma herdeira da antiga tradição, "a Velha Dorothy" Clutterbuck, que supostamente seria alta sacerdotisa de uma seita sobrevivente. Logo após esse encontro, Gardner foi iniciado na prática, embora mais tarde tenha afirmado, no trecho mais improvável de uma história inconsistente, que desconhecia as intenções da velha Dorothy até chegar ao meio da cerimônia iniciática, ouvir a palavra "Wicca" e perceber "que a bruxa que eu pensei que morrera queimada há centenas de anos ainda vivia".
Considerando-se devidamente preparado para tal função, Gardner gradualmente assumiu o papel de porta-voz informal da prática. Assim, lançou uma nova luz nas atividades até então secretas da bruxaria ao descrever em seu livro, por exemplo, a suposta atuação desses adeptos para impedir a invasão de Hitler na Inglaterra. De acordo com Gardner, os feiticeiros da Grã-Bretanha reuniram-se na costa inglesa em 1941 e juntos produziram "a marca das chamas" - uma intensa concentração de energia espiritual, também conhecida como "cone do poder", para supostamente enviar uma mensagem mental ao Führer: "Você não pode vir. Você não pode cruzar o mar". Não se pode afirmar se o encantamento produziu ou não o efeito desejado mas, como Gardner salientou prontamente, a história realmente registra o fato de Hitler ter reconsiderado seu plano de invadir a Inglaterra na última hora, voltando-se abruptamente para a Rússia. Gardner declara que esse mesmo encantamento teria, aparentemente, causado o desmoronamento da Armada Espanhola em 1588, quando muitos feiticeiros conjuraram uma tempestade que tragou a maior frota marítima daquela época.
O poeta inglês Robert Graves inadvertidamente incentivou o ressurgimento da feitiçaria ao divulgar em seu livro de 1948, "A Deusa Branca", sua visão da divindade feminina primordial. Ele acreditava que, apesar da repressão dos primeiros imperadores cristãos, esse culto havia sido preservado.
Quando não reescrevia a história, Gerald Gardner assumia a tarefa de fazer uma revisão da feitiçaria. Partindo de suas próprias extensas pesquisas sobre magia ritual, ele criou uma "sopa" literária sobre feitiçaria feita com ingredientes que incluíam fragmentos de antigos rituais supostamente preserva dos por seus companheiros, adeptos da prática, além de elementos de ritos maçônicos e citações de seu colega Aleister Crowley, renomado ocultista que se declarava a Grande Besta da magia ritual. Gardner decidiu então acrescentar uma pitada de Aradia e da Deusa Branca e, para ficar no ponto, temperou seu trabalho incorporando-lhe um pouquinho de Ovídio e de Rudyard Kipling. O resultado final, escrito numa imitação de inglês elisabetano, engrossado ainda com pretensas 162 leis de feitiçaria, foi uma espécie de catecismo da Wicca, ressuscitado por Gardner. Assim que completou o trabalho, seu compilador tentou fazê-lo passar por um manual de uma bruxa do século XVI, ou um Livro das Sombras.
Apesar dessa origem duvidosa, o volume transformou-se em evangelho e liturgia da tradição gardneriana da Wicca, como veio a ser chamada essa última encarnação da feitiçaria. Era uma "pacífica e feliz religião da natureza", nas palavras de Margot Adler em Atraindo a Lua. "As bruxas reuniam-se em assembléias, conduzidas por sacerdotisas. Adoravam duas divindades, em especial, o deus das florestas e de tudo que elas encerram, e a grande deusa tríplice da fertilidade e do renascimento.
Nuas, as feiticeiras formavam um círculo e produziam energia com seus corpos através da dança, do canto e de técnicas de meditação. Concentravam-se basicamente na Deusa; celebravam os oito festivais pagãos da Europa, buscando entrar em sintonia com a natureza."
Como indaga o próprio Gardner em seu livro, "Há algo de errado ou pernicioso nisso tudo? Se praticassem esses ritos dentro de uma igreja, omitindo o nome da deusa ou substituindo-o pelo de uma santa, será que alguém se oporia?"
