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LaVey sobre as bandas "satânicas"

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      "De fato a simbologia satânica é a única coisa que mantém vivo certo tipo de rock nos últimos anos. Desde a MTV, as bandas se baseiam inteiramente no visual. O que mais poderiam vender? Realmente não podem basearem-se em nenhum mérito musical... Os jovens atualmente compram discos como se fossem credenciais que indiquem serem membros de algo. Reconhecem que não escutam as palavras, que somente lhes agrada o que o visual transmite — e a imagética satânica é a mais impresionante. Ademais obtêm a sensação de serem rebeldes, coisa que a maioria dos jovens necessita. A indústria musical não têm muita coisa para vender, por isso foram em busca dos ícones mais poderosos que pudessem encontrar — o Satanismo. Porém — com a exceção de King Diamond, que tem a valentia de apoiar abertamente o Satanismo e não oculta sua dedicação a ele — todas estas bandas negam estrondosamente as acusações de estar defendendo a adoração do Diabo — tudo é somente uma brincadeira... Não é nada mais que a velha história de usar o nome do Diabo para rechear os bolsos, sem querer jogar realmente o jogo do Diabo."

Anton LaVey, citado por Blanche Barton em The Secret Life of a Satanist.

Preparação para rituais herméticos

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      Geralmente os rituais ou trabalhos herméticos são realizados devido a um desejo específico, e é importante que antes que comeces um ritual mediante uma determinada técnica, tenhas uma clara ideia da natureza desse desejo. Isto é, deves ter uma ideia precisa — em tua imaginação ou em palavras — do objetivo que te propões alcançar ao utilizar a magia.

      É importante que este propósito seja concreto — isto é, que se limite a uma coisa. Uma vez que tenhas definido o que queres conseguir mediante a magia (e pode ser qualquer questão: riqueza, êxito, amor, saúde, malefício a alguém), dedica-te a pensar possíveis visualizações que representem claramente teu objetivo. E busca também alguma frase simples e evocadora que condense esse objetivo.

      A visualização escolhida não deve ser demasiado complexa. Por exemplo, se desejas obter êxito em uma entrevista de trabalho, visualiza-te recebendo uma carta que confirma este êxito, ou imagina-te vestido para a entrevista ouvindo alguém dizer-te: "Em boa hora. Estamos dispostos a oferecer-lhe...". Se, por um lado mais obscuro, queres prejudicar alguém mediante a magia, escolha uma visualização que consista nessa pessoa experimentando alguma forma de sofrimento. Por exemplo, imagina sua cara retorcendo-se por causa de horrendas dores no estômago. Uma vez que tenhas eleito a visualização apropriada, siga desenvolvendo-a em tua mente durante vários dias antes do trabalho que vais realizar, porém sem introduzir emoção alguma. Selecionar uma frase que represente teu propósito é bastante simples — por exemplo, para conseguir o amor de alguém: "Que X caia de amores por mim". Como no caso da visualização, repita amiúde a frase nos dias anteriores ao trabalho, novamente sem emoção.

      As técnicas da magia hermética têm como objetivo fazer surgir a partir do teu interior uma frenética força que possa ser controlada. Uma poderosa onda de energia física e emocional. Esta energia é direcionada pela visualização à vibração da frase escolhida.

      Teu objetivo durante um trabalho deve ser perder, quase por completo, o controle de ti mesmo, por meio de uma emoção apropriada para o tipo de trabalho (porém isto não é aplicável, por exemplo, à magia interna e à maioria das técnicas curativas herméticas). Deixa que o movimento de teu corpo ajude a sacar esta energia de ti — e não tenhas medo de rir, chorar, ou berrar durante o trabalho.

