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ALFREDO E SUA BUSCA INSANA

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   Júlia é linda como um bibelô desnudo de porcelana da vovó. Tem uma alma generosa.
   Se compadece tanto com pessoas sem eira, quanto com animaizinhos abandonados.
   Sexualmente, tem sua sensibilidade voltada para todos os seres humanos, sejam homens ou mulheres. Por isso, a insegurança de todos que se interessam por ela em um relacionamento duradouro. Se fossem só os homens. Mas ainda tem as mulheres. A concorrência vem em dobro. É foda. Tem que ser muito descolado.
   Quanto aos homens, ela gosta de repartir seus vícios de ácido nos passeios.
   Adora passear levando os namorados nas viagens acidificantes, mesmo que eles não provem dos grãozinhos coloridos. Se a polícia aparece, não está só. Passa por uma namorada andando com o parceiro à procura de escurinhos atraentes.
   Com os perdidos, espera pegarem-na à força, e então se entrega.  Se não a pegam, termina. Não é má por isso. Apenas tem um desvio de caráter. Crescera num lar oprimido por seu tio, que a criara depois que seus pais morreram em acidente de carro. E esse tio a manipulava desde os tempos mais tenros.
   Ela está sentada numa cadeira do lado de fora do bar do Naldo, ao lado de umas colegas do Jardim AI-5. Seu skate está debaixo da mesa.
   Nota Alfredo de longe. Desde que ele chega no bar do Otanias, ela o observa, enquanto ele toma uma cerveja com torresmo e ovo cozido. Aninha tem sentimentos contraditórios por ele. Se sente atraída e, ao mesmo tempo, lhe tem repulsa.
   Alfredo chegara ao Bar do Otanias bem puto. Costumava chegar às oito da noite. Ali ficava até as dez e depois passava ao Bar do Naldo. Mas o fato é que naquela noite chegara mais tarde.
   Alfredo tem uns quarenta e cinco anos. Alto. Barba rala. Oficial da Marinha, anda sempre com uma arma automática. Vez em quando some por dias, no comando de um submarino da classe Tikuna. Sempre excessivamente perfumado. Costuma tomar uns quinze banhos por dia. Haja água. Só não tem tato. Nem muita moral. Acha ética e moral prejudiciais ao macho em certos ambientes.
   Aqui entre nós, Alfredo passa por macho 100 % mas e uns 99 %. Pois, certa feita, precisando de dinheiro, saíra com uma transsex, a Claudine. Operada, mas transsexual. Mas ninguém fale isso pra ele, viu?
   Alfredo sai do Otanias pro bar do Naldo.
-Hoje, eu traço uma lésbica! – gritou pro Zé Maia, que estava encostado na mureta.
- Então, a gente tem que ir no Forró da Nice. Lá eu sei que tem mulher pra carai, não é, Moreno? Diz tu, que já foi lá – agitou o Zé Maia.
- É, tem mulher de todo jeito..- disse Moreno.
   Zé Maia aproveitou:
- Tu gosta, Moreno?
- Até sem banho. Com farinha e cerveja, faço estrago!
- Mas eu quero trepar com uma lésbica daqui. Já encasquetei. Nesse lugar, hoje, tem o maior número de lésbicas por quilômetro quadrado! E eu adoro desafios! E vou mudar uma lambe neste bar. Ou não me chamo Alfredo Neves .
   Pontificou Zé Maia:
-Tu não vai conseguir, Papel. Eu já tentei. O Lean ali é testemunha.    Aliás, todos que tão aqui podem dizer. Eu tentei. Me estrepei. Me fodi. Cuspiram ni mim. Foi foda. Foi foda.
   O Alfredo fica puto quando o chamam de Papel. O apelido pegou por causa daquele comercial de papel higiênico.
   Antes que Zé Maia começasse a chorar, lembrando da cuspida, Alfredo falou, decididamente.
-Eu não vou me estrepar. Escolha uma. Aponte.
-Qual?
-Puta-que-o-pariu! Escolhe uma, porra!
-Tou pensando. Tou pensando.
-Ah, vai te foder, Zé. Lean, me aponta uma lésbica!
   Lean apontou. Alfredo foi. Foi até Aninha.
-E aí?
-E ai?
-Eu te quero.
-Eu não te quero.
-Gata, você me conhece?
-De outros lances.
-Então, olha, é o seguinte. Você só finge. Eu disse pros meus amigos que iria trepar com uma lésbica e...
-Você quer que seja eu.
-O Lean apontou você.
-Aquele de jaqueta?
-Bem, ele mesmo.
-Ele é meu tio. É mesmo um safado. Vou falar pra tia onde ele fica tarde da noite.
-Não sou de família. Fala, quanto você quer?
-Não quero nada. Não vou com você nem por um milhão.
   Mentira, por um milhão ela ia. Ia e repetia toda a noite juras de amor eterno.
   Alfredo, com raiva ou despeito por ser rejeitado, gritou pra todos ouvirem:
-Pessoal, a menininha aqui quer dar pra quem tiver dinheiro e pau pequeno!
   Sem querer, Alfredo acertara. Ela preferia os pequenos porque era muito rasa. Sabem, como uma piscinha pra crianças. Como um copinho de boneca ou coisa assim.
-Seu idiota, você quer me desmoralizar? – sussurrou Aninha.
-Você já não tem moral. Tem moral, tem?
-Tá bem. Tá bem. Vamo lá, seu grosso de merda! Daqui a uma hora.
- Nada. Agora. Ou você quer que eu torça seu braço?
