FACEBOOK
CONTATO
FEED
YOUTUBE
TWITTER
LINKEDIN
EnglishFrenchGermanSpainItalianRussian

BRADOS DE INSANIDADE

Print Friendly and PDF


image
      Brados de insanidade eram ouvidos e ficaram no ar durante tempo suficiente para anunciar a loucura do exército. As vozes grotescas de cada guerreiro que estava na turba não eram respondidas, estavam em uma batalha de um lado só e sabiam disso. A batalha estava quase ganha, restava apenas assaltar os muros do castelo gótico do mago. Entretanto os relâmpagos e os trovões pareciam os arautos do feiticeiro, rebombando como os tambores de um exército invisível de gigantes, que espreitavam sobre as nuvens e esperavam apenas o momento certo para descer sobre a multidão de homens-bestas que brandiam seus machados e cimitarras sob a chuva torrencial.

      O campo havia tomado uma tonalidade entre o verde e o chumbo, esta segunda cor certamente se assemelhava com a cor das almas dos guerreiros, muitos haviam caído e sido massacrados, embora a chance de já estarem mortos ao tombarem fosse grande, mas mesmo assim, ao ir pisoteando os corpos mutilados dos servos do mago, os soldados iam esquartejando, pisoteando e sugando o sangue dos lutadores que eram visivelmente humanos. O estigma conspícuo dos servos dos duques, em combate, era conhecido e uma vez que os corpos de soldados fossem de tal modo anarquizados, não era possível sequer uma ressurreição comum ou das mais acessíveis aos sacerdotes mais vulgares, de modo que era quase impossível que alguns combatentes fossem trazidos à vida. De outra forma, alguns campeões de algumas tropas voltavam a combater quando tinham seus corpos resgatados, não se sabia pois o que Tênebrus achava disso. Porém naquela noite, fora ordenado que todos os corpos, vivos ou mortos deveriam ser extremamente rasgados, cortados, mastigados e o que mais os guerreiros animalescos lembrassem de fazer. Algumas das criaturas que compunham o grosso das tropas do Apocalipse era composta de ganons e shitaros, por isso a carnificina não era algo tão difícil de se fazer, estes eram selvagens e tinham a fama de transformar qualquer debate em um banho de sangue, em combate eram responsáveis por aniquilar o inimigo da forma mais cruel possível, a maior parte da força do exército avançava com seus machados dentados e suas maças improvisadas, com ossos aguçados para lanças e correntes com cravos, todas estas armas com crostas de sangue seco e marrom. Suas armaduras eram peles, metais, pedras e até madeira, gostavam de grunhir para intimidar, mas suas formas físicas, com corpo musculosamente deformados, já era suficiente para dar pesadelos para alguns soldados.

      As torres antes brancas, estavam tenebrosas, enegrecidas, gárgulas e esfinges encimavam e ladeavam os vitrais de cada parede, a porta dupla que ficava além da ponte levadiça estava cerrada e ao longe se podia ver as argolas de bronze que enfeitavam simetricamente a passagem de ébano.

      A fortaleza possuía muros soberbos, mas para aquele exército, arrombar e escalar seria tarefa não muito espinhosa, visto que boa parte do mesmo era composta por soldados experimentados ao tipo de trabalho que era exigido ao assaltar muralhas.

      A posição do palácio não era estratégica e não havia proteção nenhuma a mais além da que já fora dizimada. O pelotão de bestas humanóides e demoníacas era liderado por dois servos de Sion Sagramor, um dos lordes vampiros que lideravam a hoste de Apocalipse. Os servos em questão eram Bigorn e Seeater, lordes menores, mas que eram tão ferozes e malignos quanto os servos de elite de Dracolich.

      — O castelo está tomado, não precisamos ficar aqui na chuva quando lá dentro está seco e aconchegante.

      Bigorn era um homem, pelo menos tinha o corpo de um, mas com ombros largos e peito amplo, não possuía pescoço ao ponto de ser mencionado, sua armadura de batalha era totalmente negra e seu elmo era enfeitado com um par de cornos de touro, na verdade de um Gorgon, sua armadura era toda trabalhada para se parecer com essa criatura taurina.

      — Então temos que esperar o que? Vamos marchar sobre os crânios daquela guarda fantasma e levar o caos para o mago...

      O segundo guerreiro era mais esguio, mas nem por isso menos perigoso, Seater era uma mistura perigosa entre um bufão e uma pantera, mas isso não estava estampado em sua imagem, mas era implícito ao seus movimentos em combate, vestia uma armadura ordinária mesclada com farrapos que lembravam um arlequim, mas um que houvesse sido sepultado com suas roupas de bufão. Sempre que em um combate do exército de Sagramor fossem vistas cabeças empaladas em lanças no campo de batalha, com a boca alargada de orelha a orelha por um rasgo e sem narizes, se podia atribuir isso ao humor mórbido de Seater, que pulava e dançava macabramente em meio à carnificina e decapitava soldados com seu chicote de ossos — que havia sido forjado a partir de velhos inimigos vencidos.

      — Não. Se desejar vá e leve sua ralé, sabemos muito bem que Vargoule é mais precavido do que parece, a bem da verdade, isso não se assemelha de forma alguma a outros combates que já tivemos contra os seus estandartes.