      Um trabalho deve deixar-te exausto tanto física como mentalmente. Se não for assim, é porque não aplicaste nele esforço suficiente. Prepara bem de antemão teu trabalho: Reune os materiais necessários, encontra um espaço apropriado, prepara a área selecionada. Sinta antecipadamente tanto o prazer do trabalho como o poder mágico que vais provocar e controlar. Tenta manter-te em um estado de ânimo expectante e excitado pensando no dia do ritual, porque isto incrementará o poder do trabalho. Não te preocupes com seu êxito: deves crer que vais se sair bem, que tua vontade, por meio da magia, controla tua própria vida. Sinta o poderoso Destino do mago — é muito útil fazê-lo nos dias anteriores ao trabalho, se queres desempenhar conscientemente o papel de feiticeiro(a). Rodeia-te de objetos de interesse mágico, queima incenso em tua casa, carrega algo que sintas que é mágico, vista-te de determinada maneira (por exemplo, todo de preto). Corta uma vara de avelaneira e grava nela símbolos mágicos. Escolhe um nome mágico para ti e grava esse nome na madeira.

      Se assim te preparaste, estarás pronto para iniciar o trabalho e disposto para desatar o poder atávico que há dentro de ti.

© Ordem dos Nove Ângulos: NAOS: A Practical Guide to Modern Magick. Apêndice V.

Sua obscuridade e a minha

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Do reino da aparência

      Como vivemos certamente na sociedade mais superficial da história, a sociedade moderna, a aparência é rainha indiscutível do critério. Aparência pessoal, aparência social e também a aparência das opções ideológicas e éticas. Nos acostumamos a que o aspecto exterior seja suficiente para julgar a diversidade do universo, como se a realidade fosse um gigantesco expositor de supermercado. Temos pressa e não podemos deter-nos muito na análise das coisas; a profundidade requer tanto tempo... Uns escassos sinais exteriores de identidade, na maioria das vezes somente referências estereotipadas, servem ao homem moderno para rapidamente identificar e classificar os múltiplos encontros da vida. Antes ocultavam dos servos as chaves do mundo, os mantinham isolados. Hoje os convencem de que não têm tempo para debruçarem-se sobre elas, os mantêm ocupados.

      "Sinistro" é então, na nossa modernidade, também uma mera aparência, um rótulo. Ao menos no início. Qualquer pessoa pode alcunhar a si mesma como "sinistra", e na maioria dos casos sentirá que sua autenticidade dependerá de adotar a aparência correta. Talvez vestindo-se de determinada maneira, talvez escutando um certo tipo de música, talvez até mesmo frequentando determinados ambientes. E se trocarmos o rótulo "sinistro" por "satanista" ou "satânico", a coisa não mudaria fundamentalmente.

Entediado no aquelarre

      Geralmente me custa socializar em ambientes "satânicos" ou "sinistros", porque costumo somente encontrar pessoas que estão em desacordo com a minha visão de mundo. Embora me pareça cativante o Baphomet que transportam em torno de seus pescoços, ou que falem sobre LaVey como se tivessem jantado com ele na noite anterior. É mais triste a decepção do que a solidão, então devo dizer que não é um prazer absoluto os conhecer. Também encontro pessoas interessantes nesses círculos, mas me parecem demasiado poucas. Os mundos "sinistros" e "satânicos" não selecionam por si mesmos um tipo específico de indivíduos, e sim estão completamente abertos para pessoas atraídas pelas mais inimagináveis razões a ​​esta opção do mercado de aparências.

      Me perguntava o que incomodamente me sussurrava com um chiado nestes encontros com aqueles cuja aparência indicaria que são meus iguais. Depois de muito meditar — sem a pressa moderna — cheguei à seguinte conclusão: Em muitos "sinistros" vejo que seguem reinando ufanos os dois mais contumazes inimigos que existem até agora: o Ego e Deus.

Os egos "sinistros"

      Há uma grande confusão nos ambientes do caminho da mão esquerda, e do satanismo moderno em especial, em caracterizar qual é a dimensão pessoal que confrontaria a moral de rebanho. O ego não é a identidade profunda e autêntica de cada pessoa, e sim uma mera construção social, uma instável auto-imagem pública, baseada mais uma vez nas aparências e abarrotada de modismos sobre o êxito pessoal de determinada época e lugar. A autêntica identidade não para de mudar, enquanto o ego necessita crer-se firme e imutável, eternamente igual. Por isto se dão tão mal.

