Oração a San Simón para o Amor




San Simón (também chamado Maximón) é um santo pagão mexicano considerado o padroeiro dos bêbados, boêmios, prostitutas, brujos e apostadores. Assim como Don Diego Duende está relacionado a trabalhos de amarração e para atrair boa sorte e prosperidade.

Com todo o meu respeito, minha devoção e meu amor
poderoso São Simão, eu te invoco
com toda a humildade peço-lhe que o seu espírito me ajude
para obter a vitória
nos meus problemas e dificuldades,
você que é fiel e tem nobreza de coração
para conceder os pedidos mais difíceis,
especialmente quando eles são considerados perdidos,
e você é protetor no amor, me dê sua sabedoria,
e me ajude a realizar meus sonhos.


Eu te imploro para vir, me escute
e me conceda o que meu coração deseja tanto.

Eu acredito e confio em sua força e seu poder
é por isso que, aqui prostrado antes de seus pés,
Eu ... eu te peço, imploro e te imploro
que você traz para o meu lado ...

Com seu poder e sua força, remova qualquer obstáculo
que está evitando ....... venha para o meu lado,
qualquer barreira física, material, moral, espiritual,
de arrependimento, remorso, rebelião,
vergonha, pesar, doença,
bem como quem fica no caminho
entre o meu amado(a) ....... e eu .......

Que imediatamente, a partir deste momento,
saia e definitivamente esqueça outra mulher / homem que tem
e volte rendido(a) e humilhado(a) aos meus pés.

Que seus pensamentos, carícias, bondade, bondade,
e, acima de tudo, seu amor é exclusivamente para mim.

Eu sei que você dá tudo, eu sei que você pode fazer tudo
É por isso que eu me prostro a seus pés
para lhe implorar que minha amada ...
volte comigo imediatamente.

Eu humildemente lhe ofereço esta oração e esta vela.

Aceite por favor, não me desobedeça,
não olhe para mim com indiferença, não me abandone,
Bem, eu acredito firmemente em sua força e seu poder
e você é minha única esperança.

Eu posso simplesmente oferecer a você (o que você quer é oferecido)
Aceite, eu vou dar a você com humildade
e vem das profundezas do meu coração.

Eu confio e tenho certeza, ou que você me ouviu
e que muito em breve você vai me conceder o que meu coração pede de você
e com toda minha alma eu desejo.

Agradeço imensamente pela sua ajuda
e estou disposto a cumprir o que lhe ofereci
porque eu sei que definitivamente
você vai me conceder o que eu peço,
Bem, você está cheio de gentileza
e você sabe como resolver nossos sofrimentos.

Espírito, corpo e alma de ...
você vem para mim ...... sem falhar ou atrasar
para reconciliá-lo completamente, totalmente e definitivamente comigo
e pela grande força e poder de Maximón e pela sua glória,
isso mesmo, é assim, é assim e é assim,
porque este é um decreto de Maximón
e eu .......
Eu proclamo isto aos quatro pontos cardeais do Universo.

São Simão, me dê sua proteção
liberta-me dos perigos, dos danos físicos, espirituais e mentais,
dá-me trabalho, sorte, prosperidade e paz
e me ajude a alcançar a felicidade com a pessoa que amo;
Eu ....... em gratidão eu serei seu devoto fiel
e eu vou lembrar de você para sempre.

Assim seja.

Faça a oração por sete dias seguidos.

NOTA: Para Maximón pode ser oferecido comida, bebida, tabaco,
flores, licor, velas vermelhas, incenso, café, ervas aromáticas ...

Ritual para Maximón

Coloque uma imagem sua, uma foto,
(Se você não tem, você pode representá-lo com uma rosa vermelha,
mas sempre tem que ser fresco, sem folhas murchas,
portanto, você deve alterá-lo com freqüência),
Coloque um copo de água na frente, um pequeno prato com uma vela vermelha,
e um recipiente com canela e mel,
acenda a vela e deixe até que seja consumida.
 Deixe o "altar" pelo menos uma semana.
Os restos de cera, juntamente com canela e mel são jogados fora.
Você pode repetir o ritual uma vez por mês.
Sempre agradeça aos favores concedidos.

 Sobre o Autor:
LORD KRONUS
LORD KRONUS
Admirador do Oculto e cinéfilo. azerate666@hotmail.com Confira mais textos deste autor clicando aqui

Oração de Don Diego Duende






Don Diego Duende é uma entidade da bruxaria mexicana associado a San Maximon, Santa Muerte e outros santos não reconhecidos pela Igreja Católica. Diego é muitas vezes associado ao diabo e seus rituais estão relacionados a amarrações.

 Amigo sábio e poderoso
príncipe dos príncipes
Rei dos Reis,
apoiador de homens,
livrai-me
livre-me dos maus momentos
em que meus inimigos me perseguem.

Bem-vindas sejam as coisas em seu nome e poder,
que olhos tenham e não olhem para mim,
que mãos tenham e não me toquem,
que pés tenham e não me alcançem,
armas tenham e não me atinjam.

Covardes difamadores
aqui estou!
e eu vou com o Duende
que desmaiem
que seus cabelos se arrepiem,
Que todos sejam tomados pelo terror e pelo medo.

Quão bem vindas as coisas são para mim
como eu as quero
Senhor da Natureza

Don Diego Duende,
que com grande poder é possível
o que eu quero de

(nome da pessoa)

o que deve ser meu
a mulher (ou homem) que eu amo
que se chama

(nome da pessoa amada)

Toda vez que faço essa oração,
em que eu acredito, assim te peço.

(Faça esta oração às terças-feiras,
com uma vela vermelha acesa
e oferecendo um copo de tequila)


 Sobre o Autor:
LORD KRONUS
LORD KRONUS
Admirador do Oculto e cinéfilo. azerate666@hotmail.com Confira mais textos deste autor clicando aqui

JARDIM DE URANUS de Natanael Gomes de Alencar

Resultado de imagem para estupro de homossexuais nos quadrinhos


Verlei desce aquela rua, não lembra nunca o nome, uma vez por semana. Terceira vez na semana que passa por ali. Gostava de ver as sombras que se formavam naquelas horas da noite. Tinha um prazer sádico em chutar as oferendas dali. Havia muitas em cada esquina. Naquelas horas, ninguém ligava pro seu desrespeito. Como se todos sem exceção, houvessem dormido, até os animais domésticos, até os insetos. Distraído, escorrega nas fezes de um cão. Afeta-lhe o quadril. Um xingamento lança aos céus. Procura um papel para limpar a calça. Acha um caderno de orações rasgado. Tira a sujeira por cima. Depois limpará melhor. Folheia o caderno. Vem-lhe à mente seu tempo. Um tempo, que apesar de alegrias aqui e ali, ele considerava menos imaculado. Não gostava de lembrar muito, mas de súbito um poema-oração lhe pousou no bestunto, como uma rasga-mortalha no busto de alguma praça. Sentia um mau-agouro naquele baile da memória. Joga pra longe o resto do caderno. O poema-oração aumenta de volume.

Sempre quando vou na igreja
O Senhor vem, me recebe,
Beija-me e me faz sentar
Para que eu lhe confesse

Suas bênçãos sobre mim
São como pão, como vinho,
São gozos na tempestade,
Uivos de puro carinho

Meus pecados são lavados
Como pudicas escadas
Por anjinhos querubins
Negritinhos na calada

Que estes anjos bonitinhos
Guardem-me de Satanás,
Peladinhos no altar
Encham meu gozo de paz

Verlei fez este poema-oração aos nove anos. Não. Aos oito. Não. Aos dez. Por volta então.
        
