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IDENTIDADE PORTUGUESA: O DISCURSO NACIONAL NOS ENSAIOS DE FERNANDO PESSOA

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Monica Rector
University of North Carolina, Chapel Hill

Com um tema tão amplo como o discurso nacional e uma obra tão complexa e prolixa como a de Fernando Pessoa, opções precisam ser feitas para a abordagem da nacionalidade.

Há vários percursos possíveis:
(1) Partir dos Lusíadas de Camões, como poema-épico nacional, que relata os feitos e desfeitos portugueses, salvaguardados com a intervenção dos deuses e através da simbiose com as ninfas; continuar com as Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett, viagem/ns terrestre/s que simboliza/m Portugal e toda a narrativa social e histórica da nação portuguesa; passar pela A Ilustre Casa de Ramires de Eça de Queirós, que encerra no seio de uma família, o passado, presente e futuro de uma nação, cujas ruínas atestam a grandeza anterior e ensejam uma futura reconstrução, até chegarmos à Mensagem de Fernando Pessoa.

(2) Abordar Pessoa através de Mensagem, uma espécie de Lusíadas do século XX por meio do homem português, que nada mais é do que as várias facetas dos heterônimos conjugadas - fragmentos de um todo, operatoriamente discerníveis como o significado e o significante, mas ultimamente um signo só.

(3) Deter-se na Nação como uma narrativa, pois Portugal é formado, como as demais nações, de estória em estória dentro da
História. Verdade ou ficção? Como diz Pessoa, todo "poeta é um fingidor" (Autopsicografia) e "dizem que finjo ou minto / tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto / Com a imaginação" (Isto). A decodificação é a "verdade" do leitor: "Sinta quem lê!"

Preferimos optar por um outro percurso: escolhemos alguns textos em prosa, que fazem parte dos ensaios de Fernando Pessoa, e mostrar o discurso nacional através do homem português. Os seguintes aspectos serão abordados: o que é para Fernando Pessoa o português; quais suas características e defeitos; a organização, crise e reconstrução de Portugal através das funções e ações do português; e qual a contribuição de Pessoa para o futuro português.

O que é o homem português?

Segundo Pessoa, há três tipos de português:
Quanto à nacionalidade: é aquele que "trabalha obscura e modestadamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo" (Quadros 148: Sobre Portugal). O governo não se interessa por ele. "Existe porque existe." O segundo é aquele que "governa o País" (Quadros 149). Nada tem a ver com quem governa, portanto, é o "português que o não
é". O terceiro é o português dos descobrimentos, simboliza aquele que foi e não voltou. É a saudade do português que foi e, se Deus quiser, será um dia.

Em comum entre os três há: "(1) o predomínio da imaginação sobre a inteligência; (2) o predomínio da emoção sobre a paixão; (3) a adaptabilidade instintiva" (149).

Com este intróito, vejamos as características do homem português.

Qualidades e defeitos

Estes três tipos reúnem características que, segundo o momento histórico e as circunstâncias podem ser positivas ou não. São estes traços que levaram o português ao apogeu e também à decadência. Da nacionalização passou-se à desnacionalização, e, segundo Pessoa, os portugueses estão "tão desnacionalizados que devem(os) estar renascendo" (Pessoa 330: Ressurgimento espiritual). Mas "desnacionalizar-se" é positivo para o português, pois não é perder-se e sim encontrar-se (330). Perder-se é tornar-se regional, e preocupar-se com o "quintal" da casa. E este quintal para Pessoa não está nem em Lisboa, nem em Portugal, em parte na Europa. Não há português localizado. Quando se chega a pensar em regionalismo como sendo europeu, então atingiu-se o bom regionalismo (Pessoa 331: Nacionalismo
antiportuguês
).

Na mesma linha do regionalismo, mas com um traço negativo ainda mais acentuado, está o provincianismo português. Segundo Pessoa: "O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz" (Pessoa 336: O provincianismo português). É uma doença que apresenta três sintomas: (1) "o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; (2) o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; (3) e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia" (Pessoa 336). Se este entusiasmo fosse apenas admiração, o excesso não se daria. Mas o provincianismo "pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo" (337). A incapacidade de ironia advém do precário domínio que o português tem de sua língua, o que permite ao indivíduo captar os enunciados só no nível denotativo e não conotativo.

O português caracteriza-se também pela imaginação, um traço positivo se não for exagerado. Mas, para Pessoa, a imaginação do português é excessiva. É uma imaginação contraditória, pois a imaginação excessiva é vista como um defeito, como uma deficiência da imaginação (Pessoa 334: Deficiência de imaginação das imaginações excessivas). Por exemplo, o português que precisa "sair" de Portugal, da realidade cotidiana para pensar o país, sofre deste defeito, pois se refugia no sonho.

