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HOMENS DE RESPEITO — ETNIAS TRADICIONAIS E SUAS IDENTIDADES (Por Carlos Manuel Soares Miguel)

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Ao ter aceite participar neste enorme exercício de interculturalidade, falando, de forma escrita, de alguns traços de identidade, ou de cultura, da etnia cigana, terei de, em jeito de introdução, me situar perante vós, ciganos ou não ciganos, para que não haja equívocos e se torne mais facilmente entendível esta minha abordagem.

Na verdade, não sou nenhum especialista nem estudioso da etnia. Sou um mero licenciado em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, curso de 1977-1982, que até há poucos anos exerceu a profissão de Advogado, com escritório em Torres Vedras. Porém, o fato do meu pai, Carlos Luís Miguel, ser cigano, levou-me a conviver e a conhecer a etnia, embora sempre, e quase só, em contexto familiar, isto é, no convívio com avós, tios e primos paternos, e com todos os outros que com estes conviviam ou residiam em Torres Vedras. Para além disso, a circunstância do meu pai ter casado com uma não-cigana, Palmira Marques Dâmaso, levou a que as vivências cruzadas entre o meu pai e os seus familiares, estes e a minha mãe, esta e aqueles, aqueles, esta, o meu pai e eu próprio, se traduzissem num emaranhado muito mais complexo do que esta escrita alguma vez poderá ou conseguirá traduzir, e que fez de mim e do meu irmão, Artur José Soares Miguel, observadores muito especiais e particularmente sensíveis às questões que envolvem os ciganos.

É neste contexto e com estes pressupostos que, de forma livre, pessoal e despretensiosa, procurarei identificar alguns traços de identidade, socorrendo-me de experiências vividas com o meu pai, numa apreciação e valoração de que sou o único responsável e que, de forma alguma, deverá ser entendida como uma valoração genérica ou conclusiva.

Por outro lado, não sendo um relato biográfico, o mesmo basear-se-á em vivências junto de alguém perfeitamente identificado. Por último, ao procurar enumerar ou desvendar registos étnicos dos ciganos, não tenho a pretensão de todos identificar, nem que os identificados ou valorados sejam de maior significado que outros não referidos ou não desenvolvidos. Como disse, trata-se de uma apreciação meramente pessoal.

P style="font-size:x-large;">I

Face à sua certidão de nascimento, o meu pai nasceu em Torres Vedras, no dia 9 de Agosto de 1922, filho de António Miguel e Glória Teles. Tal registo não coincide com o depoimento do meu pai que sempre disse ter nascido em Pontes de Monfalim, Sobral de Monte Agraço, e em pequeno ter vindo viver para a casa de uns tios, que já moravam em Torres Vedras, numa casa situada naquela que hoje se denomina Rua dos Cavaleiros da Espora Dourada, em plena zona histórica da cidade. Embora interesse de averiguar, esta discrepância, para o efeito, não é relevante. Importante é que em 1922 tínhamos ciganos, ou uma família cigana, a viver em Torres Vedras, com morada fixa, tendo os meus avós, sensivelmente na mesma altura, vindo para aqui viver e criar os seus filhos, pelo que todos os meus tios sempre aqui residiram e aqui construíram as suas vidas. Servem estes factos para ilustrar um dos traços de identidade dos ciganos portugueses, a apetência pela sedentarização. Tenho consciência de que se trata de uma afirmação que de consensual nada tem, mas de fato em Portugal, e ao contrário do que acontece noutros países europeus, o cigano aspira a fixar-se num território e neste centrar a sua atividade.

A imagem romântica do cigano errante com uma carroça, um rancho de filhos e alguns cães a calcorrear estradas, acampando aqui e acolá, é algo que conheci em jovem e que ainda hoje se consegue ver, nomeadamente no Alentejo, mas que se deve a uma circunstância da vida e não a uma opção. Na França, por exemplo, encontramos muitas famílias ciganas que perpetuam o seu nomadismo, vivendo em modernas caravanas, de modo a proporcionarem aos filhos o que consideram ser uma das vivências essências da cultura cigana. Tal realidade levou o Estado a ter necessidade de criar programas escolares específicos para acompanhar estas crianças ciganas errantes, tendo também sido criados parques para receber estes velhos-novos nômades.

Tal não é a realidade em Portugal e em Espanha, onde qualquer cigano aspira a ter a sua casa e a fixar-se, independentemente de se envolver, ou integrar, na comunidade onde se instala. Este poderá ser um bom tema de estudo para antropólogos ou sociólogos, mas o fato de, ao contrário da Europa, onde existem ciganos de diversos grupos, nomeadamente Manouches, Sintis, Kalderach, Roms, em Portugal, serem praticamente todos do grupo Rom/Caló, talvez explique esta tendência para a sedentarização.

II

De certo modo relacionado com o traço atrás referido, e confirmando o mesmo, uma outra referência étnica é a de território, entendido este como espaço de domínio.

Com efeito, uma vez fixada num determinado território, ou seja, instalada, com residência fixa, essa família passa a ter o domínio desse território. A partir desse momento, é essa família, por intermédio do seu elemento mais velho, ou de maior respeito, que autorizará a fixação de ciganos pertencentes a outra família ou, simplesmente, a utilização desse território para aí procederem a sua atividade de venda ambulante.

Lembro-me de ver ciganos que andavam na «venda da mala» virem pedir autorização ao meu pai, na presença da minha avó, para poderem vender em Torres Vedras, assim como também me lembro de um outro cigano espanhol, que pretendia abrir uma loja de fazenda na então vila, se ter dirigido ao meu pai pedindo permissão para se instalar. Esta prática, já muito em desuso no nosso país, ainda é exercida em alguns conselhos.

Reputo de grande importância social esta regra de domínio familiar sobre um determinado território, uma vez que a mesma permite uma mais fácil integração de quem se pretende instalar. De fato, um cigano que chega de novo a uma determinada vila, ao pedir, à família que já aí se encontra, permissão para se instalar, traduz um sinal claro de respeito por aqueles que já lá estão e, ao ser aceite, é dado o primeiro passo para a sua integração na comunidade cigana, sendo depois mais fácil vir a integrar-se no tecido social existente. Não respeitando este preceito, esse novo cigano, naquele território, será alguém desintegrado da sua própria comunidade e, por natureza histórica, desintegrado da sociedade. Isto é, viverá numa dupla marginalidade.

Para além do respeito, palavra e sentimento muito importante na forma de estar da etnia, esta prática justifica-se pela necessidade de preservar o bom nome e a integração conseguida pela família, ou famílias, já há muito instaladas, podendo a presença de novos elementos e outros comportamentos deitar tudo a perder.