      Bigorn falava do alto de seu corcel negro, tão escuro quanto sua armadura, o animal resfolegava impaciente e dava coices em alguns ganons que ficavam furiosos com a atitude do animal, até que um dos furiosos guerreiros, golpeado de raspão, foi tomar satisfação, devia estar embriagado pelo combate ou por algo que havia tomado no sangue de algum soldado caído. Bigorn apenas deixou que a besta se aproximasse e brandisse seus punhos e suas garras para o cavalo e com um movimento largo de seu braço e sem parar de falar com Seater, golpeou com seu machado a face do soldado, decepando a metade superior do crânio do ganom.

      — Devemos esperar algum movimento das tropas do bastardo, ou você acha que ele já sacrificou todos os humanos que estavam sob a bandeira da Aliança?

      Seater encaixava uma cabeça na ponta de uma lança, ela já estava com o sorriso sangrento na face e o nariz decepado.

      — Agora estou com outra ideia, vou colocar faróis no campo de batalha — e eis que após encaixar a lança no terreno pedregoso das terras do feiticeiro, todas as cabeças que ele havia plantado ao longo do campo foram acesas em uma labareda de fogo verde.

      — Pra que cortar os narizes se você iria queimá-las?

      — Ora meu bom bruto sanguinário, eis uma boa pergunta — Seater parecia intrigado —, o fogo é para sinalizar aos inimigos e os narizes, assim como os sorrisos são para alertar nosso exército, já que são tão... como posso dizer... disciplinados.

      Seater falava de forma a ser compreendido, pois para ele, mesmo depois de muito pelejar ao lado de Bigorn, gostava de ser entendido e não ficava repetindo nada, nem as ideias fúteis e sádicas.

      — Você precisa provar alguma coisa para essas bestas? — pergunta o guerreiro sobre seu impaciente cavalo, limpando o sangue negro do meio monstro que havia decapitado — O guerreiro que precisa provar sua ferocidade com palavras, é um verme.

      — E o soldado que não acredita no quanto eu posso ser sádico é um tolo, meu bom bruto.

      Antes que fosse dada a ordem para o avançar destruindo, foi vislumbrado que entre as fileiras de soldados, chegavam formas mais grotescas, arrastando malhos gigantescos, maças enormes e troncos de árvores desgastadas pelo uso, as formas se aproximavam, que se não fossem as mais eficientes, certamente eram as mais cruelmente insanas do exército, os Duroks. Estas enlouquecidas bestas estavam domadas por feitiços que haviam sido desenterrados da cova de Alakar, um dos líderes magos de outrora. Os golens, como também eram conhecidos, eram a mistura meio mágica, meio cirúrgica, entre Trolls mortos em combate com ogros. Os cadáveres eram costurados e reanimados pelos necromantes de Gzarbonach, alimentavam as mentes com traumas e lembranças dolorosas de fantasmas vingativos, criando bestas assassinas que sozinhas haviam devastado fortalezas, deixando um rastro de sangue e carne, pedras e escombros por onde passavam.

      Seus “parentes” que também eram conhecidos como golens, eram fruto da magia de algum mago que animava corpos para obedecerem ordens e guarnecerem alguém ou a seu próprio criador, mas estes golens que vinheram nas tropas de Apocalípse eram frutos de uma mescla bárbara entre pesadelos e traumas, montanhas de carne e músculos, magia negra e instintos de assassinos. Uma mistura de fúria enlouquecida que servia como a mais devastadora arma bruta e minimamente autônoma, podendo ser solta em um campo de batalha em larga escala.

      Bigorn escarrou, cuspindo em direção aos soldados monstruosos e esporeou seu cavalo tão embrutecido quanto o cavaleiro. Ergueu o machado e golpeou com o punho seu escudo tentando se fazer ouvido, mas contra raios e trovões as pancadas não eram mais que resmungos. Mesmo assim, os soldados podiam ver que o cavaleiro dava ordens para marchar e derrubar o castelo, derrubar qualquer viga ou coluna que antes fosse o palácio do maldito mago, derrubar aquele foco de resistência aos Lordes Vampiros e aniquilar os soldados de Vargoule de uma vez por todas.

      Enquanto isso, Seater riscava algo no chão, agachado e desenhando com seu dedo ossudo — segundo diziam, não era bom interrompê-lo quando desenhava o destino no chão —, seus cabelos estavam presos, mas algumas mechas brancas estavam penduradas e pingavam ensopadas, seu olhar percorria as linhas desenhadas, mas naquela escuridão chuvosa, enquanto a carne se desprendia em nacos carbonizados, ele apenas iluminou-as, mostrando a sina que havia desenhado.

      — O castelo irá cair — falou enquanto sorria.

      Chovia lá fora, mas isso era percebido apenas por que haviam goteiras no salão onde Vargoule estava esperando o primeiro choque das tropas de Sagramor em suas muralhas, na verdade ele havia planejado esse momento, ele sabia que o castelo cairia e nenhuma ajuda viria, mesmo sendo um dos magos fundadores da Ordem dos Sete — ao contrário do que se pensava, Vargoule era um jovem, pelo menos aos olhos, algo que conseguiu tomando do sangue das ninfas que eram invocadas por sua magia feérica —, mas esse é o preço que se paga por ser o último a perecer, sendo o último ninguém existe para te resgatar, essa lição ele levaria ao outro mundo, mesmo que voltasse na pele de um demônio mesquinho a ser negociado entre Baal e Tenebrus.

     
Conto de Igor Girão.

0 Comentários: