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EPÍLOGO DE JAMES BOND

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Num beco escuro, próximo a uma academia de Caratê, ali no Jardim das Indústrias, Lucas tem o seu epílogo. 

Enquanto estrebucha na calçada, pensa.

“Caralho! Tou morrendo! O furo é grande, parece uma buceta de puta véia! Essa buceta dói pra caralho!”

Ele relembra seus últimos momentos. As cenas como que passam, deslizam, ante seus olhos. Plano americano. Travelling, etc.

Acessamos em sua mente os capítulos; damos zoom, em flashback.

Rosa, que já foi gostosa fruta pra bom suco, se acabou logo na lida.


No começo de sua adolescência, foi muito elogiada por sua beleza. 


Chegou a ganhar um concurso de Rainha Dread. Seus cabelos vermelhos foram notados por Mayara, dona de um estúdio especializado na feitura de dreads.

Foi numa praia. Ela bebia um copo de refrigerante, debaixo de um guarda-sol. Mayara se aproximou e disse a que veio. Rosa ficou deslumbrada. 


Aceitou fazer os dreads. No dia seguinte, iria ao estúdio, localizado perto dali.

Rosa estava na Praia do Perequê, no Guarujá, para onde ela fugira de seus pais com um vendedor de bugigangas colombianas, o Bráulio.


Bráulio vendia pacas, mas, o dinheiro que ganhava era todo gasto em cocaína e mesclado.


Na verdade, ele também fugia de seus pais. Sua mãe apanhava constantemente e ele não aguentava aquilo. Tentava interferir mas a mãe defendia o velho. O único remédio era sair dali pra um lugar bem longe.


Porém, quando Rosa foi chamada pelo estúdio, ele desapareceu. Pode ter voltado pra casa, ou sido assassinado por dívidas. Rosa nem quis saber. Seus olhos brilhavam com a possibilidade de ser modelo famosa.


Ganhou um book com as fotos. Contudo, não soube o que fazer. Talvez não quisesse fazer nada. Tava numa fase aguda de dependência de cocaína.


Ficou muito só. Ainda procurou Bráulio, mas, nem sinal dele. Para alimentar seu vício, entrou fundo na prostituição. Chegou a conhecer uma moça, a Lila, que se afeiçoou a ela, até que descobriu ser Rosa uma prostituta. Lila ficou possessa. Odiava prostituta. Era uma lésbica direita.


O tempo foi passando e Rosa conheceu Giba, vendedor de pipocas e capoeirista dos bons. Giba ajudou-a a se livrar das drogas mais pesadas. Tolerava apenas a maconha, da qual era um usuário sem fanatismo. A maconha não provocava nele um efeito similar ao que causava em outros usuários. Pensara até em largar de vez, mas, quando Rosa aparecera, era um pretexto para usufruir de sua companhia e conquistá-la.


Rosa e Giba se juntaram. Ficaram cinco anos juntos. Essa relação teve um fruto, a quem deram o nome de Francisco em homenagem ao avô de Rosa.


Rosa, porém, degringolou. Recaiu. Em pouco tempo, virou um trapo humano. Giba, desgostoso, depois de uma briga, saiu pra rua. Era um dia de chuva intensa. Muitos trovões e relâmpagos. Não viu a morte chegar. Um fio de alta tensão soltou e reduziu Giba a carvão.


Rosa, transtornada, afundou mais na lama em que estava. Teve a desfaçatez de vender o filho. E muitas outras coisas miseráveis lhe aconteceram até cair nas mãos do mafioso Granola.


Voltamos ao presente. Vemos ela aparecer no cemitério, desabafando sua humanidade sempre à flor da pele e confessando a Lucas, que está sempre coçando a nuca e fungando.

Lucas é um daqueles que precisam nascer de novo para ser digno do amor que os tios lhe dedicaram. 


Fora criado por eles após a morte dos pais num acidente, atropelados por um filho bêbado de um primo em nono grau do deputado Bemnumfaia.

-Ela só tinha nove anos, Luquinha.

-E eu com isso. O homem mandou, tá feito o serviço. Você já devia ter se conformado com o jeito dele resolver as coisas. Ele é assim. O pai da menina pisou com ele, a filha pagou.

-Pois é. A gente tá com o rabo preso até a outra vida.

-Principalmente você, que lhe arranja as menininhas.


Rosa cala. Quando sai dali, vai direto pra boca de fumo próxima, comprar maconha e cocaína. Ela não compra só pra si. Compra pra umas amigas que não têm coragem de ir até a boca. Uma delas, a Adelaide, é dançarina na Companhia Municipal, de primeira, respeitada e adulada. A outra é casada com o dono da principal concessionária de automóveis da cidade.


