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A GELADEIRA DIABÓLICA (1991)

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A Geladeira Diabólica (The Refrigerator, 1991) conta a história de Steve e Eileen, um jovem casal que deseja iniciar a vida em Nova York. Com alguma dificuldade, eles encontram um apartamento na periferia da cidade, no Brooklin, se bem me lembro. O aluguel é ótimo e o apartamento já vem com geladeira! Mas o jovem casal não sabe que a vizinhança caricata será seu menor problema. Steve começa a experimentar estranhas mudanças psicológicas. Ele já era esquisito no começo do filme e progressivamente piora (ou melhora, na minha perspectiva). O apartamento possui um acobertado histórico de desaparecimentos. O dono não está disposto a falar a respeito, pois deseja apenas novos locatários.

Primeira lição do filme: Pergunte sobre o histórico sobrenatural do apartamento que você pretende alugar. Sério.

Apenas algumas poucas pessoas sabem a verdade sobre o funesto lugar. Uma delas é Juan, o encanador. E aqui temos um dos pontos altos do filme, pois o papel é de ninguém menos que Freddie Mercury, oculto sob o pseudônimo Angel Caban. Juan e seu auxiliar Paolo passam a frequentar o apartamento, especialmente quando Steve não está. Assim começa a nascer uma conexão caliente entre Juan e Eileen.

Segunda lição do filme: Não subestime o efeito de um encanador bigodudo e semi-careca sobre sua esposa.

Enquanto Steve aos poucos enlouquece e se afasta de Eileen (e o esperto Juan se aproxima mais e mais), personagens secundários começam a desaparecer dentro do apê. Neste ponto, não há mistério pra nós, espectadores, pois o filme já começa com uma tórrida cena de sexo no chão da cozinha, interrompida por um ataque mortal da geladeira.

Terceira lição: Sexo selvagem no chão pode ser inesquecível, mas pode custar sua vida. Cabe avaliar a relação custo-benefício.

A geladeira domina psicologicamente os personagens e talvez mesmo os atores. A loucura de Steve é fomentada por sonhos e alucinações. Em uma das mais bizarras, seu ditatorial chefe faz um emocionado e profundo discurso, miniaturizado, entre as prateleiras da geladeira. As atuações são um capítulo a parte. A dramaticidade é indescritível.

As cenas de morte dos personagens secundários também salvam, por si, o filme. Paolo é mastigado pela geladeira, que usa a porta como mandíbula. A mãe de Eileen é engolida inteira mesmo. E a geladeira é autolimpante, pois o sangue que jorra abundantemente no chão, janelas e na geladeira em si não está mais lá quando os personagens centrais retornam à cena.

Quarta lição: Desconfie dos eletrodomésticos autolimpantes.

A satânica e constante luz vermelha do interior da geladeira leva à quinta lição: Se sua geladeira parece um bordel antigo, livre-se dela.

Atormentada, Eileen busca respostas, ajudada pelo incansável Juan. Sexta lição: Meninas, desconfiem daqueles “amigos” solícitos demais. Vocês sabem o que eles querem, né? Querem apenas sobreviver ao ataque final das forças sobrenaturais, neste filme trash que é nossa vida... Assim, Eileen e Juan procuram a enigmática cigana Tania, que os roteiristas tiveram a coragem de fazer morar em uma tenda esotérica no meio de uma paisagem gótica. E você achando que a vizinhança era o grande clichê do filme.

Perguntada sobre o mistério, Tania sentencia para Eileen: “Sua geladeira é um portal para o inferno”. Por mim, o filme acabaria aqui. Sério. Seria uma deixa perfeita para o segundo filme, em que Eileen e Juan formariam um exército sobrenatural “do bem” para o derradeiro confronto contra a geladeira. A batalha de Minas Tirith, em “O Retorno do Rei”, ficaria no chinelo. Mas o pessoal decidiu liquidar a fatura num único filme. Falta de tino comercial.

Resumindo a ópera de sangue, Steve é finalmente liquidado pela geladeira. Suas últimas palavras a Eileen são lapidares: “Nade, minha peixinha. Nade para bem longe daqui...” Alguém ainda dirá o mesmo a Iara, a sereia de “Mutantes – Caminhos do Coração”.

O confronto final com a geladeira é épico. Épico. Juan, Eileen, Tania e um ilustre desconhecido invadem o apartamento. O desconhecido está lá apenas pra morrer rápido. Sétima lição: Cachorro que entra na igreja apenas porque a porta está aberta pode ser alvo da fúria sobrenatural. Oitava lição: Antes de filar bóia no apê do seu vizinho, pergunte se aquela agitação toda é mesmo uma festa.

Juan mostra seus
dotes de toureiro/cowboy/tanto-faz e laça a selvagem geladeira. Mas o Mal ainda não foi vencido, como decreta Tania: “Nossos corações batem e nossos pulmões respiram em silêncio. Restam espasmos de esperança e fé em alguma coisa. Mas, se nós olharmos aqui, agora, apenas morte é o que existe e ela não se satisfez”. Bonito demais. Eu me arrepio.

Imobilizada, a geladeira convoca um ataque de eletrodomésticos assassinos voadores e rastejantes.

Nona lição, tirada da morte do desconhecido: Em hipótese, barbeadores elétricos podem produzir o mesmo estrago.

No fim, restam vivos apenas Eileen e Juan, que se tornam dançarinos profissionais de flamenco. Sério. O apê é disponibilizado para locação novamente, com a tentadora geladeira incluída. A cena final resume o filme: uma cusparada nojenta pela janela, bem na cara de quem passa. É uma clara alusão a nós, espectadores. Pra fechar, a décima lição: Não leve a vida tão a sério, porque, no fim, todo mundo dança.

FONTE: Consenso Insensato: A GELADEIRA DIABÓLICA - Resenha crítica de um filme que você (erradamente) nunca pensou em ver

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