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PORÃO de natanael gomes de alencar

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O relâmpago brincava como jamais brincara nos ares de Cubatão. A chuva nunca caíra tão pesada. O vento a lhe fazer companhia insistente. Ela não queria nada com ele. Mas Boreas insistia. Não ligava aos estragos que fazia o brutamontes. As roupas voavam dos varais das janelas. Crianças eram seguras pelas mães como leoas com seus filhotinhos entre os dentes.
Mas naquele barraco tudo decorria como se não houvesse nada colocando em risco suas bases.
Era noite, escancaradamente noite, um breu quase total e a família estava toda reunida na sala. Uma sala com um sofá rasgado, uma TV digital e uma mesinha cheia de curativos marceneiros, muito remendo com ripas, cola de madeira, parafusos e pregos.
O pai, Lindomar, uns quarenta anos, brincava ao celular, conseguido de maneira ilícita de quem também o conseguira do mesmo modo. Era difícil uma vida completamente lícita quando os preços dos produtos eram incompatíveis com a renda numa escala monstruosa.
Maria, a esposa, mesma idade do marido, num vestido rosa, comprado num bazar de pechinchas, mexia o feijão. Fizera há pouco o mingau pra matar o desejo de doce da meninada – e dela também. O vício do doce à noite era de quase todos os barracos sobre o mangue. Para Lindomar, Deus palitava os dentes com os fiapos de madeira daqueles barracos. Tinham dois filhos adolescentes. Josefina, com vinte e dois anos. E Rizomar, no canto esquerdo da sala, sentado no chão, com vinte.
Rizomar fazia umas contas no celular, sem camisa e com uma bermuda larga, que ostentava as cores e símbolo de seu time do coração, a Associação Atlética Portuguesa, a Briosa Portuguesa Santista. 
Lindomar vai até a panela. O cheiro está sedutor, do tamanho de sua fome. 
- Calma, home. Espera mais um cadinho. Em cinco minutinho tá saindo.
- Não resisti. Ninguém faz um arroz gostoso como o seu.
Lembra da filha.
- Uai, cadê Fina? Tava aqui agora mesmo.
Maria coça o pescoço. Lembra de um movimento que notou quando apanhava os chinelos atrás da porta.
- Alguém ligou pra ela. Agora que os amiguinho descobriu que ela tem celular acabou o sossego... 
- Não sei se é bom celular pra ela. Pode atrapaiá os estudo.
- Mas você também não tava venu?
- Não tem nem comparação. Eu sou o pai dela. E, além do mais, até ontem, ela não tinha celular.
- Foi o Rizo que deu pra ela.
O pai se dirige ao filho, que está coçando os vãos dos dedos dos pés, empesteando de chulé todo o cômodo.
- Onde tu tá arranjanu dinheiro?
- Pai, tou fazendo bico. Me virando. Este mês até ajudei mãe nas compras. Né, mãe?
Citada, Maria, se aproxima.
- Rizo tem ajudado muito a gente. Sem ele, nós não trocava de roupa, nem tinha mistura toda semana...
O pai coça o peito, cheio de pontinhos vermelhos. Põe a mão na frente da boca para ver se está com bafo. Pega o copo de cachaça e procura a garrafa.
Encara Rizo, que se sente mau com a proximidade inquisitória.
- Fico pensanu onde são teus bico. Se são coisa honesta...
A mãe sente necessidade de falar em defesa do filho.
- Claro que são, home. Deixa de criar caso com o menino.
O pai desiste de procurar a garrafa e coça o pé da barriga. Deu pra aparecer uns pontinhos de dermatite. Espreme limão nas mãos e passa. Dona Sônia do primeiro barraco que falou ser bom. Limão é bom pra tudo, até pra sobrancelha caída. Aprendeu com a rua, dizia. Será que os que dormem na rua são médiuns de cura? – pensou.
- Filho, teu pai sabe, me escuta, eu quero o melhor pra tu, ver tu num emprego de verdade, tu me entende? Outra: não gosto de te ver metido com esse tal de Porão – isto é apelido de gente? Um homem que tem um apelido desse tem que se tratá!!!
- O Porão é gente boa. Só por que ele foi pego uma vez vendo a filha do Mandrake se trocando? Isso foi faz cinco ano. Hoje, ele já não se liga mais nesse negócio de ver escondido.
- Pra mim, ele é um desviado, pronto.
- E o senhor não trabalha enchendo pino lá no...
Voou um tapa medonho. O pai ficou possesso. O filho chegou a quebrar uma garrafa e avançou. Mas Paulão, um vizinho de ouro, chegou na hora. Vinha perguntar alguma coisa pra Dona Maria. Quando viu a cena, pulou pra cima de Rizo. Agarrou ele por trás e dominou as intenções deste.
- Mano, deixa disso. Tu qué estragá a tua vida?
Querendo esquecer a história dos pinos, o pai volta à principal polêmica.
- Num quero ver o Porão mais por aqui! Sua irmã agora só vevi choranu pelos cantu!
Paulão aproveita:
- Depois, eu volto. Tou vendo que cês tão tendo um papo de famía.
- Falou, mano. Depois, a gente conversa, disse Rizomar, com a respiração ainda alterada e com o pedaço de garrafa tremelicando nas mãos.
- Até mais, Dona Maria.
- Até, fio.
- Seu Lindo...
- Tchau.
Rizo larga a garrafa quebrada. Não tem pra onde ir. Por um instante, pensou que seu pai ia expulsá-lo de casa. Pega o assunto de Porão pelo rabo.
- O senhor foi o culpado. Eles queriam namorar e o senhor num deixou. 
