BERLIOZ - SYMPHONIE FANTASTIQUE

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A Sinfonia Fantástica do francês Hector Berlioz é uma obra máxima do romantismo. Foi composta quando o compositor estava apaixonado por Harriet Smithson, atriz que participava de uma encenação de Hamlet.

"Se a Sinfonia Fantástica foi inspirada no louco - e absurdo - amor por Harriet Smithson, essa desconhecida atriz por quem ele se apaixonou, quando ele a perdeu - ela foi simplesmente para a sua terra porque o trabalho em Paris tinha terminado -, sentiu um certo ressentimento que se expressa na vingança cruel desse último andamento (Sonhos de uma noite de Sába é o quinto movimento da obra): a amada transformou-se numa bruxa que assiste a uma noite de Sabá. A verdade é que, quando Berlioz se dedicou realmente a terminar sua sinfonia, a paixão por Harriet já desaparecera, ou pelo menos já tinha diminuído, tanto que ele já pensava em casar-se com outra. O que convertia o ódio ou a vingança na realidade era uma necessidade teatral de criar um final assimilável e o mais fantástico possível. O que poderia ser melhor do que um Sabá?" (Eduardo Rincón 2005, p.42)

«O compositor demasiado avançado para o seu tempo» e «romântico quase até ao limite», como mencionam praticamente todos os textos sobre Hector Berlioz que consultei, encontrou a sua grande musa inspiradora na noite de 11 de Setembro de 1827.

Berlioz tinha 24 anos e sempre fora um homem de paixões assolapadas. Aos doze apaixonara-se por uma rapariga seis anos mais velha, Estelle. A diferença de idades não permitiu ao fogoso rapaz concretizar o primeiro amor.

À medida que os anos foram passando, Estelle desvaneceu-se: «Esqueci-me da cor dos seus cabelos; penso que eram negros» — escreveria o compositor nas suas Mémoires. «Mas quando a recordo tenho o vislumbre de uns olhos muito brilhantes e uns sapatos cor-de-rosa».

Berlioz reencontrou o amor na noite em que se dirigiu ao Teatro de Paris e viu Harriett Smithson represen­tar o papel de Ofélia na peça Hamlet, de Shakespeare.

Nos meses que se seguiram entregou-se cegamente ao impulso de se arrastar aos pés de Harriett, se fosse preciso, até conseguir conquistar os seus favores. Não teve sorte. Ela não se deixou impressionar e rejeitou-o sempre.

«Se as paixões aconselham por vezes mais ousadamente do que a reflexão, isso deve-se a que elas dão mais força para executar», escreveu Shakespeare.

Berlioz decidiu que haveria de a conquistar com a geni­alidade da sua música. Desta paixão resultou uma obra que é unanimemente reconhecida como uma das mais importantes do século XIX: Sinfonia Fantástica, completada três anos após o luminoso encontro com Harriett, em 1830.

Sinfonia Fantástica narra a história de um jovem e am­bicioso compositor. De cabeça perdida por uma bela donzela, tenta cometer suicídio com uma overdose de ópio. Em vez de morrer, alucina cinco vezes – tantas quantos os movimentos que compõem a peça.

Primeiro encontra a sua amada e é dominado pelo desejo; depois vê-a a dançar num baile; segue-se uma cena tranquila numa pastagem; depois assassina a mu­lher que deseja e é executado na guilhotina; no último movimento, o corpo do compositor é atirado de um lado para o outro num sabat de bruxas, no qual a sua donzela morta reaparece como vampiro, acompanhada por uma distorção do seu tema e pelo cântico medieval pelos mortos, o «Dies Irae».

Poderia o compositor conquistar o que o homem não conseguira? Sabê-lo-ia Berlioz pouco tempo depois, em Paris, quando um amigo de espírito diligente conseguiu convencer Harriett a estar presente durante um concerto da Sinfonia Fantástica. Berlioz estava na orquestra, pois era o próprio compositor a encarregar-se do tímpano, um instrumento de percussão.

Um poeta chamado Heinrich Heine estava no concerto – e é graças a ele que sabemos mais ou menos o que aconteceu na noite em que Harriett compareceu:
Um amigo chamou-me a atenção para o compositor que estava sentado na extremidade do palco, tocando tímpano. Depois notou: ‘Está a ver aquela mulher inglesa? É a senhora Smithson; nos últimos três anos Berlioz tem estado loucamente apaixonado por ela e é a esta paixão que devemos agradecer o fato de estarmos aqui e agora a ouvir esta ousada sinfonia’. Sempre que o olhar da donzela se cruzava com os do compositor, o homem tocava o tímpano como um maníaco. Foi assim que o vi pela primeira vez, e assim o recordarei para sempre.
Encantada com a música, Harriett reconheceu então o genial compositor como o estranho homem que a cortejara incessantemente – e dessa vez não o rejeitou.

Acabaram por casar, mas não foram felizes para sempre.

Só após o casamento Berlioz tomou conhecimento da confusão em que se transformara a vida da sua musa. Harriett já não era a atriz da moda. À amargura que sentia por uma carreira em inevitável decadência, juntava-se uma enorme quantidade de dívidas que contraíra devido a uma série de representações de Shakespeare que produzira com o seu próprio dinheiro – produções fracassadas, pois por essa altura Paris achava Shakespeare «bárbaro» e ridicularizava a ex-rainha dos palcos.

A carreira de Harriett terminou de vez quando partiu uma perna ao descer de uma carruagem. Ao abandono definitivo dos palcos, juntou-se uma série de empreendimentos econômicos desastrosos que a obrigaram finalmente a declarar falência.

Quem pagou todas as contas foi Berlioz. Arranjava dinheiro com os concertos e escrevendo muitos artigos para os jornais, mas nem o nascimento de um filho conseguiu salvar uma relação tão desequilibrada.

Enquanto Berlioz acumulava sucessos, a triste Harriett, solitária no seu fracasso, tornou-se cada vez mais ciumenta.

Quatro anos depois da estreia de Sinfonia Fantástica, separaram-se (Bitaites, 2008).