Outro defeito, que irrita Pessoa, é o "excesso de disciplina" (Pessoa 600: A doença da disciplina). A disciplina social é levada ao "ponto de excesso em que cousa nenhuma, por boa que seja ... há de ser prejudicial" (600). O comportamento do português é regular e organizado, ele não existe como indivíduo, mas através do grupo como num exército. E como tal é difícil determinar o responsável num grupo, a responsabilidade é sempre passada adiante. Além disso, o português também é incapaz de revolta e agitação. "Quando fizemos uma revolução foi para implantar uma coisa igual ao que já estava" (600).

Deixemos de lado a negatividade e vejamos algumas qualidades. Um traço muito português, e apreciado, é a "ternura". É este traço que dá alma à raça e, que, ao mesmo tempo, é tão difícil de ser definido. Há várias ternuras: (a) a heróica de Camões, (b) a metafísica de Antero, que "dá corpo ao abstrato" (Pessoa 335: A ternura lusitana ou a alma da raça), (c) a por si próprio, (d) a pela terra, e finalmente (e) a da paisagem. "Chamar ao sol de 'solzinho de Deus' é um fenômeno especial de ternura. Nessa frase do povo está o germe de todo o pátrio" (336).

Organização, desorganização e reorganização

O passado português é a sua organização, nem que seja aparente. O presente, na época pessoana, é a crise, tudo o que é des-: desnacionalização, desorganização, desorientação, degenerescência, decadência.

Pessoa privilegia três termos: (1) a decadência iniciada em Alcácer Quibir, (2) a desnacionalização com o sistema monárquico estrangeiro a partir de 1820, (3) a degenerescência, que é um prolongamento do sistema anterior (Quadros 153-4).

Destaca-se a desvalorização internacional da nação portuguesa (Quadros 152) que, segundo Pessoa, provém da "incultura, geral como profissional, do indivíduo português e sobretudo do indivíduo das classes médias; [d]a deficiência de propaganda de Portugal no estrangeiro; e [d]a ausência de consciência superior da nacionalidade".

Resta, pois, a Portugal mudar este estado, através da reorganização. O problema está em, pelo menos, indicar como se organiza (Pessoa 591), já que passar do papel para a ação é outro documento. Pessoa divide o problema em 3 partes: (1) determinar o plano ou as normas de organização, (2) colocar os indivíduos competentes nos respectivos lugares de organização, e (3) coordenar a dinâmica destes esforços (Pessoa 592). Portanto, Pessoa começa com a teoria e passa à pratica, enfatizando que a ele só compete a teoria. "Para a primeira não há senão regras; para a segunda e a terceira não há outra regra senão a realidade, sem outra norma, na segunda parte, senão a intuição na escolha dos homens, e, na terceira, o espírito prático de coordenação de esforços" (592).

Teoricamente o esquema parece simples e viável, se não fosse o português em si. Diz Pessoa: "O Português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã ou de tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir" (Quadros 155). Feitos futuros sonhados, que são idealizações das descobertas e conquistas do passado. Os desbravadores do passado se foram e foram além-mar, os que em Portugal ficaram nada tinham de bravos, muito pelo contrário, eram alheios ao avanço e à aventura. Ficaram sedimentados e estagnaram o país, é o que Pessoa chama de supertradicionalização (Pessoa 597). Seu contrário, o superprogressivismo é um remedio, mas custa caro. Este remédio chama-se "guerra" e foi usado pela Alemanha, curando o paciente.

Para Pessoa, a reorganização é possível, uma organização reconstrutiva por meio da educação e do industrialismo sistemático, que transforme a mentalidade e o atraso material do país: "O remédio para as decadências de atraso, é, portanto, o remédio para o mal de Portugal". E termina o texto sobre Idéias políticas, aplicadas ao caso português com a frase: "O que me cabia fazer está feito" (599).

Contribuições para a regeneração

Para as ideias acima expostas, Pessoa propõe quando não soluções, pelo menos sugestões:
Quanta à cura do excesso de imaginação, a solução proposta por Pessoa está em "educar as novas gerações ... para a civilização e para a vida", afastando-as do "culto prolixo e doentio da vida-interior" (335), do sonhar.

Quanto à incapacidade de ironia, a solução "está na conscientização da doença, da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido" (338).

Quanto à doenca da disciplina, Pessoa propõe que Portugal precisa construir "uma anarquia portuguesa". Precisa de um "indisciplinador", mas que dê certo, pois os que até então apareceram foram para organizar um partido, ou seja, uma nova disciplina (601).

