COISA DE ARCAICAS TIAS de Natanael Gomes de Alencar


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 I
Naquela sala, estava frio. Um frio do Alaska. Da Sibéria. A alma dela também. Fria. Picolé do bode-rubroanho. Mas simulava gentilezas. Seu nome – Penélia. Costureira conhecida. Muitos anos de batalha. Depois de um tempo, dera-se ao luxo de escolher pra quem costurar. Era muito procurada por grupos de escola de samba – mesmo tendo se apossado do que não era seu em uma delas - e de teatro. Naquele momento, falava com o homem, que tinha uma arma, chamada de Créssida. Uma Taurus 838c. Novinha. Pensara num funk pra arma. Novinha – palavra que lhe teimava quando pensava. Mas empacara. A Créssida era especial para aquele feito a vir. O homem sorvia um cafezinho e a ouvia. Ela falava. Ele escutava, reparando a parede com infiltrações. Dera um trabalho chegar naquela chácara. Quase fundira o motor. Ruas cheias de galhos, troncos, pedras e buracos.

Dona Penélia, mulher no auge da delicada fúria, profissional de mão cheia, era rija, volumosa, rosto amplo, olhos azuis como o mar e o céu juntos, vestida com um amplo vestido florido. Ele chegara com dureza desconfiada. Educado e temeroso. Vestia um terno fora de época. Tinha um bigode grosso e lustroso. Depois de cerca de meia hora falando de coisas triviais, alguns palpites sobre o que seria mais adequado vestir nas situações. Não que ele tivesse perguntado. Depois de discorrer sobre sua arte de alinhavar, ela entrou no assunto que lhe interessava: ela.

O tempo foi passando e meu nome se apagando. Mas nunca me importei com isso, sabe? Quando começou minha fama pouca,  média, mediíssima talvez, eu morava no centro, e pra ganhar meu pão, além de fazer minhas costuras, vendia uns tapetes de tecido grosso, com desenhos de amor, aqueles amores de mito, de lenda. Vendi muito. Maidaconta. Durante uns oito anos. Minhas freguesas sempre foram muito apaixonadas.

Assim eu ia tomando conhecimento de suas paixões. Não precisava muito pra isso. Meu marido sabia da vida de todas. Sempre foi dado com todo mundo. Já eu não. Não sou de muita prosa. Sei fazer meu serviço, isso sim. Ninguém nunca reclamou. Tenho muita experiência como costureira. Das boas.

Quando fiz dezesseis, mãe achou que tava na hora. De especular outras  coisas. De visitar a Tríade. É que eu tinha umas tias no interior, de fora e de....dentro talvez....quer dizer: ainda tenho. Dentro aqui. Eram exímias fiandeiras. Teciam numa roca bem antiga. Moravam há décadas, diziam séculos, na fazenda Tríade. Onde os recursos, sabe, eram parcos. Mãe colocou na cabeça que eu tinha muito a aprender com elas. Quando decidiu, foi rápida. Me fez uma matulinha. Me deu benção. Fechou a porta. E eu casquei. No rumo delas. Parti pela estrada afora, sabe? Tão sozinha. Levando uns problemazinhos para as tias-vovozinhas. A casa delas era muito muito afastada da cidade. Longe pra encardir. Mas eu tava decidida decididíssima a cumprir a vontade de mãe.
Andei muito muitíssimo muito. Se eu não tivesse decidida....Mas eu tava. Queria fazer a vontade de mãe. Andei muito demais. Nunca andei tanto na vida. Subi morro, desci rio, atravessei pinguelas, coisa de louco. Meus pés ficaram uma ferida só. Mas cheguei. E no fim da caminhada elas tavam lá, todas na varanda, pulando feito crianças, a me esperar. Quase trupicando uma na outra. Feito arteiras arcaicas crianças. Foi só cruzar a ponte, vieram direto pro abraço. Nem pareciam da idade que tinham. Mãe dizia:  “vão ser sempre jovens, tenham a idade que tiverem. Porém, chegam a parecer velhas, se velho for o estado de quem as veja.” Quem as visse diria que eram gêmeas. Mas não eram. Havia diferença de um ano entre elas. A mais velha e mais alta tinha o nome de Nona. A do meio e mais baixa era tia Décima. A baixíssima que o povo chamava de A Morta, tinha o nome verdadeiro de Findânia. Nomes bem esquisitos verdade. Verdade? Minha família é cheia de gente com nome esquisito esquisitíssimo. Tia Nona possuía o costume de chamar todos por fia, desde há muito, e acabou que ganhou na infância o apelido de Fia. Até se esquecia de seu mítico nome. Engraçado que justamente a que fiava ganhou o apelido de Fia...Então, mal entrei, sentei e comecei a tomar café, tia Fia me puxou de lado. Gostava de saber de recém-nascidos, de embuchamento: - Filhinha fia minha, vem cá, me conta sobre as grávidas. Quantas engravidaram na família nesses últimos dez anos? Segurei o fuso com o qual ela tecia. E respondi a ela que, nesses dez anos, só minha mãe e eu ficamos de bucho. Falei tudo. Que fiquei grávida com dez anos. Que meu bebê viveu só sete meses. Que era filho de um bandido que me atacou. Tia Fia nem quis saber. Foi apanhar roupa no varal. Tia Deci ficou matutando na minha história. Quando falei na morte do bandido, Tia Findânia foi a única que sorriu. Esta era chegada em morte. Uma gulosa de velório.
Tia Fia teve dez gestações. Mas não vingaram, falou Tia Deci, entrando com as roupas na mão. Na última, ainda tavam na cidade. Quando fez trinta e seis semanas, o marido, bicudo, louco de droga, atingiu ela com um chute. Matou o feto. Tia nem esperou a noitinha. O disgramado nem gritou. Sabia do seu merecimento. Tia era rápida no destecimento. Sem sangrar. Fosse Shy, o de Veneza, tiraria uma libra de carne sem derramar líquido. Tia Deci começou a falar. Dum amado que Fia teceu para ela. Moreno, baixo, atarracado, de início bom assim, mudou com o tempo, assado, e se mostrou, do armário saído um verme infame, afamado nos jornais como assassino de cinquenta e poucas mulheres. Conhecido como Cobra do Parque. Despertava medo e ódio. Tia Deci achou que ia conseguir mudá-lo. Tia Fia, de dó, mas só por causa da mana, desteceu e reteceu o jumento canibal várias vezes. Não adiantava. Voltava a cagar na cerca. Preso umas trocentas vezes. Tornou-se ele um dos detentos que mais recebiam cartas de amor na prisão; no primeiro mês detido, foram mais de mil. Tia Deci era uma delas, a mais apaixonada, pathos, casou-se a triste com ele na prisão. Condenado à prisão perpétua, por seus horrendos desfeitos, entre eles a morte da ricaça grávida Mipala Dio. Brutalmente asfixiespancada naquele hotel, como é mesmo o nome? Mesmo assim, depois de cinco anos de prisão, o facínora teve licença para aliançar o romance com Tia Deci, que tinha, veja só você, vinte, vinte aninhos.

