A MODERNA FEITIÇARIA - PARTE 2

Print Friendly and PDF



O fascínio que a feitiçaria exerce sobre as feministas é compreensível, pois elas acreditam, como alega Margot Adler, que a bruxa é "um símbolo extraordinário — independente, inconformista, forte e orgulhosa. Ela é política, embora seja mágica e espiritual." Ao mesmo tempo, a feitiçaria moderna tem se desenvolvido como expressão especificamente feminina da espiritualidade — com uma fé voltada para uma deusa apaixonada e provedora, com rituais que reconhecem e até mesmo acolhem a natureza cíclica da vida de uma mulher. Como tal, a religião Wicca está desprovida do patriarcado e da hierarquia que vieram a caracterizar o cristianismo. "Trata-se de uma religião de mulheres', declarou uma autora, "uma religião da terra, uma religião difamada pelo cristianismo patriarcal e que agora, finalmente, é reivindicada."

Além disso, ao reinvidicar a deusa, muitas das feiticeiras feministas de hoje estão também reivindicando aquilo que consideram como sua herança de direito.

Voltam-se em direção a séculos remotos, em busca de uma época na qual a mulher não era apenas o centro de seu lar como também a guardiã do ritual e a mantenedora da memória tribal. A escritora Monique Wittig captou esse espírito ao recomendar às suas leitoras: "Havia um tempo em que você não era uma escrava, lembre-se disso. Você caminhava só, cheia de alegria, banhava-se de ventre nu. Você sabia como escapar do encontro com um urso. Conhecia os temores invernais quando ouvia os lobos se reunindo. Mas sabia ocultar-se, sentando nos topos das árvores e aguardando durante horas o amanhecer. Você diz que não existem palavras para descrever essa época, você diz que ela nunca existiu. Mas lembre-se. Faça um esforço para lembrar. E se achar que não é capaz, invente."

Assim, algumas feministas encaram a prática da feitiçaria como uma tentativa de remediar a amnésia histórica e cultural que afirmam ter sido imposta às mulheres através de séculos de dominação masculina. Para outras, especialmente para aquelas que ajustam a realidade da Wicca para criar suas próprias tradições centradas na mulher, a feitiçaria se aproxima da invenção. "A crença das feiticeiras feministas é em uma nova, embora ancestral, essência de pura veneração", escreveram duas feiticeiras num jornal da Wicca. "Elas acreditam no futuro. Elas chegam como o vento norte: trazendo o estremecer da mudança e o frescor do renascer."

As feministas contemporâneas são apenas parcialmente responsáveis pela expansão da Wicca nas décadas de 70 e 80. A prática é amplamente adotada por milhares de feiticeiras e feiticeiros que não são feministas e nem mesmo mulheres, e esses seguidores oferecem uma multiplicidade de razões pessoais para responder ao chamado da deusa. Na verdade, devido ao grande número de americanos que praticam alguma forma de neopaganismo atualmente, parece haver espaço suficiente na fé Wicca para acomodar feiticeiros de todas as linhas e extrações.

Não resta dúvida de que alguns deles são escapistas que desejam fugir da sociedade, diletantes entediados que buscam novidades extravagantes e têm o privilégio de contar com possibilidades de encontrá-las. Contudo, na opinião de Susan Robert, a maioria dos feiticeiros nos Estados Unidos não é formada por ricaços desocupados, mas sim por americanos de classe média que, aparentemente, levam uma vida cotidiana pacata e discreta. Robert observa que os feiticeiros geralmente se negam a unir-se como uma categoria, tendem a ser inconformistas e a ter conservado "a fé simples que a maioria de nós acredita ser própria das crianças".

Outros observadores reportam descobertas semelhantes. A antropóloga britânica Tanya Luhrmann, por exemplo, registra que um grande número de feiticeiros aos quais ela entrevistou a respeito do fascínio exercido pela feitiçaria citaram forças motivadoras tais como "uma necessidade de ser criança, de maravilhar-se com a natureza e voltar a vivenciar uma intensidade imaginativa que parecia perdida." Da mesma forma, Margot Adler observou que traços do deslumbramento infantil surgem como característica comum entre os neopagãos que estudou, da mesma forma que uma aceitação tranquila da vida e da morte, acrescida de um desejo de viver em harmonia com a natureza.

