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Falho Ser Humano

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Eu falhei enquanto ser humano. Essa é a conclusão a que cheguei depois de anos observando meus erros e acertos, minhas vitórias e derrotas. Desde criança, nossos instintos nos educam a perseguir as experiências de prazer e correr das experiências de dor, repudiando tudo o que nos incomoda. Mas foi justamente nessa segunda faceta da vida – a irmã sombria da alegria – que encontrei os maiores tesouros de sabedoria.

Eu desisti de ser uma boa pessoa. Já furei o olho de melhores amigos, desapontei pessoas que contavam com o meu apoio crucial, machuquei – de alguma forma - a maioria das mulheres com quem me relacionei e já deixei de cumprir com grandes responsabilidades. Menti, enganei e manipulei inúmeras vezes. Bom, eu definitivamente não sou.

E para além, eu descobri que as pessoas que assim se intitulam – boas – nunca o fazem com boas intenções. Algumas visam o auto enobrecimento, buscando um caminho fácil para conquistar a confiança dos outros: em muitos desses casos, elas estão em campanha política. Outras o fazem para inflar o próprio EGO, numa megalomania messiânica que nem Freud explica. Em todos os casos, sua intenção não é a das melhores, o que contradiz a pretensa declaração de serem, de fato, pessoas boas ou confiáveis.

Assim, eu assumo e aceito qualquer predicado sobre o meu sujeito. Quanto ao julgamento que fazem de minha pessoa, sempre atinge ou supera minhas expectativas. Se me julgam por mal, nada posso fazer. Mas caso encontrem em mim, alguma luz de virtude, tomo tal elogio como uma surpresa agradável.

Eu desisti de fazer o bem. Eu não posso controlar os bons e maus efeitos de minhas ações em longo prazo. A escolha certa hoje pode sair errada amanhã. Por isso escolhi fazer o que me faz SENTIR bem, de preferência, enquanto o faço. Se as minhas ações tocarem o coração de cinco ou de dez mil pessoas, pouco me interessa; desde que eu as faça com o coração leve. Eu preferi me desapegar dos resultados e apreciar melhor os processos.

Eu desisti de ser alguém melhor. Eu nasço e morro todos os dias. Eu estou certo de que eu não me reconheceria caso eu encontrasse comigo mesmo um ano atrás. Muitos Gunters surgiram e desapareceram ao longo dos anos. Eu não sou nenhum deles: eu sou essa eterna transição que passeia entre um e outro – a metamorfose ambulante de Raul Seixas.

Eu descobri que não posso me comparar com ninguém – nem comigo mesmo. Eu sempre serei alguém diferente de um tempo para o outro. Visar ser alguém melhor seria confiar ingenuamente em uma evolução progressiva de mim mesmo. Quando o processo se apresenta muito mais fluido e caótico do que uma escalada vertical e escalar.


Eu desisti de salvar o mundo. Pois descobri que não há nada para ser salvo. Os mitos de uma aniquilação total ou um paraíso utópico são mais antigos do que a própria escrita. Sonhamos com a vitória de um desses extremos que regem nossas vidas – luz e trevas, ordem e caos, vida e morte -, mas ignoramos que o conflito é parte intrínseca de nossas vivências.

Nós poderíamos explodir uns aos outros em uma guerra nuclear: dez mil anos depois a vida ressurgiria dos escombros. E assim, nossa marca nesse mundo se tornaria tão obsoleta quanto às pegadas dos dinossauros. Não é com o mundo, com a natureza ou com o planeta que precisamos nos preocupar, mas com nós mesmos.

Eu desisti de ser alguém importante. O mundo gira independente da minha vontade. Eu posso viver uma noite profunda em meu íntimo, mas nem por isso o Sol deixará de brilhar na manhã seguinte. Grandes nomes na história são apenas grãos nas areias do tempo. Senão Hitler, outro. Senão Gandhi, outro.

Grandes descobertas e mudanças dependeram muito mais das condições ambientais do que da ação de grandes mentes. A grande prova disso é que mesmo quando temos o maior nível de acesso à informação em toda a história, ainda não superamos a barbárie humana. Ou, como nas palavras da Einstein:

Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.”

Eu sou tão falho, mas tão falho, que fracassei até mesmo no intento dessa redação! Eu pretendia explicar sobre como eu falhei em ser humano, mas acabei entregando outra pérola: eu discursei sobre como eu me perdi em minha humanidade, apenas para reencontrar a minha alma.


Quando se vive livre de padrões estéticos e morais, encontra-se a felicidade na liberdade de espírito. A insignificância nos liberta da necessidade de brilharmos em frente aos outros. Existe grandiosidade na humildade, e nobre virtude na imperfeição.

Eu sou o mar no qual minhas lágrimas chovem.
Eu sou o campo cujas flores eu colho.
Eu sou o calor que enrubesce a minha face.
Eu sou o vento que me refresca no verão.

Eu sou a estrada em que meus pés caminham.
Eu sou os livros que meus olhos devoram.
Eu sou o ventre e o fruto, o berço e o bebê.
Eu sou meu próprio alimento, e eu também sou VOCÊ.


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