Embora nascido em família muito religiosa, fora atraído pelos olhos da serpente, segundo seu pai, desde cedo. Criança-gênio, lia Baudelaire e Byron no original. Precoce também na área sexual, tinha uma fixação doente pelos filhinhos da sua mãe preta. A maioria, segundo ele, era bastardinho de seu pai. Sentia por eles uma excitação santificada quase. Na puberdade, possuía cadernos onde extravasava essa e outras taras. Às vezes, distraído, esquecia um destes cadernos por aí. E se era o pai que achava, ai ai ai !!!, tratava-o como um verme. Humilhava-o. Dava-lhe  surras de vara de marmelo, tinha a cabeça pisada, batida na parede, além de ser alvo de outros castigos desumanos e inomináveis. O pior, o mais execrável castigo era ser acorrentado no porão. Correra perigo de vida por isso. Pelas marcas em S nas costas, teve o apelido de filho de Satã. Por dá-cá-aquela-palha, era espancado. Toda coisa errada era sua culpa. Foi quando começou a fingir, a mentir, a torturar animais domésticos, seus e dos outros.  Era uma época em que se masturbava muito. Seu pai, para contê-lo, encomendou uma espécie de gaiola com pregos para prender o pênis do filho e evitar que ele tocasse no mesmo. A gaiola permitia que o garoto urinasse tão - somente. E nessas horas de esvaziamento, recitava, mentalmente, versos do livro Flores do Mal Em meu ser todo inferno afinal vai entrar:/Ódio, frêmito, horror, labor duro e forçado,/ E, semelhante ao sol pelo inferno polar,/ Meu coração é um só bloco rubro e gelado.

Aos quinze anos, aumentou em Verlei a obsessão pelo prazer do sexo sádico. E por volta dos vinte anos, manifestou-se de modo mais acentuado sua atração oculta. Sempre gostou de pederastas, ou melhor, de uranistas, como os chamava o Dr. Gouveia que, aos que perguntavam a origem do nome, dizia que veio do alemão URANISMUS, que teria sido criado a partir do nome da deusa grega AFRODITE URANIA, filha de Urano, nascida dos testículos do pai, cortados pelo seu irmão Kronos.  Conta-se que o Dr. Gouveia tinha um sobrinho assim, assim. Um sobrinho de mais ou menos treze anos que ele assediava. O sobrinho se negava, reagia, dizia que não era certo, afinal eram parentes. Gouveia rebatia: - Não sou irmão de sangue de sua mãe, e sim adotivo. Então, sem problema. Vamo fo...fa...fi....! – Antes que completasse, o sobrinho fugia. Perdia seu tempo e seu latim. E por ser uranista sem disfarces, e sem armário, não sendo aceito pela família, o sobrinho foi expulso de casa. Dr. Gouveia não moveu uma palha para ajudar o menino.

Algum tempo depois, o Dr. circulava pela cidade, por volta das nove da noite, aproveitando que as lojas fechavam as vinte e duas, quando deu de cara sabe com quem?....com o sobrinho.  O ano não tenho certeza, mas, se não me falha a memória, o lugar....foi em frente ao Cine-Theatro Íris, entre o Largo da Carioca e a Praça Tiradentes, um dos pontos da vida noturna carioca onde ficavam os meninos de ares uranistas desde as oito da noite. O sobrinho dele usava uma saiinha vermelha, bem curtinha. E estava maquiado como uma rameira, exalando perfume barato. Gouveia ficou excitado. Trocaram piscadelas e foram a um lugar mais discreto. Dizem que Gouveia teve de gastar todo o dinheiro que tinha. Ficou sem um níquel, sendo tratado pelo sobrinho como um cliente normal, sem privilégios.

         Mas voltando a Verlei. Aos vinte e cinco, se casou. Teve dois filhos nos dois primeiros anos de casamento. Conseguiu controlar seus impulsos à custa de muitas orações e  penitências. Como cursava também a Faculdade de Direito, os estudos também ajudaram a concentrar o foco em outras coisas. No entanto, três anos depois de formado, quando eleito para a presidência de uma associação de advogados, afrouxou a moral, descontrolou, soltou as rédeas de seus impulsos novamente.

           O tempo passou, e ele foi levando essa vida dupla, mentindo sobre a mesma com uma falsa agenda jurídica, para justificar suas escapadas. Foi perdendo a vitalidade no decorrer dos anos, diminuindo assim o ritmo boêmio.

    Quando fez sessenta, apareceu uma grave doença venérea. Ficou arrasado. Foi quando, em desespero, começou a voltar às missas católicas de fim de semana, num delírio obsessivamente antianal.

Sexo anal é pecaminoso, /O que sai do fundo vai pro esgoto,
Há espíritos bestiais soprando atrás,/ Satanás tem ali seu trono,
Sua coroa é de Flor de Uranus/  No esgoto vivem ratos, vermes,
Como o inferno onde diabos vivem,/ É o intestino, o túnel final,
Onde deixa restos a humanidade, / E reina Satã, o rei do anal
Sexo anal é suja dor, /  pecado atroz mortal,
Avivar o ânus com amor / É ofender o plano divinal,
Desfolhar então a Flor, / Acabar com seu cheiro mau

          Mas não demorou pra que esquecesse a igreja, e que retornasse à vida dupla, logo que suavizaram os sintomas da doença. Pensou nos momentos passados.  Os amantes jovens, aventuras de antes, se mandaram, amadureceram. E partiram pra caminhos diversos. Muitos se fizeram pais de família de reputação ilibada ou, quiçá, um pouco manchada, como a de Verlei. Constante mesmo só o sobrinho do Gouveia, que atendia agora por “Xica da Silva”, sendo ainda frequentador do Cine Íris.

         Quatro de setembro de 1896. Agora, Verlei tem sessenta e dois anos. Trajado ao modo clássico, Verlei flana, como sempre, nestas horas mais escuras, pelos pontos marginais da cidade. Tem o hábito de passar a língua nos lábios quando algo ou alguém lhe interessa. Vai devagarzinho, com medo de cair de novo. Na metade da rua,  para de repente. Lembra de um compromisso. Apressa o passo. Penetra mais fundo no subúrbio. Segue andando por aquela rua da qual esqueceu o nome. Parece rua com esclerose. Mal alinhada e cheia de poças. As calçadas idem. Um fedor insuportável. Atrás de si, ouve vozes de gatunos e ciganos discutindo. Uma série de edifícios velhos. De um desses pardieiros jogam uma bacia de xixi. Quase leva um banho. – Filhos da....Passa por larápios de andar gingado, uns estapeando, outros vigiando suas rameiras, muitas destas com ramo de arruda no cabelo. A noite com olho sonado de lua minguante não vê a hora de dormir pra cobrir suas vergonhas à mostra.

         Avista um sobrado em ruínas, pendente para um lado. É um sobrado com dois pavimentos. Na entrada, vê duas crianças raquíticas a serem pressionadas por uns larápios. Espera que se afastem. Entra com cuidado. Sobe os degraus do primeiro pavimento, caminha por um corredor, o soalho range e quase fala, e pára em frente a um quarto, hesita. Bate. Chama um nome. Não há resposta. Não encontra o fulano seu devedor, que, há uns dois anos, exerce a miserável profissão de caçador.

Há uns quatro anos, Verlei empresta a juros para alguns profissionais que vivem de atividades exóticas, situadas na margem da sociedade.        

Sai do sobrado e recomeça a caminhada. No trajeto, vai encontrando cães revirando lixo, gente humilde se abrigando, olhares trapaceiros, e outros tipos da espécie que se diz humana.  Verlei sente asco dos que estão à margem. Acha-os culpados pelas enfermidades, pelo banditismo, e por tudo que há de fedorento na cidade.

O Rio como toda cidade grande, neste final de século XIX, não tem pudor de jogar a miséria na margem, nos monturos, nos lixões. Estes miseráveis são seres especialistas na aritmética dos restos, nas dimensões das sarjetas, na tipologia dos ratos e dos magros gatos dos telhados; são os que catam o inútil para sobreviver. Para a polícia não compensa levá-los à prisão, pois são nada de nada mais nada vezes nada dividido por um.