Tia Findânia não aguentou !

Certas coisa a idade não desculpa. Que mulheres são essas que amam assassino? Como? Num é só a carência no mei das perna, né, Décima? Mas quem sou eu pra jogar pedras, né mesmo? Algumas de nós gosta de ser valente e diferente....os monstro tem sedução e os anjo são bunda mole...

Tia Deci se escondendo. E Tia Finda provocando.

“ É como estar com um ratinho numa gaiola. A gente sabe que eles tão presos e só vão comer na nossa mão. Não vamos sofrer traição. Se somos traídas e humilhadas pelo homem livre, não somos pelo homem preso.... Dá adrenalina, né, Deci?”

Tia Deci tava sufocada pela nhaca do assunto, mas Tia Finda continuou e declarou:

Então, tive de me meter. Cortei o fio. Redei o monstro do home da linha da vida dela.

Tia Fia quis colocar um tempero de piada na conversa. “– Você é tão jovem e já aperta bem o fuso, hein? Você gosta de fuso grandão ou pititim?”

E começava a rachar o bico, enquanto as outra tava tudo séria. Afinal eu só tinha dezesseis. E continuou nas gracinha:

“ Como chama a mulher que sabe onde seu marido tá todas as noites?........Vai dizer que ocê não sabe?....  Viúva. Entendeu? O marido tá sempre debaixo da terra! Pelo menos até virar cinza!
“Por que as mulher não quer mais se casar?....Responde, vai....Não sabe?..... Então, eu digo: porque não é justo! Imagine: por causa de algumas grama de lingüiça ter de levar o porco inteiro!” ....

Na época não entendi neca de pitibiriba.

Tia Deci, compreendendo a timidez de meus dezesseis, rapidamente passou a mão na frente de meu rosto e me vi de língua sem tramela.

E contei pras tia que, quando fiz dez ano, mãe vivia dizendo que eu tava com o diabo no corpo, com gastura pra furunfar e isso tava esquentando a piolhenta dela... Mas eu era só uma menina ispiculadeira de dez anos. Gostava das coisas da natureza. De espiar as flor, de terra, de mar. De sujar os pés na lama. Na vera, ainda gosto. No caminho pra cá, fiz tudo isso....

Mãe sempre foi de lua. Ou era muito boa, ou muito cruel. Eu com dez anos sofria muito, sem saber por causdequê. Quando fiz dezesseis, comecei a desconfiar. Do meu primeiro corrimento de sangue pelos nove ano, até mais “o meno” os dezesseis, ela deu de me olhar diferente.  Resmungava maidaconta pelos cantos, dizendo que mulher nasceu pra sofrer.

Quase todo dia, escutava mãe me dizer que eu tinha que ser acorrentada! Tinha que trancar a minha diabuceta com cadeado! E meu irmão? Num tinha que trancar o diamusquito dele também? Ele podia fazer tudo, desde pequeno. Quando fiz quinze, que mãe passou a me atazanar menos. Dizia que se arrependia de ter me arreliado tanto, e que a gente, filhas de Eva, tinha mais é que se acudir. Quando disse isso, as tias olharam uma pra outra, balançando a cabeça.

O Lico era meu único irmão. Andava sempre de banho tomado. Me dizia que o diabo odiava limpeza. Já santo não, adorava  ficar limpinho, como minha pele! E passava o dedo. Um sem-vergonha! Desde menino, o falso vivia lendo livro religioso. Queria ser padre. Lia bíblia de crente e de católico. Sabia tudo decorado. Cabeça boa.

Meu pai dizia também que Lico era o mais inteligente, o melhor de nós. Eu ouvia calada. Porque eu sabia que era eu, pois eu lia livros de qualquer assunto, queria saber de todo livro. Não tinha preguiça de ler. Desde bem pequetitinha..

Os olhos de Lico me comiam como duas portas de inferno, escancaradas. Todos de casa fingiam que era outra coisa. E eu tapava as orelha pra não ouvir o barulho feroz do bicho dentro dele. Até as batidas do seu coração eu escutava. Quando falei isso, notei os olhos de deusa furiosa das tia.

Me olhava até com mais gana que os homens do bar. Se fazia de santo e de anjo. Do pau oco só se for. Casca fina e oca, só se for. Me despedaçava com suas sedes e toques, como se eu fosse uma qualquer.

Vivia regulando meus vestidinhos. Se eu tava de vestidinho até o joelho, ele achava que eu tenha de baixar mais. Mas eu vistia o que tinha pra vistir, uai! Toda hora, que se chocava comigo em casa, ia prum canto rezar...Como é que era mesmo a oração dele?...Ah, lembrei. Ele rezava assim: “Jesus, Maria, José, nossa família tua é! Sai, Satanás, pecado de mulher, desta família de fé!”

Eu Satanás? Eu? Ele que era o dianho, o capiroto, o amigo do gerente, o Sete-Peles. Falei pro pai do olho comprido dele nos meus peitinhos. E pai defendia o disgramado. Pai dizia que qualquer homem ia olhar. Até ele. Disse ainda que eu nasci pra atazanar os homens, que nem uma Pomba Gira!

Aposto que nem sabia o que era Pomba – Gira. Chegou até a me mandar pra Dona Bina Benzedeira. Pra ver se a pomba era dominada. Caiu do cavalo. Mãe Bina disse que eu não tinha nada. Falou que eu era só uma menina moça de peito crescendo, claro que os varão ia ficar tudo de tesoura amolada, doidinhos pra me descosturar!

Mãe Bina...  Mãe Bina fazia cada churrasco. Foi com ela que pai aprendeu. Quando aprendeu, começou a fazer churrasco quas’todo sábado. Nunca vi alguém mais chegado em carne que ele. Depois que meu irmão fez treze, não sei causdequê, pai começou a mandar ele pra casa da vó Nita. Sabia como manipular Lico. Mãe não dizia um “a”.