      Na identidade profunda habita o que Crowley chamava de a Verdadeira Vontade, essa força que, quando desperta, consegue pôr "a inércia do universo a seu favor". Porém a vontade superficial do ego é simples hedonismo, complacência na posse circunstancial de coisas, dependência dos cânones de prestígio de uma determinada sociedade, mera impaciência pela satisfação dos caprichos do momento.

      Tenho visto demasiados satanistas não venerando-se, e sim venerando seu ego. Para eles o satanismo é somente uma cômoda ideologia da desculpabilização, uma desculpa que lhes livra da penitência pelos pecados aprendidos. Apenas um álibi para se entregarem sem arrependimentos a suas perversões pequeno-burguesas. O satanismo lhes serve para não ter que respeitar, para não ter que perguntar antes, para poder aproveitar, confundindo a grosseria com uma ética liberta dos grilhões morais. Por fim, o satanista do ego, como o tio que há em todas as famílias, é um vagabundo.

      E, claro, um arrogante. Nos círculos com as aparências apropriadas, um "mestre". Creio firmemente que há mais mestres nos ambientes sinistros que em toda a Federação Internacional de Sindicatos de Ensino. Os discordianos começam pelo grau de padre, parece que os "sinistros" pelo de mestre. Quantas caretas de condescendência ante os "não iniciados", quanto clichê em "tudo isto é muito mais complicado", quanta displicência dos profundos "segredos" que não se pode revelar. E quanta ameaça velada de terríveis feitiços, sempre destrutivos como convém a um ego inseguro que suspeita de risos por todas as partes. Enfim, quanto fanfarrão de negro.

Os deuses "sinistros"

      Creio que o laço mais forte que me une a Satã, o que propiciou nossa paixão à primeira vista, é o ódio em comum a todo tipo de versões e variantes da ideia de Deus. Não importa que no altar haja somente um (deus), ou vários em fila, ou até mesmo um dentro de outro como nas bonecas russas. Que sejam representados por símbolos geométricos, figuras humanas, animais, ou todos juntos. "Deuses" quer dizer vontades acima da sua, leis que não podem ser discutidas, limites que não se pode explorar. Esse invisível Deus que nunca responde também representa uma imagem do ser humano e de sua vida como algo miserável, minúsculo, sempre necessitado. Toda crença em deuses necessita de auto-humilhação.

      Converter Satã — Set, Lilith, Lúcifer, dependendo das preferências "sinistras" — em um deus é seguir crendo em Deus. Livrar-se do cristianismo e de seu lamentável deus Jesusito mediante o método de abraçar um novo deus, ainda que superinfernal, é fazer como as pessoas que na primeira metade do século XX se desengancharam da morfina com a heroína. Os satanistas ocidentais que "adoram a Satã" estão reeditando assim, ainda que não admitam, o único deus que realmente conhecem, a figura de Deus por excelência que lhes foi ensinado desde pequenos: o Deus judaico-cristão. Por isto alguns inclusive chamam Satã de "pai", utilizando literalmente um dos atributos divinos centrais da Bíblia. De onde vem esta preferência por caracterizar a relação com o Demônio como pai-filho? Ainda que o pai neste caso possa ser imaginado como sendo mais divertido, um autêntico papai-diabo, a eleição tem a marca inconfundível do mito autoritário bíblico, que imagina uma humanidade infantilizada constantemente admoestada por seu progenitor. Estou seguro de que um satanista educado no budismo não sentirá a necessidade de chamar o Demônio de "pai".

      Assim minha insatisfação com uma grande quantidade de "sinistros" e "satânicos" se deu porque eu buscava a companhia de espíritos audaciosos e rebeldes, para trocar experiências de lutas, e me deparei com arrogantes rezando.

© Miguel AlgOl

Algol, A Estrela Sinistra

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      A palavra “Algol” vem do árabe “Ras Al’Ghul”, significando “Cabeça do Demônio”. É uma estrela presente na constelação de Perseu, nomeada em homenagem ao Herói Grego que derrotou e decapitou a Górgona chamada Medusa, um monstro com cabelos de serpente e olhar petrificante. Tal Monstro encontrou sua condição na inveja que Athena tinha de sua beleza, condenando-a a tornar-se uma besta. No entanto esta estrela não representava um aspecto sinistro apenas nestas duas culturas.