         Verlei não se sente mal por emprestar a juros aos que labutam na margem. Observa-os há muito tempo. Constatou que muitos deles são negros. Negros aos quais o sistema libertou para mais prender noutro tipo de pelourinho, na beira podre de si, e logo os expulsará para longe das vistas. Verlei percebeu que pode aproveitar essa miséria a favor de seu vício durante um bom tempo ainda, estejam longe ou perto do centro.

         Dos profissionais da margem, os trapeiros, os molambeiros, os ratoeiros e os sabidos são geralmente mais velhos, com grandes famílias para sustentar.  Os trapeiros catam trapos nos monturos, para vendê-los a casas de móveis, para uso dos lustradores, e para fábricas, que os transformam em papel. Os molambeiros catam roupas velhas nos monturos para venderem-nas aos brechós, que apuram um lucro de mais ou menos quatrocentos por cento. Os ratoeiros são os matadores de ratos, sempre de latinha de veneno e cornetinha, arremedo pífio do instrumento do flautista de Hamelin. Os sabidos vendem as botas e sapatos que acham nos monturos aos remendões, geralmente italianos, que os consertam e vendem com um lucro de mais ou menos oitocentos por cento.

Verlei, antes de fazer o empréstimo, estuda bem as possíveis consequências.  Observa as famílias. Anota o número de crianças e menores que estão na puberdade. Coloca os juros nas alturas quando percebe que o devedor tem muitas crianças na família. No dia da cobrança, chega com dois capatazes. Escolhe os mais fortes entre os gatunos afamados. Quando o devedor, desesperado, quase se ajoelha, ele coloca suas condições. - Tudo bem. Esqueço os juros, mas....só se suas crianças me compensarem de uma forma especial....

Com caçadores, selistas e tatuadores, a relação de cobrança de juros é diferente. São categorias marginais onde se encontram muitos jovens. A maioria tendo entre treze e quinze anos.  Grande parte deles trabalha como ajudante, com muita agilidade, sem tremores nas mãos, e visão aguçada, habilidades joviais necessárias ao exercício das atividades.

      Os caçadores pegam gatos, matam-nos, tiram a pelagem, e os vendem a restaurantes chiques para se tornarem carnes de coelhos, iguaria fina e saborosa; os selistas passam o dia perto das charutarias, investigando as sarjetas e calçadas à busca de rótulos e selos com anéis daqueles que envolvem os charutos. Os anéis dos charutos servem para venderem uma marca por outra nas charutarias.

 Os tatuadores, menores de idade e maiores, vão pelas ruas com três agulhas e uma lata de graxa, vendendo sua arte, desenhando, nas carnes dos trabalhadores ociosos, grandes e pequenas coroas, nomes de namoradas, de filhos, de mãe, corações, outras coisas. Nessas ocasiões, enquanto os tatuadores trabalham, ciganos ou outros se aproximam, aproveitando o estado de sensibilidade à dor para oferecer suas bugigangas.

 Com essa categoria mais jovial, Verlei usa uma estratégia diferente. Vai fazer a cobrança com três capangas, um bem forte, e dois bem ágeis. Os menores geralmente não têm parentes. Acabam muitas vezes pagando os juros que os maiores, dos quais são ajudantes, deveriam pagar. São levados a um local específico, um enorme parque, de preferência.

Geralmente, nesse local, Verlei faz que fiquem de costas. Apalpa suas nádegas algum tempo. Pede aos capangas que façam o mesmo. Pergunta o que acham. Dependendo do que falam, prossegue ou não. Se não prossegue, aumenta os juros da dívida. O devedor tem de buscar meninos que o satisfaçam. Caso não o satisfaçam, o devedor é colocado na roda para o usufruto dos capangas. Dizem que os seviciados e abusados ficam com tanta vergonha que mudam pra outra cidade.

Se o Rio de Janeiro nobre, luxuoso e confortável, não conhece essa gente humilde das pequenas profissões, Verlei a conhece tão bem que sabe o ponto exato delas no qual pode exercer o seu sadismo.

         Pensando neles, ele lembra que, numa difícil fase de sua vida, cogitara em revirar calçadas à busca de anéis de charuto...mas não precisou. Verlei prossegue, a flanar pela rua, até que resolve entrar na taverna do Tonho da Doida, que é próxima a outras, viscosas de imundícies e vícios. Senta a uma mesinha da entrada. Busca ao redor por quem possa atendê-lo, acenando de longe para uranistas conhecidos.

      Os habitués costumam lotar todas as cadeiras, a maior parte deles são jovens inconformados com as grades das convenções.  Há fanáticos adoradores de lundus, tocadores de chorinhos, cantores de modinhas, de árias, canções; também, gente de teatro, escritores, adoradores de Chopin, Beethoven, homens que amam mulheres, outros que amam homens, mulheres que curtem mulheres, seres que curtem ambos, e muita fumaça das mais diversas origens.

         Todos são muito bem recebidos ali, todos se entendem, todos se abraçam, choram nos ombros uns dos outros, riem, gargalham, discutem e vão esquecendo as agulhadas do dia. Naquele espaço, são combinados os principais movimentos, ações, reações, e encontros, motivados pelas expectativas da jovem república, que tem a pretensão de resolver os problemas deixados pela monarquia.

       Verlei olha o relógio. Observa o céu. Noite de lua cheia. Uma enorme lua. Fecha os olhos e aspira profundamente. O dia fora tumultuado. No escritório, quase perdera a paciência com um colega defendendo tratamento mais humano aos profissionais do monturo. Não fosse sua esposa chegar no momento exato ele teria feito uma loucura.

Mais uranistas começam a chegar aos seus pontos na cidade.  A partir das vinte horas, costumam tomar conta das portas e porões dos teatros,  nos dias de espetáculos; dos cafés, restaurantes, bilhares, botequins, portarias de conventos, escadarias de igrejas, casas de banho,  além de parques e praças,  apesar da estranheza e aversão das classes médica, jurídica e religiosa.   Teve um médico, há alguns anos, o Dr. Pires da Silv...não, de Almeida, isso, que relatou haver uma enorme quantidade de uranistas espalhada pela cidade do Rio, principalmente no baixo comércio.  Segundo este médico, tal população crescia assustadoramente, tanto que se buscou sua redução por meio da importação de prostitutas européias – as “ilhoas”, geralmente vindas da Madeira e Açores.
       
Nesses grupos mal compreendidos, circula, nas horas mais escuras, o advogado Verlei. Entre eles se sente um Byron, poeta de sua predileção. Gosta especialmente de declamar aquele: Uma taça feita de crânio humano.
(....................................................................)
Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Toma meu crânio! Entorna!... que a larva
Tem lábios mais sombrios do que os teus. 
(..................................................................)
           Declama toda hora esse poema. Por encher tanto o saco, ninguém mais aplaude. Sem graça, resolve partir dali. Bebe um cálice de vinho e sai dali sem olhar para trás. Quer agora o Beco da Coruja. Tá com desejo de chafurdar na sua carnalidade de ébano.

O advogado, há uns seis meses, é assíduo habitué da Taverna do Beco da Coruja, especialmente em noites como esta, de lua cheia, quando segue estranho e erótico ritual. O lugar é administrado por uma pessoa conhecida como Maluca. Nesta taverna, o advogado lambe os beiços. Ali, a especialidade é a relação sexual com menininhos negros. Estes se vestem e se maquiam como mulher. Possuem de onze a 14 anos. Meninos em sua maioria escravos da cachaça e do absinto, usados para esquecer ou para construir paraísos artificiais, compensadores daquele lixo de vida.

Verlei não vê a hora de chegar. Depois de uma meia hora, andando e parando pra ajeitar as calças, ou pular as poças, finalmente chega. Ao entrar na taverna, percebe que há gente nova.           Gesticula. Pede o de sempre. Maluca, uranista antiga, o serve. Têm a mesma idade. Ela toca nas coxas dele, velhas conhecidas suas.