Meu irmão até que adorava ir pra vó. Tinha piscina, festa  e bastante mocinha, quase todas primas de sangue. Que nem dava bola pra ele. Coitado...Quer saber: coitado nada. Lico merecia.

Dizia que que os churrascos de pai pareciam churrascos só pra gente velha. Lico dizia que só dava tribufu.  Meu pai tri e elas bufu. Ou meu pai fu e elas tribu...engraçado.

Quando ficava bêbado, humilhava muito minha mãe. E, chapado como um cão dos infernos, saía por aí, pelo mundão. Pulava de bar em bar e a cada bar aumentava os amigos. Depois terminava nos braços de alguma amorosa. Quando disse isso, tia Deci quis saber quem eram as amorosa...

Geralmente amigas de mãe. Elas vinham com papinho sonso:

“O coitado tava jogado na praça. Foi abandonado pelos amigos. Tive pena dele. Tadinho...
- Me pediu ajuda. Não atinava com o rumo. E a comadre sabe que eu tenho coração mole, né. Não deixo desamparado um conhecido. Jeito nenhum. A comadre sabe.
- Em mim, a bondade é natural, como diz Padre Fuentes.  Deixei ele dormir na garagem lá de casa um tiquinho. Mas lá é muito confortável. Tem um sofá que parece uma cama de casal quando abre. Não passou frio não, viu?”

 Mãe respondeu uma vez: “é, não deve ter passado nenhum frio mesmo, deve ter usado cobertor de carne...das bem pelancudas, que são as que aquecem bem. Brigada por ter trazido. Não precisava. Mas a comadre podia ter telefonado, né?. Tchau
Pudesse, mamãe fazia farofa na hora com as tripas dela. Falar nisso. Tou com uma vontade de comer farofa de tripa de porca. Será que inda tem?
Disse pras tias que um ano antes de ir pra casa delas, quando fiz quinze, Lico se tornou mais atrevido, e a desculpa dele era a de me limpar dos demônio pra ser uma serva de Deus. Ele evinha pra cima todo cheio de carinho e conversa babujada. Pegou uma mania de me dar cafungada no cangote. Tentava passar a mão no meu rosto. E dizia que eu tinha a pele macia, que nem nuvem, como se olhasse nuvem de perto...Acho que ele gostava de levar tunda, porque teimava em repetir o mal feito. Falei pras tias que antes de ir pra casa delas, ouvi fala de Lico e de pai arapucando coisa ruim pra mim no quarto de Lico. Falei pra mãe e ela acho que por isso teve a ideia de eu pra cá tomar o rumo.  Ela até chorou. Antes nem.

Tia Deci passou a mão em meu rosto e eu me calei. Lembrava de tudo que foi confessado. Depois, serviram pra mim um chá. Um chá que me deixou tão feliz. Fiquei dois dias com elas um pouco mais. O bastante pra me firmarem em rituais de tenda vermelha, antigos, que me deram força de dentro-deusa-mãe-nossinhora. Disseram até segredos de mãe. Que pai foi tecido e destecido por Fia maidaconta. Muitas vezes. Como aconteceu com meu irmão desde que o senvergonha se soltou. Não dava porém mais jeito.

Quando voltei pra casa, foi como estivesse com todas as mulheres da família dentro de mim. Logo, logo, mãe começou a me ensinar segredos da costura. Principalmente dos cortes. E os churrascos foram aperfeiçoados com rituais invisíveis. Tias eram sábias de vingança medeia. E a cada churrasco remoçava mais.

Aquela estação passou. Chegou a vez de traçar um plano bem maturado, inspirado nas tias. Foi rápido, rapidíssimo. Foi de fácil execução. Fizemos uma janta especial pros nossos homens...não muito homens, né?  Mentimos que ninfas de eitos da família iriam fazer visita depois do jantar. Só disse pra eles ficarem mais emocionados. Dei a ideia de fazer tapeçaria com eles. Lemos muito sobre tal fazer alquímico. Tudo tinha de ser feito de um modo perfeito. Sem demoras. De maneira rápida rapidíssima, delicada delicadíssima.

Compramos muita bebida. Das fortes e fortíssimas.  Era preciso. Muita destilada. A hora passando, urubus volteando em cima, e os dois foram capotando aos poucos. Depois da meia noite, quando estavam roncando feito porco de banha, arrastamos eles pro porão, onde a tapeçagem foi tranqüila. Não tivemos medo. Além do mais, nossa chácara era isolada.

O tempo saltou mais um tanto. Mãe morreu. Muito depois dos homens. Mulher vive mais. Coisa das deusas. O tempo foi passando. Mãe morreu. Muito depois dos homens. Minhas primas devem de estar por aí em algum bosque. As tias? Como me separar delas, se estão despejadas dentro de mim, no interior de meu eu verdadeiro.
           
Durante algum tempo, morei longe da chácara. Numa casa do centro da cidade. Teci meu marido logo depois da morte de mãe.  Eu me sentia muito só. Precisava de um Príncipe, um bom homem. Galanteador. Respeitoso. Que pudesse ser um bom pai. E que fosse um homem vigoroso, ardente. Afinal, eu tinha o dom de tecer pessoas, já nascido comigo, dom revelado a mim pelas Tias.

Quando terminei de tecer ele, o home ficou embasbacado. Quis entender o meu dom. Expliquei a ele que era um dom de berço. Herdado de almas antigas.

Mas sua curiosidade não tinha limites. Me pedia que tecesse coisas, dinheiro, enfim, bens materiais. Apesar de ter falado pra ele várias vezes que só tinha o dom de tecer pessoas.

Dentro de um ano e meio, casamos. Lembro da gente ter dançado com aquela música tocando: “Me encontrou tão desarmada, que entreguei meu coração”. E os dias foram correndo. Perfeitos e intensos. Éramos muito felizes.

Me tornei uma boa costureira. Logo depois, veio o fato que mudou minha vida. O nascimento de nosso filho. Na primeira vez em que pegou Odisseu nos braços, disse que ele seria um campeão, um conquistador e que seus zóio ia botar as rapariga tudo no pé dele! O menino foi crescendo diferente, tinha uma alma de mulher. Uma boa. De mulher boa. Não de mulher má. Alma terna, pura, desde petitinha.

