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Parte vinte e dois - O som de suas asas (GERSON BOAVENTURA)

Apesar da ansiedade, não conseguia lutar contra o sono. Sentia-se como arrastado por um feitiço maldito. Há dois dias não dormia. Os olhos pesavam quase tanto quanto a culpa antecipada que sentia por aquela noite. Molhou o rosto mais uma vez. Sentado na cadeira de balanço, por um segundo seus olhos fraquejaram. Ouviu a porta do quarto abrindo vagarosamente. Ele estava ali. Sorriram um para o outro. Com um gesto, ele pediu que fizesse silêncio e não se levantasse. Aproximou-se, silencioso e ágil, e roubou-lhe um beijo. Um beijo quente. Foi lambendo seu pescoço, descendo pelo seu corpo até chegar entre suas pernas. Daniel fechou os olhos e suspirou fundo. Há anos não sentia aquilo. Há anos esperava secretamente por isso, um segredo que escondia até mesmo de si. Quase não acreditava que finalmente poderiam ficar juntos, mesmo que apenas por uma noite. Ele estava forte, bonito, e... havia algo mais. A ponta branca de uma asa. Tirou-lhe a camisa sem interromper-lhe o ato. Asas de anjo. Um anjo deliciava-se entre suas pernas. Tentou levantar-lhe o rosto para beijá-lo. Não era Rubens, era ele mesmo! Ou não? O rosto dos dois confundia-se. E era bom. Quis parar, mas não conseguia frear o prazer. Um desespero bom. Sentiu-o morder. Uma dor prazerosa. Mordia forte, machucava. Apertou-lhe as asas. Quis pedir que parasse, mas a voz não saía, apenas gemidos. Não conseguia se controlar. O outro lhe devorava a carne. Agarrou as asas com força e mordeu. Começou a arrancar as penas a dentadas, depois a carne. Sentia o gosto do sangue, mas não era o gosto habitual. Era doce, um doce enjoento. Arrancava mais e mais pedaços das asas do anjo e sentia que ele já devorara seu membro quase por completo. Mas não havia dor. Não aquela dor. A dor que sentia lhe enchia de prazer e desespero. Devorava as asas, engolia os pedaços até que só restaram dois tocos. O anjo caiu. Daniel desmaiou.
Seis horas depois Daniel acordou sozinho no quarto. Logo percebeu que nunca mais veria o amor de sua vida. Naquele instante, o coração de Daniel congelou.

Parte vinte e um - Minha culpa (GERSON BOAVENTURA)

Volte para mim, mesmo que seja tarde. Eu não sabia que te amava tanto até hoje. É preciso perder pra ganhar, mas como poderei aguentar perder você?
Nem mais uma pergunta, prometo. Não ligo mais para seus segredos, mas fique. Não morra, não morra. Perdoe-me, não morra.
Quero voltar pro começo, quero voltar ao tempo em que eu tinha você aqui. Ninguém disse que seria fácil, mas ninguém disse que seria tão difícil. Sinto vergonha de ter partido.
Horários e orações, imagens, pessoas, problemas alheios, preocupações distantes, pra quê tudo isso se nem posso ouvir você dizer que me ama?
Eu é que quero morrer e é você que Ele leva...
Por favor, me leve de volta ao início.
Livrai-me de meus pecados. Perdoa, pois sou ignorante e imperfeito. Livra-me de todo o mal. Santificado seja Vosso nome, santificado seja Vosso amor, mas não o meu, nunca o meu amor profano. Leva-me embora então. Poupa-me do inferno que esta vida é.
Nas mãos, Daniel segura o bilhete: "Deixe a entrada livre para mim amanhã à meia-noite."

Parte vinte - O coração queima (GERSON BOAVENTURA)