      Por todo o mundo, esta estrela de brilho forte, mas inconstante foi sinal de mau agouro ou desgraças. Na astrologia Chinesa, o Algol é chamado de Tsi-Chi, e é relacionado a “Pilha de Cadáveres”, considerada a estrela culpada pelas cheias de Agosto, que destruía as colheitas e matava os despreparados.

      Para o povo hebreu, a estrela que portava os prelúdios de desgraça se chamava “Rosh Ha Shathan”, “A cabeça do adversário”, se referindo ao próprio inimigo de YHWH. A partir destas denominações e estudos sobre esta estrela, ela passou a ser um dos símbolos mais poderosos do adversário e da magicka de iluminação sinistra, cujo sigilo (um deles, desenvolvido por Michael Ford e utilizado na TOPH) é demonstrado acima.

     Algol (ou Beta Persei) pode ser visto ao Norte do Céu, na constelação de Perseu, ocupando o local que seria o “terceiro olho” da Medusa, cuja cabeça o herói segura pelos cabelos de serpentes. O Norte é a direção associada a entidades Luciferianas como Angra Mayniu (Ahriman) e sua corte de Devas, Az-Jeh e a própria Lilith como noiva de Samael-Lúcifer. A estrela e o sigilo adotados correspondem assim a uma forma de ascensão através do Caos, e a iluminação através da escuridão, onde o brilho das estrelas é mais forte.

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      O sigilo é constituído dos oito raios, representando oito emanações “Demoníacas” (no sentido grego da palavra – as emanações “angélicas” e “satânicas” destes raios) e manifestações Caóticas dentro do causal, com um pentagrama invertido dentro, representando os cinco elementos e o domínio sobre eles. Esta estrela pode reger o alcoolismo (Alcohol – Algol podem ter derivado da mesma raíz), o autoritarismo, a violência, decapitação/enforcamento e a perda da razão. Mas se bem controlado como Nexion natural de energia e aproveitado da forma correta, pode tornar o adepto o Herói que porta a cabeça da medusa (outra representação da estrela), fazendo-o um bom líder, intenso em suas ações, mas comedido e um grande destruidor de inimigos.

      A estrela também influi na Astrologia, movendo-se um grau a cada 72 anos (Número interessante, não?) e é relacionada a Kliphot de A’arab Zaraq, os corvos da Dispersão. Dentro da filosofia Yatukih, o Algol é utilizado como a auto maestria do “Yatuh” (feiticeiro) diante dos Daevas e de Ahriman, controlando o Caos interno para poder direcionar o Caos externo a seus fins.

      Além de tudo, a constelação de Perseu possui um evento muito interessante, que pode ser visto nos meses de julho-agosto, a passagem das Perseidas. Uma chuva fina de estrelas, um evento belo e poderoso, útil a todos aqueles que trabalham sob os auspícios deste misterioso astro e usufruem de seu Nexus de energia.

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Sobre a Identidade de Satã

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Legião

      É um fato que Satã significa diferentes coisas para seus diferentes seguidores. Todos os livretos e artigos sobre o Satanismo que anunciam de forma mais ou menos sensacionalista desvelar "no que creem os satanistas", proclamam já de forma inadvertida sua ignorância radical sobre este mundo. Os satanistas formam parte de um movimento abertamente contraditório, e muitos questionam que seja possível falar-se hoje com propriedade e coerência de algo chamado Satanismo. Há incontáveis formas de ver Satã entre os que se consideram satanistas, muitas delas totalmente incompatíveis entre si. Porém o que mais poderia esperar-se do Demônio, quando este mete suas largas unhas nos assuntos humanos...? Não é Set, por excelência, o deus da confusão?