O fato de se pedir autorização cria, desde logo, um ascendente dos que estão sobre os que chegam, determinante para o bom relacionamento futuro no seio da comunidade cigana e da comunidade local.

Por sua vez, esta prática permitia prevenir conflitos futuros, caso a família a instalar tivesse familiares «contrários» a alguma das famílias já instaladas.

Se estivermos atentos à comunicação social, verificamos que os primeiros resistentes à instalação, ou realojamentos, de famílias ciganas, num determinado local, são as famílias ciganas que já aí habitam. Não há muito tempo, quando apareceram em Portugal famílias de ciganos dos chamados Países de Leste, nomeadamente romenos, eram sempre os ciganos instalados os primeiros a insurgir-se contra a sua presença e possível fixação.

Embora se tenha perdido um pouco o valor do domínio de um determinado território, a presença nesse espaço, o conhecimento deste e a integração na comunidade local, são referências fundamentais nos dias de hoje, pois garantem uma estabilidade social conseguida com muito custo e que, em qualquer altura, pode ser posta em causa por algum acontecimento anti-social praticado por um cigano, o que terá reflexos em toda a comunidade.

III

Uma outra característica que classifico como traço de identidade, e que também está a cair em desuso devido à sedentarização, é o nome, ou melhor, a alcunha.

O meu pai era o «Tanina», os meus tios eram, e são, o «Malgas», o «Maluco», o «Encarnado» e o «Moreno». Das minhas três tias, duas eram casadas, uma com o «Preto» e a outra com o «Pescada».

Como todas as alcunhas, a sua origem tem a ver com algum acontecimento ou característica física, mas nos ciganos estas substituem literalmente o nome, e ninguém consegue identificar este ou aquele cigano a não ser pela sua alcunha, que passa a ser o seu nome. Não existe, ou não existia, nenhum cigano que soubesse o nome verdadeiro de outro cigano, exceptuando os membros da sua família. Tal característica decorre da vida de negócio que sempre tiveram, e que nem sempre era efetuado da forma mais lícita ou legal, e, assim, se alguém quisesse denunciar ou delatar algum cigano perante as autoridades, estas dificilmente conseguiriam identificá-lo oficialmente. O mesmo se diga para situações de conflito ou zaragata, tornando muito difícil a identificação civil dos intervenientes.

A este propósito, recordo que o meu tio mais novo, o «Moreno», após ter cumprido o serviço militar, foi mobilizado para o Ultramar, era eu miúdo de escola primária, faltando à chamada para o embarque e «fugido», como se dizia na altura dos desertores. Passando à clandestinidade, no seio da família, o meu tio passou de «Moreno» a «Malhado», de modo a que não se descodificasse o seu nome quando era referido, ficando «Malhado» para sempre. Curiosamente, quando nasceu o seu primeiro filho, este recebeu, desde logo, a antiga alcunha do pai, «Moreno», a qual se mantém até hoje, sendo, na prática, o seu nome.

Hoje, com a sedentarização, e apesar de uma maior integração social, tal já não acontece e a alcunha, quando surge, já não tem a finalidade de criar uma dupla identidade face aos «lacorrilhos», os não-ciganos, ou seja, face àqueles que representam e exercem a lei dos «senhores». Com feito, a maioria dos meus primos, alguns mais velhos do que eu e que comigo andaram na escola primária, sempre foram tratados pelo nome próprio, não lhes tendo sido dado outro nome ou alcunha, sinal de sedentarização e de uma nova forma de encarar o dia-a-dia.

IV

Também em vias de extinção, ou mesma extinta, encontramos algo que sempre caracterizou os ciganos e os diferenciou, ou diferenciava, a língua – o caló ou romanó. Confesso que, exceptuando uma experiência que tive em Roma, ao participar num encontro de Pastorais Ciganas de todo o mundo, em que vi e ouvi ciganos de Leste a dialogarem fluentemente em romanó, no seio da minha família paterna tal nunca foi por mim presenciado. É certo que o meu pai, os meus tios e todos os ciganos da sua geração falavam caló ou romanó, mas à sua maneira, «à portuguesa», direi eu. Quero com isto dizer que todos sabiam uma grande quantidade de palavras em caló, nomeadamente verbos, substantivos e adjetivos, mas não sabiam todas as palavras e, sobretudo, desconheciam as partículas de ligação, os artigos, os pronomes. Assim, quando falavam caló, misturavam-no com o português e, muitas vezes, juntavam palavras espanholas como se fossem caló. De qualquer forma, esta maneira de «soldar» palavras tornava indecifrável o que diziam aos ouvidos de um qualquer «lacorrilho», «gadjó» ou «paio», como é designado o não-cigano.

Também cheguei a assistir a conversas entre o meu pai e o meu tio em caló e, quando não sabiam uma palavra, utilizavam a sua correspondente em português, mas «disfarçavam-na», aditando uma terminação diferente inventada na altura e que, no contexto, o interlocutor acabava por perceber. Por exemplo, se quisessem referir-se a uma terra sem que o «gadjó» percebesse, poderiam pronunciar «Évora» como «Evorita» e, assim, camuflavam a palavra.

Se há trinta-quarenta anos, esta era a realidade, hoje ela é bem pior. Vejo pelos meus primos – todos na casa dos trinta anos de idade – que, sabendo algumas palavras, só com um esforço de memória conseguem lembrar-se de mais umas tantas mas, somando umas e outras, nem de perto nem de longe conseguem dialogar num misto de caló-português.

Não se trata de uma descaracterização, mas tão somente de um sinal dos tempos. Deixou de ser necessário, ou útil, a existência de um código linguístico próprio. Tem a ver com a sedentarização, sem dúvida, mas sobretudo com a maior normalização da sua atividade comercial, a padronização das compras e das vendas. Meio a brincar, meio a sério, diria que hoje em dia, como as compras dos produtos para revenda é feita a chineses, basta falar em português para que estes não percebam.

A língua deixou de ter uma importância crucial na efetivação dos negócios perante os «senhores», assim como na proteção perante as entidades oficiais, leia-se, perante as forças da autoridade. Por outro lado, o fato de a mesma nunca ter sido estudada, nem bem descodificada, sendo transmitida unicamente por via oral de pais para filhos, piora ainda mais o cenário atual de extinção.

Há uns tempos, fui convidado a participar numa reunião, em Lisboa, promovida pela União Romani Espanhola, com o objetivo de se construir um dicionário de língua cigana, e era grande a resistência de alguns ciganos portugueses em aceitar esse projeto, alegando que iriam perder a sua identidade, revelando o significado das palavras aos «senhores», não percebendo que o contrário, ou seja, a inexistência de um suporte escrito, é que originará a perda deste traço de identidade, por desuso. O certo é que tal projeto nunca foi concretizado. E o caló quase não é falado pelos ciganos portugueses[1].

V

Recentemente, no dia de finados, quando visitava o jazigo do meu pai e aproveitava para ver e falar com os meus tios e primos, dois destes, com sensivelmente trinta e poucos anos de idade, diziam, ou melhor, um dizia, e o outro concordava, que «os ciganos vão acabar». Questionei a razão de ser de tal afirmação e eles justificavam e argumentavam com o fato de as feiras e/ou mercados estarem a acabar. A acabar, não no sentido de não se realizarem, mas por não serem rentáveis ou compensadoras como forma de subsistência da família e, no seu raciocínio, acabando as feiras, acabando o negócio, acabam os ciganos.

Efetivamente, o negócio é um traço caracterizador da etnia cigana que sempre a acompanhou e que continua bem vivo e atual. Mas, é um traço caracterizador dos ciganos, tanto no interior da etnia, uma vez que os mesmos não se revêem enquanto ciganos se não estiverem ligados à venda, como fora dela, pois não há «senhor» que quando pensa ou fala de um cigano não o imagine senão como vendedor, nomeadamente vendedor ambulante. Pegando na experiência de vida da pessoa onipresente neste texto, o meu pai, ele sempre foi – e foi assim que sempre o conhecemos – negociante, vendedor, muito embora saiba, e ele próprio o contava, que em jovem foi empregado durante um tempo no Café Borba, em Torres Vedras. E este fato, associado à idêntica circunstância do meu tio «Encarnado» também ter estado empregado na Padaria Alves, muito contribuiu para a sua integração e a da minha família no seio da comunidade torriense.

Dizia eu que sempre conhecera o meu pai como negociante, primeiro como negociante de gado, nomeadamente bestas e burros em feiras de gado, tão frequentes no País de então, mas confesso que para além da recordação de uma ou outra história contada pelo meu pai, não me lembro do exercício dessa atividade. Depois, na «venda da mala», até à minha adolescência, e finalmente na venda ambulante de calçado, durante anos, até à véspera de falecer.

Não sendo por si só um traço de identidade, mas ilustrando uma apetência natural para o negócio, desenvolvida ao longo de séculos, julgo que vale a pena descrever um pouco como decorria a «venda da mala» por ser caracterizadora da atividade negocial dos ciganos à época, e ao dia de hoje, pois com alguns contornos diferentes a técnica e o método ainda subsiste.

Era eu miúdo de escola primária, decorria a década de sessenta, acompanhei algumas vezes o meu pai e o meu tio na venda, não tanto pelo interesse no negócio mas pela aventura de andar de carro que era uma atividade rara e aliciante. Nessa época, o meu pai e o meu tio, por não terem carta de condução nem carro, contratavam ao dia a algum «lacorrilho» amigo o serviço de chofer e viatura e deslocavam-se sempre mais para o norte, onde faziam o seu negócio.

A «mala» era um saco de viagem de bom aspecto que continha alguns cortes de fato e ao de cima uns atoalhados, sabonetes e creme para a barba. Como o nome indica, a «venda da mala» consistia na venda deste conjunto de produtos: saco, fazenda, atoalhados, sabonetes e cremes. A venda era sempre feita longe da residência de forma a salvaguardar a identificação dos intervenientes e não prejudicar a sua imagem no meio onde viviam. Uma vez chegados ao local escolhido, normalmente aldeias ou casais, enquanto um aguardava no carro, o outro batia à porta das pessoas e perguntava se queriam ver umas fazendas de contrabando que um estrangeiro, acabado de chegar, tinha para vender. Caso alguém manifestasse interesse no negócio, então, o segundo era chamado e iniciava-se a conversação, falando sempre os ciganos em caló, o que, aos ouvidos do comprador, reforçava a ideia de estar a comprar algo único, proveniente do estrangeiro, um «evidente» bom negócio. Para tornar ainda mais aliciante a proposta de negócio, os sabonetes, cremes e atoalhados eram oferecidos desde que comprassem os cortes de fato. Ou seja, criava-se o aliciante da oferta de produtos muito cativantes para se conseguir a venda do que efetivamente era negócio, o que efetivamente iria dar lucro. Uma vez concretizado o negócio, mais tarde, quando o comprador ia ao alfaiate ou à modista para fazer o fato ou o vestido, ficava a saber que a fazenda era de má qualidade, não valendo o dinheiro pago pela mala.

Na altura, era frequente as pessoas dizerem que o cigano lhes tinha dado a cheirar o sabonete e as hipnotizara ou drogara para fazer o negócio. Na verdade, a hipnose, ou a droga, era a «guloseima» de ficar com uma série de produtos sem os pagar, numa altura em que as pessoas se lavavam com sabão azul e branco e se limpavam a rodilhas, sendo os sabonetes e os conjuntos de atoalhados de casa de banho exclusivo das famílias abastadas.

O meu pai, com este tipo de negócio, mas com outros parceiros que não o meu tio «Encarnado», andou pela Madeira, Açores, Angola, Moçambique, mas também pelo Brasil, Chile e Argentina, embora nunca tivesse feito fortuna com o mesmo.

A sedentarização, a «Primavera Marcelista», uma maior abertura da sociedade portuguesa, uma maior facilidade e velocidade de circulação da informação, levou a que este tipo de negócio se fosse extinguindo, dando lugar à venda ambulante em feiras e mercados, de calçado e/ou roupa, nomeadamente no início dos anos setenta. Então tudo se transforma, mas a técnica comercial mantém-se. Deixa de haver o embuste, o engano, porque os clientes deixam de ser clientes de uma vez, como na mala, mas de uma vez por mês, na feira mensal, e para o resto da vida. Daí se terem desenvolvido técnicas de melhor comprar, de forma a maior lucro obter na venda.

Tive o privilégio de acompanhar muitas vezes o meu pai e o meu tio a visitar fabricantes na zona da Maia e Vila da Feira, quer pelo prazer de viajar, de descobrir, quer também a conduzir a carrinha. Estas deslocações ao Norte, às fábricas de calçado, eram sempre feitas nos últimos dias do mês e sempre com dinheiro vivo no bolso. Foram muitas as vezes que, ao chegarmos, encontrávamos pilhas de coleções de sapatos já atadas para serem enviadas para sapatarias de renome em Lisboa, mas a espera da chegada do cheque ou da letra para pagar a remessa, assim como a pressão, ou a necessidade, de pagar os salários aos trabalhadores faziam com que tais encomendas viessem antes na nossa carrinha a um preço muito conveniente, ficando os empresários com a certeza de que já tinham algum dinheiro na carteira para pagar aos seus empregados.