As iluminuras feitas por um amigo do feiticeiro neste "Livro das Sombras" rompem a antiga regra segundo a qual um diário mágico deve conter apenas a letra do proprietário. Hoje em dia os iniciados tiram fotocópias, e até digitam seus diários em computadores.

Apesar das dificuldades que surgem quando se quer classificar os feiticeiros dentro de categorias, as pesquisas feitas com os neopagãos fornecem alguns dados referentes ao que se pratica e por que se pratica. Uma pesquisa de 1980, por exemplo, mostra que os neopagãos são, geralmente, executivos de classe média. A mesma pesquisa também revela que a formação religiosa desses indivíduos assemelha-se muito ao perfil religioso nacional da maioria dos americanos: antigos protestantes englobam quase a metade do grupo e antigos católicos correspondem a pouco mais de 25 por cento do total.

Uma segunda pesquisa, conduzida por Margot Adler em 1985, apontou poucas modificações nesses números, ou no tipo de atividade profissional exercida pelos neopagãos.

A pesquisa de Adler revelou um número surpreendentemente elevado de profissionais da área de informática: programadores, analistas de sistema e analistas de software. A uma pergunta acerca da aparente relação entre os computadores e o interesse pelo neopaganismo, um entrevistado respondeu que "os computadores se assemelham à mágica, pois funcionam de
um jeito invisível para cumprir suas tarefas". Outro observou que a informática, tal como o neopaganismo, "atrai pessoas criativas, levemente incultas e solitárias".

Seja qual for a explicação, a relação entre o mundo da alta tecnologia e a esfera das florestas e matas, própria da feitiçaria, não se limita a esse lado do Atlântico. Em Atrativos da Feitiçaria, seu estudo sobre a feitiçaria publicado em 1989 na Inglaterra, Luhrmann registra uma concentração semelhante de profissionais da informática entre os feiticeiros que conheceu. Ele concluiu que deveria haver uma espécie de atração, com base no fato de que "ambas, a magia e a informática, envolvem a criação de um mundo definido por regras determinadas, e a ação ocorre dentro desses limites". Luhrman também reconhece que a explicação verdadeira poderia ser de ordem muito mais simples e prática e que os feiticeiros se tornavam programadores simplesmente porque precisavam de um emprego. Nos tempos atuais, muitos dos empregos capazes de atrair inconformistas instruídos têm estado na área da informática.

Outro subgrupo de neopagãos identificado pelos estudos de Luhrmann e Adler corresponde àqueles que chegaram à prática de suas crenças através do interesse por literatura fantástica e de ficção científica.

As obras de J.R.R. Tolkien, Ursula K. LeGuin e da sacerdotisa Wicca Marion Zimmer Bradley, entre outras, frequentam as prateleiras dos praticantes da Wicca. Em alguns casos, a vivida experiência da leitura dessas obras acendeu a centelha que levaria à iniciação na prática. Alguns praticantes da Wicca encaram a ficção científica, em particular, como uma espécie de literatura religiosa que proporciona uma nova mitologia para nossa época.

Naturalmente, não chega a ser surpreendente o fato de que os praticantes de uma religião alicerçada no ritual e no romance sejam também aficionados de uma literatura que fala de um poder ancestral e de um encantamento perene, ou sobre a vitória do nobre bem sobre o asqueroso mal. Como disse uma feiticeira à Margot Adler: "A prática é um espaço para visionários (...) um espaço onde tudo se encaixa: a beleza, a pompa, a música, a dança, canções e sonhos. Para mim, ela se tornou quase tão necessária quanto comer e beber."