      Talvez o único denominador comum do Satanismo atual seja ele apresentar-se como um projeto de crescimento pessoal e aproveitamento da vida mais plena possível, sem aceitar outros limites além dos horizontes sempre em expansão da própria Vontade. Nas categorias filosóficas modernas, esta posição ante a existência se rotula como individualismo, e é considerada uma escandalosa aberração ética para todos os condutores de rebanhos. O caminho do crescimento pessoal leva a um progressivo descobrimento do radicalmente próprio em cada um — o que Crowley chamava a Autêntica Vontade (True Will): o descobrimento dos autênticos gostos, da autêntica forma de pensar e sentir, dos autênticos desejos. Portanto este caminho aumenta e faz praticamente irreversível esse individualismo, para alarde de todos os sacerdotes. Se os satanistas são individualistas radicais, não há porque esperar um pensamento ou uma forma de sentir comum a eles: Não estão nada inclinados a estarem de acordo, nem sequer no que entendem por Satã. Em algumas organizações sinistras, especialmente nas de vocação mais "religiosa" (aquelas que sonham em dirigir grandes rebanhos de ovelhas negras algum dia) é possível assistir uma aparente coincidência sobre Satã e suas qualidades. Porém sem dúvida as associações de satanistas mais interessantes não se atrevem a esperar uma unanimidade semelhante.

Universos

      Cada satanista concebe seu próprio Satã, porque concebe seu próprio universo. Os seguidores de religiões compartilham um universo, um universo que não criaram e de que não são nem pretendem ser donos. Portanto estão obrigados a porem-se de acordo a toda custa com as "verdades objetivas" que o configuram. E sobre ele devem consultar sem descanso a especialistas no universo (sacerdotes) em todo caso. Os universos comuns parecem ter o incômodo costume de esconder sempre suas mais importantes "verdades", menos mal que os sacerdotes as saibam... O satanista, pelo contrário, se atreve a fundar sua própria realidade — e portanto a si mesmo, e por conseguinte também sua imagem de Satã. Nos universos comuns das religiôes é obrigatório buscar a normalização. Como pode alguém andar por aí sem saber em que mundo vive? No universo pessoal do satanista, nos incertos e cambiantes páramos obscuros, não há sentido, nem utilidade, saber se você está de acordo com algum outro distante viajante.

Demônios

      Há muitas imagens e representações de Satã: no fundo deveria haver tantas quanto as pessoas que decidem identificarem-se com o Satanismo. Há quem tente classificá-las em teístas, simbólicas e filosóficas, o que, pensando bem, não discrepa muito da classificação referente à aceitação de Deus entre crentes, agnósticos e ateus. Satã pode ser um anti-Yahveh (com todas as exigências e manias egocêntricas de um deus judeu-cristão) ou pode ser uma imagem poética de uma ideologia de descrença e de rebeldia. Teologia (espiritual) e filosofia (racional), os dois extremos de um debate viciado há séculos na cultura ocidental, têm contagiado também, como não poderia ser de outro modo, o debate entre os satanistas de tradição europeia. A cultura pesa muito, e não se a arranca pela raiz somente por preferir uma obscura silhueta com chifres. Estas imagens de Satã, organizadas assombrosamente bem por alguns em tipos e subtipos, provocam no foro interno dos mais honestos seguidores do Demônio um profundo e indefinido mal-estar. Porque é demasiado fácil refutar a partir da filosofia racionalista (incluindo a psico-análise) o "espiritualismo" dos satanistas teístas. E igualmente simples é depreciar o satanismo "filosófico" a partir da riqueza das experiências interiores desfrutadas em seu outro extremo.

Premonição

      Incômodo no busca de rótulos, o satanista somente tem realmente uma certeza profunda: a premonição do Demónio. Com isto quero referir-me a uma experiência vital muito difícil de explicar intelectualmente. A partir de determinado momento, certas pessoas pressentem-no claramente. Não todas: Satã não é democrático, lhe apetece eleger. Se estas pessoas logram ser impermeáveis à pressão da incredulidade dos modernistas e do espanto dos fiéis, a percepção do Demônio será mais e mais uma experiência intensa e central de suas vidas. Uma percepção que não somente se apoia nas sensações interiores e nos fenômenos que ocorrem ao redor, e sim sobretudo na evidência incontestável — para eles e para os que os rodeiam — de que suas vidas estão tornando-se cada dia mais estranhas, agradáveis, fortes e interessantes.

© Miguel AlgOl