       Na porta da taverna, chegam um pai com seu filho de sete anos. Encaram o advogado. O pai pergunta ao filho se aquele velho é o homem que abusou dele. O filho tenta sair daquela situação, mas, acaba confirmando. O pai puxa um revólver, preme duas vezes o gatilho, e eis que percebe, tarde porém, que, na ansiedade de pegar o abusador, esqueceu de colocar as balas. Para sorte de Verlei, acertam mortalmente o homem na cabeça, arrastam-no e o roubam, sequestrando depois a criança para venderem-na à prostituição.

         Passados cinco minutos, Maluca anuncia: - Senhoras e Senhores! Aplausos para Salomé, a princesa muda!!!! Entra no recinto um rapazinho negro, do tipo que ele gosta, mignon e magrinho, um que ele nunca vira por aquelas bandas. O rapazinho deve ter uns catorze anos, se não menos. Seu nome verdadeiro Sebastião. Vai apresentando um pequeno show de balé entre as mesas, usando como leque uma vassoura de piaçava sem o cabo, show criado por um tio seu. Parente que um dia encontrou graças à Maluca, quando esta visitava o sobradinho dos escritores Coelho Neto e Aluizio Azevedo, um lugar onde a diversidade tem guarida. Dizem que até o presidente Prudente de Moraes passa vez em quando por lá para cumprimentar os escribas. 

O tio servia a mesa dos escritores, vestido de mulher e dançando. Maluca viu no tio uma semelhança facial muito grande com o sobrinho.   Então se aproximou, soube de sua história e contou a Sebastião, que foi conhecê-lo. Como Sebastião era mudo, Maluca foi traduzindo os gestos. O sobrinho resolveu adotar o nome de guerra do tio, Salomé, e passou a fazer a mesma performance, só que entre as mesas da taverna. Com a permissão do tio, é claro.

Salomé se aproxima mais, qual uma jovem ovelhinha, procurando adivinhar as intenções daquele velho lobo.
                                
      Meu nome é Verlei. Estou sempre aqui nas noites de lua cheia. Quero lhe chamegar, lamber seu cuzinho todo. Preparou já? Tá lavadinho? Tá cheiroso? Passou creme? Levada. Quero rasgar tua calcinha. Maluca deve ter te ensinado umas coisas. Ela sabe meus gostos.  Meu linguado ta seco pra nadar no teu piscoso. A saliva da serpente escorre. Meu grilo armado para a flor da escuridão.

                           
Ela levou-me BONA GRATIA a um quartinho nos fundos. Abaixou minhas calças até o chão. Como meus pelos estavam crescidos, foi difícil pra Salomé. Os pelos dançavam em sua língua. Tinha de retomar o fôlego de tempos em tempos.

Parecia, sim, a filha da Rainha de Sabá. Também uma linda deusa de ébano. Abaixou-me as calças BONA FIDE até o chão, sujo de melosas histórias.

Dei-lhe uma virada. Pulei sobre seu macio e carnudinho traseiro BONA RES. Rasguei com os dentes sua calcinha que tinha um cheirinho de cio.

Como era lua cheia e já estava transformado em lobisomem, aproveitei. Cuspi nas minhas garras e, deliciosamente, me aproximei e tomei posse de seu buraco. BONA FIDE POSSESSOR. Girei a toda rotação, para alargar o caminho.

As veias do meu membro incharam vistosamente. Então, reparei que se rasgou a camisinha. Um lobisomem moderno, sem camisinha, é um acinte.

Todavia, todas estouravam na excitação. Tinha cada vez mais dificuldade em encontrá-las com o meu número. IN LIMINE, num instante, devorei sua flor de uranus.

Pedi a ela que me ajudasse, esticando as nádegas, a que eu enxergasse o objetivo IN LOCO. Ela não só fez isso, como me mostrou um jardim dentro da flor.

Aquilo me deixou doido. Quando estava pegando fogo, o orifício dela qual um lança-chamas; transformei o meu palhaço em engolidor de fogo. STRICTO SENSU.

Quando encostou na minha barriga, engrossei dentro, estourei o anel da negrinha de Sabá e quase que mergulho dentro dela. De quatro, ela masturbava, enquanto eu socava sem medo de me afogar em suas profundidades máximas. A dor que eu observava me fazia possuidor de um prazer sádico. Então, parei dentro dela durante bastante tempo.

         Me fodi, pois, ficamos colados. E ela pulava, pulava tanto, que aumentava o gozo nosso. Maluca, que nos filmava, jogou-nos água quente. E descolou? Descolou. Mas doeu até umas horas. Maluca do caralho! Aquilo me brochou. Mas Salomé não perdeu a classe. Sugeriu que a gente recomeçasse.

       Então, consegui convencê-la a que fôssemos ao Parque Municipal, onde ocorreram muitos dos meus encontros.

Chegados ao Parque, trançaram logo as veias. BREVI TEMPORE ele mete a língua na orelha de Salomé. Chupa-lhe a ponta do nariz ANIMUS NECANDI. De um bote, lambe-lhe toda a face. Com seus cotovelos, força o pescoço de Salomé, a carne imersa em volúpia. Na memória de Verlei, passam nomes de carnudinhas bundinhas de ébano pelas quais passara.

Minha rola reta. Asas com veias grossas. Para o ninho do seu esconso. Foder pelo bem de uranus teu planeta Olho Cego. Tua piscada floral. Quarto olho a fechar e a abrir. Danço em ti minha língua. Dançar, de cima para baixo, de baixo para cima, de trás pra frente e de frente para trás, porém muito mais de trás para trás, aliás, do que de trás pra frente. Minha tara egípcia. Bundinha gostosa. Ai, doeu? Deixo só a cabecinha então. Soldado Uranus ou flor uranus em revista? Tristinha? Tá bem, é flor de uranus. O corpo humano é um soldado que dança. Sim, ele deve dançar. Balança, vai. Num suor de desejo, percorro-te o vale uranus, em Eros radioativo.

Mergulho-te meu grosso calibre. Vira...devagar...empina. Quero inflamar-te. Foder-te as órbitas. Escancarar-te as mandíbulas. Teus peitinhos mordo e mastigo. Teu umbigo escavo...teu falo inflamo...Afundo-me em teu ânus piscoso. Pesco no mar do gozo. Tua cabeça receba este sêmen. Toda fruta deixa seu cheiro e gosto na porra. Ingeri uma manga. Chupa essa manga e delira!

          Cavo-te até achar-te os rios de libido. Tuas órbitas banho. Teu nariz alargo.         Tua boca deixo com orgasmos. Ávido meu pênis envolve-te o pescoço. Meu pau cavalga tua pele de ébano.        Chupo-te a cava das costas. Separo-te os braços. Crucificas meu desejo para sacrifício dos pecados.            Tua bundinha separo com as mãos. Os ossos estalo do seu vale de uranus.            Tuas coxas inflamo numa só pasta de prazer. O preto combina com o vermelho.

                Mais um cadáver. Um ser que deixara de sofrer.  Verlei está sujo de sangue, como sempre. Dessa vez não trouxera roupas a mais. E ele costumava ser cuidadoso em excesso. Até a vez passada. Bobeara e um menino fugira. Ele não sabia, mas o pai do menino quase o matara. Sempre trazia uma muda de roupas igual a que trajava. Colocava fogo na roupa ensanguentada e vestia a outra. Dessa vez, um fato inusitado. À sua volta, entidades espirituais que nunca vira. Talvez orixás ou servos dos mesmos. Entidades gigantescas. Vestidas como reis e rainhas africanos. E os meninos à frente dos espíritos? Todas as suas vítimas, lhe parecia. Por impulso inexplicável, vai tirando toda a roupa. E, totalmente nu, começou a andar sem destino. Algo aconteceu. Dentro. Fora? Contaminou-o. Fora e dentro. E o caminho à sua frente parecia...não, em verdade era infinito.....O mar se lhe aproximava ao longe. Furioso oceano. Deserto. Inflado. Com fome. Mandíbulas enormes e abismazuis....

