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INVERSÃO SEXUAL ENTRE OS AZANDE

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Guerreiros Azande
Resumo
A relação homossexual masculina e feminina parece ter sido comum entre os Azande em tempos passados. Entre homens, essa relação era aprovada nas companhias militares de homens solteiros. Entre mulheres, a relação era descrita como frequente nas práticas em casas poligâmicas, apesar de altamente desaprovada.

Palavras-chave: Sudão – região sul. Azande. Inversão sexual.


Sexual inversion among the Azande

Autor: E. E. Evans-Pritchard
Antropólogo, Universidade de Oxford

Tradução: Felipe Bruno Martins Fernandes
Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e do Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária e Científica com o Brasil (CAPES/COFECUB)

Revisão: Dennis Wayne Werner
Professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Doutor em Antropologia pela City University of New York (CUNY)


É inquestionável que a homossexualidade masculina, ou melhor, a relação sexual entre jovens guerreiros e rapazes, era comum em tempos pré-europeus entre os Azande e, como assinalou Czekanowski (1924, p. 56), citando Junker (1892, p. 3-4), não há quaisquer razões para supor que a homossexualidade foi introduzida pelos Árabes, como alguns já pensaram.

Todos os Azande que conheci bem o bastante para discutir esses assuntos afirmaram que a homossexualidade feminina (lesbianismo) também era praticada em casas poligâmicas em tempos passados e ainda o é no presente (1930). Este ensaio reúne informações sobre ambas as práticas e apresenta traduções de alguns textos sobre o assunto, coletados entre os Azande do Sudão há quarenta anos. (Levando-se em conta que a publicação original desse texto aconteceu no ano de 1970.)

Antes da imposição da regra do governo europeu, havia muitas disputas entre os diferentes reinos (EVANS-PRITCHARD, 1957b, 1957c). Parte da população masculina adulta de cada reino era organizada em companhias militares de abakumba, “homens casados”, e aparanga, “homens solteiros”. Essas mesmas companhias, para além das funções militares, serviam na corte de várias formas, inclusive os homens das companhias eram chamados para trabalhar nas lavouras dos reis e dos príncipes (EVANS-
PRITCHARD, 1957a). No presente relato, não nos referiremos outra vez às companhias de homens casados. Fazia parte do costume das companhias de homens solteiros, alguns dos quais viviam em tempo integral nas cabanas do reino, tomarem rapazes-esposas. Isso era, sem dúvida, produzido pela escassez de mulheres disponíveis para o casamento nos tempos em que os mais ricos mantinham grandes haréns, o que só era possível para eles porque eram necessários muitos recursos para se obter uma esposa e esses homens tinham mais facilidade do que homens pobres para consegui-los. A maioria dos homens jovens, consequentemente, casava-se tarde, quando tinha em torno de trinta anos – e isso se devia ao fato de as meninas ficarem noivas (em um sentido legal, já casadas) bastante novas, muitas vezes, desde o nascimento.

Dessa forma, a única maneira pela qual os jovens podiam obter satisfação com uma mulher era por meio do adultério. Entretanto, o adultério era uma solução muito perigosa para resolver o problema do jovem, em função da multa muito alta que seu pai teria que pagar caso fosse descoberto – vinte lanças e uma mulher, o que significava, concretamente, o pagamento de duas mulheres ao marido. Algumas vezes, o marido ficava tão enfurecido que recusava a compensação e escolhia, em vez desta, a mutilação do ofensor, cortando suas orelhas, lábio superior, genitália e mãos. Assim, com o risco sendo tão alto, era comum aos solteiros cautelosos das companhias militares que viviam na corte, caso não se satisfizessem com a masturbação – prática que não era considerada vergonhosa, embora nenhum jovem a fizesse em público –, casarem-se com rapazes para, dessa forma, “satisfazerem” com eles suas necessidades sexuais. Um jovem de boa posição em sua companhia talvez pudesse ter mais de um rapaz (kumba gude). Para esses rapazes, seus companheiros guerreiros eram badiya ngbanga, “amantes da corte”.

Acredito que o desaparecimento total dessa instituição em tempos pós-europeus mostra que o reconhecimento dessa união temporária entre um jovem e um rapaz era decorrente das dificuldades no passado de estes se satisfazerem com relações heterossexuais. É verdade que as companhias militares também desapareceram, mas os Azande atribuem (corretamente, ao que acredito) o abandono do costume ao fato de o casamento para jovens ter se tornado mais acessível e ao desarranjo geral da moral, incluindo a supressão das punições habituais nos casos de adultério e fornicação. O casamento entre rapazes era devido, como dizem os Azande, à zanga ade, “carência de mulheres”. Como pontuou um homem: “qual homem preferiria um rapaz ao invés de uma mulher? Ele seria um tolo. O amor por rapazes surgiu pela carência de mulheres”. Dessa forma, os Azande falavam do casamento entre rapazes como um kuru pai, “costume antigo”, ainda que eu não tenha escutado nenhum homem falar sobre dormir com um rapaz com desagrado – na pior das hipóteses, consideravam o costume como algo engraçado. Mesmo na minha época, os Azande falavam de um homem que antes foi o rapaz-esposa de algum guerreiro da mesma forma como nós, na Inglaterra, falamos de alguém que tinha sido o fag de alguma celebridade (N.T.: Termo específico da época de publicação do artigo usado para referenciar uma espécie de “escravo” de um colega mais velho nas escolas particulares inglesas).