Mas a mensagem que perpassa as várias pesquisas é a de que as pessoas chegam à prática da Wicca pelas razões mais diversas. Para alguns feiticeiros, a força motivadora era a veneração à natureza ou um profundo interesse por mitologia. Outros descobriram a Wicca depois de terem rejeitado o cristianismo e buscado uma vida espiritual alternativa. Há ainda quem afirme ter apenas correspondido a um chamado interno e misterioso, semelhante à vocação que induz jovens a ingressar em um seminário ou convento. Muitos praticantes da Wicca mencionam como principal atrativo a idéia de adotarem uma religião que dispensa intermediários e cujas crenças podem ser postas em prática de maneira inteiramente pessoal. Os acadêmicos que pesquisam as causas desse grande interesse pela Wicca sugerem que a feitiçaria ajuda seus praticantes encontrarem um significado, em um mundo desprovido de sentido; rituais, em uma sociedade que anseia por rituais; e proteção contra as pressões exercidas pelas rápidas mudanças sociais e tecnológicas. "Milhares de caminhos levam à prática", conclui Margot Adler, "mas o principal é que ninguém 'se converte' à Wicca. Basicamente, o que todos sentem é: 'Ah! Sempre acreditei em tudo isso. Só que nunca soube que tinha um nome!'."

De fato, a maioria dos feiticeiros descreve sua introdução à prática não como uma conversão mas como um chegar em casa. O resultado é que poucos neopagãos realmente fazem prosélitos. A experiência de Alison Harlow, uma analista de sistemas num grande centro de pesquisa médica da Califórnia, é típica, sendo que no decorrer de seu relato abarca muitos temas comuns à Wicca. "Era noite de Natal", ela começa, "e eu cantava no coro de uma igreja adorável na margem de um lago e ela estava linda, toda decorada. Era lua cheia e o brilho do luar atravessava as janelas de vidro da igreja. Olhei para fora e tive a impressão de que algo de especial acontecia, mas só que não era dentro da igreja." Quando a missa terminou, Harlow desculpou-se e caminhou até o topo de uma colina lá perto. Quando olhou para a lua e depois para a igreja embaixo, repentinamente sentiu uma "presença".

"Parecia muito antiga, sábia e definitivamente feminina", ela recorda. "Não consigo descrevê-la mais do que isso, mas senti que essa presença, esse ser, olhava para mim, para essa igreja e aquelas pessoas dizendo: 'Coitadinhos! Têm intenções tão boas, mas compreendem tão pouco.'"

Harlow também sentiu que seja lá quem fosse "ela", a presença era incrivelmente velha e paciente; estava exasperada com o rumo que as coisas tomavam no planeta, mas não abandonara a esperança de que começaríamos a compreender um pouco mais do mundo". Levada por esse incidente, Alison Harlow decidiu descobrir tudo que pudesse sobre a "presença" feminina, uma decisão que a levou ao estudo da literatura Wicca, ao contato com muitas tradições da prática, à iniciação como sacerdotisa Wicca e, em última instância, à criação de sua própria assembléia.

Os primeiros passos ensaiados por Harlow, seguidos por seu longo aprendizado, emprestam credibilidade à sugestão de Luhrmann segundo a qual abraçar a Wicca é mais um processo de auto-sugestão do que de conversão.

"Envolver-se com magia", ela escreve, "é como entrar num mundo de faz-de-conta." Os noviços encontram muitas ideias novas e exóticas e devem gradualmente tomar decisões sobre o valor que essas concepções possam ter. A prática não requer um compromisso imediato e nem há um conjunto de crenças previamente estabelecido que o noviço deva colocar em prática. Ao invés disso, o novo estudante tem permissão e liberdade para experimentar, como se estivesse fazendo apenas uma experiência.

Em Salem, Massachusetts, cenário de antigos julgamentos e execuções de bruxas, feiticeiros modernos reúnem-se para um sabá com Laurie Cabot, que, em 1975, foi nomeada a bruxa oficial de Salem.

Eastman Kodak atribuiu o estranho risco azul perto da base da foto à eletricidade estática no filme, mas Cabot discorda. Ela afirma que a energia estava presente na sala, formando "o perímetro de nosso circulo mágico".


Assim, a prática da feitiçaria precede a crença e esse processo geralmente se transforma em um prolongado período de sondagem da alma. E, principalmente, porque o credo Wicca desafia abertamente as convenções, muitos neófitos necessitam certo tempo para sua fé crescer gradualmente. No decorrer dessa fase exploratória, o noviço descobre novas maneiras de ver o mundo.