LUA INVENTADA por natanael gomes de alencar

Imagem relacionada


O luar domina os boêmios.
Todos saem, dizem: maravilha!
Deixarão a noite bem exangue,
Sangrando em ressaca carnes frias.
...
Há os bons, mas os maus são de lascar,
Explorando a miséria social,
No sovaco da bolsa a esfolar
As peles da plebe nacional.
...
Vai a lua e chega o sol; alvar
A alma prende a própria pança
E a solta, em som de estraçalhar.
...
E o poeta medievo rende à França
Imagens de amor sem realizar,
Rompendo a peido imagens de faiança!

COISA DE ARCAICAS TIAS de Natanael Gomes de Alencar


Imagem relacionada


 I
A alma dela fria. Picolé do bode-rubroanho. Mas simulava gentilezas. Seu nome – Penélia. Costureira conhecida. Muitos anos de batalha. Depois de um tempo, dera-se ao luxo de escolher pra quem costurar. Era muito procurada por grupos de escola de samba – mesmo tendo se apossado do que não era seu em uma delas - e de teatro. Naquele momento, falava com o homem, que tinha uma arma, chamada de Créssida. Uma Taurus 838c. Novinha. Pensara num funk pra arma. Novinha – palavra que lhe teimava quando pensava. Mas empacara. A Créssida era especial para aquele feito a vir. O homem sorvia um cafezinho e a ouvia. Ela falava. Ele escutava, reparando a parede com infiltrações. Dera um trabalho chegar naquela chácara. Quase fundira o motor. Ruas cheias de galhos, troncos, pedras e buracos.

Dona Penélia, mulher no auge da delicada fúria, profissional de mão cheia, era rija, volumosa, rosto amplo, olhos azuis como o mar e o céu juntos, vestida com um amplo vestido florido. Ele chegara com dureza desconfiada. Educado e temeroso. Vestia um terno fora de época. Tinha um bigode grosso e lustroso. Depois de cerca de meia hora falando de coisas triviais, alguns palpites sobre o que seria mais adequado vestir nas situações. Não que ele tivesse perguntado. Depois de discorrer sobre sua arte de alinhavar, ela entrou no assunto que lhe interessava: ela.

O tempo foi passando e meu nome se apagando. Mas nunca me importei com isso, sabe? Quando começou minha fama pouca,  média, mediíssima talvez, eu morava no centro, e pra ganhar meu pão, além de fazer minhas costuras, vendia uns tapetes de tecido grosso, com desenhos de amor, aqueles amores de mito, de lenda. Vendi muito. Maidaconta. Durante uns oito anos. Minhas freguesas sempre foram muito apaixonadas.

Assim eu ia tomando conhecimento de suas paixões. Não precisava muito pra isso. Meu marido sabia da vida de todas. Sempre foi dado com todo mundo. Já eu não. Não sou de muita prosa. Sei fazer meu serviço, isso sim. Ninguém nunca reclamou. Tenho muita experiência como costureira. Das boas.

Quando fiz dezesseis, mãe achou que tava na hora. De especular outras  coisas. De visitar a Tríade. É que eu tinha umas tias no interior, de fora e de....dentro talvez....quer dizer: ainda tenho. Dentro aqui. Eram exímias fiandeiras. Teciam numa roca bem antiga. Moravam há décadas, diziam séculos, na fazenda Tríade. Onde os recursos, sabe, eram parcos. Mãe colocou na cabeça que eu tinha muito a aprender com elas. Quando decidiu, foi rápida. Me fez uma matulinha. Me deu benção. Fechou a porta. E eu casquei. No rumo delas. Parti pela estrada afora, sabe? Tão sozinha. Levando uns problemazinhos para as tias-vovozinhas. A casa delas era muito muito afastada da cidade. Longe pra encardir. Mas eu tava decidida decididíssima a cumprir a vontade de mãe.
Andei muito muitíssimo muito. Se eu não tivesse decidida....Mas eu tava. Queria fazer a vontade de mãe. Andei muito demais. Nunca andei tanto na vida. Subi morro, desci rio, atravessei pinguelas, coisa de louco. Meus pés ficaram uma ferida só. Mas cheguei. E no fim da caminhada elas tavam lá, todas na varanda, pulando feito crianças, a me esperar. Quase trupicando uma na outra. Feito arteiras arcaicas crianças. Foi só cruzar a ponte, vieram direto pro abraço. Nem pareciam da idade que tinham. Mãe dizia:  “vão ser sempre jovens, tenham a idade que tiverem. Porém, chegam a parecer velhas, se velho for o estado de quem as veja.” Quem as visse diria que eram gêmeas. Mas não eram. Havia diferença de um ano entre elas. A mais velha e mais alta tinha o nome de Nona. A do meio e mais baixa era tia Décima. A baixíssima que o povo chamava de A Morta, tinha o nome verdadeiro de Findânia. Nomes bem esquisitos verdade. Verdade? Minha família é cheia de gente com nome esquisito esquisitíssimo. Tia Nona possuía o costume de chamar todos por fia, desde há muito, e acabou que ganhou na infância o apelido de Fia. Até se esquecia de seu mítico nome. Engraçado que justamente a que fiava ganhou o apelido de Fia...Então, mal entrei, sentei e comecei a tomar café, tia Fia me puxou de lado. Gostava de saber de recém-nascidos, de embuchamento: - Filhinha fia minha, vem cá, me conta sobre as grávidas. Quantas engravidaram na família nesses últimos dez anos? Segurei o fuso com o qual ela tecia. E respondi a ela que, nesses dez anos, só minha mãe e eu ficamos de bucho. Falei tudo. Que fiquei grávida com dez anos. Que meu bebê viveu só sete meses. Que era filho de um bandido que me atacou. Tia Fia nem quis saber. Foi apanhar roupa no varal. Tia Deci ficou matutando na minha história. Quando falei na morte do bandido, Tia Findânia foi a única que sorriu. Esta era chegada em morte. Uma gulosa de velório.
Tia Fia teve dez gestações. Mas não vingaram, falou Tia Deci, entrando com as roupas na mão. Na última, ainda tavam na cidade. Quando fez trinta e seis semanas, o marido, bicudo, louco de droga, atingiu ela com um chute. Matou o feto. Tia nem esperou a noitinha. O disgramado nem gritou. Sabia do seu merecimento. Tia era rápida no destecimento. Sem sangrar. Fosse Shy, o de Veneza, tiraria uma libra de carne sem derramar líquido. Tia Deci começou a falar. Dum amado que Fia teceu para ela. Moreno, baixo, atarracado, de início bom assim, mudou com o tempo, assado, e se mostrou, do armário saído um verme infame, afamado nos jornais como assassino de cinquenta e poucas mulheres. Conhecido como Cobra do Parque. Despertava medo e ódio. Tia Deci achou que ia conseguir mudá-lo. Tia Fia, de dó, mas só por causa da mana, desteceu e reteceu o jumento canibal várias vezes. Não adiantava. Voltava a cagar na cerca. Preso umas trocentas vezes. Tornou-se ele um dos detentos que mais recebiam cartas de amor na prisão; no primeiro mês detido, foram mais de mil. Tia Deci era uma delas, a mais apaixonada, pathos, casou-se a triste com ele na prisão. Condenado à prisão perpétua, por seus horrendos desfeitos, entre eles a morte da ricaça grávida Mipala Dio. Brutalmente asfixiespancada naquele hotel, como é mesmo o nome? Mesmo assim, depois de cinco anos de prisão, o facínora teve licença para aliançar o romance com Tia Deci, que tinha, veja só você, vinte, vinte aninhos.

Tia Findânia não aguentou !

Certas coisa a idade não desculpa. Que mulheres são essas que amam assassino? Como? Num é só a carência no mei das perna, né, Décima? Mas quem sou eu pra jogar pedras, né mesmo? Algumas de nós gosta de ser valente e diferente....os monstro tem sedução e os anjo são bunda mole...