Uma vez, minha Odisséia tinha oito anos, a gente já tratava ela como menino. Foi prum, canto do quarto, pegou uma tesoura e ia cortar o próprio pintinho. Um ato de desespero. Foi até o pai que descobriu. Rastou o menino pro quarto e ficou um quinze minutos de prosa...

Noutra vez, ele tinha uns doze. No final de um jogo, todo mundo alegre no banheiro, e quando meu menino foi tirar o short, viu que tava de calcinha por baixo. Vestiu de novo o short. Mas todo mundo já tinha visto. Quando chegou em casa chorando, o pai tava esperando com seus amigos de bar. Não me lembro quem contou pra ele.

Arrastou o pobre pro quarto. E quando eu fui atrás e tentei entrar,  bateu a porta na minha cara e trancou. Fiquei imaginando o que ele tava fazendo com minha Odisséia...O tempo passou mais um tanto. A gente voltou pra chácara. Meu filho virou uma moça bonita, equilibrando com o que já era por dentro. Uma mulher sensível. Merecendo ser mulher mais do que certas mulheres que andam por aí.
 Teve um dia que minha Odisséia tava com um vestido bonito e meu marido até elogiou! Levou ela pro quarto e ficaram lá proseando um tempão. Nem me deixaram entrar... Passaram-se uns dois meses. Lembro que era Lua Nova. Não se pode preparar porcos em Lua Nova. Aprendemos. Enquanto a gente esperava a Lua de quarto - crescente, Odisséia ia se aperfeiçoando. Aprendeu a amolar e limpar todo tipo de arma branca.

Maneja agulhas como artista de circo. Minhas Tias por dentro davam conselho a ela. Odisséia treinou muito no porão. Como uma ninja. Virou uma verdadeira Mulher Maravilha. Fez também, de um tecido mais grosso, uns bonecos de areia pesados. E quando o pai tá longe, treina com eles de um canto pro outro. Arrasta eles daqui até o quintal. Daqui até o porão. Do porão até aqui. E marca direitinho o tempo. Fico espantada com a rapidez da danadinha

                                               II

Meu marido não sabe que hoje vai ser um dia especial pra ele como foi pra
elas. Todas tiveram um dia especial. Todos nós temos. Só esperar. E é fatal. Alguém sempre está à nossa espera. Em algum momento da vida, a gente chega na nossa casa e dá com alguém esperando...Esperei todas. Todas elas...Planejei minuciosamente...

A primeira foi com uma linha. Mergulhei a linha em cerol. Fiz um cerol bem feito. Bastante cola com bastante vidro moído (inconscientemente, bate os dedos na mão contrária pra tirar o excesso). Ela, a primeira, veio provar um vestido. Chegou de maneira bem educada:

- Posso entrar?

– Pode. Não precisa nem sentar, que eu já tomo as medidas..

No começo do casamento, ele era cavalheiro. Tão. Mais da média. Muitíssimo.  Se aproximou de mim como a maioria. Gosto da maioria. Mas palavras doces dizem só pra nos enlaçar. Disse que tinha tara por costureiras. Gostava do momento de se tomar as medidas. A proximidade do hálito. A fita nas costas, no tórax. Quase no sexo. Era a sua tara. De início, eu era muito xucra. Ele disse que me ensinaria. Que eu não me preocupasse. E me guiou nas minúcias do coito. Com violência, mas me ensinou. Já era louca, fiquei mais louca por ele. Meu pathos. Já tava enormizando minha criação de pathos. Mas quando ele virou a cabeça por umas vagabundas do bairro, eu fiquei furiosa. Excitei os pathos todos. Aquelas prosti. Prusta. Puta. Uma delas, Brigite, tava todo dia aqui.

– Você engordou um pouco.

– Impressão sua. Tá velha. Com miopia de costureira. É a roupa que lhe dá ilusão.

Fiquei com gana de fazer uma besteira. Aprendi com ele. Professor de coisas de bestiário psicológico. Ele sempre foi um homem violento. Como meu
pai. Me excitava com suas pegadas fortes. Comecei a gostar dos exageros...Ele gostava muito que eu ficasse de quatro..Deixava minha bunda toda vermelha...
.
– Vou abrir mais essa cava... Já resolveu se quer a gola
imperial?

– Sim, mas sem recortes e sem pespontos. Mas vai logo que tou com pressa. Você ta ficando lerda. Não era assim.

Peguei a linha, me aproximei, bondosa e serviçal, e de imediato - “zap” - cortei
sua veia aorta... Sabe, gosto de fazer um serviço rápido. Sou uma costureira de muita perícia. Se me dá na cabeça fazer, faço. O trabalho sai daqui ó.
  
Desde o início, tive medo que as freguesas perguntassem das manchas em sua pele. É que ele adorava apanhar. Que eu enforcasse com umas argolas seu feroz fuso. Que eu o chicoteasse como ele me chicoteava. Sempre teve desculpa pra cada ferimento. Fui me adaptando às suas violências. Aprendi a comprar cremes pra facilitar as fantasias - estupros que ele me fazia. Se ele me olhava e a bunda não estava quase sangrando, me batia mais forte na próxima vez. Será que elas batiam nele também?

– Quer que eu mantenha a abertura tradicional ou você quer a
lateral?

– Acho a tradicional mais discreta...Só 5cm de fenda, hein...

A segunda amante dele era minha melhor amiga. Como eu fui sonsa. Não teria percebido nada se....Um dia eu tava escovando o terno dele e encontrei....Eu sabia que era dela..Eu que vendi pra traíra. O meu melhor trabalho.

– Você sabe que pode dar um volume maior aos seios, não
sabe, amiga?

– Sei... É disso que gosto. Deliro com a ideia de ressaltar o colo.

E o sutiã dela eu fiz com muito esmero. Comprei a melhor renda, numa cor
Vermelho-paixão. Afinal, era minha amiga preferida. Ela queria um sutiã
erótico. Fiz um na exata medida de abrigar os peitos dela. Eu nem imaginava
que ela iria estrear com meu marido...Ele deve ter se babujado, achado uma
delícia. Nem deve de ter percebido que eles eram quadrados, cheios de veias e estrias, parecendo gelatina. Minha opinião de costureira! Não de traída.
 Quantas vezes, minha mãe cuidou dela quando era menor. O pai e os primos abusavam dela direto. Cansei de apoiar a cabeça dela nos meus ombros. E agora a sem-vergonha dava pro meu marido......Verdade que pagava bem as costuras que eu lhe fazia.

– Quer passadores duplos na cintura?