Talvez não, embora a nudez ritualística recomendada por Gardner causasse, e ainda cause, um certo espanto. Mas para Gardner as roupas simplesmente impedem a liberação da força psíquica que ele acreditava existir no corpo humano. Ao se desnudarem para adorar a deusa, as feiticeiras não só se despiam de seus trajes habituais, como também de sua vida cotidiana. Além disso, sua nudez representaria um regresso simbólico a uma era anterior à perda da inocência.
Gardner justifica a nudez ritualística em sua adaptação da Exortação à Deusa, de Aradia, na qual a prima strega recomenda às suas seguidoras: "Como sinal de que sois verdadeiramente livres, deveis estar nuas em seus ritos; cantai, celebrai, fazendo música e amor, tudo em meu louvor." A recomendação da nudez, acrescentada à defesa feita por Gardner do sexo ritualístico - o Grande Rito, como ele o chamava -, virtualmente pedia críticas. Rapidamente o pai da tradição gardneriana ganharia reputação de velho obsceno.Sendo um nudista e ocultista vitalício, Gardner estava habituado aos olhares reprovadores da sociedade e em seu livro A Feitiçaria Moderna, parecia
antever as críticas que posteriormente receberia.
Contudo, angariou pouquíssima simpatia entre seus detratores ao optar por caracterizar a nudez ritualística como "um grupo familiar tentando fazer uma experiência científica de acordo com o texto do livro". Pior ainda, alguns de seus críticos pensaram ter sentido um cheiro de fraude após o exame minucioso de seus trabalhos, começando então a questionar a validade do supostamente antiquíssimo Livro das Sombras, bem como de sua crença numa tradição ininterrupta de prática da feitiçaria.
Entre seus críticos mais ferrenhos encontrava-se o historiador Elliot Rose, que em 1962 desacreditou a feitiçaria de Gardner, afirmando que era um sincretismo, e aconselhando ironicamente àqueles que buscassem alguma profundidade mística na prática da bruxaria que escolhessem uns dez "amigos alucinados" e formassem sua própria assembléia de bruxos. "Será um grupo tão tradicional, bem-instruído e autêntico quanto qualquer outro desses últimos milênios", observava Rose acidamente.
Os críticos mais contumazes mantiveram fogo cerrado até mesmo após 1964, quando Gerald Gardner foi confinado em segurança dentro de seu túmulo. Francis King, um destacado cronista britânico do ocultismo, acusou Gardner de fundar "um culto às bruxas elaborado e escrito em estilo romântico, um culto redigido de seu próprio punho", um pouco para escapar do tédio. King chegou até a declarar que Gardner contratara seu amigo, o mágico Aleister Crowley, para que este lhe redigisse uma nova liturgia.
Aidan Kelly é outro crítico, o fundador da Nova Ordem Ortodoxa Reformada da Aurora Dourada, uma ramificação da prática da magia. Kelly declarou trivialmente que Gardner inventara a feitiçaria moderna e que ele, em sua tentativa desorientada de reformar a velha religião, formara outra, inteiramente nova.
Segundo Kelly, a primazia da deusa, a elevação da mulher ao status de alta sacerdotisa, o uso do círculo para concentração de energia e até mesmo o ritual para atrair a lua, no qual uma alta sacerdotisa se transforma temporariamente em deusa, eram contribuições de Gardner à prática. Além disso, em 1984, Kelly assegurou em um jornal pagão que não há base alguma para a declaração de Gardner segundo a qual sua tradição de feitiçaria teria raízes no antigo paganismo europeu. No mesmo artigo, Kelly forneceu detalhes acerca das origens do polêmico Livro das Sombras, de Gardner. O trabalho não teria sido iniciado, desconfiava Kelly, no século XVI, como Gardner afirmava, mas sim nos primórdios da Segunda Guerra Mundial.