Depois, Rosa vai pra casa e dorme umas duas horas. Sonha com seu filho. Ultimamente, Rosa pensa muito nele. Acorda rapidamente quando o celular desperta. Hora de ir pro Inferninho’s Bar. Precisa saber de Granola se ele fez o que ela pediu.


Lá, Rosa, logo que adentra, dá de cara com o chefão dos caminhos perigosos. Vai ansiosa até ele.

-Então, nolinha, tu já descobriu pra mim.

-O quê?

-Não brinca comigo. Fala. Tu descobriu?

-O caso da tua criança?

-Vai me dizer que tu não conseguiu nada?

-E se eu conseguir o que tu precisa?

-Quanta coisa eu já te fiz e nunca pedi nada? Eu só pedi, porque eu sei que é fácil, não custa nada pra ti.

-Mesmo assim, eu quero que tu me pague.

-Como?

-Preciso que tu me pegue um dinheiro, logo, logo.

-Pode contar comigo, claro. E a minha criança?

-Tu acha que ele vai te aceitar assim..Cê sabe, né? Cê ta me entendendo?

-Sei, sei, eu sei que sou uma puta. Sempre fui. Por isso, tive de dar ele pra outra pessoa.

-Você saberia reconhecê-lo, se o visse?

-Uma mãe nunca esquece a cria. E ele também tem uma marca. Uma das suas unhas é preta.

-Tá bom, tá bom. Depois a gente fala nisso.

Um bêbado em revolta, o Murilo Cachaça, vem de um dos quartos.

-O grande Granola multiplica os peixes e os pães, transforma a água em vinho bom, mas, só uma coisa ele não faz.  Ele não consegue, coitado. Ressurreição dos mortos. É que são muitos e ele não é Jesus. Mas ele compensa isso, matando os vivos. Quem quer vender sua alma ao grande Granola? Ele já tem a minha. E pisa nela como um tapete de banheiro. Quanta honra me dão os seus pés!!

Na escuridão, um gesto agudo se prepara. Um gesto definitivo para a voz do que clama no deserto, o acusador-trovão, Murilo João Batista.

Granola não acredita no que vê e sorri. Um riso de triunfo e de sadismo.

Alguém dá um tiro pro ar. Todos os presentes se agitam. Começam a correr.

Alguém se aproxima de Alguém e o torna Ninguém com sua faca comprida e afiada.

Granola pega Rosa pelo braço. Rosa deixa-se levar. Não entende nada. O mafioso revela.

- Eis o seu filho! Filho, eis a sua mãe!


- O Murilo é meu filho?


- Tou dizendo.


- E você sabia disso?


- Aqui eu sei de tudo. Nada é sem eu deixar que seja.

Granola gargalha. O sangue jorra copiosamente. Rosa vai interiorizando sua veia dramática. Do silêncio de quem toma um choque passa ao choro, Pietá do inferninho.


- Nããããooooo! Meu filho, nãããããoooo!

Perto, o assassino – Lucas - faz um sinal de serviço feito para Granola. A relação entre eles era assim. Lucas aprendera a ler nos olhos de Granola.

Ao entardecer do outro dia, vemos Rosa, solitária, no cemitério, frente à gaveta do filho. Em gesto lento, sua mão se aproxima de uma colher de pedreiro, a que foi usada para vedar o último lar de seu rebento. Pega e a põe na bolsa.
Lucas acompanha de longe e fica sem entender o gesto.

- Cada louco com sua mania...

As imagens vão se apagando na mente de Lucas. Zoom no tempo presente, que se estabelece, em plenitude e agudeza.

“Eita, colher de pedreiro afiada. Aquela puta deve ter passado num esmeril...Ai.  Ela me esfaqueou bem no.....Por quê?... Será que ela vai fazer igual à minha tia? ..Meu pinto colocado numa caixinha feito um bibelô? Ia ser uma vergonha. Só falta essa..... O fio de meu pensamento se esgota. Meu labirinto já foi explorado. Cheguei. Não sinto nada de minha voz. Uma vergonha pra quem antes, como eu, era chamado de Zero Zero Lee.... Me sentia James Bond, o 007 do kiai, o bambambam secreto.... Eu tinha um kiai forte. Bem forte..Ai que dor, caralho!”

Um grupo estranho se aproxima do corpo de Lucas. Vai sendo cortado rapidamente por homens experientes em seu mister de tráfico de órgãos. Pegam seus rins, fígado, coração. E o último cheque que recebera de Granola. 

O que sobra é quase um buraco, quase uma gaveta talhada na carne. E uma falinha longínqua teimando num restinho de memória espalhado nos miolos lavando a calçada:

“James Bond, meu nome é James Bond..”


IMAGEM ACIMA - O Grito, Mazé Leite, óleo sobre tela, 2013


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