– Não. Esta saia usarei sem cintos. O cós pode ser mais estreito.

 Sempre foi generosa. E sonsa. Aposto que ele rasgou com os dentes. Há tempos atrás, quando eu estava mais, ele costumava destroçar com os dentes minhas calcinhas e sutiãs. Planejei a morte dela uma semana antes. Inventei o pretexto de lhe dar uma peça íntima inigualável.  Uma peça erótica diferente. Uma novidade que eu criara inspirada numa modelo internacional. Ela caiu...

– Botões de madrepérola ou madeira?

- Madrepérolas, é claro. Quero as ombreiras embutidas.

A segunda fulana, da rua de trás, parecia ter um joelho no rosto. O seu nome era Débora. Tinha uma bunda um pouco torta, de silicone, fruto de uma cirurgia mal feita....Ele bolinava elas na minha frente....o desgraçado...Até que...tive a idéia de dar um fim nas duas. Comecei a arquitetar a morte delas. Brigite foi fácil. Gostava de viver aqui. De fofocar dos outros. De lamber com os olhos o que era dos outros. Outras. Até conseguir a satisfação. Nas minhas costas. Na frente. Em cima. Embaixo.

– Bolsos tipo faca podem deixar os quadris maiores...

– Não, se presos ao cós e pences. Mantenha-os, por favor. Que fedor! Tomou banho?

Ainda isso. A vaca. Me aproximei por trás e enfiei-lhe uma ponta de tesoura envenenada na nuca. Demorou pra que eu a retalhasse. Carne muito dura. Piquei a carne em blocos pequenos. E temperei bem.
A outra, do outro dia, fiquei pensando em reconsiderar. Ela chegou tão contente. Tão feliz. Mas desconsiderei a reconsideração.

– Vou ter que apertar mais aqui.

– Me parece que atrás também...

Peguei a agulha e finquei no meio de seu coração... Herdei de minha mãe o dom. Minha mãe matou todas as amantes de meu pai. Todas amigas. Minha mãe matava e eu ajudava a retalhar os corpos. Fizemos grandes churrascos. Ninguém desconfiou. Sempre gostaram do sabor da carne.

A derradeira que me deu muito trabalho. A atriz. Era a mais desconfiada. Tive de esperar um mês. Deixei-a no centro da sala, olhando uns modelos de vestido transparentes, e fui pegar uma régua de costura metálica que estava encostada no canto. Fiz tudo com cuidado.

– Vou ter que deixar mais largo aqui.

 – A altura também. Quero abaixo dos joelhos. Assim.

Peguei, mensurei as pernas, com cuidado, e deslizei a régua, que eu tinha
deixado qual uma afiada navalha e penetrei nos seus quadris. Quando ela desmaiou, esguichando sangue, Odisséia não demorou, deu um jeito de parar aquela cachoeira. Limpou tão bem! Que beleza! Minha filha amada! Nem parecia que alguém tinha morrido. Quando desnudamos o corpo, notamos uma coisa. Uma coisa que estava bem oculta. A mulher tinha um. Quando virou churrasco, foi a melhor parte. Dividimos pelo meio. Parecia uma auroreal e sádica lingüiça do açougue do Pepe. A melhor da região.

Nossa, está escurecendo, o meu marido deve chegar logo. Hoje é o dia dele. Aniversário? Seu? Não? Dele? Pode ser. Ah, sim, eu quero que o senhor faça tudo rápido. Por isso a paga farta. O senhor não reclame. Dei a si tudo o que poupamos em barras. Certo? Que bom.

O homem formal fica sem jeito, sem saber como proceder. A porta se abre, mas, entra..... o invisível. O essencial aos olhos? Ninguém? Ih, ela é louca...Mas a porta se abriu sozinha. Quê? Ouço um som de beijo estalado, mas não é dela.

- Olá amor! Que bom que você chegou. Eu já vou preparar o seu jantar. – Beijou o ar e foi beijada por ele. Estranho. Estranhíssimo. Quase que ouço funérea voz. Ou ouço mesmo. Um convite obsceno?

– Eu estava te esperando. – Recebe tapa na bunda. Gritinho safado. Pegada ao colo pelo ar. Pelo peso, o homem feito de ar é potente.

O homem formal assustou-se quando chegaram muito perto dele.

- Ah, sim. Me solta. Deixa eu te apresentar. – É depositada no solo, num vagar galante.

– Benzinho, este aqui é um freguês novo. Filho do seu... Caronte, não é? É.  – Sente a mão úmida do marido apertando a sua. Como? Não crê em fantasmas. Aperta sem medo o mistério. Como conseguirá ela dar-lhe a morte?

 - Meu marido O........quando ia falar o nome de novo é sustentada no colo.

- Eu tenho uma surpresa pra você, sabe? – O invisível, talvez pensando safadamente, feliz pelo prometido, gira com a esposa no colo, até quase chegar ao teto. - Vamos na cozinha. Odisséia tem um chá pra você. - Já voltamos, seu Bigode.

Misteriosamente, o assassino, contratado para matar a costureira e sua filha, depois que dessem um fim no homem de ar, se encolheu na poltrona, sugado por forças imprevistas, sem tempo para agonia. Por mais que tentasse fugir, era impossível. Como afogado, mãos e cabeça para o alto. Por fim os dedos tremidos e ossudos, cheios de anéis com desenho de caveira. Quem mandou aceitar o serviço num lugar tão escamoso? Sua mulher, Calpúrnia, bem que tentara demovê-lo da empreitada.

Natanael Gomes de Alencar

O SONHO DO CARETA EPAMINONDAS GIVALDO PINTO COUTO .................de Natanael Gomes de Alencar