Gardner teria começado a registrar em um livro de anotações vários rituais que havia pilhado de outras tradições ocultistas, bem como passagens favoritas dos textos que lia. Quando encheu seu primeiro livro de anotações, segundo Kelly, Gardner considerou que tinha em mãos a receita do primeiro Livro das Sombras. Kelly também chamou atenção para uma profunda revisão daquilo que se tornara a "tradição" de Gardner, demonstrando que não se tratava da continuidade de uma religião cujas raízes remontavam a milênios, mas sim de uma invenção recente e, como tal, um tanto inconsistente. Em seus primeiros anos, a Wicca de Gardner estivera centralizada no culto ao equivalente masculino do deus principal, registrava Kelly. Por volta da década de 50, contudo, o Deus Chifrudo fora eclipsado pela Grande Deusa. Uma mudança equivalente havia ocorrido na própria prática das assembléias, durante as quais o alto sacerdote fora subitamente relegado a segundo plano, substituído por uma alta sacerdotisa.
Como Kelly demonstrou, essas mudanças só aconteceram depois que Doreen Valiente, a primeira alta sacerdotisa da linha de Gardner, começou a adotar o mito da Deusa Branca de Robert Graves como sistema oficial de crenças. Na verdade, Valiente é, na visão de Kelly, a verdadeira mentora da grande maioria dos rituais gardnerianos.Um sumo sacerdote veste um adereço de pele com chifres para representar o lado masculino da divindade Wicca, durante um ritual. Os adeptos da Wicca dizem que seu Deus Chifrudo, vinculado ao grego Pã e ao celta Cernuno, corporifica o princípio masculino e é simbolizado pelo sol.
Kelly no entanto contrabalançou suas virulentas críticas a Gardner ao creditar-lhe não só uma criatividade genial, mas também a responsabilidade pela vitalidade da feitiçaria contemporânea. O mesmo fez J. Gordon Melton, um ministro metodista e fundador do Instituto para o Estudo da Religião Americana. Numa entrevista recente, comentou que todo o movimento neopagão deve seu surgimento, bem como seu ímpeto, a Gerald Gardner. "Tudo aquilo que chamamos hoje de movimento da feitiçaria moderna", declarou Melton, "pode ser datado a partir de Gardner".
Dúvidas e polêmicas sobre suas fontes à parte, a influência de Gerald Gardner no moderno processo de renascimento da Wicca é indiscutível, assim como seu papel de pai espiritual dessa tradição específica de feitiçaria que hoje carrega seu nome. Embora os métodos de Gardner revelassem um certo toque de charlatania e seus motivos talvez parecessem um tanto confusos, sua mensagem era apropriada para sua época e foi recebida com entusiasmo dos dois lados do Atlântico.
Quer ele tenha ou não redescoberto e resgatado um antigo caminho de sabedoria, aparentemente seus seguidores foram capazes de captar em seu trabalho uma fonte para uma prática espiritual que lhes traz satisfação.
Além do mais, na condição de alto sacerdote de seu grupo, Gerald Gardner foi pessoalmente responsável pela iniciação de dúzias de novos feiticeiros e pela criação de muitas novas assembléias de
bruxos. Estas, por sua vez, geraram outros grupos, num processo que se tornou conhecido como "a colméia" e que, de fato, resultou numa espécie de sucessão apostólica cujas origens remontam ao grupo original criado por Gardner. Outras assembléias gardnerianas nasceram a partir de feiticeiras autodidatas, que formaram seus próprios grupos após ler as obras de Gardner, adotando sua filosofia.
Contudo, nem todas as feiticeiras estão vinculadas ao gardnerianismo. Muitas professam uma herança anterior a Gardner e desempenham seus rituais de acordo com diversos modelos colhidos das tradições celta, escandinava e alemã. Além disso, alguns desses pretensos tradicionalistas declaram-se feiticeiros hereditários, nascidos em famílias de bruxos e destinados a transmitir seus segredos aos próprios filhos.
