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EVERISSING DE KRISTO....

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Everissing sempre subia naquele prédio abandonado, cantava e se equilibrava, ao sabor dos ventos, no parapeito da sacada do seu 13º andar, em todo 13 de agosto. Já há cinco anos fazia isto. Como ele conseguia usar o elevador de serviço, se.....?
Não tinha os dois braços, nem as duas pernas. Não fosse Kristo, seu cãozinho verde....não se sabe o que seria dele na maior parte das atividades diuturnas.
Todos se perguntavam, quando o viam a colear por entre os espaços:
"Como se aliviava do ataque dos cocôs? Como tirava a água do joelho? Como fumava sem mãos, já que sempre estava com um cigarro ou guimba à boca? Como fazia amor ou, aqui entre nós, como fodia? Fodia gostoso? Rolava no corpo da amada como um pneu até atingir a fenda perseguida com o fuso pleno de veias? Era dotado, e, deitando, como puxava a coberta doada por aquela senhora doida de caridade e libido?".
D'xa pra lá. Voltando ao assunto, pra criar coragem, quando subia ao prédio, levava sempre seu cachorrinho.
Fora, mesmo com sua deficiência, um carpinteiro qualificado, pastor e professor de Física na juventude.
Dominava o Inglês, o Francês, escrevia e cantava como ninguém, pintava, fazia a barba, como aquele Príncipe Randian....tem um filme no youtube, de nome "Freaks", da década de 30, em que se pode vê-lo. Era filho de escravos britânicos esse príncipe, e era casado com Sarah, sua eterna princesa.
Hoje, vive a andar pelas ruas.......como anda? Ele é bastante eficiente em se deslocar, movendo quadris e ombros, como um réptil recém-nascido.
Quando começou a viver por entre as nuvens de pó das ruas, passou a beber de tudo, até água de poça de chuva, se misturada a algum tipo de álcool, mesmo que fosse de álcool desinfetante.
O que o levou a trocar de vida? Ninguém sabe...ou melhor, talvez Kristo Rex saiba. O cachorrinho está com ele desde seus primeiros avanços nos becos pestilentos.
Diziam que aquela data, 13 de agosto, devia ter alguma coisa a ver com a mudança de vida.
Será que uma esposa, um filho seu, uma mãe, um pai, ou até mesmo ele, se atirara do 13º andar de algum edifício ou daquele prédio abandonado?
Comentam que ele era casado com Zulmira, filha de pastor no bairro da Vila Nova. Teve com ela 10 filhos....mas essa não morreu, está vivinha da silva, casada com Setembrino, um fedido e obeso branco de más ações que trabalha no porto de Santos.
Kristo sempre estava a postos para o que pedisse seu dono. Às vezes, Everissing subia naquela estátua do Largo do Sapo e pregava aos invisíveis e visíveis. Gostava também de ler os Salmos aos transeuntes, principalmente o de número 22.
Um mendigo antigo nas ruas, o Conrado, diz que Zulmira não foi o amor da vida de Everissing e, sim, Carolina, filha de um padre viciado em revistinhas proibidas. Ela morrera naquele acidente feio no centro, quando caiu um helicóptero no meio de um prédio, no começo da avenida nove, justamente quando Carolina olhava a cidade com olhos fechados e os cotovelos postos no parapeito daquele prédio. Só um, que estava com ela, se salvou: ele.
Ele amava Zulmira e Carolina. E esta amava o Brancão, obeso e fedido, levantador de copo de chopp, mas amado como ninguém por Zulmira. Por ela, o estivador fora até capaz de emagrecer 200 gramas.
Kristo gostava de pegar bolinhas de papel que o dono jogava.

Quando Everissing chama seu cãozinho, todos olham, tal a potência do seu grito.
Kristo Rex só é bravo com quem procure humilhar seu dono, segundo este.
Uma vez mordera Preta, cadela invisível de Conrado, só por ela ter olhado rosnando para Everissing.
Sim, Kristo era um cachorro invisível, como as hordas de mendigos urbanos.

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