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Raulzinho chega atrasado no serviço. Teve que pegar dois ônibus, como sempre, mas desta vez, um acidente colocou seu horário a perder. Chega correndo ao relógio de ponto digital, porém não adianta. O estrago já está feito.
Sobe a escada de cimento, que está em petição de miséria. O acesso de pessoas mais velhas ao seu local de trabalho é cada vez mais difícil. Sequer há corrimão. O prédio estava quase caindo.
Se algum aposentado chegava ao pé da escada, acabava tendo de voltar. Pois de outro modo iria ficar plantado ali. Do primeiro degrau já dá pra ver a impossibilidade de subir, se não se está em boas condições de saúde.
Raulzinho na verdade não era seu nome, que, na real, era Epaminondas Givaldo Pinto Couto, mas, se acostumou, não reclama mais quando o chamam assim. No fundo, no fundo, não gostava de seu nome. Ele nasceu e cresceu numa família religiosa, sendo sempre o queridinho de todos. Até começar a trabalhar. Fora de casa não era tão queridinho assim. Era sério, não curtia brincadeiras, não falava palavrão, ou seja, não falava. Seu primeiro emprego foi numa farmácia. 
Mas, devido a problemas que não se sabe onde surgiram, era difícil pra ele memorizar sequer o manual de procedimentos. Em todo teste que havia pra subir de função fracassava. Sua nota era sempre um ou zero. Foi nesse emprego que ganhou o apelido de Raulzinho. A semelhança com o cantor e compositor era tremenda. E não adiantava ele tirar a barba e o bigode. Mesmo careca, era Raul Seixas careca, cuspido e escarrado, garantia o seu colega mais inoportuno. Era este o responsável pelo começo da história. Não ganharia o apelido se na farmácia não trabalhasse o Ric Alisson, fã ardoroso do cantor. Ric Alisson também não era seu verdadeiro nome e sim Artaxerxes Espidocêntico da Silva. De onde seus pais tiraram este nome, não se sabe. Perturbava o Raulzinho pra esquecerem suas falhas, quem sabe. Aliás, perturbava a todos. Sorte de Ric ser parente do dono da rede de farmácias.
Porém, chegou o dia de Raulzinho sair da farmácia pra um emprego melhor. Não via hora de sair dali. Não pelo nome novo e mais pelas brincadeiras sem noção do colega inoportuno.
Em seu primeiro dia no novo emprego, lhe dão a tarefa de carimbar uma infinidade de papéis. Atrás dele a mesa da chefe, Dona Alzira. Ela lia um jornal. Do lado dele, Gildete, perseguindo uma mosca com os olhos e uma toalha molhada, que tornava o golpe mais rápido. E acertava os insetos, particularmente as moscas, em cheio.
O tempo foi passando, e Raul completou em determinado dia o tempo de serviço de vinte e cinco anos. Sempre na mesma. Só que com os anos foi deixando de ser o idiota motivo de chacota. Começou a se especializar em Raul. Nas férias, trocava informações com quase todos que conheceram o astro do rock. Tomou café com Silvio Passos, foi aos shows de uma das filhas, a Vivi Seixas. Visitou a mãe de Vivi, Kika Seixas. Ganhou de presente o livro Baú do Raul. E dali em diante começou a fazer muitos colegas, principalmente os que tinham interesse comum em Raul Seixas. Conheceu Cissa, uma adoradora do Maluco Beleza. Namoraram, noivaram, casaram, e tiveram um filho.
No dia em que completara vinte e cinco anos de serviço, apontara no trabalho com outros ares. Estava disposto a tomar uma atitude que nunca cogitara. Esperou chegar bem tarde da noite. Vai até a chefe, que continua a mesma, com apenas alguns charmosos fios de cabelo branco, e a encara, esperando a manifestação da mesma. Dona Alzira não entende esse gesto súbito. Depois de uns eternos cinco segundos, ela dispara.
- Raul, por que parou? 
- Vou pra casa. Esse trabalho já me torrou o saco, morou? Já é dez da noite e eu aqui nessa merda. Só carimbar, carimbar, carimbar. Pra ganhar o quê? Uma merreca dum ouro de tolo! Tou fora!
- O senhor acha que vai ser fácil achar outra moleza dessas com a sua idade?
Raul pega o casaco, para na soleira um pouquinho, pisca pra Dona Alzira e manda, baixinho, quase inaudível o som, articulando bem aquela ordem que se dá a alguém quando quer que este vá....
Dona Alzira faz que não entendeu aquilo. Afinal, Raul nunca fora assim, apesar da fama de seu ídolo.
- O senhor quer ser um carrasco pro seu filho? Não esqueça que o senhor tem um filho. Como é mesmo o nome do filho dele, Elza?
- Não sei, Dona Alzira. Pera lá, tem o nome num convite de aniversário antigo comigo. Esta gaveta já tá com muita coisa que tem de ir pro lixo...
- Deixa quieto, Elza! Você também não serve pra nada! Tá ficando velha!
- Dona Alzira, eu exijo respeito! – e sai chorando para o banheiro.
Raul, da porta, lança à chefe suas últimas palavras ali.
- Não quero mais ser explorado por você! Vocês ainda vão ver meu nome em letras grandes! Logo vocês vão ver!
- Você já tá com cinquenta anos! Tá querendo fazer o quê? Cantar? Atuar? Pintar quadros? Desenhar quadrinhos do Carlos Zéfiro?
- Quem é esse?
Sem jeito, Dona Alzira ajeita os óculos.
- Não interessa!
- Ninguém aqui tem sensibilidade, tá entendendo? Ninguém! Todos aqui tão com o trem parado noutro século! A gente se cruza em alguma estação por aí!
Raulzinho deixa sua imaginação fluir. 
...
Entra em Imaginópolis:
Enxerga a si no aguardo de um chamado de emprego, depois de um tempo, em que seus planos artísticos não dão certo, ao sair dali. No canto esquerdo de sua cidade Imaginópolis, sua mulher atende um celular.
- Oi, seu Júlio. Como vai a Marinete? Aqui tudo bem. Não, o Raulzinho tá no banho. Mas pode falar comigo. Ah, tá. – Um vendedor de curau passa na hora: Vai pamonha? Vai Curau? Alô, dona de casa. Pamonhas fresquinhas do jeitinho do seu paladar! Vem cá, vem experimentar! Delícia! Delícia! Peraí, seu Júlio. Não tou ouvindo nada. Deixa o carro do curau passar. Pode continuar....Eu falo sim. Onde ele tem de ir mesmo? ....Deixa eu pegar um papel e caneta. – Pega um papel amassado jogado aos seus pés. Só acha um batom e escreve com o mesmo. - Pode falar.... Vigilância Patri.....patri o quê....monial Cerqueira..... Ah, sei. Fica perto da Prefeitura. Eu mando ele lá. Abraço. Ah, dá um beijo na Nete...Tchau....
No centro de Imaginópolis, Raulzinho está empregado, a cabeça deitada na mesinha da guarita de vigilância. O celular o desperta. O horário marcado para escrever. Pensa um pouco e não consegue. Pega uma latinha de cerveja já pela metade. Entorna de uma vez em sua boca guarnecida por uma dentadura. Sai da guarita e se põe a olhar a avenida.
Observa um movimento. Ao longe, lhe parece que uma porção de mendigos reivindica alguma coisa. Entra de novo na guarita ao perceber que cada um dos mendigos porta uma metralhadora estranha.
A música que cantam é conhecida dele. Parece que é....Tente outra vez. De mais perto, percebe que são cópias de Raul e as metralhadoras são guitarras elétricas. Param diante da guarita de Raul. A uma só voz, exigem que ele seja seu chefe. Precisam rumar à Sociedade Alternativa.
Fora desse movimento, uma mendiga caminha em círculos, cheia de sacos plásticos entre sua roupa enorme e o corpo franzino. Olha ao espelho e gira como uma bailarina. Ela diz coisas sem nexo:
- Por que você me envelhece? O que te fiz? Eu sou branca como a neve e você vive brincando comigo. – A mendiga dá uma pirueta e se transforma no Carimbador Maluco. Dá mais uma pirueta e se transforma numa mosca.
Raulzinho sai de Imaginópolis.
...
Ainda está na soleira da porta. Se convence que não está á altura do ídolo. Pensa no filho, na mulher, nos vinte e cinco anos ali. Apesar das mudanças, sabe que falta pouco pra aposentar. O dono da nação tá ferrando todo mundo por motivos que acha certos. Apesar disso, somando os vinte e cinco mais dez de fora, já tem tempo. Só falta a idade. Um ano pra cinquenta e oito. Quer saber... Raulzinho aduz suas razões, enquanto se encaminha de volta a sua mesa, quase ao mesmo tempo em que Dona Elza volta do banheiro.
- Muito bem, Dona Alzira. Eu assustei a senhora? Pois é, isso é um roteiro que tou escrevendo. Não é verdade não, viu? Já pensou que ia ficar com minha mesa, né, Dona Elza?