Zsuzsanna - ou Z - Budapest é uma famosa feiticeira feminista e alta sacerdotisa da Assembléia Número Um de Feiticeiros de Susan B. Anthony, nome atribuído em homenagem à famosa advogada americana, defensora dos direitos da mulher. Z Budapest afirma que a origem de seu conhecimento remonta a sua pátria, a Hungria, e ao ano de 1270. Mas diz ter sido educada acreditando que a prática da feitiçaria era apenas uma prática, e não uma religião, cujos fundamentos lhe foram transmitidos pela própria mãe, uma artista que previa o futuro e supostamente usava seus poderes mágicos para acalmar os ventos. Somente muitos anos depois, quando migrou para os Estados Unidos, Z teria descoberto os trabalhos de escritores como Robert Graves e Esther Harding, e passou a reconhecer-se como a praticante de Wicca que era na realidade. Outras feiticeiras que também se declaram herdeiras de uma tradição descrevem experiências semelhantes às de Z. Budapest. Contam que, para elas, a prática era um assunto de família até lerem, acidentalmente, a literatura sobre a Wicca - geralmente livros escritos por Gerald Gardner, ou Margaret Murray, ou por autores contemporâneos como Starhawk, Janet e Stewart Farrar, ou Margot Adler. Só então teriam compreendido que pertenciam a um universo mais amplo. Lady Cibele, por exemplo, uma bruxa de Wisconsin, afirma que cresceu acreditando que a prática se limitava ao círculo de seus familiares. "Foi só na universidade que descobri que havia mais pessoas envolvidas com a prática", confessou a Margot Adler, "e eu não sabia que éramos muitos até 1964, quando meu marido veio correndo para casa, da biblioteca onde trabalhava, murmurando muito animado que 'tem mais gente como nós no mundo!'." O marido de Lady Cibele havia encontrado A Feitiçaria Moderna e, quando leram o livro juntos, emocionaram-se com a sensação de familiaridade que sentiram pelas ideias e práticas descritas por Gerald Gardner.
Mesmo que todos esses depoimentos sejam verdadeiros, o nascimento no seio de uma família de feiticeiros não representaria uma garantia de que uma criança em especial se tornaria posteriormente especialista nos segredos da prática. Em alguns casos o dom pula uma geração, na maioria das vezes porque um feiticeiro decide que nenhum de seus próprios filhos possui o temperamento adequado para iniciar-se na prática. O resultado é que a Wicca geralmente se vincula às tais "historias da vovó", nas quais, como aponta J. Gordon Melton, "aparece alguém que diz: fui iniciado por minha avó que era bruxa, descendente de uma linhagem ancestral". Pouquíssimas histórias dessa natureza sobrevivem a um exame minucioso e muitas parecem até ridículas. Os próprios praticantes da Wicca sentem-se um tanto constrangidos com a proliferação de histórias da vovó. "Depois de algum tempo", comentou um sacerdote Wicca, "você percebe que, se ouviu uma história de avó, já ouviu todas. Você percebe que o além deve estar lotado de vovozinhas assim."
Entre as "histórias da vovó" mais interessantes está a que foi contada pelo suposto Rei das Feiticeiras, Alexander Sanders, que declarou ter sido iniciado na prática por sua avó, em meados de 1933, com apenas 7 anos de idade. Mas os céticos rapidamente salientam o fato de que a linha de feitiçaria de Sanders, conhecida como Tradição Alexandrina, guarda profunda semelhança com a de Gardner. De fato, muitos dos rituais de Sanders são virtualmente idênticos aos de Gardner e isto levou alguns observadores a desprezar essa tradição, considerando-a como uma simples variante, e não um legado deixado por uma avó misteriosa e convenientemente falecida.
Muitos desses mesmos céticos encararam com igual desconfiança a história da famosa feiticeira inglesa Sybil Leek, que também afirmava ter se iniciado na prática ainda no colo da avó. Na opinião de Melton, Leek, como Sanders, simplesmente exagerou alguns acontecimentos de sua infância. No entanto, os ataques dos incrédulos pouco fizeram para diminuir a enorme popularidade da feiticeira-escritora e na época de sua morte, em 1983, Sybill Leek era uma das bruxas mais famosas dos dois lados do Atlântico. Leek era uma autora prolífica, e durante sua vida produziu mais de sessenta livros que espalharam pelo mundo o evangelho da fé Wicca - e, não por acaso, sua própria fama.