Tia Deci se escondendo. E Tia Finda provocando.

“ É como estar com um ratinho numa gaiola. A gente sabe que eles tão presos e só vão comer na nossa mão. Não vamos sofrer traição. Se somos traídas e humilhadas pelo homem livre, não somos pelo homem preso.... Dá adrenalina, né, Deci?”

Tia Deci tava sufocada pela nhaca do assunto, mas Tia Finda continuou e declarou:

Então, tive de me meter. Cortei o fio. Redei o monstro do home da linha da vida dela.

Tia Fia quis colocar um tempero de piada na conversa. “– Você é tão jovem e já aperta bem o fuso, hein? Você gosta de fuso grandão ou pititim?”

E começava a rachar o bico, enquanto as outra tava tudo séria. Afinal eu só tinha dezesseis. E continuou nas gracinha:

“ Como chama a mulher que sabe onde seu marido tá todas as noites?........Vai dizer que ocê não sabe?....  Viúva. Entendeu? O marido tá sempre debaixo da terra! Pelo menos até virar cinza!
“Por que as mulher não quer mais se casar?....Responde, vai....Não sabe?..... Então, eu digo: porque não é justo! Imagine: por causa de algumas grama de lingüiça ter de levar o porco inteiro!” ....

Na época não entendi neca de pitibiriba.

Tia Deci, compreendendo a timidez de meus dezesseis, rapidamente passou a mão na frente de meu rosto e me vi de língua sem tramela.

E contei pras tia que, quando fiz dez ano, mãe vivia dizendo que eu tava com o diabo no corpo, com gastura pra furunfar e isso tava esquentando a piolhenta dela... Mas eu era só uma menina ispiculadeira de dez anos. Gostava das coisas da natureza. De espiar as flor, de terra, de mar. De sujar os pés na lama. Na vera, ainda gosto. No caminho pra cá, fiz tudo isso....

Mãe sempre foi de lua. Ou era muito boa, ou muito cruel. Eu com dez anos sofria muito, sem saber por causdequê. Quando fiz dezesseis, comecei a desconfiar. Do meu primeiro corrimento de sangue pelos nove ano, até mais “o meno” os dezesseis, ela deu de me olhar diferente.  Resmungava maidaconta pelos cantos, dizendo que mulher nasceu pra sofrer.

Quase todo dia, escutava mãe me dizer que eu tinha que ser acorrentada! Tinha que trancar a minha diabuceta com cadeado! E meu irmão? Num tinha que trancar o diamusquito dele também? Ele podia fazer tudo, desde pequeno. Quando fiz quinze, que mãe passou a me atazanar menos. Dizia que se arrependia de ter me arreliado tanto, e que a gente, filhas de Eva, tinha mais é que se acudir. Quando disse isso, as tias olharam uma pra outra, balançando a cabeça.

O Lico era meu único irmão. Andava sempre de banho tomado. Me dizia que o diabo odiava limpeza. Já santo não, adorava  ficar limpinho, como minha pele! E passava o dedo. Um sem-vergonha! Desde menino, o falso vivia lendo livro religioso. Queria ser padre. Lia bíblia de crente e de católico. Sabia tudo decorado. Cabeça boa.

Meu pai dizia também que Lico era o mais inteligente, o melhor de nós. Eu ouvia calada. Porque eu sabia que era eu, pois eu lia livros de qualquer assunto, queria saber de todo livro. Não tinha preguiça de ler. Desde bem pequetitinha..

Os olhos de Lico me comiam como duas portas de inferno, escancaradas. Todos de casa fingiam que era outra coisa. E eu tapava as orelha pra não ouvir o barulho feroz do bicho dentro dele. Até as batidas do seu coração eu escutava. Quando falei isso, notei os olhos de deusa furiosa das tia.

Me olhava até com mais gana que os homens do bar. Se fazia de santo e de anjo. Do pau oco só se for. Casca fina e oca, só se for. Me despedaçava com suas sedes e toques, como se eu fosse uma qualquer.

Vivia regulando meus vestidinhos. Se eu tava de vestidinho até o joelho, ele achava que eu tenha de baixar mais. Mas eu vistia o que tinha pra vistir, uai! Toda hora, que se chocava comigo em casa, ia prum canto rezar...Como é que era mesmo a oração dele?...Ah, lembrei. Ele rezava assim: “Jesus, Maria, José, nossa família tua é! Sai, Satanás, pecado de mulher, desta família de fé!”

Eu Satanás? Eu? Ele que era o dianho, o capiroto, o amigo do gerente, o Sete-Peles. Falei pro pai do olho comprido dele nos meus peitinhos. E pai defendia o disgramado. Pai dizia que qualquer homem ia olhar. Até ele. Disse ainda que eu nasci pra atazanar os homens, que nem uma Pomba Gira!

Aposto que nem sabia o que era Pomba – Gira. Chegou até a me mandar pra Dona Bina Benzedeira. Pra ver se a pomba era dominada. Caiu do cavalo. Mãe Bina disse que eu não tinha nada. Falou que eu era só uma menina moça de peito crescendo, claro que os varão ia ficar tudo de tesoura amolada, doidinhos pra me descosturar!

Mãe Bina...  Mãe Bina fazia cada churrasco. Foi com ela que pai aprendeu. Quando aprendeu, começou a fazer churrasco quas’todo sábado. Nunca vi alguém mais chegado em carne que ele. Depois que meu irmão fez treze, não sei causdequê, pai começou a mandar ele pra casa da vó Nita. Sabia como manipular Lico. Mãe não dizia um “a”.

Meu irmão até que adorava ir pra vó. Tinha piscina, festa  e bastante mocinha, quase todas primas de sangue. Que nem dava bola pra ele. Coitado...Quer saber: coitado nada. Lico merecia.

Dizia que que os churrascos de pai pareciam churrascos só pra gente velha. Lico dizia que só dava tribufu.  Meu pai tri e elas bufu. Ou meu pai fu e elas tribu...engraçado.

Quando ficava bêbado, humilhava muito minha mãe. E, chapado como um cão dos infernos, saía por aí, pelo mundão. Pulava de bar em bar e a cada bar aumentava os amigos. Depois terminava nos braços de alguma amorosa. Quando disse isso, tia Deci quis saber quem eram as amorosa...

Geralmente amigas de mãe. Elas vinham com papinho sonso:

“O coitado tava jogado na praça. Foi abandonado pelos amigos. Tive pena dele. Tadinho...
- Me pediu ajuda. Não atinava com o rumo. E a comadre sabe que eu tenho coração mole, né. Não deixo desamparado um conhecido. Jeito nenhum. A comadre sabe.
- Em mim, a bondade é natural, como diz Padre Fuentes.  Deixei ele dormir na garagem lá de casa um tiquinho. Mas lá é muito confortável. Tem um sofá que parece uma cama de casal quando abre. Não passou frio não, viu?”

 Mãe respondeu uma vez: “é, não deve ter passado nenhum frio mesmo, deve ter usado cobertor de carne...das bem pelancudas, que são as que aquecem bem. Brigada por ter trazido. Não precisava. Mas a comadre podia ter telefonado, né?. Tchau
Pudesse, mamãe fazia farofa na hora com as tripas dela. Falar nisso. Tou com uma vontade de comer farofa de tripa de porca. Será que inda tem?
Disse pras tias que um ano antes de ir pra casa delas, quando fiz quinze, Lico se tornou mais atrevido, e a desculpa dele era a de me limpar dos demônio pra ser uma serva de Deus. Ele evinha pra cima todo cheio de carinho e conversa babujada. Pegou uma mania de me dar cafungada no cangote. Tentava passar a mão no meu rosto. E dizia que eu tinha a pele macia, que nem nuvem, como se olhasse nuvem de perto...Acho que ele gostava de levar tunda, porque teimava em repetir o mal feito. Falei pras tias que antes de ir pra casa delas, ouvi fala de Lico e de pai arapucando coisa ruim pra mim no quarto de Lico. Falei pra mãe e ela acho que por isso teve a ideia de eu pra cá tomar o rumo.  Ela até chorou. Antes nem.

Tia Deci passou a mão em meu rosto e eu me calei. Lembrava de tudo que foi confessado. Depois, serviram pra mim um chá. Um chá que me deixou tão feliz. Fiquei dois dias com elas um pouco mais. O bastante pra me firmarem em rituais de tenda vermelha, antigos, que me deram força de dentro-deusa-mãe-nossinhora. Disseram até segredos de mãe. Que pai foi tecido e destecido por Fia maidaconta. Muitas vezes. Como aconteceu com meu irmão desde que o senvergonha se soltou. Não dava porém mais jeito.

Quando voltei pra casa, foi como estivesse com todas as mulheres da família dentro de mim. Logo, logo, mãe começou a me ensinar segredos da costura. Principalmente dos cortes. E os churrascos foram aperfeiçoados com rituais invisíveis. Tias eram sábias de vingança medeia. E a cada churrasco remoçava mais.

Aquela estação passou. Chegou a vez de traçar um plano bem maturado, inspirado nas tias. Foi rápido, rapidíssimo. Foi de fácil execução. Fizemos uma janta especial pros nossos homens...não muito homens, né?  Mentimos que ninfas de eitos da família iriam fazer visita depois do jantar. Só disse pra eles ficarem mais emocionados. Dei a ideia de fazer tapeçaria com eles. Lemos muito sobre tal fazer alquímico. Tudo tinha de ser feito de um modo perfeito. Sem demoras. De maneira rápida rapidíssima, delicada delicadíssima.

Compramos muita bebida. Das fortes e fortíssimas.  Era preciso. Muita destilada. A hora passando, urubus volteando em cima, e os dois foram capotando aos poucos. Depois da meia noite, quando estavam roncando feito porco de banha, arrastamos eles pro porão, onde a tapeçagem foi tranqüila. Não tivemos medo. Além do mais, nossa chácara era isolada.

O tempo saltou mais um tanto. Mãe morreu. Muito depois dos homens. Mulher vive mais. Coisa das deusas. O tempo foi passando. Mãe morreu. Muito depois dos homens. Minhas primas devem de estar por aí em algum bosque. As tias? Como me separar delas, se estão despejadas dentro de mim, no interior de meu eu verdadeiro.
           
Durante algum tempo, morei longe da chácara. Numa casa do centro da cidade. Teci meu marido logo depois da morte de mãe.  Eu me sentia muito só. Precisava de um Príncipe, um bom homem. Galanteador. Respeitoso. Que pudesse ser um bom pai. E que fosse um homem vigoroso, ardente. Afinal, eu tinha o dom de tecer pessoas, já nascido comigo, dom revelado a mim pelas Tias.

Quando terminei de tecer ele, o home ficou embasbacado. Quis entender o meu dom. Expliquei a ele que era um dom de berço. Herdado de almas antigas.

Mas sua curiosidade não tinha limites. Me pedia que tecesse coisas, dinheiro, enfim, bens materiais. Apesar de ter falado pra ele várias vezes que só tinha o dom de tecer pessoas.

Dentro de um ano e meio, casamos. Lembro da gente ter dançado com aquela música tocando: “Me encontrou tão desarmada, que entreguei meu coração”. E os dias foram correndo. Perfeitos e intensos. Éramos muito felizes.

Me tornei uma boa costureira. Logo depois, veio o fato que mudou minha vida. O nascimento de nosso filho. Na primeira vez em que pegou Odisseu nos braços, disse que ele seria um campeão, um conquistador e que seus zóio ia botar as rapariga tudo no pé dele! O menino foi crescendo diferente, tinha uma alma de mulher. Uma boa. De mulher boa. Não de mulher má. Alma terna, pura, desde petitinha.

Uma vez, minha Odisséia tinha oito anos, a gente já tratava ela como menino. Foi prum, canto do quarto, pegou uma tesoura e ia cortar o próprio pintinho. Um ato de desespero. Foi até o pai que descobriu. Rastou o menino pro quarto e ficou um quinze minutos de prosa...

Noutra vez, ele tinha uns doze. No final de um jogo, todo mundo alegre no banheiro, e quando meu menino foi tirar o short, viu que tava de calcinha por baixo. Vestiu de novo o short. Mas todo mundo já tinha visto. Quando chegou em casa chorando, o pai tava esperando com seus amigos de bar. Não me lembro quem contou pra ele.

Arrastou o pobre pro quarto. E quando eu fui atrás e tentei entrar,  bateu a porta na minha cara e trancou. Fiquei imaginando o que ele tava fazendo com minha Odisséia...O tempo passou mais um tanto. A gente voltou pra chácara. Meu filho virou uma moça bonita, equilibrando com o que já era por dentro. Uma mulher sensível. Merecendo ser mulher mais do que certas mulheres que andam por aí.
 Teve um dia que minha Odisséia tava com um vestido bonito e meu marido até elogiou! Levou ela pro quarto e ficaram lá proseando um tempão. Nem me deixaram entrar... Passaram-se uns dois meses. Lembro que era Lua Nova. Não se pode preparar porcos em Lua Nova. Aprendemos. Enquanto a gente esperava a Lua de quarto - crescente, Odisséia ia se aperfeiçoando. Aprendeu a amolar e limpar todo tipo de arma branca.

Maneja agulhas como artista de circo. Minhas Tias por dentro davam conselho a ela. Odisséia treinou muito no porão. Como uma ninja. Virou uma verdadeira Mulher Maravilha. Fez também, de um tecido mais grosso, uns bonecos de areia pesados. E quando o pai tá longe, treina com eles de um canto pro outro. Arrasta eles daqui até o quintal. Daqui até o porão. Do porão até aqui. E marca direitinho o tempo. Fico espantada com a rapidez da danadinha

                                               II

Meu marido não sabe que hoje vai ser um dia especial pra ele como foi pra
elas. Todas tiveram um dia especial. Todos nós temos. Só esperar. E é fatal. Alguém sempre está à nossa espera. Em algum momento da vida, a gente chega na nossa casa e dá com alguém esperando...Esperei todas. Todas elas...Planejei minuciosamente...

A primeira foi com uma linha. Mergulhei a linha em cerol. Fiz um cerol bem feito. Bastante cola com bastante vidro moído (inconscientemente, bate os dedos na mão contrária pra tirar o excesso). Ela, a primeira, veio provar um vestido. Chegou de maneira bem educada:

- Posso entrar?

– Pode. Não precisa nem sentar, que eu já tomo as medidas..

No começo do casamento, ele era cavalheiro. Tão. Mais da média. Muitíssimo.  Se aproximou de mim como a maioria. Gosto da maioria. Mas palavras doces dizem só pra nos enlaçar. Disse que tinha tara por costureiras. Gostava do momento de se tomar as medidas. A proximidade do hálito. A fita nas costas, no tórax. Quase no sexo. Era a sua tara. De início, eu era muito xucra. Ele disse que me ensinaria. Que eu não me preocupasse. E me guiou nas minúcias do coito. Com violência, mas me ensinou. Já era louca, fiquei mais louca por ele. Meu pathos. Já tava enormizando minha criação de pathos. Mas quando ele virou a cabeça por umas vagabundas do bairro, eu fiquei furiosa. Excitei os pathos todos. Aquelas prosti. Prusta. Puta. Uma delas, Brigite, tava todo dia aqui.

– Você engordou um pouco.

– Impressão sua. Tá velha. Com miopia de costureira. É a roupa que lhe dá ilusão.

Fiquei com gana de fazer uma besteira. Aprendi com ele. Professor de coisas de bestiário psicológico. Ele sempre foi um homem violento. Como meu
pai. Me excitava com suas pegadas fortes. Comecei a gostar dos exageros...Ele gostava muito que eu ficasse de quatro..Deixava minha bunda toda vermelha...
.
– Vou abrir mais essa cava... Já resolveu se quer a gola
imperial?

– Sim, mas sem recortes e sem pespontos. Mas vai logo que tou com pressa. Você ta ficando lerda. Não era assim.

Peguei a linha, me aproximei, bondosa e serviçal, e de imediato - “zap” - cortei
sua veia aorta... Sabe, gosto de fazer um serviço rápido. Sou uma costureira de muita perícia. Se me dá na cabeça fazer, faço. O trabalho sai daqui ó.
  
Desde o início, tive medo que as freguesas perguntassem das manchas em sua pele. É que ele adorava apanhar. Que eu enforcasse com umas argolas seu feroz fuso. Que eu o chicoteasse como ele me chicoteava. Sempre teve desculpa pra cada ferimento. Fui me adaptando às suas violências. Aprendi a comprar cremes pra facilitar as fantasias - estupros que ele me fazia. Se ele me olhava e a bunda não estava quase sangrando, me batia mais forte na próxima vez. Será que elas batiam nele também?

– Quer que eu mantenha a abertura tradicional ou você quer a
lateral?

– Acho a tradicional mais discreta...Só 5cm de fenda, hein...

A segunda amante dele era minha melhor amiga. Como eu fui sonsa. Não teria percebido nada se....Um dia eu tava escovando o terno dele e encontrei....Eu sabia que era dela..Eu que vendi pra traíra. O meu melhor trabalho.

– Você sabe que pode dar um volume maior aos seios, não
sabe, amiga?

– Sei... É disso que gosto. Deliro com a ideia de ressaltar o colo.

E o sutiã dela eu fiz com muito esmero. Comprei a melhor renda, numa cor
Vermelho-paixão. Afinal, era minha amiga preferida. Ela queria um sutiã
erótico. Fiz um na exata medida de abrigar os peitos dela. Eu nem imaginava
que ela iria estrear com meu marido...Ele deve ter se babujado, achado uma
delícia. Nem deve de ter percebido que eles eram quadrados, cheios de veias e estrias, parecendo gelatina. Minha opinião de costureira! Não de traída.
 Quantas vezes, minha mãe cuidou dela quando era menor. O pai e os primos abusavam dela direto. Cansei de apoiar a cabeça dela nos meus ombros. E agora a sem-vergonha dava pro meu marido......Verdade que pagava bem as costuras que eu lhe fazia.

– Quer passadores duplos na cintura?

– Não. Esta saia usarei sem cintos. O cós pode ser mais estreito.

 Sempre foi generosa. E sonsa. Aposto que ele rasgou com os dentes. Há tempos atrás, quando eu estava mais, ele costumava destroçar com os dentes minhas calcinhas e sutiãs. Planejei a morte dela uma semana antes. Inventei o pretexto de lhe dar uma peça íntima inigualável.  Uma peça erótica diferente. Uma novidade que eu criara inspirada numa modelo internacional. Ela caiu...

– Botões de madrepérola ou madeira?

- Madrepérolas, é claro. Quero as ombreiras embutidas.

A segunda fulana, da rua de trás, parecia ter um joelho no rosto. O seu nome era Débora. Tinha uma bunda um pouco torta, de silicone, fruto de uma cirurgia mal feita....Ele bolinava elas na minha frente....o desgraçado...Até que...tive a idéia de dar um fim nas duas. Comecei a arquitetar a morte delas. Brigite foi fácil. Gostava de viver aqui. De fofocar dos outros. De lamber com os olhos o que era dos outros. Outras. Até conseguir a satisfação. Nas minhas costas. Na frente. Em cima. Embaixo.

– Bolsos tipo faca podem deixar os quadris maiores...

– Não, se presos ao cós e pences. Mantenha-os, por favor. Que fedor! Tomou banho?

Ainda isso. A vaca. Me aproximei por trás e enfiei-lhe uma ponta de tesoura envenenada na nuca. Demorou pra que eu a retalhasse. Carne muito dura. Piquei a carne em blocos pequenos. E temperei bem.
A outra, do outro dia, fiquei pensando em reconsiderar. Ela chegou tão contente. Tão feliz. Mas desconsiderei a reconsideração.

– Vou ter que apertar mais aqui.

– Me parece que atrás também...

Peguei a agulha e finquei no meio de seu coração... Herdei de minha mãe o dom. Minha mãe matou todas as amantes de meu pai. Todas amigas. Minha mãe matava e eu ajudava a retalhar os corpos. Fizemos grandes churrascos. Ninguém desconfiou. Sempre gostaram do sabor da carne.

A derradeira que me deu muito trabalho. A atriz. Era a mais desconfiada. Tive de esperar um mês. Deixei-a no centro da sala, olhando uns modelos de vestido transparentes, e fui pegar uma régua de costura metálica que estava encostada no canto. Fiz tudo com cuidado.

– Vou ter que deixar mais largo aqui.

 – A altura também. Quero abaixo dos joelhos. Assim.

Peguei, mensurei as pernas, com cuidado, e deslizei a régua, que eu tinha
deixado qual uma afiada navalha e penetrei nos seus quadris. 

Quando ela desmaiou, esguichando sangue, Odisséia não demorou, deu um jeito de parar aquela cachoeira. Limpou tão bem! Que beleza! Minha filha amada! Nem parecia que alguém tinha morrido. Quando desnudamos o corpo, notamos uma coisa. Uma coisa que estava bem oculta. A mulher tinha um. Quando virou churrasco, foi a melhor parte. Dividimos pelo meio. Parecia uma auroreal e sádica lingüiça do açougue do Pepe. A melhor da região.

Nossa, está escurecendo, o meu marido deve chegar logo. Hoje é o dia dele. Aniversário? Seu? Não? Dele? Pode ser, não digo. Ah, sim, eu quero que o senhor faça tudo rápido. Por isso a paga farta. O senhor não reclame. Dei a si tudo o que poupamos em barras. Certo? Que bom.

O homem formal fica sem jeito, sem saber como proceder. A porta se abre, mas, entra..... o invisível. O essencial aos olhos? Ninguém? Ih, ela é louca...Mas a porta se abriu sozinha. Quê? Ouço um som de beijo estalado, mas não é dela.

- Olá amor! Que bom que você chegou. Eu já vou preparar o seu jantar. 

Beijou o ar e foi beijada por ele. Estranho. Estranhíssimo. Quase que ouço funérea voz. Ou ouço mesmo. Um convite obsceno? Ele alma ainda viril, de dura madeira?

– Eu estava te esperando. – Recebe tapa na bunda? Parece. Gritinho safado dela. Pegada ao colo pelo ar? Parece. Pelo peso, o homem feito de ar é potente.

O homem formal assustou-se quando chegaram muito perto dele.

- Ah, sim. Me solta - diz ela ao potente. - Deixa eu te apresentar. – É depositada no solo, num vagar galante. Parece.

– Benzinho, este aqui é um freguês novo. Filho do seu... Karon, não é? É.  – Sente a mão úmida do marido no seu ombro. Como? Não crê em fantasmas. Afasta com medo o braço misterioso. Como conseguirá matá-las? Agora havia o sobrenatural. Seria punido pelo homem? Foi pago. Tem que conseguir.

 - Meu marido.......quando parecia que ia falar o nome de novo é sustentada no colo.

- Eu tenho uma surpresa pra você, sabe? – O invisível, talvez pensando safadamente, feliz pelo prometido, gira com a esposa no colo, até quase chegar ao teto. - Vamos na cozinha. Odisséia tem um chá pra você. - Já voltamos, seu Bigode.

Sem mistério, o assassino, contratado para matar a costureira e sua filha, depois que dessem um fim no homem de ar, tentou fugir. Mas por mais que tentasse fugir, era impossível. 

Seu corpo foi ficando ressequido. Sua mulher, Calpúrnia, bem que tentara demovê-lo da empreitada.

Natanael Gomes de Alencar