Enquanto contempla sua musa morta, ele é completamente tragado para dentro de sua mente. Se o mundo acabasse naquele momento, ele não perceberia. Naquele instante ele é incapaz de perceber qualquer coisa que não faça parte da delicada e pútreda imagem de sua amada.
"Abra os olhos só mais uma vez. Me olhe nos olhos uma última vez para que eu encontre coragem. Acorde e me diga que nada disso é verdade, que a gente nunca se separou. Acorde e me conte um segredo, faça-me uma promessa de amor. Diga que me ama, diga que precisa e mim, diga que nunca mais vamos nos separar. Por favor, me olhe nos olhos só uma vez mais."
Ele então leva o corpo nos braços e o acomoda no banco do passageiro do carro. No banco de trás, vários litros de gasolina. Enquanto dá a partida, uma lágrima escorre por seu rosto. Ele inclina-se e beija os lábios dela uma vez mais. Partem.
Enquanto dirige ele lembra. Memórias de épocas diferentes se mesclam em sua mente formando um caleidoscópio caótico e então ele passa a deixar que as lembranças corram como cavalos selvagens pelo seu pensamento. Lembra da primeira vez que falou com ela, de como tentou parecer profissional e indiferente, de como ela estava amedrontada, dos ciúmes que sentiu quando ela beijou o marido na sua frente, mesmo sem lembrar que ele era seu marido, apenas por confiar num estranho estúpido. Memórias que o feriam como facas cravadas em sua testa.
Mas ele não desistiu. Não podia desistir. Ele amava aquele anjo. Cuidou dela da melhor forma que pôde e tentou retardar o mais possível sua alta do internamento. Mas um dia ela se foi.
Ela se foi e levou embora seu coração.
Ela se foi e deixou com ele seu coração.
Ele era seu refúgio, o único lugar em que ela podia ser ela mesma. Não tinham segredos, vergonhas ou pudores. Não fosse assim, ela enlouqueceria com toda a pressão da Igreja e do marido. Ela não poderia continuar sem ele, seu protetor.
Mas um dia ela surgiu e estava diferente. Estava convencida de que não podia continuar com ele de forma algum, que Deus a condenaria, que estava tornando-se uma mulher sem valor. Apesar dos protestos do amante, ela quis partir.
Então chegou o momento do maior sacrifício. Ele preferia vê-la morta do que infeliz assim, vivendo uma vida falsa, fútil, entregando-se forçadamente a um homem que não despertava mais nada nela a troco de não ser comentada ou discriminada na sociedade. Aquilo o enojava. Aquilo o indignava. Tentou argumentar, tentou expressar seu amor e a necessidade que tinha dela de todas as formas possíveis, mas ela estava irredutível. Então, para não vê-la infeliz do lado do marido hipócrita e egoísta, ele tomou a decisão fatal: sua amada deveria morrer. "Morra, morra, morra minha querida." Ele ainda podia lembrar das palavras que povoaram sua mente sua mente. Infelizmente, essa era a única forma de acabar com o sofrimento dela.
Foi claro ao tratar com o assassino, um sujeito ao qual todos referiam o terrível apelido "Cão": sem dor, sem sofrimento de qualquer espécie. De preferência, aparentando suicídio.
Dois dias depois a mulher estava morta.
Naquela mesma noite ele violou o caixão.
Naquela mesma noite ele violou o corpo dela...
Chegando à casa, ele a carrega para dentro e deita seu corpo na cama de casal. Um casebre de madeira velha, caindo aos pedaços. Espalha a gasolina por todo canto. Deita ao lado de sua amada e beija-lhe os lábios uma vez mais. Acende um fósforo e queima uma carta de amor que trazia no bolso, a mesma carta daquele dia. Arremessa a carta sobre a gasolina.
A casa queima.
A cama queima.
O coração queima.

Parte dezenove - Réquiem para um anjo (GERSON BOAVENTURA)

O corpo de Tereza foi encontrado abandonado em um quintal localizado nos fundos de um bordel decadente, localizado em frente à Praça da Bandeira, em um bairro comercial da cidade. É comum encontrar prostitutas e travestis transitando pela região ao longo da madrugada como se fossem fantasmas em uma cidade abandonada. Apenas aqui e ali algum estabelecimento encontra-se aberto, normalmente bordéis, motéis, bocas de fumo e bares de reputação duvidosa.
Não havia ninguém junto ao corpo, apenas pedaços de roupa e pele e sangue espalhado por um raio de um metro. Ninguém disse ter ouvido ou percebido nada, mas a expressão no rosto era de horror e dor extremos. O estado do corpo, cheio de indícios de crueldade, chocou até os peritos da Polícia, acostumados a examinar tais atrocidades. A genitália, o seio esquerdo e o lábio inferior da vítima foram arrancados a dentadas e não estavam no local onde o corpo foi encontrado. O corpo apresentava diversos hematomas e indícios de abuso sexual. Mechas de cabelo também foram arrancadas da cabeça da vítima.
O homem que encontrou o corpo entrou em estado de choque. O corpo foi encontrado graças aos gritos de horror, que despertaram a atenção de todos. O homem foi encontrado junto ao corpo, segurando entre as mãos, juntas em posição de oração, uma pluma branca que, segundo relatou depois, teria encontrado sobre o corpo da vítima. Este mesmo homem é até agora o único suspeito, apesar de ter vários álibis a seu favor, como um colega padre que afirma ter estado com ele na Igreja do Sagrado Coração no momento em que o crime ocorreu e diversas testemunhas que o viram chegar a bordo de um automóvel em alta velocidade minutos antes de encontrar o corpo. Ainda assim a Polícia solicitou que o homem não deixasse a cidade sem antes entrar em contato com a Delegacia.
Este mesmo homem arcou com os custos do funeral e enterro, os quais ocorreram no Cemitério do Bom Descanso, o mesmo onde sua esposa havia sido enterrada há pouco tempo.
Sobre o jazigo o homem mandou construir a estatueta de um anjo com feições femininas e uma placa onde está inscrito: "Omnia Mutantur, Nihil Interit".

Parte dezoito - A última vez que ouvi tua voz

Daniel acabava que contar o episódio do confessionário a Cláudio quando o celular deste tocou. Era ela. Atendeu ansioso, atropelando as palavras, sem nem mesmo pedir licença ao amigo em momento tão delicado. Do outro lado ela chorava. "Encontrei! Ele quer me matar! Está aqui! O assassino da sua mulher! Rápido! No bordel da praça da band..." Um baque. Cláudio gritava ao telefone, atropelando as palavras em perguntas sem nexo, indiferente ao horário e ao lugar onde estava. A voz de um homem. Um baque forte. A ligação foi interrompida. Cláudio correu em direção à porta e Daniel acompanhou-o, destrancando as passagens e pedindo explicações. "Ele pegou ela, pegou ela!" era tudo que respondia. Partiu cantando pneu. Pelo pouco que entendera, ela estava em algum bordel. Tão decadente!