Porém, ainda mais do que os livros de Leek, o que levou a Wicca da Inglaterra para os Estados Unidos foi a própria tradição de Gardner, que cruzou o Atlântico em 1964 como parte da bagagem espiritual de dois expatriados britânicos. Raymond e Rosemary Buckland já estavam prontos para passar dois anos em Long Island, Nova York, quando, movidos pelo interesse por ocultismo, decidiram escrever a Gardner em sua casa em Isle of Man. Tal correspondência resultaria posteriormente em um encontro e um curso rápido de feitiçaria na casa de Gardner. Nesse breve período o casal Buckland foi sagrado respectivamente sacerdote e sacerdotisa gardnerianos.
Foram uns dos últimos feiticeiros iniciados e ungidos pessoalmente por Gardner antes de sua morte.
Assim que regressaram ao lar nova-iorquino, os Bucklands rapidamente puseram em prática tudo que haviam aprendido. Formaram a primeira assembléia gardneriana nos Estados Unidos e esta por sua vez, com o passar do tempo, gerou muitos outros grupos.
Esses grupos propagaram o evangelho gardneriano de uma costa a outra, tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá.
Durante certo tempo, Rosemary Buckland, ou Lady Rowen, como era conhecida entre os praticantes da Wicca, foi coroada a rainha das feiticeiras pelos grupos aos quais dera origem. Enquanto isso, Ray Buckland, ou Robat, nome que havia adotado, seguindo o exemplo de Gerald Gardner, seu mentor, publicou o primeiro de uma série de livros que produziria sobre feitiçaria. Seus trabalhos fizeram com que a práticase tornasse acessível para muitos aspirantes a iniciados, especialmente em seu novo lar, onde o interesse pela Wicca floresceu na atmosfera tolerante do final da década de 60 e início dos anos 70.
No mesmo período em que Ray e Rosemary Buckland se dedicaram a propagar esse renascimento da feitiçaria na América do Norte, o ocultismo começou a se transformar em algo que a antropóloga cultural Tanya M. Luhrmann descreveu como "uma contracultura sofisticada". Em seu livro Atrativos da Feitiçaria publicado em 1989, Luhrmann apresenta uma teoria segundo a qual "a contracultura da década de 60 voltou-se para o ocultismo - astrologia, tarô, medicina e alimentação alternativa - porque eram alternativas para a cultura estabelecida; muitos descobriram as cartas do tarô ao mesmo tempo que descobriram o broto de feijão".
Ray Buckland recorda esse período como uma época excitante durante a qual veio a luz um número crescente de assembléias de bruxos, bem como as mais diversas expressões da crença Wicca. Feiticeiras detentoras de estilos altamente personalizados eram estimuladas pela permissividade daqueles dias
sentindo-se finalmente livres para expor-se. Ao mesmo tempo, a tradição gardneriana frutificava, espalhando as sementes de novas assembléias e gerando dissidências em todas as direções.
Certos grupos, tais como os que professavam a tradição de Alexandria e ainda um híbrido mais recente chamado de tradição de Algard, eram crias perfeitas do grupo anterior, isto é, assemelhavam-se aos progenitores gardnerianos em tudo, menos no nome. Outros eram parentes mais afastados, baseando-se nos ensinamentos de Gerald Gardner, mas acrescentando ideias novas. Entre estes figuram a Nova Wicca de Illinois, a Wicca Georgiana sediada na Califórnia e a Wicca de Maidenhill, da Filadélfia. Outras, tais como a igreja de Y Tylwyth Teg, a Pecti-Wita, e o Caminho do Norte, inspiram-se no passado mágico das lendas celtas, escocesas e nórdicas.