Quanto à decadência, desnacionalização e degenerescência, Pessoa propõe categoricamente a destruição desta "tripla camada de negativismo" (Quadros 154).

Conclusão

O que será desta Nação, qual o futuro de Portugal?

O Quinto Império. Este símbolo já se encontra nas trovas do sapateiro Bandarra e nas quadras de Nostradamus (Pessoa 332-3: O futuro de Portugal). "Este futuro é sermos tudo"... "Conquistamos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa!"

Nestas linhas, está a solução para o problema da nação portuguesa. Até aqui, vigorou o instinto, propostas de um Pessoa de carne e osso, sujeito às leis físicas e, portanto, ao raciocínio. De forma didática, descritiva, explicativa e programática expôs-nos uma nação a partir do indivíduo e propôs-nos uma saída para o futuro.

Mas o verdadeiro Pessoa é o da intuição. "Toda fórmula social nova e elaborada é imposta pela intuição, se bem que a sobreposição da inteligência lhe perturbe e corrompa a expressão. ... Só a intuição - a fé, ...pode crer na virtude e na viabilidade do que ainda se não experimentou" (613). O instinto está no símbolo do brasão português, tal como aparece em Mensagem. A intuição está no ocultismo, no rosacrucianismo de Pessoa, entre outros. É um sentir e perceber com os sentidos internos. É o Quinto Império como as cinco pétalas da Rosa, ou seja, o Rei Sebastião: o homem, a esperança, o símbolo, o Mestre e o Cristo - cinco em um. É o cinco que está também presente no poema começado e incompleto:
"Há cinco mestres da minha alma", invocação e dedicatória místico-mágica (Mota 87-9) de Pessoa para o Mestre desconhecido, pois é sabedor de que está sendo chamado para desígnios superiores, de outro nível de existência.

Como instintivamente vê-se na diversidade e na completude dos heterônimos, intuitivamente para Pessoa deve-se "sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo - quando o homem se ergue a este píncaro está livre, como em todos os píncaros, está só, como em todos os píncaros, está unido ao céu, a que nunca está unido, como em todos os píncaros" (Centeno 16: Esp.54A-8/9).

"Sermos tudo", enfim, é a proposta de Pessoa para a Nação, feita de indivíduos. É a multiplicidade na unic/ssidade, o coletivo no individual. Da doutrina Rosa Cruz, Pessoa tira um símbolo para representar este "tudo" - o círculo. "O
circulo representa a realidade, que é ilimitada e limitada ao mesmo tempo; é ilimitada porque a circunferência em nenhuma parte "começa" e em nenhuma parte "acaba" ... ( Centeno 52). O círculo é a terra sobre a qual o indivíduo deve se debruçar para com a imaginação e o intelecto empreender seu percurso, junto com a Rosa e o Silêncio que compõe a dimensão do Belo. Este simbolismo rosacruciano em Pessoa é inerente ao universal no ser humano. E é este universal que aspira à renovação e à regeneração. Portanto, só vivendo este universal é que se faz uma Nação.

O percurso do indivíduo para colaborar na criação de uma Nação vem, em primeiro lugar, de dentro para fora, através de uma esforço mental e físico, que exige coragem e ação. Quando o indivíduo esgota estes afazeres, volta-se para dentro de si mesmo e une-se com um poder mais alto que lhe dita as normas em silêncio. Já não precisa mais fazer, mas é por meio do não-fazer, da fé, que a energia flui através do individuo, permitindo que tudo ao seu redor se realize em plenitude, porque já ele não está mais fragmentado, mas uno com um poder superior.

Referências bibliográficas sobre Fernando Pessoa

CENTENO, Y.K. O pensamento esotérico de Fernando Pessoa. Lisboa: Aurora, 1990
MOTA, Pedro T. Fernando Pessoa, poesia profética, mágica e espiritual. Poemas estabelecidos e comentados por P. T. Mota. Lisboa: Edições Manuel Lencastre, 1989
PESSOA, Fernando. Obras em prosa. Organização, introdução e notas de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985
QUADROS, Antonio. Mensagem e outros poemas afins seguidos de Fernando Pessoa e a ideia de Portugal. 2a. ed. Introdução, organização e biobibliografia de A. Quadros. Lisboa: Publicações Europa-América, 1986
Sobre Portugal, 1a. ed., 1979. Com Introdução e organização de Joel Serrão e recolha de textos de M. Isabel Rocheta e M. Paula Morão.

Identidade portuguesa: o discurso nacional nos ensaios de Fernando Pessoa. Flores verbais. Org. Jürgen Heye. Rio de Janeiro: Editora 34 (1995): 363-368

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