São inúmeros os exemplos ou as técnicas desenvolvidas pelos ciganos na arte de negociar, algumas fantasiadas, outras nem tanto, mas efetivamente o negócio «está-lhes no sangue», como se costuma dizer, e é sem dúvida um traço da sua identidade.

VI

Ao falar de traços caracterizadores da etnia cigana, é incontornável não falar do casamento como elemento diferenciador de elevado significado, cuja carga social e sexual acompanha, e condiciona, os ciganos em todo o seu percurso de vida.

Tendo a certeza da grande curiosidade que existe sempre à volta dos rituais que envolvem a cerimônia do casamento, este começa, todavia, muito antes da cerimônia e esta só interessa mesmo aos noivos e aos seus familiares, sendo dever de todos nós respeitar a reserva que deve haver em tudo o que de mais íntimo envolve o casamento, pois só assim se respeita e preserva a tradição. Porém, se a honra é um conceito muito enraizado e cultivado pelos ciganos entre si, tanto no uso da palavra como nos negócios ou no respeito pelos mais velhos, no casamento a honra revela-se através da preservação da virgindade feminina e no casamento dentro da «raça». Segundo o rito, ou a tradição cigana, a mulher terá de chegar virgem ao casamento para que este seja feito com honra e glória de toda a sua família. Este traço étnico, ligado intimamente ao casamento, acaba por condicionar e explicar outras características dos ciganos que, muitas vezes, os «lacorrilhos» não compreendem e que se revelam muito tempo antes. É o caso do abandono escolar precoce das meninas ciganas, as quais dificilmente continuam os seus estudos, após concluírem o primeiro ou segundo ciclo de escolaridade básica. De fato, ao atingirem os onze, doze anos de idade, dificilmente os pais permitem que continuem a estudar, alegando a tradição, sendo a verdadeira razão a necessidade de as resguardarem do convívio e contato que a escola proporciona com outros miúdos, mantendo-as recolhidas no seio da família e debaixo dos olhos atentos da mãe e restantes familiares.

É pela mesma razão que as ciganas se casam tão cedo, sendo perfeitamente normal o casamento ocorrer aos catorze, quinze, dezesseis anos, sendo assim mais fácil manter a sua «honra» até esse dia.

Por outro lado, esta necessidade preventiva, a que se tem vindo a chamar tradição, das meninas casarem muito cedo, também contribui para a saída precoce da escola, pois a família tem o dever de a preparar para o casamento, para a lida da casa, para o negócio, para os costumes e para a mostrarem a outras famílias em locais ou ocasiões de convívio. Digo «mostrarem» porque os casamentos fazem-se através de um «pedimento», no qual um familiar do noivo pede em casamento aos pais da menina, ou da jovem cigana, a sua filha para o seu familiar – filho, neto ou sobrinho. Cabe aos pais desta aceitarem ou não o pedimento. Caso não o aceitem, darão «cabaças» o que, de alguma forma, é desconsiderante para o noivo e para a sua família.

Há pedimentos feitos desde que os futuros noivos estão na barriga das mães, mas o normal é que as raparigas e os rapazes em idade de casarem – as «solteiras» e os «solteiros», como são designados – se vejam em alturas de festa e, a partir daí, quando as famílias sentem que as sua pretensões serão bem sucedidas, concretizam o pedido. Mas mesmo já estando pedidos, essa necessidade de se mostrarem continua viva, porque é uma das várias formas que as famílias têm de conviverem minimamente com a sua futura nora ou genro.

Todavia, as «cabaças» podem ser dadas em qualquer altura, embora isso tenha sempre reflexo no relacionamento futuro das respectivas famílias.

Não sendo muitas as ocasiões em que os ciganos se juntam fora do meio familiar, qualquer motivo de encontro, quer se trate de casamentos, funerais ou visitas a hospitais, são momentos em que as famílias mostram as suas solteiras, pelo que, no modo de vestir, nem sempre se verifique grande diferença entre o que uma «solteira» veste para ir a um casamento ou a um funeral.

Com esta preparação, e sendo uma ocasião de festa por excelência, o casamento cigano assume uma imagem de grandiosidade, que advém da necessidade e interesse de ostentação que as famílias têm. São momentos em que as famílias mostram o seu poderio econômico pelos carros em que se fazem transportar, pelo ouro que carregam no corpo e pelo que vestem, muito particularmente as «solteiras». É normal, num casamento, uma «menina» estrear quatro ou cinco «toilettes» por dia, e o casamento nunca dura menos de um ou dois dias. Tudo isto decorre do fato dos «pedimentos» serem sempre feitos numa lógica de clã, representando a união de duas famílias, tornando-as mais fortes perante terceiros, em que o fatos econômico é da máxima importância.

A discriminação ou, neste caso, a seleção econômica através do casamento, é uma realidade com igual peso entre os ciganos e os não-ciganos. Não quero com isto dizer que seja o único fator, pois não o é, mas tem muita importância.

Tempos houve em que o casamento tinha também uma enorme importância na utilização do território de domínio de uma dada família pela outra que se une pelo casamento, assim como na importância e poder de uma família face a outra com quem esteja desavinda, pois as famílias unidas pelo casamento têm a obrigação de vir em ajuda dos «compadres».

Com a sedentarização, mas também com a diminuição de conflitos entre famílias, tais fatores deixaram de ter a importância que tinham antes, sendo sobretudo o fator econômico e a amizade entre famílias os aspectos determinantes na hora de fazer o «pedimento».

Tenho falado muito das «solteiras» e pouco dos «solteiros». Estes também casam cedo, embora não tanto quanto as raparigas, mas mesmo que se venham a «atrasar», tal não será razão para ficarem «encalhados», como sucede com elas. Mesmo assim, é normal um rapaz casar-se entre os dezessete e os vinte anos.