Também é necessário esclarecer que, como na Grécia antiga, até onde podemos julgar, quando os rapazes-esposas cresciam e quando eles e seus maridos posteriormente se casavam com mulheres, passavam a ter uma vida normal de casados, como qualquer outro casal. Não havia os urnings que existem no sentido europeu moderno (N.T.: Termo específico da época de publicação do artigo usado por Kraft-Ebing para homossexuais passivos convictos).

O costume do casamento entre rapazes desapareceu antes de minha primeira visita ao território Zande, o que impossibilitou a observação direta.

Dependo, dessa forma, apenas dos relatos sobre o passado, os quais eram unânimes entre os homens mais velhos. Tenho usado propositadamente os termos “esposa”, “marido” e “casamento” porque, como os textos a seguir deixarão claro, se tratavam de uniões legais nos modelos de um casamento normal (pelo menos enquanto durassem). O guerreiro pagava o preço da noiva (por volta de cinco lanças ou mais) para os pais do rapaz e realizava
serviços para eles da mesma forma que faria se tivesse casado com uma das suas filhas. Caso ele provasse que era um bom marido, os pais então substituiriam o filho por uma filha. Também, se outro homem tivesse relações com o rapaz, ele poderia, como me contaram, processá-lo no tribunal por adultério.

Os rapazes eram “mulheres”: “Ade nga ami”, eles diriam, “nós somos mulheres”. Um rapaz era chamado por seu amante como diare, “minha esposa”, e o rapaz o chamaria de kumbami, “meu marido”. O rapaz comeria fora da vista dos guerreiros da mesma forma que as mulheres não comem na presença de seus maridos. Os rapazes realizavam muitos dos serviços menores que uma mulher cumpria diariamente para seu marido, tais como a coleta de folhas para sua limpeza sanitária, a coleta de folhas para sua cama, a coleta de água, o corte de lenha, a ajuda no roçado das lavouras do pai de seu esposo e o fornecimento de mensagens e mantimentos cozidos de sua casa para a corte para complementar aqueles dados pelo príncipe, mas não cozinharia mingau para ele. No que diz respeito a esses serviços, o que devemos manter em mente é que um rapaz na corte não tinha a mãe ou as irmãs para cuidarem dele. Também o rapaz-esposa carregaria o escudo de seu marido quando a companhia estivesse em viagem. Deve ser entendido que ele realizava esses serviços a fim de que a relação não fosse pensada como inteiramente de natureza sexual, uma vez que deveria ser entendida como tendo um lado educacional. No que diz respeito ao lado sexual, à noite, o rapaz dormiria com seu amante, que manteria com ele, por entre as coxas, relações sexuais (os Azande demonstravam aversão à possibilidade de penetração anal). Os rapazes conseguiam o máximo de prazer que podiam ao friccionar seus órgãos na barriga ou na virilha do marido. De qualquer maneira, embora existisse esse lado da relação, era claro nos relatos dos Zande que também havia o conforto em compartilhar uma noite na cama em companhia.

A palavra “rapaz” (kumba gude) aparentemente deve ser traduzida livremente, pois, a partir do que escutei, os mancebos deveriam ter entre doze e vinte anos. Quando deixassem de ser rapazes, eles adeririam às companhias de guerreiros de seus ex maridos e tomariam por sua vez rapazes como esposas; dessa forma, o período de casamento era também um período de aprendizado.

Não posso apresentar números de casamentos com rapazes, entretanto, posso afirmar que a prática era aceita e comum. Obtive listas com séries de tais casamentos de vários homens mais velhos, mas seria de pouco proveito tentar documentar tais séries com nomes, uma vez que já se passou muito tempo (65 anos após a morte do rei Gbudwe).

Antes de apresentar os textos, há que se declarar ainda que alguns membros da nobreza reinante se envolviam em relações sexuais homossexuais. Normalmente, eram os filhos jovens de príncipes que permaneciam na corte até seus pais entenderem que era a hora de dar-lhes uma esposa e distritos para sua administração. Eles se mantinham distantes do harém de seus pais e tomavam rapazes plebeus como serviçais e para seu prazer sexual. Parece que o príncipe, por maior número de esposas que pudesse ter, também dormia eventualmente com um rapaz, em vez de ficar sozinho na noite anterior de uma consulta ao oráculo, uma vez que a relação sexual com uma mulher era um tabu nessas ocasiões. Era dito que “kumba gude na gberesa nga benge te”: “um rapaz não arruína o oráculo de veneno”. Fora isso, soube apenas de um príncipe sênior – deposto pela administração – que, apesar de ter muitas esposas, ainda dormia habitualmente com rapazes. Por essa e outras razões, ele era considerado pelos Azande como levemente louco. Ninguém deve tirar conclusões precipitadas, como Czekanowski fez sobre os registros de Junker a propósito dos rapazes que acompanhavam o príncipe Zande onde quer que ele fosse, pois todos os reis e príncipes são acompanhados por pajens, que eram tratados por seus mestres com notável indulgência, em contraste com o distanciamento severo com o qual seus superiores eram usualmente tratados.


Caso deseje ler o artigo na integra baixe A inversão sexual entre os Azande - CCHLA/UFRN.pdf

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