Luhrmann sugere que essa evolução lenta e geralmente idiossincrática da filosofia pessoal possa explicar, ao menos até certo ponto, por que os feiticeiros têm tanta dificuldade em concordar com um credo comum. Para aqueles que terminam abraçando a Wicca, seu ritual acaba parecendo menos teatral e mais significativo.

Finalmente, Luhrmann observa, "a magia parece prática, razoável, sensata e a experiência de se envolver com a prática se transforma em um lado agradável da vida".

Para muitos praticantes da Wicca, um marco importante no crescimento em sua fé é a iniciação como feiticeiro. Alguns novos praticantes desempenham uma cerimônia solitária de auto-iniciação, uma afirmação de sua crença e da dedicação à deusa, ou ao deus. Outros são ao mesmo tempo introduzidos em uma religião e em uma assembléia, juntando-se a um grupo que pode ter de três a trinta participantes.

Simples ou elaborado, o ritual iniciático é um sinal exterior da transição de noviço a devoto. A iniciação geralmente inclui a bênção dos instrumentos do novo feiticeiro, e ao término do ritual um voto solene de sigilo sela a cerimônia — e os lábios de seus participantes.

O sigilo, na realidade, é uma fonte de tranquilidade para os feiticeiros, pois até hoje muitos deles ainda vivem tomados pelo temor. Ideias errôneas acerca da feitiçaria e a má interpretação de sua crenças transformam os seguidores da Wicca em alvo de atos de vandalismo, discriminação e dificuldades no emprego.

Recentemente, um dos julgamentos mais notórios envolvendo a prática de feitiçaria foi uma ação judicial executada por Jamie Kellam Dodge, conselheira do Exército de Salvação em Pascagoula, Mississippi, até sua demissão em agosto de 1987. Dodge, que reconheceu ser feiticeira, foi demitida de seu emprego depois de ter sido surpreendida usando a fotocopiadora de seu escritório para reproduzir páginas com rituais Wicca. Ela processou seu antigo empregador por discriminação religiosa, e o Exército da Salvação contestou na corte, afirmando que a razão era violar a política da organização, que proíbe o uso das fotocopiadoras para fins pessoais.

0 advogado de Dodge tentou colocar a questão na seguinte perspectiva: "Se ela fosse uma cristã e estivesse usando essa fotocopiadora, alguém teria se importado? Se ela estivesse usando a máquina para copiar receitas de um livro de culinária, ninguém teria feito objeções." 0 caso foi ao tribunal em 1988, e um juiz federal determinou que a demissão de Dodge constituíra realmente uma violação de seu direito constitucional de venerar o que ela bem desejasse. Chegou-se a um acordo sobre a multa de 1,25 milhão de dólares fora da Corte, mas o valor, não revelado, provavelmente foi substancial.

Controvérsias seculares são uma dura realidade para muitos praticantes da Wicca da atualidade. Selena Fox e os membros de seu Santuário do Círculo, por exemplo, vivem numa comunidade rural perto de Madison, em Wisconsin; a certa altura foram obrigados a enfrentar uma batalha legal que durou dois anos para obter o reconhecimento como igreja pela administração da cidade e do município — embora o estado de Wisconsin e o ministério da Fazenda já tivessem há muito lhe outorgado o status de igreja. A disputa começou como uma audiência de rotina sobre a questão do zoneamento, mas foi tão contaminada pelos antigos medos da feitiçaria como uma espécie de satanismo que a imprensa local passou a referir-se à questão como "a caça às bruxas". Ao tecer um comentário sobre Fox e exigindo permanecer no anonimato, um vizinho da igreja disse a um jornalista: "Ela me apavora. O que eles fazem não é normal". E um oficial do município descreveu o Santuário do Círculo como a "anti-igreja".

