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PRÍAPO PEIXOTO

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Pirilo Príapo Peixoto tem 57 anos, é caminhoneiro faz muito, nem sabe o tempo ao certo.

Ultimamente, andava preocupado com seu coração. Estava sentindo dores agudas do lado esquerdo do peito. E se não fosse o coração?

Antes de ser caminhoneiro, estudara dois anos a faculdade de história.

Naquela faculdade ficava de frente àquele famoso Sex Shop Trevisan

Hoje, dera pra rememorar cursos parados, coitos interrompidos e flechas desfechadas.

Ovídio estava jogado em cima da licença do veículo.

Príapo começou a lê-lo sem planejamento, de forma aleatória, após entornar uma garrafa de vinho e copiar um verso erótico.

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

A cabritinha saiu do cercado, depois de dar uma mijadinha no canto noroeste, a três ou quatro metros da casa principal. Todo estava calmo naquele dia.

Não podemos evitar que desapareçam as graças da juventude. Colhei, pois, a flor, porque, caso contrário, sem proveito murchará e cairá.
Segui o exemplo das deusas, e não desdenheis dos gozos que vos podem proporcionar os desejos dos vossos amantes.
Chegará um dia em que tu, que agora foges ao amor, te verás velha e abandonada, condenada a passar a noite sozinha, no teu leito gelado. Por tua causa não se levantará nenhuma disputa noturna querendo forçar-te a porta, nem, pela manhã, terás rosas espalhadas junto da soleira.
Os anos correm e passam como a água; a onda que passou ante os nossos olhos, como a hora que passa, jamais voltará. Por isso, é preciso retirar proveito da idade; por muito felizes que sejamos, a idade escapa-nos rapidamente, e nada é como dantes.

Margeando o rio, a cabritinha parou ante um monte redondo de conchas, onde pretendia se encontrar com as cabritinhas do seu Pascoal.

Diverti-vos impunemente com as mulheres, se sois sábio.
É mais fácil que os pássaros emudeçam na Primavera, que as cigarras não cantem no Verão, ou o cão de Nénalo fuja diante das lebres, do que uma mulher resistir à carinhosa solicitude de um homem.
Promete, promete com ousadia, pois as promessas vencem as mulheres! Júpiter, que lá do alto observa e testemunha os perjúrios dos amantes, ri-se deles e ordena aos ventos de Éolo que os levem e anulem.

Deves mostrar-te apaixonado e, com as tuas palavras, dar a sensação de que estás ferido de amor. Para persuadi-la, todos os meios são bons. Não é difícil fazê-la acreditar. Toda a mulher se julga digna de ser amada e nunca faltou um chinelo velho para um pé doente.
Quem rouba um beijo e não rouba o resto, merece perder os favores prometidos.

O tempo foi passando e nenhuma das amigas apareceu. Surgiram sim uns sete ou oito homens, com os quais a cabritinha fez fácil amizade.

O amor proibido agrada igualmente ao homem e à mulher. Apenas acontece que o homem não sabe dissimular, e a mulher esconde muito melhor os seus desejos.
Até as mais castas sentem prazer quando são elogiadas pelos seus encantos. Também as virgens zelam e cuidam da sua beleza.
Faz, pois, com que a tua amiga trema; ateia o incêndio no seu morno coração; que ela empalideça ao ter conhecimento da tua infidelidade.
Quando estiver muito irritada e te parecer que se tornou numa declarada inimiga, pede-lhe para fazerem as pazes na cama. Tornar-se-á mansa.
É na cama que se fazem as pazes, sem se recorrer às armas. É lá que nasce o perdão. As pombas que brigam constantemente,

Com as vergonhas de fora, e bastante cansada com os abraços proporcionados pelo fácil convívio, a cabritinha senta-se ao pé da Ponte do Arco Cinzento. Pega um batom e um espelhinho na sua bolsa e passa com toda a sensualidade de cinema mudo na sua boquinha de lábios salientes. Sentada, bem à vontade, não percebe o paraíso lascivo que deixa à mostra, tendo a natureza por testemunha.

Está cansado. Não lê o resto de Ovídio. A bexiga lhe aperta. Sai da cabine.

Príapo verifica as rodas, a gasolina, o óleo, enfim, cuida em ver se o caminhão aguentará o repuxo para a próxima viagem.

Olha ao redor, sem constrangimento. Pensa nas vergonhas roxas.

Está apertado. Abre a braguilha. O zíper quase engancha. Muitos carros passando. Não consegue fazer.

Eu o observo. Chamam-me de bisbilhoteiro, alguns. Outros, apenas, de narrador. Quanto a mim, não sei do que me chamar. Não tenho memória larga. O momento, o que mais me marca.

Príapo volta pra cabina.

Em minha cabeça, todas as vozes antecipam o que ele fará.

Não posso impedir muita coisa. Tenho a minha hora própria para atuar.

Vejo tudo em minha mente. Daqui a pouco, estará aqui.

Após passar por duas pontes, na beirada de uma delas, vê alguém pedindo carona. Pára.

Uma cabritinha sobe os degraus e se ajeita.

Ela lhe agradece. Uma cabritinha bem criada. Quatro patas sólidas, pêlo luzido e com um cheiro incomum em animaizinhos como ela.

Depois de umas duas horas, samba rasgado no rádio, resolve parar pra ir tirar água dos joelhos.

Ela desce junto, mas vai à frente.

Ele observa o rebolado animal, o furinho acendendo e apagando.

Entram no mesmo banheiro. Ele, mais que depressa, coloca o membro pra fora. Alívio, quando todo o líquido se escoa.

Quando vai guardar, um berro sutil povoa o ambiente.

A cabra colocara a língua pra fora. Uma língua longa e viscosa. Tão longa que num minuto envolve-lhe.

Enquanto é engolido, o rabo da cabrita enrola-se em balanços de volúpia.

Há uma inundação incontida em seus sentidos.

É quando a cabritinha turva sensações e morre.

Agora, eu, o autor, sou obrigado a cumprir meu dever.

Com uma gilete, rasgo a história, com todo cuidado, procurando retirar os personagens do papel.

Sinto sua dor e dela me alimento, como todos os dias em que reinvento o rasgar.

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