As variações da Wicca não terminam por aqui: na verdade, elas apresentam uma diversidade que reflete a natureza individualista da prática da feitiçaria. A Wicca é tão aberta quanto eclética. "Todos nos conectamos com o Divino de maneiras diferentes", afirma Selena Fox, fundadora de uma tradição própria. "Muitos caminhos levam à verdade." De fato, o próprio grupo de Fox,
o Santuário do Círculo, reconhecido como uma igreja Wicca pelo governo federal, estadual e local, tenta fornecer um substrato comum a todos esses caminhos. O Santuário do Círculo define-se como um serviço de troca e intercâmbio internacional para praticantes de diferentes estirpes de Wicca. Muitas feministas, no entanto, envolveram-se em algum dos inúmeros cultos a Diana que proliferaram na década de 70. Essas assembléias assumiram seu nome a partir do culto a Diana, com base na concepção de Margaret Murray, e enfatizam em suas práticas a veneração à deusa. Há até mesmo um curso por correspondência para aspirantes à Wicca que já conseguiu atrair aproximadamente 40 mil alunos.
Mas essa onda de bruxos autodidatas passou a preocupar alguns dos antigos adeptos da Wicca, inclusive Ray Buckland, que certa vez lamentou o advento dessa religião "feita em casa". Em 1973, contrariado com algo que ele considerava como a corrupção da feitiçaria, Buckland rompeu seus vínculos com o gardnerianismo e criou um novo conjunto de práticas, retomando a tradição da Seax-Wicca, ou Wicca saxã. Ao fazer isso, produziu também sua própria versão de uma feitiçaria autodidata e em sua obra A Árvore, seu primeiro produto na linha Seax-Wicca, incluía instruções detalhadas que permitiam a qualquer leitor "iniciar-se como feiticeiro e gerar sua própria Assembléia".
Com o anúncio aparentemente contraditório de uma "nova tradição" espalhando-se aos quatro ventos, a Wicca ingressava numa fase de contendas entre os novos e os antigos. Ao romper com a tradição gardneriana, Ray Buckland tentava distanciar-se das querelas. "Enquanto os outros brigam para definir qual seria a mais antiga das tradições", anunciou orgulhosamente, "declaro pertencer à mais jovem de todas elas!".
Isso ocorreu em 1973. Depois, surgiu uma grande profusão de assembléias e correntes da Wicca nas quais a honra de ser a novidade do dia às vezes confere uma importância passageira. Além disso, essa abundância de ritos e nomes transformou a própria Wicca numa fé um tanto difícil de ser definida. Até agora foram inúteis as tentativas de formular um credo aceitável por todos que se proclamam seguidores da Wicca, apesar da necessidade profunda de seus seguidores no sentido de tornar público um conjunto de crenças que os distinga oficialmente dos satanistas. Em 1974, o Conselho dos Feiticeiros Americanos, um grupo de representantes de diversas seitas Wicca, formulou um documento que se intitulava corajosamente "Princípios da Crença Wicca". Porém, assim que se ratificou o documento, o conselho que o produzira se desfez devido a desavenças entre seus membros, pondo fim a esse breve consenso. No ano seguinte, uma nova associação, que hoje engloba cerca de setenta grupos de seguidores da Wicca, ratificou o Pacto da Deusa, um decreto mais duradouro propositalmente redigido nos moldes do documento da igreja Congregacional. Embora o pacto incluísse um código de ética e garantisse a autonomia das assembléias signatárias, está longe de definir o que seria a Wicca. "Não poderíamos definir com palavras o que é Wicca", admite o pacto, "porque existem muitas diferenças."
Muitos bruxos alegam que essas diferenças apenas fazem aumentar os atrativos da Wicca. De fato, mesmo no seio de uma tradição específica, distintos grupos podem ater-se a crenças contrastantes e praticar rituais dessemelhantes. Essa situação é satisfatória para a maioria dos feiticeiros, que não vêem por que a Wicca deveria ser menos diversificada do que as inúmeras denominações cristãs.