A resposta de Fox foi abrir as portas celebrando uma festa e, depois disso, ao menos alguns daqueles que visitaram os 80 hectares do Círculo do Santuário concordaram que as atividades do grupo, que incluíam casamentos e cerimônias de cura planetária, eram tudo menos demoníacas. "Fui ver seus rituais para descobrir o que estava acontecendo", admitiu um auxiliar da promotoria, pertencente a um comitê estadual de Wisconsin que acompanhava cultos e gangues. "O grupo é muito aberto, quase infantil. O problema é que as pessoas pensam que feitiçaria, satanismo e ocultismo são a mesma coisa."

A confusão entre feitiçaria e satanismo chegou a estender-se aos altos escalões do governo. Em 1985, ao mencionar uma preocupação crescente com "o aumento de cultos, satanismo, feitiçaria e coisas do gênero", o senador Jesse Helms acrescentou a procedimentos legais normalmente corriqueiros uma emenda que negava a isenção de impostos aos grupos praticantes de Wicca. A emenda foi ratificada pelo Senado, mas posteriormente derrotada por um acordo da Câmara com o Senado, depois de grupos neopagãos organizarem uma campanha maciça, enviando cartas de protesto.

Diante de tal oposição e fazendo um esforço para colocar a Wicca nas mesmas bases legais que as outras religiões, alguns feiticeiros e neopagãos tentaram apoiar-se em seu grande número de adeptos, formando redes de auxílio mútuo. Entre as novas organizações para proteção constam o Santuário do Círculo, As Feiticeiras da Deusa, a Liga Contra a Difamação dos Feiticeiros. Ao unirem suas forças, muitos feiticeiros viram-se obrigados a abandonar o véu do sigilo no qual se refugiavam juntamente com a grande maioria de seus colegas.

Alguns deles acolhem bem tais mudanças, sentindo que a reticência habitual dos feiticeiros do passado muitas vezes conduziu à apatia.

"Muitos cristãos só comparecem à igreja no Natal ou na Páscoa", observa
Selena Fox, "e muitos pagãos só aparecem na época de Halloween, a Noite das Bruxas."

A própria Fox está entre as líderes da Wicca mais ativas e destacadas. Como parte daquilo que ela chama de seu sacerdócio, ela faz frequentes aparições em programas de entrevistas na televisão e inúmeras palestras em universidades. E nas vizinhanças de onde mora, já trabalhou lado a lado com mulheres de outras igrejas regionais como voluntária da Cruz Vermelha, depois de um furacão ter devastado uma cidade nas proximidades de Barneveld, em junho de 1984. Seus esforços no sentido de dar à Wicca um ar de respeitabilidade finalmente apresentaram resultados em 1988, quando foi convidada para falar em uma conferência do Conselho Mundial de Igrejas. Fox refere-se ao evento, que ocorreu em Toronto, como um dos melhores momentos de seu sacerdócio.

Contudo, a luta para conquistar a legitimidade para a prática pode ter seu preço. A institucionalização da feitiçaria traz à mente de alguns de seus praticantes o espectro da ruptura dos valores da feitiçaria. Especialmente inquietante é a crescente demanda por um clero pago feita por algumas facções da Wicca. Os tradicionalistas sentem que uma mudança dessa natureza contraria os próprios ditames da prática, contra o ensino da doutrina em troca de dinheiro. "Se há algo que não quero ver", diz Doreen Valiente, a sacerdotisa original de Gerald Gardner, "é a feitiçaria se tornar muito parecida com uma religião organizada."

Mas essa perspectiva parece remota, apesar do surpreendente crescimento das últimas décadas. Em primeiro lugar porque a proliferação de diversas "tradições" torna improvável a centralização. Mesmo assim, muitos especialistas chegam a prever uma contínua expansão para a Wicca e J. Gordon Melton, entre outros, detectou a emergência de "uma liderança mais madura e mais sofisticada" para o futuro da prática. Quanto aos problemas inerentes a esse crescimento, é provável que uma religião cuja principal invocação, a Exortação da Deusa, pede "júbilo e reverência" seja capaz de superar muitas das preocupações cotidianas. "Viver é mesmo muito divertido", disse uma sacerdotisa à antropóloga Tanya Luhrmann. "A Wicca é a única religião que capta essa graça da vida".