   No fundo, ela queria. Ela odiava machezas na teoria, mas, na prática uma distorção de personalidade fazia com que gostasse de ser tratada como uma escrava na hora das pedras rolando.  Foram para o fim da rua, onde havia um terreno abandonado.
   Ela fez um muxoxo de mulherzinha enjoada.
- Eu não sou mulher de terreno abandonado!
- Mas eu sou um cachorro de terreno baldio. Vamo, vai descascando.
   No momento em que Alfredo chupava as mais gostosas laranjinhas da china do mundo, carocinhos róseos e salientes, aparece um cara com um facão enorme. Um psico. Quando ele tava quase chegando lá, a faca encosta em sua coluna.
   No entanto, o psico ficou espantado. Não esperava reação. Como Alfredo era sem medo e gostava de uma briga, reagiu, lutou com o maluco. Aninha aproveitou pra fugir. Voltou pro Naldo, espalhando o acontecido.
   Alfredo pegou na lâmina da faca com sua mão direita. Não ligou pro sangue. Deu uma surra no atrevido com o cabo da faca. Após, tirou a lâmina, que já tava meio solta, e ofereceu o cabo pro outro.
- Vou deixar este cabo contigo. Quem sabe você não troque por uma pedra das pequena.
   E com o cabo deu na cabeça do sujeito umas vinte vezes.
   Milagrosamente, o psico conseguiu correr, quando Alfredo limpou o suor dos olhos com a manga da camisa. Alfredo, só após o embate, notou o sangue que escarlateava de seus dedos para a rua. Tirou a camisa e enrolou na mão. Fulo da vida, com morte nos olhos, retornou ao Naldo e quis retomar a iniciativa com Aninha.
-Não, você está sangrando e eu detesto sangue.
-Que papo é esse? O sangue não tira minha vontade de você.
-Mas tira a minha.
   Pegou pelo braço a menina. Nisso, aparece Jaboatão, uma lésbica de dois metros e lutadora de... alguma coisa.
   Alfredo estudou os pontos fracos de Jaboatão. Até lutaria, não estivesse com a mão naquele estado. O jeito foi se sentar próximo à mesa do Moreno, que bebia e pontificava sobre teatro pós-moderno. Lean no outro extremo entretinha um casal de amigos sambistas com uma de suas piadas sem graça.
Mas Alfredo não desiste.
-Moreno, agora você. Me aponta uma lésbica.
- Desiste, Alfredo. Aqui não tem jogo.
- Aponta, porra!
   Moreno aponta. Alfredo vai. Duas mulheres, bem femininas, se beijam. Alfredo sente tesão misturado com nojo. Quer estar ali com uma delas. Ou no meio delas. Como não participa, despeita.
-E aí?
   As duas olham.
-Vocês me deixam sentar?
-Fora. A gente já te conhece. Aqui você não tem espaço.
   Alfredo volta enfezado pra mesa do Moreno. Bebe uma garrafinha de cerveja de uma vez só, levanta, olha pras duas e grita:
-Vocês só são do lambe-lambe por que não conheceram a minha rola!
   As meninas suspendem o beijo e decidem ir pro bar do Otanias.
   Lean aproveita e pergunta a Alfredo, de modo bem sacana.
- E se uma delas aceitasse, você trepasse e ela quisesse depois te comer com o consolo de preferência? Como aquele que a Aninha já mostrou pra gente uma vez.
- Não tem problema! Eu ia poder dizer que fui comido por uma mulher! Por uma mulher, entendeu? Só é viado quem é comido por homem! Por homem! Uma mulher enrabando é uma mulher enrabando.
   Como ele falou alto, foi uma gargalhada quase em uníssono no bar.
- Viado! Viado!
   Alfredo pegou sua arma, engatilhou, mas não precisou fazer mais nada. Todos sabiam que era da pá virada. E protegido por altos poderes aos quais nas horas vagas ajudava, organizando equipes de segurança. Geralmente, equipes de militares expulsos que participavam de suas ações desconhecidas.
   Lean chegou no seu ouvido.
-O lance é ir pro Largo do Barqueiro. Lá tem uma casinha cheia de putas japonesas. Vai por mim.
- Não, não. É hora de eu ir pro Otanias.
   Alfredo vai ao Otanias, esperançoso. Anda de mesa em mesa. No entanto, não vê desafio. Todas as moças que estão ali tem companhia. De todo tipo. Hetero com hetero. Homo com Homo. Bi com Bi. Etc. com Etc.
   Alfredo bebe até o cu fazer bico. Naldo fecha. Otanias fecha. E    Alfredo sai pela Rua Pedro I, mijando nas calças, cantando para as cadelas e para a lua uma canção triste que desvirou os sonhos e faz lacrimejar as estrelas, balançando lentamente o lençol da noite estrelada.  A noite lhe pede Almir Guineto...

Deixe de lado esse baixo astral
Erga a cabeça enfrente o mal
Agindo assim será vital para o teu coração
É que em cada experiência se aprende uma lição
Eu já sofri por amar assim
Me dediquei mas foi tudo em vão
Pra que se lamentar
Se em tua vida pode encontrar
Quem te ame com toda força e ardor
Assim sucumbirá a dor
Tem que lutar
Não se abater
Só se entregar
A quem te merecer
Não estou dando nem vendendo
Como o ditado diz
O meu conselho é pra te ver feliz


   Cantava bem o oficial. Sua voz emitia sons como os da lira de Orfeu. Comoviam   do   mundo   sólido   ao   gasoso.  Mas   nenhuma   mulher.    Nenhuma flor naquela noite de espinhos e espíritos perdidos e solitários. 

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