- Um homem que já se meteu em porão de palafita pra ver pedaço de bunda de mulher num merece namorá minha filha. E num foi só uma vez não. Ocê não tá sabenu fazê as conta.
- Pai, o Porão não faz mais isso. Foi preso. Pagou pelo que fez. Hoje ele é um inocente. Se tratou com psicóloga até. E tem andado na linha. Tem até me ajudado a distribuir santinho pra um candidato aí....
- Que candidato?
- O tio Pororoca...
- Teu tio tem muito papo. Melhor você num entrá na dele.
- Ele tem pago pra mim direitinho. Acho até que ele me paga melhor do que aos outros.
- Mas além desse bico, tu tem buscado trabáio de verdade?
- Tenho deixado currículo em tudo que é empresa daqui e de Santos, mas até agora....
Fina chega da rua.
- Encontrei o Paulão no caminho. Tava meio esquisito. Nem tentou me pará pra jogá aquelas piada dele.
Percebeu o ambiente meio tenso. 
- Que que tá acontecenu. Algum parente morreu?
- Não, seu irmão que ainda tá escovanu o vestido da noite.
- O quê?
- Tá sem emprego...
- Pai, ele tá se esforçando. Sou eu que tou fazendo os currículos dele lá no trabalho.
Dona Maria, sempre na boa, não queria se meter. Porém, tem necessidade de ficar solidária ao filho, seu preferido desde o nascimento.
- No fundo seu pai sabe...
O pai pega um ovo, o único, pra fritar, e pontifica:
- Mas sempre a gente pode se virá...
- Como? Fazeno pino, home?
Lindomar não fazia pino, ele enchia. Com sua esposa não daria pra ter a mesma reação que teve com o filho. Se ousasse, não ia sair inteiro. Todos gostavam de sua esposa, vizinhos, que estavam tão próximos e até....ele.
- Meu trabalho é um trabalho hones...de filho-da-puta, eu sei, mas... 
- Cê não acha, bem, que Rizo merece um futuro melhor que o seu?
- Acho que num dá pra ficar esperano a sorte bater na porta...E eu já tou saindo desse bico. É que fiquei desesperado. Mulher, a gente tava passando fome...E eu sou um velho, imprestável. Mas meu filho não. É novo, bonito, tem força....
Com certa dó do pai, a filha lhe dá um abraço.
- Pai, Rizo vai conseguir. É ter paciência...
- Pai, não sabia que o senhor me achava bonito...
- Sai pra lá, seu....
Rizomar recebe um abraço súbito de Lindomar e chora. Mas passa a mão logo, pra que ninguém perceba. Afasta o corpo do filho e olha em seus olhos.
- Eu vou procurá não enchê o seu saco.
- Tudo bem, pai. Tudo bem. Tou vendo um lance aí. É forte. E é político. O tio vai me meter nessa área. Sei que o senhor num gosta. Mas é limpo. Serviço limpo.
- Mas e os currículo?
- Tou esperando. Mas acho que tou mais pra seguir essa área política.
- Prefiro que ocê trabaie pra traficante que pra ladrão!
- Pai, olha a besteira que o senhor tá falando.
- O tio Pororoca agora vai. E ele tá com oitenta por cento do nosso bairro.
Vai tirar o ovo da frigideira. Queimou um pouco. A mulher corre pra salvar.
- Cozinha não é teu forte.
Enquanto fala, ela coloca o ovo num prato, com arroz e farinha, conforme Lindomar gosta. O pai já se senta, falando de boca cheia.
- Vai trabalhá com o pior ladrão, meu irmão, um filho-da-puta que nunca viu o lado da famía.
Fina se intromete.
- Pai, o Rizo quer dar uma casa pro senhor, pra mãe, quer melhorar nossa vida.
- Cansei de estudar, de fazer bico, de ter emprego que dura três mês e vai simbora. E Fininha tá nessa comigo. Fala maninha...
- É, tou. 
- Mas até tu. Tu num tá num emprego bom?
- Tou e não tou. Recebo um salário menor que o mínimo. E só recebo com atraso. Faz dois meses que não recebo...O Rizo vai conseguir um emprego pra mim na campanha do Pororoca. E ai a gente vai subindo até tirar vocês desta me....
- Merda, dessa merda. Eu sei que é. Pensa que eu gosto?
Fina continua, tentando convencer.
- Pai, quero que o senhor e a mãe cuidem mais da saúde. Tenham conforto.
A mãe intervém, servindo ao marido o suco de pozinho, marca Mang, sabor maracujá, que ela acredita ter o dom de acalmar, como o maracujá de verdade.
- Cê tem de dar uma chance pros seus filho, home. Eles tem a cabeça boa. Eles vão conseguí. Você vai tê orgulho deles. Cê num vê aí. O Brasil afundano e us políticu sempre se danu bem.
- Não é isso que eu vejo não. Pelo contrário.
A mãe deixa derrubar umas gotas na toalha, enquanto continua.
- Mas logo vai ser tudo esquecido e tudo volta ao de antes.
- Eu num tou acreditando no que tou ouvino...
Josefina se distrai, ao pegar um pano pra enxugar a toalha da mesa, lembrando da noite de ontem. Ela e Porão no chão do barraco, conversando. A janela por onde ele entrou recebendo carícias do vento. A canoa balançando do lado de fora. Ela sonhando em trabalhar na Prefeitura com o tio. Ele sonhando em roubar um banco. Só uma vez. Uma só. Suficiente. Qual dos dois serve mais ao Porão do País? Será que um dia as coisas mudam?

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