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Você não importa

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Essa noite eu morri em meus sonhos. Eu estava no topo de um arranha-céu ao lado de uma loira dos cabelos encaracolados, desfrutando a paisagem – prédios cinza e letreiros de um neon púrpuro. Era fim de tarde, o sol se despedia no horizonte enquanto tingia as nuvens de laranja fogo. Ela segurava minha mão, distraída – estava tão absorta pelo espetáculo quanto eu.
A cena era tão linda e fantástica, que eu senti vontade de morrer, vontade de encerrar a minha vida ali mesmo, naquele instante. É curioso como certas emoções, de tão intensas, me evocam ao impulso de morte. Você já se sentiu tão feliz que poderia morrer de felicidade?
Eu sentei sobre o parapeito e, ainda segurando sua mão, me inclinei para frente. Ela não se apavorou nem tentou me impedir. Ela compreendeu e sorriu de volta. Eu me virei para beijar sua mão e seu lábio, uma última vez. Lágrimas verteram suaves em seu rosto. Seja melhor do que eu, disse a ela. Soltei os braços para o lado e mergulhei.
Eu vi o chão subindo em minha direção. Havia algo de apreciável e reconfortante na ideia de morrer. Eu sabia que a minha carne nunca pertenceu a mim, mas à massa biótica desse mundo. A energia que anima o meu corpo foi fotossintetizada pelas plantas e mais tarde posta sobre um prato à minha frente. A mim ela veio, e de mim ela se extinguirá para qualquer outro fim.
Enquanto observo os andares do prédio vizinho correrem como vagões de um metrô, o tempo desacelera. Ou, melhor dizendo, as sinapses no meu cérebro dançam em uma tempestade elétrica, permitindo que eu processe todos os estímulos que me cercam na velocidade de um supercomputador.
Qual é o valor de uma vida?  A natureza é uma assassina inigualável. Ela extermina milhões de vidas a cada instante, não por crueldade, mas por necessidade. Eu percebo um preciosismo tão grande em relação à vida e uma rejeição tão forte à morte. Até mesmo discriminando mortes enquanto provocadas pelo homem – com toda a conveniência da designação de gênero – e mortes naturais.
Em todas as circunstâncias, a morte é natural, seja morte morrida ou morte matada. A violência compõe parte intrínseca dos processos mais básicos e naturais que conhecemos. A evolução das espécies é violenta. As revoluções são violentas. Mesmo a desconstrução dos valores arraigados pela sociedade é violenta.
Uma transformação, quando profunda e significativa, sempre envolve muita violência. Seja violência moral, emocional, simbólica ou mesmo decepar a cabeça do rei em praça pública.
Quando sonhamos com um mundo diferente, um mundo melhor, sem tanta barbárie, opressão ou desigualdade, sonhamos com a nossa própria morte e falência enquanto indivíduos. Por mais que nos julguemos pessoas bem intencionadas, ainda carregamos os construtos sociais do autoritarismo, hierarquização, discriminação, preconceito... O sistema de dominação que nos afasta desse mundo ideal vive dentro de nós enquanto conservarmos esse Ego autocentrado e individualista oriundo do capitalismo moderno.
Para ver um novo mundo nascer, nós deveríamos nos dispor a morrer, pelo menos, internamente. Para mais, aceitar também a morte dos nossos corpos e consciências, em uma ação realmente revolucionária que prepararia o terreno para a próxima geração.
Creio que não seja difícil aceitar que nosso organismo serve de adubo para as plantas que crescerão sobre o nosso túmulo. Mas por que, então, resistir a permitir que nossas consciências, ideias e sonhos sirvam de adubo para um novo mundo depois de morrermos?
Ninguém é insubstituível. Verdadeiros líderes não são pessoas indispensáveis, muito pelo contrário! Um bom líder é aquele que consegue tornar a sua presença dispensável. O resto é tudo egolatria infundada e autoritária.
O curso da história não depende de uma ou outra personalidade com uma ideia mirabolante. Gênios e personalidades históricas pouco fizeram além de encarnarem as transformações que já estavam ocorrendo em seu tempo. Pois se não houvesse terreno para uma transformação, eles teriam passado oblívios em seu tempo – tal como aconteceu com milhares de anônimos dos quais nunca tomaremos conhecimento.
Senão Hitler, outro. O pensamento eugênico se disseminou por toda a Europa, América do Norte e teve seus ensaios na União Soviética (sem muito sucesso). Portanto, a ideia de criar uma espécie superior não era propriedade de uma pessoa, mas de dezenas de institutos de pesquisa espalhados por todos os cantos. O mal do século pode ter sua personificação em Hitler, mas teve suas extensões e efeitos para além do terceiro reich.
Você não é importante. Você não faz tanta falta assim. Você não é especial, nem único, nem indispensável para nada. No quadro geral, você é uma gota que se aventurou a subir numa nuvem e precipitar na terra. Contudo, tão certo quanto é o ciclo da água, é o ciclo da vida. Em breve chegará a sua hora de retornar ao oceano.
Naquele instante, em meu sonho, eu me precipitava para a morte – uma chuva de mim mesmo, com todos meus pensamentos esparramando no asfalto. Assim que atingi o solo, acordei aqui, em minha cama. Uma parte de mim teve de morrer, em sonho, para que eu acordasse em um novo mundo: um hoje que nunca terá fim, e um amanhã que nunca chegará para mim.

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