Os rapazes, tal como se constata com as moças, também abandonam a escola cedo, sendo raro irem além do segundo ciclo, não completando sequer, assim, a escolaridade obrigatória. Neste caso, tal não se deve a cautelas quanto à sua virgindade, pois normalmente as famílias não se incomodam que os mesmos tenham experiências com «senhoras», desde que não se envolvam em demasia e não casem fora da etnia cigana. Também aqui o abandono escolar tem a ver com a preparação do casamento, preparação social e preparação econômica. O rapaz quando casa tem de ter a sua vida econômica organizada ou encaminhada, independentemente dos seus pais serem mais ou menos ricos. O abandono da escola decorre, assim, da necessidade de iniciarem um negócio. Os pais, ou os tios, ajudam-no a comprar um «lote» de mercadoria, cedem-lhe parte dos seus terrados nas feiras e mercados e o rapaz começa a sua vida de negociante, de modo a que, mais tarde, possa vir a sustentar a sua mulher e filhos.

Ao falarmos do casamento cigano, ou da união entre um rapaz e uma moça ciganos, é necessário referir que este se reveste de cambiantes diversas, que são importantes para melhor se entender aquilo de que temos vindo a falar e melhor se perceber a importância do casamento no futuro desses dois jovens ciganos, bem como o fato de o casamento ser um dos traços de identidade mais importantes.

Já falámos do «pedimento» e na preparação para o casamento, mas importa dizer que, segundo a tradição, após terem ficado «pedidos», os noivos não se falam, nem convivem entre si, mesmo que a noiva vá à casa dos futuros sogros, o que se verifica para que se conheçam melhor e estes avaliem a sua preparação para o casamento e a moldem aos usos e costumes da família do futuro marido. Conviver, partilhar, falar, estão reservados para o pós-casamento. É assim que manda a tradição e é assim que se mantém a honra dos noivos e das suas famílias. Daí o casamento ser tão importante para toda a etnia, em que a alegria, a exuberância e até a ostentação assumem contornos por vezes difíceis de entender. São dias de festa cuja duração é diretamente proporcional ao poder econômico das famílias e dos padrinhos. Digo dos padrinhos porque a estes cabe uma parte substancial das despesas nos «comes e bebes». E como a despesa é grande, passámos de uma matriz em que existia um padrinho de casamento, para uma realidade em que são vários os padrinhos de modo a que a despesa seja mais repartida e tenha um menor peso econômico para cada um.

São momentos de excessos, sem dúvida, mas são momentos de encontro entre todos os elementos da família e de famílias amigas que aí se revêem, trocam impressões sobre os negócios, mostram a sua riqueza e as suas «solteiras» e os seus «solteiros», cozinham e bebem, estando sempre presente a música cigana, que no nosso país é a música espanhola, assumindo esta desde sempre o padrão de referência para os ciganos portugueses. Nunca em Portugal a rica matriz musical dos ciganos de Leste vingou junto dos ciganos portugueses, que sempre se identificaram com o flamengo espanhol. Este é o casamento segundo a tradição cigana, o qual enche de alegria e de honra os noivos e as suas famílias. Porém, esta não é a única forma de os ciganos se casarem no interior da sua etnia. Também há os «fugimentos». E, dentro destes, encontramos diversas variantes.

Casos há em que os jovens ciganos, estando «pedidos» e apressados em transformar o noivado em casamento, mas vendo que os familiares não se despacham a marcar a boda, combinam entre si e «fogem». Noutros, o «fugimento» resulta do fato de as famílias, mesmo sabendo que dois jovens se gostam, não terem ainda tratado do «pedimento», ou não o terem querido fazer. Em ambos os casos, «fugir» significa sair de casa dos pais. Nesta situação, esses jovens acabam casados, à mesma, mas com nuances diferentes, muito importantes para o seu futuro, consoante o comportamento que tiveram.

Caso o casal tenha «fugido» para a casa de um familiar e daí tenha avisado os pais do seu «fugimento», sem terem tido relações sexuais, a honra mantém-se, embora a tristeza das famílias seja enorme. Nesta situação, haverá casamento segundo o ritual cigano, mas sem festa. Os convidados cingem-se à família mais próxima e tudo decorrerá num único dia e sem o brilho de uma festa de casamento. Porém, a honra mantém-se e o jovem casal cigano continua a ser respeitado por todos.

Situação diferente acontece quando o cigano e a cigana fogem e acabam por consumar o casamento tendo relações sexuais. Aí viola-se a lei cigana e ficam desonrados os próprios e as famílias. Nesta situação já não há casamento, o casal passa a viver junto mas desconsiderado perante a comunidade cigana e com reflexos na sua vivência étnica, como por exemplo no fato de não poderem participar ou assistir às cerimônias do casamento cigano.

O mesmo se pode dizer do casamento fora da etnia. As consequências são as mesmas: a desonra por não respeitar a tradição e, como consequência, ser banido de tudo o que envolva a tradição cigana. Ora, se esta ainda é uma realidade aos dias de hoje, com toda a assimilação e aculturação já existentes, há cinquenta anos atrás era uma guerra.

Com efeito, e voltando ao meu protagonista, ele e a minha mãe casaram-se na Igreja de S. Pedro, em Torres Vedras, no dia 13 de Setembro de 1955, cerca das cinco da manhã, numa celebração realizada pelo saudoso Padre Joaquim Maria de Sousa. O casamento foi o consumar de uma segunda tentativa, pois alguns dias antes tinham tentado fazê-lo mas o sacristão tinha informado os meus tios e avós do que ia acontecer e estes não permitiram que o casamento se realizasse.

Antes do casamento, a minha mãe foi várias vezes ameaçada de morte pelos meus tios, caso casasse com o meu pai, ameaças que continuaram a verificar-se também depois. Tais fatos, que se desdobram em múltiplas histórias e vários episódios, ilustram o quanto era, e ainda é, levada a sério a preservação da tradição e, com ela, a defesa da honra por toda a família, assumindo esta a natureza de um bem comum pelo qual todos têm de zelar.

No caso da minha família, esta realidade com o decurso do tempo foi-se esbatendo e, mais tarde, o meu pai acabou por ter uma vivência familiar e étnica de grande preponderância junto da comunidade cigana torriense em geral e junto da sua família em particular. Tal «reintegração», digamos assim, ficou a dever-se ao fato de o meu pai ter continuado a levar «uma vida de cigano». Isto é, continuou sempre ligado aos negócios, que desenvolvia com os seus familiares, mas também, por entretanto, lhe terem nascido os filhos, e as crianças são sempre um elemento aglutinador de grande importância na estrutura familiar cigana. Isto sem esquecer o próprio mérito e maneira de ser do meu pai, sempre ponderado e conciliador.

Contudo, recordo-me perfeitamente de acompanhar o meu pai num ou noutro casamento e o mesmo convivia, brincava, bebia e até cozinhava tachos, mas quando chegava a hora da cerimônia do casamento em si, o mesmo afastava-se, não participando, consciente de que tal não lhe era permitido.

