FACEBOOK
CONTATO
FEED
YOUTUBE
TWITTER
LINKEDIN
EnglishFrenchGermanSpainItalianRussian

Sobre o Tao:

Print Friendly and PDF



Popularmente chamado de Yin Yang, o Tao é um dos símbolos mais populares quando o assunto é espiritualidade ou mesmo religiões orientais. Movimentos como o Nova Era, vêm deturpando as filosofias orientais, desde a década de sessenta. Resumindo a postura e fala de grandes mestres, à figura de velhinhos sábios que ensinam kung fu e recitam versos desconexos, aparentemente irracionais, de sabedoria oriental. Não apenas um insulto a uma doutrina milenar, mas uma tática muito eficaz para manter as pessoas afastadas dessa Fonte fecunda de disciplina, Consciência e, por que não, transcendentalidade!


Um dos significados que costumam atribuír ao Yin Yang é a representação d’o bem e o mal. Se este fosse mesmo o caso, ele poderia ser muito bem expresso pela Fig.1, onde a dualidade seca e maniqueísta de bem e mal está representada de forma simples e fiel.

Outros interpretam seu simbolismo como o bem que está no mal e o mal que está no bem. Para esse caso, bastaria que ele fosse representado como na Fig. 2, afinal, todos os elementos estariam ali representados de forma simples e simétrica. Ainda que, por sinal, a concepção de bem que está no mal e mal que está no bem, quando expressa por essas palavras, é raiz de muitas interpretações reducionistas e banalizadas.

Com o Tarô, eu aprendi que é necessário dissecar todos os elementos que constroem um símbolo, pois nenhum deles é posto de forma desconexa, nem mesmo, por razões meramente estéticas. Tal é o caso da ondulação que se apresenta na Fig.3, que serve para destacar uma das características mais importantes do Tao: O Equilíbrio das forças é sempre um equilíbrio dinâmico, nunca um equilíbrio estático.


Aqui, eu dissequei os elementos principais do simbolismo do Tao. A Fig.4 é um círculo que, dependendo do contexto, pode ter diversas interpretações. O círculo pode representar o espírito ou tudo o que é espiritual. O círculo não possui nenhuma quina ou lado, diferente do quadrado que possui quatro lados: representando, assim, os quatro elementos naturais (fogo, água, vento e terra). Portanto, o Tao (nesse contexto) é um símbolo que diz respeito às forças que atuam no espírito humano. Não diz necessariamente sobre bem e mal, pois essa dicotomia é algo que diz muito mais respeito à dualidade terrena, distante das questões essencialmente espirituais.

O próximo elemento, na Fig.5, é a onda. Sim, uma onda, uma ondulação, uma oscilação, um vai e vem. Ela possui uma crista e um vale. Ela possui altos e baixos, emotividade e racionalidade, objetividade e subjetividade. Essas dicotomias, todas, podem ser interpretadas como diferentes Tao’s.

Uma das principais confusões que se fazem quanto ao Tao, é pensarem que ele está se referindo a dualidades arbitrárias, como se fossem determinações morais universais sobre certo e errado ou sobre o que é bem e mal. Pior ainda, quando interpretam que o Tao simboliza a eterna batalha do bem contra o mal, onde um dos hemisférios (geralmente o branco) representaria o bem, que utiliza um pouco do mal (geralmente, violência), para confrontar o mal (representado pelo hemisfério escuro), mas que este tende a se arrepender de suas atitudes malévolas, por conta do bem que existe no mal. - Não, mil vezes não! - O Tao serve para advertir, principalmente, contra a necessidade que as pessoas têm de assumir que elas precisam escolher entre serem boas ou más, ou ainda escolherem entre atuarem pelo bem ou pelo mal. Pois essa concepção fragmentada, entre escolher atuar exclusivamente em um hemisfério ou outro (baseado em uma dualidade que só existe na ilusão da materialidade) é raiz de grande parte da alienação que pessoas experimentam a vida inteira.

O Tao é conciso, inteiriço, completo. Ele assume as dualidades como lados de uma mesma moeda, mas ele também explica como fazer para manter o equilíbrio interno ante as adversidades da vida. Para explicar tanto, eu invoco uma carta do Tarô: A Roda.



Trouxe aqui duas representações da mesma carta. A primeira vem do Tarô de Marselha, um dos melhores tarôs da história (opinião pessoal). Além de simples, o Tarô de Marselha transporta perfeitamente todos os elementos mais essenciais para o estudo e a prática. Ao lado, o Tarô Mitológico ajuda a reforçar determinados aspectos que eu pretendo destacar neste texto.

A Roda e o Tao podem ser comparados no que diz respeito às intempéries da vida material (analisando o Tao, agora, sob o contexto de uma figura que se projeta sobre o mundo material). Na carta do Mitológico, você observa quatro figuras em torno da roda. Um homem à direita, de vermelho (representando o elemento fogo: ignição, projeção, busca ou motivação), está escalando a roda, utilizando o movimento de rotação da roda para se elevar e se erguer. O homem à esquerda, de azul (representando a água, a emotividade, ou submissão às emoções e a identificação exagerada com elas), está descendendo na roda, vítima de algo que o fez cair da posição de elevação. Elevação essa, representada pelo homem acima da roda, de roxo (representando a terra, sólida, estável, edificante e magistral), demonstra qual é a posição daqueles que entendem como lidar com os giros que a Roda da Fortuna faz. O último homem, abaixo da roda, de amarelo claro (representando o vento, pensamentos e devaneios, a redenção à intelectualidade infértil, o debate infrutífero), vive como uma eterna vítima das causalidades, sejam elas boas ou ruins, nada faz além de reclamar e rejeitar tudo o que lhe acontece e é oferecido e, principalmente, retirado.*

Grande parte do segredo por trás de como lidar com o Tao e, mesmo com a Roda da Fortuna, acaba de ser entregue. É na posição daquele que serenamente medita sobre a Roda que todos nós deveríamos encarar o caminho por meio do Tao ou de qualquer outra doutrina, filosofia ou mesmo religião. Aceitar a causalidade do mundo material, assim como, conhecer e entender a transitoriedade de tudo o que nos cerca, bem como, a transitoriedade de nossas emoções e vivências. Em um dia, tudo temos, tudo funciona, tudo ocorre dentro de nossas expectativas. Em outro momento, tudo parece desandar e retroceder, ou mesmo, parece se desconstruir e desmoronar em nossa frente.

A diferença não está entre quem consegue exercer menos ou mais domínio sobre aspectos que estão naturalmente fora do nosso controle. O equilíbrio não diz respeito à quão estática, perfeita e imutável estão nossas vidas. Quem se apega a uma determinada Ordem ou jeito de se ajustar as coisas, geralmente, frustra-se quando o inevitável acontece, quando tudo muda de posição e se reorganiza de uma forma diferente. O apego emocional a determinadas condições ambientais (e de vida) é uma das principais raízes do sofrimento humano. Tudo o que interpretamos como perda, caracteriza-se em uma transformação. Tal transformação, o Ouroboros, a falsa perda, é representada pela carta d’A Morte, a gentil.



O Tao nos entrega esse segredo, quando percebemos que tudo está inserido nele. O seu equilíbrio está, principalmente, em aceitar esse dinamismo como essencial para a progressão em nossas vidas. O que não muda, não evolui, não cresce e não transcende!

A energia é expelida pelo Sol por meio de uma constante fusão nuclear, além de outras partículas mais condensadas, libera fótons. Alguns destes fótons chegam à terra e são absorvidos por organismos celulares capazes de transformar sua energia em adenosina tri-fosfato - a famosa ATP. Dado tal, um cultivador de verduras colhe este organismo e se alimenta dele. Assim, a ATP (armazenadora de energia) é transferida para o corpo do agricultor e é utilizada para outras atividades, como andar, se exercitar, arar a terra ou mesmo discutir com a esposa. No último caso, esta energia será convertida em ondas sonoras capazes de se propagarem a 360m/s.

A principal qualidade da energia, é a sua capacidade de assumir diferentes roupagens sem necessariamente alterar sua essência (nunca deixa de ser energia). Nem mesmo quando ela se converte literalmente em matéria, ela não deixa de ser energia. Matéria é exatamente energia, portanto, não há nada que não seja composto por energia. De tal maneira, a transitoriedade entre diferentes estados é um instrumento fundamental para a manutenção e equilíbrio da própria vida!

Caso queiram buscar alguma teoria sobre a essência da vida, do universo, da existência ou mesmo alguma pista sobre a natureza humana, eu dou a minha humilde sugestão. Observem tudo o que é transitório, ali está tudo o que não é essencial à natureza ou à Verdade. Assim como a energia pode ser transformada em fogo, ou matéria, ou energia cinética, ou armazenada como energia potencial; tudo o que diz respeito ao Ser é simplesmente aquilo que transita entre um estado e outro.

*: As características destacadas de cada elemento, neste parágrafo, não representam os elementos em sua totalidade e foram selecionadas para transmitir o simbolismo característico da imagem em questão.

Mais um capítulo oferecido, em prévia, da minha futura Obra sobre Caoismo.

0 Comentários: