
Era 24 de março de 1958 quando Elvis entrou para o Exército norte-americano. Dois meses depois, a notícia do casamento de Jerry Lee Lewis com a adolescente Myra, de 14 anos, devastou sua carreira. Um ano mais tarde, Buddy Holly morreu em um acidente de avião. Antes, em outubro 1957, Little Richard abandonou o rock'n'roll para se dedicar à religião, após uma alucinação durante voo para a Austrália.
Nesse contexto, o rock'n'roll parecia sucumbir à decadência, sob pressões geradas pelas críticas da conservadora moral norte-americana. Mas às portas da nova década de 1960, o cenário sociopolítico dos EUA clamava pela permanência da atitude afrontosa do rock, face à paranoia da Guerra Fria, à hipocrisia do American Way of Life, ao fim do sonho americano, às tensões dos conflitos raciais e de gênero e ao surgimento de movimentos sociais pelos direitos civis e pela liberdade sexual.
Paralelamente, na Inglaterra, jovens inspirados pelos ídolos dos anos 1950 começaram a formar suas próprias bandas, também tendo como pano de fundo diferentes tensões sociais - entre elas, o envolvimento do país na Guerra Fria, como aliado dos EUA, e as lutas da classe operária -, culpa colonialista e heranças da II Guerra.
Assim, nos dois países separados pelo Atlântico, o rock tomava novo fôlego, cujo resultado foi o surgimento de bandas seminais para a trajetória do gênero musical. Algumas das mais importantes vieram com a chamada "Invasão Britânica" - termo usado pela mídia da época para designar a popularização de artistas da Inglaterra nos EUA - que revelou, além dos Rolling Stones, talvez um dos grupos mais cultuados da história da música ocidental, os Beatles.
Formado em 1960, na cidade de Liverpool, o quarteto marcou para sempre a posterior produção de rock no mundo, graças ao pioneirismo de suas experimentações musicais, em uma trajetória que foi da bobinha faixa "I want to hold your hand" até as inovações do disco "Sgt. Pepper´s Lonely Heart Club Band", passando por pérolas atemporais como "Something", "Yesterday", "Eleanor Rigby" e "Let it be".
Embora tenham galgado ao posto de vanguardistas, os Beatles certamente não faziam sua música a partir do nada. Ao longo de sua existência, até 1969, a banda absorveu influências tanto de artistas dos anos 1950 (especialmente Elvis Presley, além de outros como Buddy Holly e Little Richard) quanto de grupos contemporâneos, a exemplo de The Beach Boys e The Byrds - o primeiro, um dos mais importantes grupos da história do rock e do pop, autor do fundamental "Pet Sounds", de 1966; o segundo, símbolo do folk rock e do rock psicodélico, responsável por álbuns clássicos como "Mr. Tambourine Man" (cuja faixa-título foi composta por Dylan) e "Turn! Turn! Turn!".
Ressalte-se ainda o próprio Bob Dylan, considerado um dos maiores músicos e letristas do gênero, e que, em 1964, apresentou a maconha aos garotos de Liverpool (primeiro passo da relação do quarteto com substâncias ilícitas e para o experimentalismo e psicodelismo que posteriormente marcaram sua produção).
O movimento era de mão dupla, o que contribuiu significativamente para a riqueza musical da década de 1960, quando artistas e bandas compartilhavam do então turbulento contexto sociocultural e de trocas criativas, conscientes ou inconscientes. Além dos Beach Boys e do Byrds, especialmente a partir de 1965 os EUA revelou ainda gigantes como Jimmi Hendrix (quase um sinônimo de guitarra); Janis Joplin (a autodestrutiva rainha do blues e do soul); Neil Young (que em 1967 integrou a Buffalo Springfield, ao lado de Stephen Stills); os garotos do folk Simon & Garfunkel; Frank Zappa (à época com a The Mothers of Invention); Led Zeppelin (da dupla Jimmy Page e Robert Plant); The Doors; a viajandona Grateful Dead - cujos fãs estavam entre os mais fanáticos; a então experimental The Velvet Underground (iconicizada pelo trabalho do artista plástico Andy Warhol); Iggy and The Stooges e MC5 - essas duas últimas, precursoras embrionárias do punk rock.
A Inglaterra não deixou por menos, ao exportar talentos como Deep Purple (cujo clássico "Smoke on the water" imortalizou o incêndio durante um show de Zappa e a Mothers of Invention na Suíça); os veteranos do The Animals (autores de uma versão famosa da canção "The House of the Rising Sun"); o cultuado Pink Floyd; The Yardbirds (que teve em sua formação três dos melhores guitarristas do mundo, sucessivamente: Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page); Cream; The Jeff Beck Group; The Kinks (que alcançou fama com a irresistível "You really got me"); The Who (com o baterista mais insano de todos os tempos, Keith Moon), entre outras bandas e artistas.
Uma década e tanto, que se revelaria basilar para o desenvolvimento do rock e suas diferentes vertentes nas dezenas de anos seguintes.
A paixão por uma banda às vezes ultrapassa demonstrações convencionais e, no caso de fãs detentores de habilidades musicais, pode terminar em homenagens nos palcos, com a formação de bandas covers. Grupos da década de 60 costuma inspirar trabalhos do tipo, pelas paixões que despertam e pela importância de suas obras. Em Fortaleza, uma das mais conhecidas é a Rubber Soul, que há 20 anos perpetua a memória dos Beatles.
Já a Caverna do Roque, embora não seja especializada em uma única banda, é famosa pelo cover dos Rolling Stones (é com esse show que eles se apresentam na próxima sexta, 13, na casa noturna Órbita). A galera da Emphase, por sua vez, dedica-se à memória da The Doors, enquanto a Zeppelin Blues recorda a herança da dupla Page e Plant. Para esses e outros artistas, uma boa oportunidade foi anunciada recentemente.
Para marcar o lançamento do box set "The Kinks Live at the BBC" - que inclui sessões, gravações ao vivo e em estúdio inéditas - e da coletânea "Waterloo Sunset: The Very Best Of The Kinks & Ray Davies", com 44 faixas, integrantes do Kinks convidaram músicos de todo o mundo para enviar uma interpretação em vídeo de uma faixa do catálogo da banda (a escolha fique por conta do candidato). O selecionado vai passar um dia no Konk Studios, em Londres, para completar a produção de sua faixa. Também ganhará um encontro com os integrantes Ray Davies (vocalista e guitarrista) e Mick Avory (baterista). Inscrições até 2 de agosto em talenthouse.com/calabore-com-the-kinks
No Brasil, a popularização do rock'n roll foi representado, a princípio, pelo trabalho da chamada Jovem Guarda, após os primeiros passos de artistas que regravaram ou fizeram versões em português de sucessos norte-americanos do gênero (a exemplo de Nora Ney, que gravou "Rock around the clock", para a versão brasileira do filme "Sementes da Violência", cuja trilha inclui a faixa; ou Celly Campelo, que transformou "Stupid Cupid" em "Estúpido Cupido").
No começo da década de 60, o frenesi ficou por conta de Roberto Carlos, que, antes de se tornar cantor romântico, arrebatou parte da juventude brasileira ao se apropriar e reproduzir os sons do rock norte-americano da década de 50, em hits como "Splish Splash", "É proibido fumar", "O Calhambeque" e "Parei na contramão". Teve em Erasmo Carlos seu mais importante parceiro profissional. Ao lado de Wanderléa, os dois protagonizaram o programa "Jovem Guarda", da Rede Record (que deu nome ao movimento). Na esteira do "iê-iê-iê" seguiram-se grupos como Renato e seus Blue Caps, Golden Boys e artistas como Ronnie Von e Jerry Adriani.
A partir da segunda metade da década, surgiram bandas artisticamente mais criativas e fundamentais para o rock brasileiro, entre eles os psicodélicos Mutantes, formado por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias - cujo impacto alcançou dimensão internacional. Importante também foi a formação de Os Relâmpagos do Rock (1962), rebatizado de The Panthers e, finalmente, de Raulzito e os Panteras. O grupo representou o início de toda a contribuição de Raul Seixas para o rock no Brasil.
FONTE: Década essencial do rock - Caderno 3 - Diário do Nordeste