PORÃO de natanael gomes de alencar

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O relâmpago brincava como jamais brincara nos ares de Cubatão. A chuva nunca caíra tão pesada. O vento a lhe fazer companhia insistente. Ela não queria nada com ele. Mas Boreas insistia. Não ligava aos estragos que fazia o brutamontes. As roupas voavam dos varais das janelas. Crianças eram seguras pelas mães como leoas com seus filhotinhos entre os dentes.
Mas naquele barraco tudo decorria como se não houvesse nada colocando em risco suas bases.
Era noite, escancaradamente noite, um breu quase total e a família estava toda reunida na sala. Uma sala com um sofá rasgado, uma TV digital e uma mesinha cheia de curativos marceneiros, muito remendo com ripas, cola de madeira, parafusos e pregos.
O pai, Lindomar, uns quarenta anos, brincava ao celular, conseguido de maneira ilícita de quem também o conseguira do mesmo modo. Era difícil uma vida completamente lícita quando os preços dos produtos eram incompatíveis com a renda numa escala monstruosa.
Maria, a esposa, mesma idade do marido, num vestido rosa, comprado num bazar de pechinchas, mexia o feijão. Fizera há pouco o mingau pra matar o desejo de doce da meninada – e dela também. O vício do doce à noite era de quase todos os barracos sobre o mangue. Para Lindomar, Deus palitava os dentes com os fiapos de madeira daqueles barracos. Tinham dois filhos adolescentes. Josefina, com vinte e dois anos. E Rizomar, no canto esquerdo da sala, sentado no chão, com vinte.
Rizomar fazia umas contas no celular, sem camisa e com uma bermuda larga, que ostentava as cores e símbolo de seu time do coração, a Associação Atlética Portuguesa, a Briosa Portuguesa Santista. 
Lindomar vai até a panela. O cheiro está sedutor, do tamanho de sua fome. 
- Calma, home. Espera mais um cadinho. Em cinco minutinho tá saindo.
- Não resisti. Ninguém faz um arroz gostoso como o seu.
Lembra da filha.
- Uai, cadê Fina? Tava aqui agora mesmo.
Maria coça o pescoço. Lembra de um movimento que notou quando apanhava os chinelos atrás da porta.
- Alguém ligou pra ela. Agora que os amiguinho descobriu que ela tem celular acabou o sossego... 
- Não sei se é bom celular pra ela. Pode atrapaiá os estudo.
- Mas você também não tava venu?
- Não tem nem comparação. Eu sou o pai dela. E, além do mais, até ontem, ela não tinha celular.
- Foi o Rizo que deu pra ela.
O pai se dirige ao filho, que está coçando os vãos dos dedos dos pés, empesteando de chulé todo o cômodo.
- Onde tu tá arranjanu dinheiro?
- Pai, tou fazendo bico. Me virando. Este mês até ajudei mãe nas compras. Né, mãe?
Citada, Maria, se aproxima.
- Rizo tem ajudado muito a gente. Sem ele, nós não trocava de roupa, nem tinha mistura toda semana...
O pai coça o peito, cheio de pontinhos vermelhos. Põe a mão na frente da boca para ver se está com bafo. Pega o copo de cachaça e procura a garrafa.
Encara Rizo, que se sente mau com a proximidade inquisitória.
- Fico pensanu onde são teus bico. Se são coisa honesta...
A mãe sente necessidade de falar em defesa do filho.
- Claro que são, home. Deixa de criar caso com o menino.
O pai desiste de procurar a garrafa e coça o pé da barriga. Deu pra aparecer uns pontinhos de dermatite. Espreme limão nas mãos e passa. Dona Sônia do primeiro barraco que falou ser bom. Limão é bom pra tudo, até pra sobrancelha caída. Aprendeu com a rua, dizia. Será que os que dormem na rua são médiuns de cura? – pensou.
- Filho, teu pai sabe, me escuta, eu quero o melhor pra tu, ver tu num emprego de verdade, tu me entende? Outra: não gosto de te ver metido com esse tal de Porão – isto é apelido de gente? Um homem que tem um apelido desse tem que se tratá!!!
- O Porão é gente boa. Só por que ele foi pego uma vez vendo a filha do Mandrake se trocando? Isso foi faz cinco ano. Hoje, ele já não se liga mais nesse negócio de ver escondido.
- Pra mim, ele é um desviado, pronto.
- E o senhor não trabalha enchendo pino lá no...
Voou um tapa medonho. O pai ficou possesso. O filho chegou a quebrar uma garrafa e avançou. Mas Paulão, um vizinho de ouro, chegou na hora. Vinha perguntar alguma coisa pra Dona Maria. Quando viu a cena, pulou pra cima de Rizo. Agarrou ele por trás e dominou as intenções deste.
- Mano, deixa disso. Tu qué estragá a tua vida?
Querendo esquecer a história dos pinos, o pai volta à principal polêmica.
- Num quero ver o Porão mais por aqui! Sua irmã agora só vevi choranu pelos cantu!
Paulão aproveita:
- Depois, eu volto. Tou vendo que cês tão tendo um papo de famía.
- Falou, mano. Depois, a gente conversa, disse Rizomar, com a respiração ainda alterada e com o pedaço de garrafa tremelicando nas mãos.
- Até mais, Dona Maria.
- Até, fio.
- Seu Lindo...
- Tchau.
Rizo larga a garrafa quebrada. Não tem pra onde ir. Por um instante, pensou que seu pai ia expulsá-lo de casa. Pega o assunto de Porão pelo rabo.