Porém, até mesmo na
ausência de um credo oficial, um grande número de feiticeiros acata um pretenso conselho, ou lei da Wicca: "Não prejudicarás a terceiros." Não se sabe ao certo, mas aparentemente essa adaptação livre da regra de ouro do cristianismo tem vigorado pelo menos desde a época de Gerald Gardner. Nas palavras do Manual dos Capelães do Exército dos Estados Unidos, a lei da Wicca geralmente é interpretada como se dissesse que o praticante pode fazer o que bem desejar com suas capacidades psíquicas desenvolvidas na prática da feitiçaria, contanto que jamais prejudique alguém com seus poderes. Como mais uma medida de precaução contra o mau uso desses poderes mágicos, a maioria das assembléias também apela para uma lei chamada "lei do triplo" - i.e. lei tríplice -, que consiste em uma outra máxima antiga. O provérbio adverte os bruxos, prevenindo: "Todo bem que fizerdes, a vós retornará três vezes maior; todo mal que fizerdes, também a vós regressará três vezes maior."
Dada a dificuldade em classificar a feitiçaria, ou estabelecer uma lista concisa com as crenças comuns a todos os adeptos da Wicca, uma descrição completa das características de um bruxo moderno necessariamente é apenas aproximativa. Todavia, pode-se afirmar com segurança que a maioria dos feiticeiros acredita na reencarnação, reverencia a natureza, venera uma divindade
onipresente e multifacetada e incorpora a magia ritualística em seu culto a essa divindade. Além disso, poucos feiticeiros questionariam os preceitos básicos resumidos por Margot Adler em Atraindo a Lua. "A palavra é sagrada", ela escreveu. "A natureza é sagrada. O corpo é sagrado. A sexualidade é sagrada. A mente é sagrada. A imaginação é sagrada. Você é sagrado. Um caminho espiritual que não estiver estagnado termina conduzindo à compreensão da própria natureza divina. Você é Deusa. Você é Deus. A divindade está (...) tanto dentro como fora de você."
Três pressuspostos filosóficos fundamentam essas crenças e estes, mais do que qualquer outra característica, vinculam a feitiçaria moderna e o neopaganismo às práticas correspondentes do mundo antigo. O primeiro pressuposto é o animismo, ou a ideia de que objetos supostamente inanimados, tais como rochas ou árvores, estão imbuídos de uma espiritualidade própria. Um segundo traço comum é o panteísmo, segundo o qual a divindade é parte essencial da natureza. E a terceira característica é o politeísmo, ou a convicção de que a divindade é ao mesmo tempo múltipla e diversificada.
Juntas, essas crenças compreendem uma concepção geral do divino que
permeou o mundo pré-cristão. Nas palavras do historiador Arnold Toynbee, "a divindade era inerente a todos os fenômenos naturais, inclusive àqueles que o homem domara e domesticara. A divindade estava presente nas fontes, nos rios e nos mares; nas árvores, tanto no carvalho de uma mata silvestre como na oliveira cultivada em uma plantação; no milho e nos vinhedos; nas montanhas; nos terremotos, no trovão e nos raios." A presença de Deus ou da divindade era sentida em todos os lugares, em todas as coisas; ela seria "plural, não singular; um panteon, e não um único ser sobre-humano e todo-poderoso".
A escritora e bruxa Starhawk reproduz em grande parte o mesmo tema ao observar que a bruxaria "não se baseia em um dogma ou conjunto de crenças, nem em escrituras, ou em algum livro sagrado revelado por um grande homem. A feitiçaria retira seus ensinamentos da própria natureza e inspira-se nos movimentos do sol, da lua e das estrelas, no vôo dos pássaros, no lento crescimento das árvores e no ciclo das estações".