Referi-me ao «cozinhar tachos» porque as lembranças que tenho dos casamentos ciganos prendem-se com o fato dos homens, nesses dias de festa, combinarem confeccionar um determinado prato e cada um cozinhar «o seu tacho». Para além das tarefas serem, deste modo, partilhadas, permitia sobretudo que todos pudessem comer e apreciar os dotes de cada um dos cozinheiros, fazendo-se comentários e elogios, ou não, a cada um dos tachos e ao seu autor. O meu pai era um excelente cozinheiro e os seus tachos eram sempre muito apreciados.

Ainda a este propósito, é de referir que a matéria-prima para a preparação e feitura destas iguarias era sempre proveniente da «despensa», isto é, do enorme volume de cabritos, vitelos, batatas, cebolas e tudo o mais que o padrinho de casamento comprava e punha à disposição dos convidados.

VII

Numa sequência lógica, se falámos do casamento, há que falar da família, enquanto matriz incontornável e suprema da estrutura social cigana. Aliás, ao longo desta conversa escrita, a família tem estado sempre presente e atravessa todo e qualquer traço de identidade.

Falo da família enquanto conceito abrangente, muito para além da família nuclear, e que engloba todos aqueles que, de forma direta ou indireta, estão ligados pelo nascimento ou pelo casamento. Isto não quer dizer que a família nuclear não tenha importância. É claro que tem muitíssima importância. Basta pensarmos que é raríssimo um casal se separar, ou que é raro um casamento se desfazer, para rapidamente concluirmos que a família nuclear é importante e constitui o centro de uma organização concêntrica, onde no eixo estão os mais velhos e no exterior as gerações mais novas, mas todos na mesma roda.

Ao abordarmos temas como a sedentarização, o território, o negócio, o pedimento, resulta clara a importância que a família, enquanto núcleo de pessoas unidas pelo sangue ou pelo casamento, tem na estrutura social da etnia.

A família cigana vive e age como um clã. Um clã unido em torno de uma origem comum. Não uma origem étnica, mas sim numa origem sanguínea.

A ideia de que os ciganos são uma «raça» unida é um falso clichê que traduz grande desconhecimento.

O cigano não se identifica nem se solidariza com outra pessoa por aquela também ser cigana, como ele próprio é. O cigano identifica-se e solidariza-se com outro cigano por este ser da sua família ou a esta estar ligado pelo casamento. Aqui sim, há identificação, há solidariedade, há cumplicidade, há entreajuda, há partilha, enfim, há família.

A um familiar acode-se independentemente de este ter ou não ter razão, ter ou não ter necessidade. Se um familiar tem uma briga com outro, não há que discernir se o mesmo tem ou não razão, se devia, ou não, ter feito o que fez, a preocupação é participar ajudando-o. É assim numa zaragata, levando, por vezes, a comportamentos irracionais e dificilmente entendíveis fora da etnia e só compreensíveis numa lógica de solidariedade de linhagem, mas também é assim na doença ou nas necessidades econômicas.

A doença não é um problema que caiba ao pai ou ao marido resolver, é um problema de toda a família, e toda a família, ou os mais abastados, ajudam economicamente na busca da melhor solução. Toda a família está presente nesses momentos, quer em visitas diárias à casa do visado, quer à porta do hospital, onde se instala e permanece enquanto o seu familiar ali se encontrar. Este acompanhamento, esta presença, esta solidariedade na desgraça, como é o caso de uma doença ou de uma briga, mas também na alegria, como no caso do casamento, vinca o sentido da família cigana.

Também nos negócios, a família é fundamental, tanto no início de vida, ou seja, no montar da sua própria banca, como já referi atrás, como posteriormente.

Caso haja dificuldade econômica para fazer este ou aquele negócio, é na família que se procura a solução, através de um irmão, de um tio que possa emprestar o dinheiro suficiente à concretização do negócio, ou que empreste uma peça de ouro que se possa penhorar e assim conseguir-se a verba em falta. Num breve parêntesis, o ouro, que tanto caracteriza a imagem pública dos ciganos, se sempre serviu de ostentação perante os outros, retratando a sua capacidade econômica, também tinha, e tem, a função de serem peças que facilmente se transformam em liquidez em caso de necessidade.

Muito recentemente, na casa dos meus pais, encontramos umas cartas que a minha mãe mantinha guardadas e respeitantes a correspondência trocada com o meu pai, quando este esteve ao negócio, ou à venda, no Brasil e na Argentina. São aí frequentes as referências ao «desempenhar-se» para regressar. Entenda-se o «desempenhar-se» como o ganhar ou acumular o suficiente para poder regressar e pagar a quem lhe emprestou dinheiro para adquirir a mercadoria. De igual forma, e muito interessante, é a frequente associação entre o «desempenhar-se» e o fazer «boa figura», na certeza que esta boa figura é interpares, é entre ciganos. Fazer bom negócio permitiria, assim, desempenhar-se, ou seja, pagar a quem lhe emprestou, e trazer algo mais para os seus filhos, fazendo «boa figura». É o sentido de honra alargado à família que está sempre presente. Esta é a verdadeira união e solidariedade cigana, a qual não é étnica mas sim familiar, do clã. Eu próprio, quando acabei o curso de Direito e resolvi abrir escritório, numa altura em que o meu dinheiro e o dos meus pais não era muito, fui ajudado pela minha tia Natália, entretanto já falecida, que fez questão de me dar o dinheiro para comprar a secretária e a cadeira.

Trata-se de um sentimento de família, muito enraizado e muito presente, que não se manifesta através de grandes convívios nem de muitas visitas à casa uns dos outros, mas que sentimos existir, como se estivesse sempre em lume brando e que a qualquer momento, devido a uma briga, uma morte ou um casamento, se incendeia.

VIII

Tenho alguma dificuldade em atribuir um título a este capítulo onde abordarei a resolução de conflitos e do papel dos homens mais velhos e, na dúvida, vou optar por Homens de Respeito. Antes, porém, é necessário frisar que a comunidade cigana cultiva o respeito pelos mais velhos, nomeadamente pelos homens, os quais têm um papel de grande destaque no seio da família, onde são ouvidos com veneração, independentemente das circunstâncias. Este respeito e veneração pelos mais velhos verifica-se tanto no seio da família como fora desse círculo, isto é, manifesta-se também pelos homens velhos de outras famílias.