- O senhor foi o culpado. Eles queriam namorar e o senhor num deixou. 
- Um homem que já se meteu em porão de palafita pra ver pedaço de bunda de mulher num merece namorá minha filha. E num foi só uma vez não. Ocê não tá sabenu fazê as conta.
- Pai, o Porão não faz mais isso. Foi preso. Pagou pelo que fez. Hoje ele é um inocente. Se tratou com psicóloga até. E tem andado na linha. Tem até me ajudado a distribuir santinho pra um candidato aí....
- Que candidato?
- O tio Pororoca...
- Teu tio tem muito papo. Melhor você num entrá na dele.
- Ele tem pago pra mim direitinho. Acho até que ele me paga melhor do que aos outros.
- Mas além desse bico, tu tem buscado trabáio de verdade?
- Tenho deixado currículo em tudo que é empresa daqui e de Santos, mas até agora....
Fina chega da rua.
- Encontrei o Paulão no caminho. Tava meio esquisito. Nem tentou me pará pra jogá aquelas piada dele.
Percebeu o ambiente meio tenso. 
- Que que tá acontecenu. Algum parente morreu?
- Não, seu irmão que ainda tá escovanu o vestido da noite.
- O quê?
- Tá sem emprego...
- Pai, ele tá se esforçando. Sou eu que tou fazendo os currículos dele lá no trabalho.
Dona Maria, sempre na boa, não queria se meter. Porém, tem necessidade de ficar solidária ao filho, seu preferido desde o nascimento.
- No fundo seu pai sabe...
O pai pega um ovo, o único, pra fritar, e pontifica:
- Mas sempre a gente pode se virá...
- Como? Fazeno pino, home?
Lindomar não fazia pino, ele enchia. Com sua esposa não daria pra ter a mesma reação que teve com o filho. Se ousasse, não ia sair inteiro. Todos gostavam de sua esposa, vizinhos, que estavam tão próximos e até....ele.
- Meu trabalho é um trabalho hones...de filho-da-puta, eu sei, mas... 
- Cê não acha, bem, que Rizo merece um futuro melhor que o seu?
- Acho que num dá pra ficar esperano a sorte bater na porta...E eu já tou saindo desse bico. É que fiquei desesperado. Mulher, a gente tava passando fome...E eu sou um velho, imprestável. Mas meu filho não. É novo, bonito, tem força....
Com certa dó do pai, a filha lhe dá um abraço.
- Pai, Rizo vai conseguir. É ter paciência...
- Pai, não sabia que o senhor me achava bonito...
- Sai pra lá, seu....
Rizomar recebe um abraço súbito de Lindomar e chora. Mas passa a mão logo, pra que ninguém perceba. Afasta o corpo do filho e olha em seus olhos.
- Eu vou procurá não enchê o seu saco.
- Tudo bem, pai. Tudo bem. Tou vendo um lance aí. É forte. E é político. O tio vai me meter nessa área. Sei que o senhor num gosta. Mas é limpo. Serviço limpo.
- Mas e os currículo?
- Tou esperando. Mas acho que tou mais pra seguir essa área política.
- Prefiro que ocê trabaie pra traficante que pra ladrão!
- Pai, olha a besteira que o senhor tá falando.
- O tio Pororoca agora vai. E ele tá com oitenta por cento do nosso bairro.
Vai tirar o ovo da frigideira. Queimou um pouco. A mulher corre pra salvar.
- Cozinha não é teu forte.
Enquanto fala, ela coloca o ovo num prato, com arroz e farinha, conforme Lindomar gosta. O pai já se senta, falando de boca cheia.
- Vai trabalhá com o pior ladrão, meu irmão, um filho-da-puta que nunca viu o lado da famía.
Fina se intromete.
- Pai, o Rizo quer dar uma casa pro senhor, pra mãe, quer melhorar nossa vida.
- Cansei de estudar, de fazer bico, de ter emprego que dura três mês e vai simbora. E Fininha tá nessa comigo. Fala maninha...
- É, tou. 
- Mas até tu. Tu num tá num emprego bom?
- Tou e não tou. Recebo um salário menor que o mínimo. E só recebo com atraso. Faz dois meses que não recebo...O Rizo vai conseguir um emprego pra mim na campanha do Pororoca. E ai a gente vai subindo até tirar vocês desta me....
- Merda, dessa merda. Eu sei que é. Pensa que eu gosto?
Fina continua, tentando convencer.
- Pai, quero que o senhor e a mãe cuidem mais da saúde. Tenham conforto.
A mãe intervém, servindo ao marido o suco de pozinho, marca Mang, sabor maracujá, que ela acredita ter o dom de acalmar, como o maracujá de verdade.
- Cê tem de dar uma chance pros seus filho, home. Eles tem a cabeça boa. Eles vão conseguí. Você vai tê orgulho deles. Cê num vê aí. O Brasil afundano e us políticu sempre se danu bem.
- Não é isso que eu vejo não. Pelo contrário.
A mãe deixa derrubar umas gotas na toalha, enquanto continua.
- Mas logo vai ser tudo esquecido e tudo volta ao de antes.
- Eu num tou acreditando no que tou ouvino...
Josefina se distrai, ao pegar um pano pra enxugar a toalha da mesa, lembrando da noite de ontem. Ela e Porão no chão do barraco, conversando. A janela por onde ele entrou recebendo carícias do vento. A canoa balançando do lado de fora. Ela sonhando em trabalhar na Prefeitura com o tio. Ele sonhando em roubar um banco. Só uma vez. Uma só. Suficiente. Qual dos dois serve mais ao Porão do País? Será que um dia as coisas mudam?