Mas Starhawk também reconhece que o aspecto politeísta da Wicca — o culto à "Deusa Tríplice do nascimento, do amor e da morte e a seu consorte, o Caçador, que é o senhor da Dança da Vida" — constitui a grande diferença entre a feitiçaria moderna e as principais religiões ocidentais. Mesmo assim, muitos adeptos da Wicca discordam quanto ao fato de seu deus ou deusa serem meros símbolos, entidades verdadeiras ou poderosas imagens primárias — aquilo que Carl Jung alcunhou de arquétipo —, profundamente arraigadas no subconsciente humano. Os feiticeiros também divergem quanto aos nomes de suas divindades. Como se expressa no cântico da alta sacerdotisa Morgan McFarland na igreja da rua Arlington, são inúmeros os nomes para o deus e a deusa. Abrangem desde Cernuno, Pã e Hermes no lado masculino da divindade, a Cerridwen, Arianrhod e Diana, no aspecto feminino. Na verdade, há tantos nomes diferentes provenientes de tantas culturas e tradições que McFarland não se afastava da verdade quando dizia à sua plateia que a deusa "será chamada por milhares de nomes". Seja qual for seu nome, a deusa, na maioria das seitas da Wicca, tem precedência sobre o deus. Seu alto status reflete-se em títulos tais como a Grande Deusa e a Grande Mãe. De fato, para Starhawk e para muitas outras feiticeiras, o culto a uma suprema divindade feminina constituiu, desde tempos remotos, a própria essência da feitiçaria, uma força que "permeia as origens de todas as civilizações".
Starhawk comenta que "A Deusa-Mãe foi gravada nas paredes das cavernas paleolíticas e esculpida em pedra desde 25 mil anos antes de Cristo." Ela argumenta ainda que as mulheres com frequência tinham papel de chefia em culturas centradas na deusa, há milhares de anos. "Para a Mãe", escreve, "foram erguidos grandes círculos de pedra nas Ilhas Britânicas. Para Ela foi escavada a grande passagem dos túmulos na Irlanda. Em Sua honra as dançarinas sagradas saltaram sobre os touros em Creta. A Avó Terra sustentou o solo das pradarias norte-americanas e a Grande Mãe do Oceano lavou as costas da África."
Na visão de Starhawk, a deusa não é um Deus Pai distante e dominador, principal arquiteto da terra e remoto governante no além. Ao contrário, a deusa é uma amiga sábia e profundamente valiosa, que está no mundo e a ele pertence. Starhawk gosta de pensar na deusa como o sopro do universo e, ao mesmo tempo, um ser extremamente real. "As pessoas me perguntam se eu creio na deusa", escreve Starhawk. "Respondo: 'Você acredita nas rochas?'."
Certamente, a força e a permanência são as analogias mais óbvias da imagem da deusa enquanto rocha. Contudo, é essa deusa de aspectos eternamente mutáveis e multifacetados, a misteriosa divindade feminina que aos poucos se revela e que às vezes nem se deixa ver, que constitui a principal atração para a grande maioria das feiticeiras. Por essa razão, a divindade feminina geralmente é simbolizada por uma lua inconstante, em suas diferentes fases — quarto crescente, lua cheia ou quarto minguante —, correspondendo aos três aspectos da deusa tríplice: a donzela, a mãe e a velha.
A cerimônia conhecida como Atraindo a Lua (página 113) fundamenta-se nesse simbolismo e representa um dos mais místicos rituais da Wicca. Nessa cerimônia, a alta sacerdotisa de um grupo de feiticeiros invoca o poder da Grande Mãe para então assumir o papel da própria deusa. Como parte da celebração, a alta sacerdotisa recita a invocação denominada Exortação à Deusa, na qual convoca cada uma de suas feiticeiras para se postar a seu lado. "Eu, que sou a beleza da terra verde, a lua branca entre as estrelas, o mistério das águas, e o desejo no coração do homem, convoco tua alma", ela acena. "Levanta e vem até mim." Entre os que atendem nos dias de hoje ao chamado da deusa encontra-se um número crescente de feministas. Muitas uniram-se às centenas de cultos a Diana, grupos que se formaram na década de 80, fazendo da feitiçaria feminista o ramo mais prolífico da prática. A maioria desses grupos exclui homens; Z Budapest, a líder do movimento de feiticeiras feministas, chega até mesmo a chamar a feitiçaria de Religião das Mulheres. Considera que os homens não devem partilhar dessa fé.
Algumas outras feiticeiras feministas concordam e até levam essa ideia mais longe, dizendo que todas as mulheres são feiticeiras, em virtude apenas de seu gênero.