E se falo em respeito e veneração, também falo de carinho. Se hoje em dia, em alguns meios da sociedade portuguesa, é frequente os miúdos
tratarem as pessoas mais velhas, que não são seus familiares, por «tio» ou «tia», poderíamos afirmar, ironizando, que se trata de um processo de assimilação da cultura cigana visto esta sempre ter tratado os seus ciganos mais velhos por «tio», apesar do visado não ser seu familiar, como forma próxima e carinhosa de se dirigir àquela pessoa que pelo seu passado e experiência de vida deve ser respeitado. Tanto assim é que cabe aos homens velhos, e de entre estes aos Homens de Respeito a aplicação da Lei Cigana. Interrogar-se-ão sobre o que é a Lei Cigana e o que serão os Homens de Respeito. Foi de forma deliberada que não reservei umas páginas para falar da Lei Cigana, uma vez que a mesma não resulta de qualquer texto escrito, onde conste um rol de normas a aplicar nesta ou naquela situação, sendo, antes, todo um conjunto de regras herdadas da tradição cigana e passadas oralmente de geração em geração.

Na prática, trata-se de um direito consuetudinário aplicado no seio das comunidades ciganas e nunca escrito. No fundo, em tudo aquilo de que temos vindo a falar, caracterizando a etnia cigana, temos abordado essas regras, essas leis, essas tradições, seja no casamento, seja no território. É por ser um «traço» transversal e onipresente, mas não autônomo, que optei por não o tratar de forma separada, integrando-o antes em cada uma das situações abordadas.

No que se refere aos Homens de Respeito, de entre os mais velhos estes são aqueles a quem cabe a aplicação da Lei Cigana. Não por terem feito algum curso para aplicação da referida lei, mas pelo respeito de que gozam no seio da comunidade cigana, resultante de, ao longo da vida, terem sempre agido com honra e na observância da tradição.

É de forma natural que a comunidade aceita ou considera que este ou aquele cigano velho, pela sua experiência de vida, forma de estar e relação com os outros, tem condições para poder ditar as leis. Por sua vez, a Lei Cigana é aplicada através de um mecanismo muito similar à figura do Tribunal Arbitral que o Direito Português há muitos anos adotou e agora se pretende implementar em todo o País.

É óbvio que os ciganos não têm um Tribunal, enquanto edifício ou estrutura orgânica, mas têm um mecanismo tradicional para resolver os conflitos que surjam no seio da comunidade. Ou seja, havendo um conflito entre duas famílias, é chamado um Homem de Respeito, que não seja familiar dos beligerantes e seja simultaneamente aceito pelas partes envolvidas, e será este homem quem, face à situação em concreto, ditará a Lei Cigana e resolverá a situação sem apelo, cabendo a cada um dos elementos das famílias desavindas respeitar a decisão, pois por aí passa também a sua honra enquanto ciganos.

A este propósito, recordo-me de ser rapazola de quinze ou dezasseis anos e de ter havido um conflito entre a minha família e uma outra residente em Torres Vedras, que começou com uma troca de palavras entre o meu tio Encarnado e ciganos da outra família e acabou, horasmais tarde, com uma cena de tiroteio, envolvendo as duas famílias, no qual uma prima minha, a Belica, foi ferida por uma bala numa perna. Depois desta ocorrência, vivemos meio entrincheirados em casa, todos juntos e sem ir a mercados, até que um Homem de Respeito aplicou a Lei Cigana de forma a que se pudesse viver em paz. No caso concreto, a outra família teve de sair de Torres Vedras, uma vez que o território pertencia à minha família, e os mercados onde as duas famílias tinham lugares foram divididos para que não se cruzassem. Esta preocupação foi ao pormenor de ficar estabelecido quais os dias, ou parte dos dias, em que cada uma das famílias podia ir ao cemitério venerar os seus mortos. Em casos como este, em que não há mortes, o tempo encarrega-se de atenuar o conflito e, anos depois, já é possível as famílias cruzarem-se sem que haja um reacender do mesmo. Situação diferente seria caso tivesse havido alguma morte.

A esse propósito, e embora fosse anterior ao meu nascimento, recordo que o meu tio «Lindo» foi morto em Torres Vedras, numa briga com ciganos oriundos do Algarve e, a partir de então, nem o meu pai nem os meus tios foram alguma vez ao Algarve em trabalho ou passeio. E caso houvesse algum casamento em que estivesse algum membro dessa família, a minha família não ia ou, então, a família que convidada tratava de acordar que em determinado dia iam uns e noutro dia iam os outros. Isto porque, em nome da honra, a Lei Cigana determina que se algum elemento da família ofendida se cruzar com um elemento da família que ofendeu, mesmo que não seja aquele quem disparou, tem a obrigação de tirar esforço e agir da mesma forma.

Interessante também de constatar, é o fato da Lei Cigana, aplicada através do Homem de Respeito, não procurar a regeneração ou a retaliação, tão vulgar nos sistemas jurídicos contemporâneos, mas sim, e tão só, a paz entre as famílias, dividindo os territórios. A principal preocupação não é tanto a busca ou o reconhecimento da razão, porque essa irá engordar ou emagrecer a honra de cada uma das famílias, nem procurar castigar ou educar aquele que não respeitou a Lei Cigana. Isto é, não faz juízo, visa somente assegurar a paz para o futuro.

Este olhar de respeito sobre os mais velhos – cuja sabedoria é posta ao serviço da resolução de conflitos, não pela condenação, como já foi referido, mas pela busca da paz – é uma imagem viva da tradição cigana, que vai sendo transmitida aos mais novos e que constitui um dos traços de identidade da etnia cigana de maior relevo e do qual se podem extrair ensinamentos válidos e atuais para a sociedade contemporânea[2].

IX

Para finalizar esta partilha sobre traços caracterizadores dos ciganos, elejo o luto como elemento distintivo da etnia.

Linhas acima relatei um caso em que o desrespeito verbal pelos mortos tinha dado azo a uma briga. Esta é uma realidade recorrente. O respeito por aqueles que falecem é vivido e sentido com grande intensidade. A dor manifesta-se a todos os níveis, sem embargo do luto ser mais ou menos severo em função do grau de parentesco do familiar que parte. De qualquer forma, a morte acarreta sempre para as famílias sofrimento presente e futuro, é sempre uma dor prolongada, cultiva-se a tristeza, tanto aos olhos dos outros, como na vivência do dia-a-dia.

Na forma como se vive o luto também passa muito da honra de ser cigano e de ser considerado «um bom cigano». O culto dos mortos, a preservação da sua honra, como forma de reforçar a honra da própria família, é uma das características da etnia.

A tradição chega mesmo a ter contornos de grande dureza cotidiana para os que ficam de luto. Tal é o caso, por exemplo, da viúva que ao sepultar o marido como que também se despede da vida, libertando-se de todos os seus bens, inclusive mobílias, dormindo no chão, rapando o cabelo e pondo um pano branco sobre a cabeça que ali deverá permanecer para sempre, não mudando de roupa e passando a ter como única tarefa cuidar da sepultura do marido, sendo o seu sustento garantido pelos filhos. Já estes, os filhos, permanecem de negro durante anos e, nesse período, não cortam o cabelo nem a barba, e durante um período, que pode chegar a um ano, não comem carne nem bebem vinho.

É verdade que a sedentarização atenuou um pouco a dureza deste rigor, até porque os hábitos de higiene passaram a ser outros e a existência de negócio regular ou diário obriga a outras exigências de comportamento, mas na sua gênese ele mantém-se.

Lembro-me que, quando da morte do meu avô, o meu pai e os meus tios não permitiram que a minha avó usasse o pano branco na cabeça sob o lenço preto, nem que dormisse no chão. Como também me lembro que, pela morte da minha avó, e ao fim de algumas semanas, os meus tios obrigaram o meu pai a comer carne porque estava a ficar muito magro e fraco.

É notório que para além do sentimento de perda, há uma reação de autoflagelação pela dor, como se a vida perdesse o sentido, ou melhor, ganhasse um outro sentido devido à ausência de quem morre. É como se houvesse também aqui solidariedade familiar com o sofrimento de quem deixa a vida, de quem deixa de viver cada momento, e sabemos o quanto o desfrutar do hoje, sem pensar muito no amanhã, é importante e caracterizador dos ciganos. Tanto assim é que há uma necessidade enorme de estar presencialmente perto do falecido, ou seja, a permanência no cemitério é uma das características da etnia. Agora que o meu gabinete de trabalho é virado para o cemitério, todos os dias, invariavelmente, vejo a minha prima Dália e o seu marido, o «Canadá», dirigirem-se para o jazigo onde repousam os seus familiares mais diretos, nomeadamente o seu pai, «António Preto», e, mais recentemente, a sua mãe e minha tia Laura e uma filha que padecia de doença degenerativa. Ali vão e ali estão juntos dos seus, limpando, substituindo as flores e conversando, pois o local acaba por se revelar como um local de encontro para os que ali acompanham os seus mortos.

A este sentir, a este acompanhar, se deve o quanto ofensivo se torna desrespeitar a memória de um familiar falecido, ao ponto de criar cisões profundas e irreparáveis entre famílias.

O próprio funeral é sempre uma manifestação de grande pesar, onde toda a família se encontra entre si e com os amigos, sendo por vezes desconcertante o contraste entre a dor e o luto carregado da família e os vestidos de festa das «solteiras» que, ao acompanharem os pais, não deixam de aproveitar a ocasião para se mostrarem aos demais. Neste aspecto, o funeral constitui, também, um encontro de ciganos com cambiantes de grande contraste, onde o choro cantado dos que estão de luto convive com a enorme preocupação dos que vêm ao funeral essencialmente para mostrar a sua «solteira», vestida e maquilhada como se numa festa estivesse. Mas, como já referi, também aqui, nos funerais, o poder econômico e a ostentação aos olhos dos seus semelhantes, que tanto caracteriza os ciganos, está presente, pois é um momento de encontro. Mesmo para os que estão de luto essa também é uma preocupação, pois a campa onde o seu familiar irá ficar sepultado terá de traduzir a sua situação econômica e a situação no seio da comunidade cigana. Tenho ainda muito presente que alguns minutos após a morte inesperada do meu pai, que faleceu a 15 de Março de 1999, o meu tio «Malhado» insistia comigo, dizendo que o irmão não podia ir para debaixo da terra, no que era corroborado pelo meu tio «Encarnado». Foi um problema difícil de resolver, ou melhor dizendo, difícil de discernir na altura, uma vez que o meu pai não era dado a estas questões, não as relevando, mas felizmente lá se resolveu a contento de todos e o meu pai não foi para debaixo da terra, tal como os meus tios pretendiam. Tal mostra-nos que na pós-morte a importância do que parte relativamente aos que ficam, e o modo como estes asseguram a sua memória, é determinante para a etnia.

X

Tal como disse no início, estes são para mim os traços identitários mais relevantes dos ciganos em Portugal, resultantes de um olhar e de um sentir muito pessoais e livres, mas condicionados, naturalmente, pelo fato de viver dentro e fora da etnia, não tendo, por isso, a imparcialidade que se exige a um observador externo e distante, nem a parcialidade emotiva de quem está, não por dentro, mas sim no seio, no âmago.

Podia perfeitamente ter falado de outras características, como a superstição que acompanha os negócios e a vida, a disponibilidade para viver o presente e que leva a não pensar no dia de amanhã, os trajes ou vestir que já foram muito garridos e hoje são mais sóbrios, mas não menos compridos, ao contrário do que se passa em Espanha, que tanto nos influencia. Poderia falar no Natal e na forma de o celebrar, ou até na religião e nas diversas formas de se manifestarem ou de nelas se acreditar, mas entendo que tais aspectos, por muito relevantes que possam ser, não são, ou não foram, verdadeiros traços de identidade.

Espero que esta conversa passada para o papel possa de alguma forma ajudar a melhor compreender e entender os ciganos, na certeza que é no conhecimento e na compreensão do que nos diferencia que melhor e mais rapidamente conseguiremos chegar ao encontro do que nos une e igualiza.

Uma sociedade quanto mais diversificada for e mais igualitária se torne, será, com certeza, uma sociedade integradora, que respeita o seu passado, constrói o presente e acredita no seu futuro. Esta poderá muito bem ser a nossa sociedade portuguesa.

Notas

[1] É claro que estes «sinais dos tempos» têm uma origem muito recuada, basta relembrar as perseguições de que a língua foi alvo: «[…] se lhes poreboira que não fallem gerengonsa, nem a ensinem a seus filhos» (Alvará de D. João, de 1686); «Hey por bem, e mando que não haja neste Reyno pessoa alguma que use de trage, língua, ou Giringonça de Ciganos» (Lei de 1708).

[2] Em jeito de provocação, poderíamos desafiar o leitor a tentar encontrar um cigano internado num lar de terceira idade. De certo que não iria encontrar nenhum. Poder-se-á pensar que será por uma questão econômica, mas não o é. É sim por uma questão de respeito, de carinho e de honra, pois os mais velhos, a par das crianças, são os elementos mais importantes da família.

FONTE: http://www.oi.acidi.gov.pt/docs/Col_Percursos_Intercultura/2_PI_Cap5.pdf

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